Nota do editor: Na discussão que se seguiu à publicação desse texto, Sônia Ribeiro confessou ter duas fotos antigas, uma na praia de Upanema e outra no Ivipanim Clube. O desejo incontornável de apreciá-las, manifestado por alguns visitantes do blogue superou a timidez da fotografada. Vejam as relíquias ao final do texto. Carlos Alberto.

Esta semana, comentando o fato de ter participado das comemorações – perfeitas nos mínimos detalhes – dos quarenta anos de minha formatura, que aconteceram em um resort de Porto de Galinhas, uma constatação: não disponho de uma só fotografia daquele acontecimento festivo do dia 10 de dezembro de 1971, em Natal. Nem da festa de formatura nem do baile.

Lembro da música de Roberto Carlos embalando o ponto alto do evento, com o brilho das lantejoulas e a elegante sisudez dos paraninfos e patronos – Um dia a areia branca seus pés irá tocar, e vai molhar seus cabelos a água azul do mar. Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar; e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos uma história pra contar de um mundo tão distante. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, um soluço e a vontade de ficar mais um instante -, porém não tenho uma foto sequer daquela noite.

Dando-me conta desse descaso com minha história de vida, a perplexidade foi mais longe no tempo. Constatei que não disponho de uma foto com a farda da Escola Técnica de Comércio, nem do Círculo Operário, bem como dos barcos dos beijus, da barraca do Zacarias, point das festas de Nossa Senhora dos Navegantes.

Forçando a memória, descobri que não tenho uma foto de minhas poucas pescarias no Tirol, nem de um instantâneo feito na calçada do Cine Coronel Fausto, nem dos professores das escolas por que passei, nem da Rua da Frente, quando era a via mais importante da cidade, nem do bar de Honorina. Tampouco disponho de uma foto do Botequim da Bosta nem das marés de sizígia que encantaram a minha meninice.

Outra falta grave: onde estarão as fotos das meninas de nossas escolas, dos banhos no rio Ivipanim, das conversas nos bancos da pracinha, das figuras típicas de nossa cidade, do velho motor da usina de luz?

E as fotos contemplando os cataventos de outrora, em seu giro com sabor de liberdade e barulho de supermatraca e aspecto de animais da Era do Gelo, onde estarão? E as fotos dos nossos músicos de então, especialmente no momento em que tocavam nos intervalos dos filmes, no Cine Coronel Fausto, onde estarão? E as retretas na pracinha, alguém fotografou?

Suspeito de que Toinho do Foto – nosso inesquecível Antonio do Vale -, as tivesse. Quem sabe, algum dia descubramo-nos em fotos de seu arquivo pessoal, em uma garimpagem junto com seus familiares.

A foto que falta a cada um. Uma lacuna em nossa história.

Sônia Ribeiro (indicada pela seta) e sua irmã Suerda, na praia de Upanema

Sônia Ribeiro aos 18 anos, no Ivipanim Clube