Quando criança, todos nós tivemos momentos de maldade, de agressão ao colega, de falta de respeito. Nessa lista de acontecimentos adversos estão fatos e estórias que, hoje, nos fazem rir ou ficar corados. Quanta peraltice aprontamos nos tempos de nossa meninice em Areia Branca. E quanta maldade também. Cada um de nós tem suas pequenas experiências pessoais.

Especialmente no período de férias, púnhamos nossa imaginação maléfica para funcionar, face à falta de coisa melhor para se fazer. E surgiam os quebra-canelas, as derrubadas de pipas, os caldos quando tomávamos banho no rio.

Lembro que, certa vez, com a proximidade do carnaval, alguém teve a ideia de fazer um tambor. Nem sei para quê. Conseguimos a armação, faltava o couro. O que fazer? Decisão unânime: matar um gato que, inclusive, já havia sido escolhido. O bichano seria abatido, nós tiraríamos o couro e pronto. Problema resolvido. Mas quem mataria o felino? Sobrou pra mim.

Em segredo, e com muita luta, prendemos o gato com um barbante e o amarramos a uma pequena árvore. De posse de um cabo de vassoura, parti decidido a resolver o imbróglio. Rastejando, com o coração batendo como se fosse de um beija-flor, fui literalmente escorregando em direção ao gato, que me olhava desconfiado e descrente, com aqueles olhos cor de mel. Quase paralisado pelo medo, bati levemente com o pau no sincipúcio do animal, que deu um pulo, soltou-se do barbante e saiu em disparada. Depois dos gritos, todos rimos aliviados.

Outra maldade que fazíamos era a brincadeira da  briga combinada. Inventávamos uma falsa briga entre dois meninos, um dos quais com um pau na mão. E começavam a discussão e os xingamentos, e a molecada ia se aglomerando e pondo mais lenha na fogueira, digo, discussão. Eram feitos dois riscos no chão, representando a mão de cada um. Um deles pisava na mão, digo, no risco do outro, e a briga começava. O  garoto, enfurecido e fingindo brabeza, falava: você só tem coragem porque está com esse pau na mão. Entregue o pau para alguém que eu vou partir sua cara, seu esgalamido sem futuro! Logo outro garoto se oferecia para segurar o pedaço de madeira e, no momento em que se preparava para pegar na ponta, o brigão puxava a vareta, que tinha fezes na extremidade, e o outro ficava com a mão suja de cocô. Era uma gritaria só. Todos riam, e corríamos em disparada, e nos dirigíamos a outra rua em busca de nova vítima.

Relembrando essas maldades, e comparando com os casos lamentáveis que inundam diariamente os noticiários da televisão, sou obrigado a concordar com Chico Buarque, quando diz, em João e Maria: no tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.

E com relação aos nossos políticos? Lembro de grandes confusões envolvendo soltura de animais, não cobrança de taxas e outras questões que envergonhavam os eleitores de então. Dá até vontade de rir, ao pensar na roubalheira, nos desvios de recursos, nos superfaturamentos, nos dólares na cueca, nos mensalões, nas gatunagens de agora. E nós, que moramos em Brasília, somos obrigados a aturar essa cambada de deputados e senadores que os estados deportam para cá, sem pedir licença nem se desculpar. Ninguém merece. Realmente, no tempo da maldade a gente nem tinha nascido.

Ainda bem!…

About these ads