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Depois de ouvir essa pergunta de seu filhinho de quatro anos, feita de forma inocente ao contemplar uma foto sua com a esposa, Leumas sorriu. Ele também já se fizera essa pergunta algumas vezes. Havia alguém a menos em uma velha foto em preto e branco, ainda guardada no fundo de uma gaveta. E esse alguém era ele.
O ano, 2005. Com a antiga foto na mão, ao final de um exaustivo dia de trabalho, Leumas tomou uma taça, pôs uma generosa dose de Chateuneuf du Pape, fechou os olhos e embarcou no trem da história. Retornou por velhas estradas, quase desfeitas, trilhos e dormentes escurecidos pelo tempo. Sentiu as vibrações dos caminhos, as oscilações das curvas, e em alguns momentos sorriu. No rosto, o bafejar de ventos antigos; na mente, ruídos estranhos do passado, e a visão de rostos e expressões quase esquecidos. Alguns sorriam. Vozes do tempo, fantasmas de outrora, enigmas de portais até então desconhecidos.
A certa altura, e de modo suave, os ruídos diminuíram, reduziram-se as vibrações, e um vento salitrado, fugitivo de várzeas distantes, escassas de plantas e vida, exalava seu cheiro de maresia. No alto, algumas aves aventureiras observavam o solo árido, reduto do perrexil, onde poças de água-quase-sal cristalizavam e confundiam seus sentidos de rapina.
Ao longe, uma pequena torre se exibia, à espera do retorno da razão. De perto, o Farol de Upanema surgia altaneiro, pleno de beleza renovada, livre de rancores e interpretações. Esfinge sem algo a ser decifrado.
Leumas se descobriu ao pé do farol, foto na mão, mirando o mar que rebentava nas pedras da praia de sua infância. Era um fim de tarde do ano de 1962, a noite à espreita, e o sol teimando em expor alguns fiapos de luz no horizonte.
Na foto, rostos amigos sorriem em poses adolescentes. Já esquecera o nome de alguns. Não lembrava o nome do magricela risonho no canto esquerdo, exibindo seus músculos de muriçoca. Mas a menina no centro, com os braços estendidos, parecia chamar por ele. E havia um espaço ao seu lado. O seu espaço. E Leumas prometera que estaria lá.
Esta ausência mudaria toda uma história de vida, reescreveria outros destinos, e alteraria o andamento de sua ópera existencial.
Leumas, em sua encruzilhada cravejada de contrapontos, meneava a cabeça e pensava com desilusão: Por que não estou nesta foto?
São Paulo, 2004. Oruam era seu nome. A origem do nome é indígena; a família, urbaníssima. Era um rapaz bonito, de barba franca, dois dias por fazer, vestido à maneira convencional para os de sua idade. Foi trazido à consulta sob a alegação de loucura. Vivia em um mundo só seu. Esquizofrenia. A mãe e a irmã estiveram com o psiquiatra pela manhã, e relataram seus temores. O rapaz estava fora de si, e se constituía em perigo para a família e pessoas de sua relação.
Ficaram sozinhos no consultório, e Oruam, em sua verborragia ansiosa, expressava-se com palavras desamordaçadas, fortes, entrecortadas, aqui e ali, por risos sem compromisso, desapegados do compromisso com o ridículo. A certa altura, Oruam falou: Doutor, as pessoas dizem que sou esquizofrênico só porque eu quero viver o meu sonho. Ao final, vida esticada ao avesso, virou-se para o médico e, de forma decisiva, perguntou: Isso é loucura? O médico olhou-o com enlevo, ele também em busca dessa resposta.
Areia Branca, 1959. Rua do Meio. Grupinhos de adolescentes aglomeravam-se aqui e ali, risos no tom do exagero. Próximo ao Cine Coronel Fausto, junto a um belo pé de ficus benjamina, alguns jovens formavam um grupinho pequeno, isolado, seis pessoas a cochichar na sombra-semi-escuridão daquela noite enluarada de julho. Último dia de férias.
Ela chegou. Ele fez que não a viu, suspirou e continuou de cabeça baixa, mirando o nada. Ao longe, um grupinho de crianças entoava uma cantiga de roda que revolvia o seu ser, entrecortada pelo som de um silêncio fugidio, quebrado, vez por outra, pelo cricrilar aborrecido de um grilo. E a melodia de cadência medieval espalhava-se feito pluma naquela noite prenha de luar…
Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Só pra ver, só pra ver meu bem passar.
E ela sussurrou fundo em seu ouvido, com segredo de besouro enroscado, encobrindo a voz das crianças:
Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração.
Ele, com sua timidez adolescente, abaixou a cabeça mais um pouco, contemplou o brilho da lua faiscando no carago, e fechou os olhos. Sobre si, a sombra da árvore; mais acima, uma lua em branco-gelo cesariava a escuridão. Quando retornou a esta dimensão, estava sozinho. Não percebera que os amigos se foram. Ela, também. E as crianças, onde estariam?
Até hoje o experimentado psiquiatra tenta resgatar os fragmentos do seu sonho, e aquela cantiga a persegui-lo vida afora. Sem uma resposta, que sabe distante. Sem um chamado, que reconhece inaudível.
Sonho, vida, quimera.
E Oruam à sua frente, tentando justificar suas ansiedades, seus medos, seus momentos de solidão, seu sonho inatingível.
Ambos em busca de uma ilusão enroscada nas teias do passado. No contraponto, o seu palíndromo existencial. Apenas isto.
Quando se fala em Pedro Trajano, a lembrança inicial era do homem que tocava realejo, com uma mini bateria de sua autoria sobre o mesmo. Ela era composta de uma tampa interna de lata de manteiga de 250 gramas recortada, fazendo a vez do prato, e uma caixa de fósforo vazia com um cordão em volta da mesma entrelaçando um dos palitos.
Não lembro bem como era feito o prato, lembro apenas que tinha uma pequena mola, que acionada, substituía o som do prato de uma bateria musical. A caixa de fósforo fazia às vezes da caixa da bateria, e este instrumento era feito também pela meninada para divertimento, inclusive fiz vários. Em Areia Branca não sei, porem ouvi falar que no Rio de Janeiro, ele ganhava alguns “trocados” no centro da cidade com seu instrumento.
Pedro Trajano tinha o hábito de carregar sempre uma tesourinha de cortar unhas, no bolso e quando encontrava uma criança, mesmo que tivesse acompanhada dos pais, pedia a “bença”, e as crianças davam. Se ele notasse que as unhas das crianças estavam muito compridas, cortava-as, e se elas estivessem só um pouco distante de suas casas levava-as de volta as mesmas. Caso alguma criança se negasse a dar-lhe a “bença” ele mostrava uma cara de poucos amigos, e exigia que a criança atendesse seu pedido e sempre era atendido.
Outra peculiaridade dele, que me fez denominar este texto, é a mais humana. Naquela época, a mortalidade infantil era muito alta. Quando ele sabia que algum recém-nascido havia morrido, ia até a casa dos pais, e se por acaso esta estivesse com as unhas grandes, ele as cortava. Se a família fosse muito pobre, ele se encarregava de sair pedindo auxilio, para as despesas do enterro, e providenciava o caixão e a mortalha. E o detalhe interessante, é que de cada “anjo” (era assim chamado os recém-nascido falecidos antes de completar um ano), ele cortava um pequeno pedaço da mortalha e guardava. Esta prática era válida para toda redondeza como Upanema, Pedrinhas, Baixa Grande etc., era só tomar conhecimento, lá ia Pedro conferir. Assim, quando alguém lhe perguntava quantas crianças havia morrido Ele dizia o número, e se alguém ficasse com duvidas, Ele ia em casa e trazia os pedaços das mortalhas, e dava para o descrente contar. Uma cena que está bem viva em minha memória, que na época serviu de riso para a meninada, e que hoje não tenho duvidas de que foi um gesto digno de louvor. Foi quando certa vez, faleceu uma criança e a mãe era muito pobre. Como de costume, ele saiu à procura de ajuda para o enterro. Tudo pronto, e como não havia ninguém para levar o caixão, ele simplesmente colocou-o na cabeça, e fez o enterro sozinho. Creio que por esses fatos, pode ser ele classificado como o primeiro “recenseador de anjos” na história da cidade, do estado, e quem sabe, até do país.
Também tinha ele seu lado, digamos assim cômico, como no caso da apresentação que fez de Zé Sólon a Café Filho quando Presidente da República. Apesar de alguns já terem comentado o fato, devo comentar também como ouvi na época. Antes, porém quero acrescentar que ele quando residia no Rio de Janeiro e sabia que alguém de Areia Branca estava lá, procurava visitá-lo, tendo o prazer de ser o cicerone daquela pessoa bastava ser de Areia Branca. E assim foi com Zé Sólon. Ao tomar conhecimento das dificuldades que Sólon estava tendo para falar com Café Filho, tranqüilizou-o dizendo que no outro dia tudo seria resolvido. No outro dia, era o Dia da Bandeira, e Café Filho iria participar de uma solenidade na Praça Santos Dumont na Gávea, e ele com a comitiva de Sólon, posicionaram-se em um lugar estratégico, e quando o carro do Presidente ia passando, ele gritou a plenos pulmões: “Café, Sólon de Areia Branca ta aqui!!!!” Café Filho virou-se para o lugar de onde tinha partido o grito, e mesmo não tendo divisado seu Zé Sólon, e tampouco podendo quebrar o protocolo da solenidade, após a mesma, determinou que seu ajudante de ordem localizasse onde estava hospedado o senhor José Sólon de Areia Branca, que ao ser localizado, as portas do Palácio do Catete ficaram aberta para ele e sua comitiva, graças a genialidade de Pedro Trajano.
De outra feita foi à apresentação que ele fez de Antonio Florêncio, ao General Teixeira Lott. Esta foi repassada pelo meu cunhado de saudosa memória, Antonio Pereira Neto, quando Presidente do Sindicato dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Contou-lhe Florêncio, que o General Lott, tinha uma casa de veraneio em Petrópolis, em frente a sua. Certa vez o General Lott que já estava na reserva, e estando regando as plantas do jardim, por coincidência Antonio Florêncio ia chegando em casa, e Pedro Trajano numa atitude própria sua gritou: General Lott, esse aqui é Antonio Florêncio meu patrão!!!!, E o General Lott rindo, cumprimentou-o com um aceno.
Infelizmente, nos 25 anos que morei no Rio de Janeiro, nunca me encontrei com esta figura brilhante, que com a ajuda de minha memória, estou resgatando sua historia, não só para as novas gerações de sua família residente em Areia Branca, e sim, para todos os areia-branquenses.
Era um dia ensolarado como o foram quase todos os que o antecederam. Porém algo muito especial estaria por acontecer. Era o meu encontro primeiro com o ensino formal. Criança de sete anos, acostumada à liberalidade dos dias da meninice, vi-me impelido a enfrentar a dureza – em todos os sentidos – do banco escolar, com calça de suspensório, chinelo e material escolar a tiracolo. Na dúvida, um pião estrategicamente escondido no bolso da calça servia de apoio. Levado pelo braço por minha mãe, enfrentando a gozação dos irmãos, lá fui eu em direção ao Círculo Operário, reduto de estudantes pobres como eu.
Coração batendo forte, uma última olhada para o rio Ivipanim, as lágrimas a encobri-lo, o suor empanturrando poros e dobras. A imagem derradeira, antes de tomar o rumo da Rua do Meio, foi o esquálido Botequim da Bosta, última instância para o recurso de um inoportuno borborigmo a repercutir no sigmoide. Morava na Rua da Frente, e o Círculo Operário ficava na Rua do Meio, na esquina próxima ao prédio de Toinho Beiju (era assim que as crianças chamavam o prédio mais bonito da cidade), quase em frente à casa de seu Antonio Quixabeira, e defronte à casa de Chico Germano. Ao chegar à porta da escola, o vislumbre nervoso de um novo porvir. Foi aí que apertei o pião no bolso da calça, junto à virilha, gesto que – somente mais tarde saberia – era feito pelos habitantes de Stonehenge dois mil anos antes de Cristo, com o objetivo de afastar dificuldades e maus espíritos. Outro local, outra época, outras motivações, o mesmo gesto. E foi ali, entre tenso e esperançoso, que dei bom dia ao futuro, e ele respondeu com ar de riso. Ficamos amigos.
Meninos das primeiras leituras, como eu, ficavam encabulados, no fundo da sala, tentando se acomodar àquele mundo estranho que se nos apresentava. Nessa época de hormônios em calmaria, as meninas ainda não participavam de nossas preocupações. Alguns anos depois, no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, onde estudava a mais linda representante da Rua do Meio, as intempéries das erupções pré-pubertárias despertariam as forças adormecidas do bem-querer. Aqui, também, a importância dos depoimentos das meninas/meninos dos olhos d’água. Parodiando Machado de Assis em Dom Casmurro, não temos o direito de falar de um assunto que não é só nosso, mas delas também. Entre uns e outros, o Tempo. O Tempo.
Dorinha, a professora, mulher bonita e de porte altivo, ganhava a meninada com sua graça e sua temida palmatória. Logo me acostumaria à rotina de uma sala escura, de grandes bancos, onde eram acomodados nossos escassos pertences de estreantes da aprendizagem – alguns apetrechos simples, como lápis com uma borracha branca ou vermelha servindo de chapéu, um caderno de caligrafia e a inseparável Cartilha do ABC. Foi aí que aprendemos a cantar o Hino Nacional. Havia um intervalo, em que a meninada batia uma bolinha ou ficava aos grupinhos, fofocando.
Foi assim que travei os combates próprios de um estudante pobre, de uma cidade pequena, enfrentando as temidas sabatinas semanais, em que a professora segurava a palmatória escura, erguida frente ao aluno, e fazia a pergunta, fosse de História ou Matemática. Vacilou, o estudante que acertasse tinha o direito de dar uma palmada na mão do que havia errado, e não podia haver o vacilo da camaradagem. Bateu devagar, repetia. Tensão reiniciada.
Havia uma pequena pirâmide de madeira – chamada licença – que ficava sobre a mesa da professora. O aluno tinha que esperar o colega retornar para ter o direito de ir ao sanitário. Por algumas vezes, também enfrentei o castigo de ficar de joelhos no chão áspero, na frente dos colegas. Sabemos que em alguns países da Europa ainda persiste esse tipo de castigo medieval, cruel e humilhante.
Tempos de palmatória. Tempos de seriedade e responsabilidade, mas também de incertezas e muita garra.
Infância.
Dessa vez contada por Antônio José.
Quando Zé Costa saía para a farra, sempre respondia a reclamação de Maria Duarte com a tirania de quem se achava gostoso:
- Minha volta é por cima. Se me quiser é assim!
Depois do AVC, não mais podendo sair de casa para cumprir os desígnios de Baco, o deus do vinho e das festas, e a missão de Don Juan, o conquistador de Sevilha, transformou-se num cordeirinho humilde. Quando Maria Duarte, muito religiosa saía para a missa, ele implorava:
- Volte logo, não fique conversando na igreja após a missa!
Certo domingo Maria ficou além da conta. Quando chegou, Zé Costa apertado, doido para fazer xixi lhe pediu o penico. Com o dito cujo na mão, Maria Duarte, com muito humor, vingou-se:
- Arra, a volta quando veio foi por baixo!

