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Uma calçada sendo reformada ou construída. Mais tarde, algumas crianças, fingindo total desinteresse, e portando um prego estrategicamente escondido no bolso da calça, suspensório a sustentá-la, passavam pelo local. Esse ritual fazia parte de um processo que estaria por ser desencadeado. O local era devidamente observado, e a turminha já combinava hora e local para deixar suas pequenas marcas em baixo relevo.
Desse modo, em Areia Branca existem, com certeza, resquícios de um arcaico e tortuoso acervo arqueológico. Inscrições rupestres de uma geração ansiosa por um futuro que vislumbrava inteiro e salutar.
Nos meus domínios, sei que a Rua do Meio guarda, em algumas rebordas, junto a um meio-fio de antigamente, recordações de uma infância alegre, solta e feliz. Rabiscos pequeninos, escondidos, feitos com um prego ou um palito, porém com endereços estrategicamente preestabelecidos, apesar de todos os disfarces. Homenagem silente a uma vogal ou consoante que, perto ou distante, fazia-se merecedora de uma homenagem ao nível do solo, sob os auspícios da ousadia.
Alguns meninos, com o espírito mais escancarado, deixavam um pequeno coração com as iniciais ao lado de uma flecha que o traspassava da aurícula direita ao ventrículo esquerdo. Eram duas letrinhas tortuosas, que justificavam uma satisfação de um SMS direto – carimbo de cimento – junto à sarjeta, de difícil localização, e conferidas no dia seguinte. Assisti a alguns colocando, discretamente, o pezinho no cimento.
Isto posto, esqueçamos o inaudita altera pars (sem ouvir a outra parte) dos juristas – visto não haver necessidade. Porém ninguém estranhe se adultos sérios, homens de outras festas de agosto, quando em visita à nossa cidade, derem uma conferida, disfarçadamente, tipo sem-querer-querendo, em estratégicas calçadas, em buscas de inscrições antigas – verdadeiras Escritas Cuneiformes –, simples rabiscos que conferiram paz ou incerteza a pequenos corações ansiosos por uma identidade.
Na Capadócia – interior da Turquia – são vendidas réplicas de pedras com simulação de escrita cuneiforme. Ao vê-las, logo me vieram à mente antigas inscrições feitas em calçadas da minha infância, ostentando rabiscos em nada diferentes desses, e um frio gostoso me fluiu pelas veias, no rumo do coração.
Crianças de Areia Branca, década de 1940/1950. Pixadores de meios-fios ou precursores da Calçada da Fama?
A escrita cuneiforme foi desenvolvida pelos sumérios, sendo feita com objetos em formato de cunha. Os primeiros pictogramas – por volta de 3500 a.C – foram gravados em tabuletas de argila, com um estilete feito de cana. Wikipédia.
Os bailes carnavalescos de Areia Branca nos meados da década de setenta eram, por assim dizer, familiares. O intuito dos brincantes era tão somente se divertir de maneira saudável, ordeira e pacífica.
As famílias se reuniam à noite no Ivipanim Clube – único na cidade – para “pular” o carnaval. Saíam de suas casas num cortejo alegre por volta das 23h 00, caminhavam pelas ruas tranquilas da cidade, e quase todos chegavam a pé de suas casas. O trânsito era calmo e sereno, pouquíssimos carros eram vistos naquele horário, como também eram poucos os bares que ficavam abertos.
A cidade praticamente parava. A vida pulsante estava enclausurada no Ivipanim e adjacências, querendo se expandir. Nos imóveis próximos ao Clube se escutava o som que emanava da banda do Antônio da Pastora, que ecoava dos metais e tambores dos seus integrantes, encontrando saída pelos cobogós do Ivipanim Clube, inundando de alegria a cidade adormecida e despertando os foliões do recinto para mais um baile carnavalesco.
Os bailes começavam aproximadamente às 23h 00, e as pessoas, muito bem vestidas, adentravam no clube de forma ordenada. Às vezes se formava uma pequena fila na entrada, mas não havia nenhum tumulto entre os participantes ou desacato aos porteiros ou a alguém da comissão organizadora do evento.
No início do baile, a banda do Antônio da Pastora se perfilava e tocava um dobrado nos instrumentos metálicos (sax, piston, trombone, tuba, corneta), para logo após entrarem os tambores (tarol, caixa, bumbo). Aquele dobrado não deixava dúvidas, era característico do início de todos os bailes.
O Antônio da Pastora era o dono da banda e após o dobrado inicial, ele sabiamente emendava um frevo muito conhecido, como o famoso Vassourinhas, e animava o ambiente. Aquele frevo era o passaporte para o reinado de Momo, uma festa com marchinhas carnavalescas (A Jardineira, A Lua é dos namorados, Acorda Maria Bonita, Máscara Negra, Vem Chegando a Madrugada, e outras), com letras simples e nada que ferisse os ouvidos, a moral e os bons costumes. Tudo dentro dos limites da decência e da ordem.
As fantasias masculinas que recordo eram de piratas, árabes, presidiários, toureiros, romanos, hippies, caubóis, etc. Quanto às femininas lembro-me das colombinas, ciganas, bailarinas, caubóis femininas, gregas, e outras. As roupas dos brincantes não fantasiados na sua maioria eram bermudas e camisetas comportadas, e as fantasias eram todas decentes, assim como o comportamento dos casais casados e os casais de solteiros formados de última hora, chamados de namorados de carnavais. Tinham um comportamento exemplar, de maneira civilizada e apropriada para um ambiente familiar. Até os bêbados eram inofensivos. Muitos dormiam sentados, outros ficavam mais alegres, mas não havia desacato ou desordem. Até o uso de lança-perfume não tinha conotação de droga ilícita, e víamos muitos lenços brancos serem cheirados.
Um detalhe interessante é que nunca tomei conhecimento da morte de alguém por embriaguez, lança-perfume ou droga ilícita no período de carnaval em Areia Branca. Era um período de muita calma e tranquilidade.
Hoje tenho outra concepção para o carnaval atual, a começar pela origem da palavra: “A carne vale”. Uma festa tipicamente carnal (festa da carne), onde os instintos mais primitivos e bestiais encontram “liberdade” total e irrestrita. O hedonismo (busca desenfreada pelo prazer) alcança seu apogeu (prazer carnal). A referida festa consegue unir tudo que desagrada à humanidade: embriaguez, prostituição, violência, uso de drogas ilícitas, libertinagem, etc.
Bailes de carnaval atualmente? Prefiro não comentar.
Vou para as minhas lembranças dos carnavais vividos em Areia Branca e me sinto à vontade em comentar minha participação nestas festas tipicamente populares e sem conotações maldosas. Um tempo onde brincávamos de maneira lúdica, infantil, inocente e responsável. Onde o prazer de brincar era comedido e impúnhamos limites.
Areia Branca, canto para ti os últimos versos da marchinha carnavalesca Máscara Negra, de autoria de Zé Keti e Pereira Matos: “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”.
O Rei Momo bate à nossa porta, digo, aparece na TV. A Rainha do Carnaval exibe-se feito pipoca em panela quente, explodindo sensualidade. Mister Samba, por sua vez, executa passos quase impossíveis, sejam exagerados, largos, ou no miudinho, em uma prévia que só nos estimula.
Madrinhas de Bateria – ou Rainhas, como querem algumas -, às dezenas, aparecem nos programas de televisão, com suas perigosas curvas da estrada de Santos, seus volumes siliconizados e suas vozes de tenor desafinado. Aqui e ali, entrevistas com destaques que se exibem no asfalto com um rebolado enlouquecedor. No alto dos carros alegóricos, destaques especiais brilham como estrelas de galáxias perdidas no Universo. Porta-bandeiras, passistas, ritmistas e baianas, todos se esmerando em suas apresentações sempre cheias de brilho e glamour. Não podem faltar os intérpretes/puxadores e a velha guarda. É o mundo fashion do faz de conta.
Do alto das arquibancadas, pessoas comuns se espremem em uma exaltação quase doentia, expondo suas vidas ao risco por suas escolas. Ao lado, milionários, pseudo-ricos e uma fauna de aproveitadores esbanja bebedeira sofisticada, sob os auspícios degustatórios elaborados por chefs e cozinheiros de renome.
As prefeituras – leia-se contribuintes – assumem as monumentais despesas, realidade que viceja em quase todas as cidades brasileiras.
Evaldonautas, retrocedamos no tempo, em busca da Rodoro de Ouro – lembram de Os Argonautas em Busca do Velocino de Ouro?. Areia Branca, 1959. Nas ruas, os ursos, com sua ingênua alegria, disparam uma correria de forma ameaçadora em direção à meninada, que finge medo e até pavor. Batem nas portas, entram nas bodegas, mexem com as pessoas. Pequenos grupos de foliões, fazendo uso de reco-recos, tambores, pandeiros e matracas, saem pelas ruas de forma desorganizada, mas com muita originalidade. São pessoas conhecidas – trabalhadores, estudantes, donas-de-casa -, sempre acompanhadas pela meninada, que atira confetes e serpentinas, em uma correria sem fim. Somente a chegada dos circos reúne maior número de crianças.
À tarde, quando o sol já ameaça esconder-se lá pros lados de Tibau, os espaços nas proximidades do Palacete Municipal e da Pracinha encharcam-se de pessoas aguardando os blocos dos Remadores e dos Democratas, em uma pletora hiperidrótica. Imagino serem esses – Remadores e Democratas – os nomes das principais agremiações carnavalescas da cidade que logo mais estarão desfilando. A empolgação do povo é intensa e contagiante.
Crianças, percebemos que tudo isso assume uma dimensão grandiosa, e o cheiro gostoso das Rodoro assume o controle do ar circulante, na faixa dos 32 graus, inebriando-nos e nos fazendo sonhar. Os jovens que dispõem de recursos exibem-se direcionando o jato gelado de seus lança-perfumes cor de ouro na traseira das meninas, sinalizando interesse, como um sem-querer-querendo descompromissado. Mais tarde haverá a chance de um encontro no baile da prefeitura, e o romance poderá de fato efetivar-se. É o jogo.
Carnaval. De ontem ou de hoje, um mix de sonho e fantasia. Agora, sem as Rodoro.
Nestes cem anos da festa dos navegantes, o que nunca mudou e nem mudará, é o horário da procissão marítima. Isto porque ela obedecerá sempre ao fluxo da maré. Minha primeira lembrança da procissão marítima foi em 1941, quando eu tinha quatro anos um mês e 23 dias, devido a um fato acontecido, que ficou gravado em minha memória, como outros da mesma época e até um pouco anterior ficaram.
Naquela ocasião, eu estava com uma farda de marinheiro, que era comum aos meninos da época, na festa de agosto, levado por uma tia ainda jovem com seu primeiro namorado, um rapaz de Mossoró. Por volta das 9 horas após o desembarque do andor, e quando a procissão terrestre já tomava o rumo da rua Dr. Almino Afonso eu disse: “aiii nãnãna, eu quero “obrar”, que era a forma educada de dizer “fazer côcô”. Minha tia ficou acanhada por causa do namorado, mesmo assim tomou-me nos braços, e as pressas, levou-me para casa que ficava na Rua João Felix com Machado de Assis, onde é hoje a Papelaria Brasília, chegando lá em tempo hábil, evitando assim o pior.
Até os anos 60, uma semana antes do início das novenas, saía uma comissão da igreja, composta de dona Laudelina, dona Francisca de Souza, dona Cecília de Quinoca, dona Ana de Souza, mãe de Zé Jaime, Cadinha, mãe do grande jogador de futebol Zé de Cadinha (Ribamar), Raimunda bezerra e outras, angariando junto ao comercio, e aquelas pessoas de maiores posses, donativos para serem leiloado nas barracas. As barracas da igreja eram colocadas em frente à prefeitura, e era aguardado o fim das novenas para ter inicio ao leilão.
Nas ruas João Felix e Barão do Rio Branco, havia os mais variados tipos de barracas, com comidas e bebidas diversas, parque de diversão, jogos como roleta, “jaburu”, “caipira” tiro ao alvo com espingarda de pressão etc., porem a barraca mais conhecida era a de Zacarias, pelas varias modalidade de jogos. A “radiadora” do parque de diversão anunciava: alô alô, alguém de saia azul e blusa branca, ouça essa gravação que alguém da rua do progresso lhe oferece apaixonadamente. Outros faziam questão de descrever a roupa que estavam vestidos, e assim, era um desfilar de dor-de-cotovelo, na voz de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Núbia Lafayette, e tantas outras. Isto sempre depois das novenas.
Terminada a novena, começava o leilão, onde já tinha sempre alguém tomando sua cerveja. Era galinha assada, galinha a cabidela, pato, peru – geralmente esses eram vivos – bolos, doces, vinhos, e certa vez lembro-me de ter sido leiloado um cabrito que berrava muito, doado por um senhor das pedrinhas, pois era costume dos leiloeiros Pedro Trajano ou Luiz preto, dizerem a origem da doação. Certo ano, seu Zé Tavernard, construiu uma barraca em forma de navio, no terreno baldio ao lado da casa de seu Antonio Lucio, onde hoje é a Capitania dos Portos, que foi sucesso total. Tinha também os pastoris, onde as estrelas dentre muitas, sobressaiam, Dodora de Zefa Bernardo, Marinete de seu Chico de Izídio, e Maria José de Zé Maduro. A última participação minha na festa de agosto, foi no ano de 1963, quando era Delegado do Sindicato dos Marinheiros. Participei da barraca Sindicato dos Calafates, a convite do seu presidente, o saudoso amigo Luiz Mariano. Era comum todos os anos, haver duas barracas “antagonistas”, como por exemplo, comercio X navegação, Prefeitura X empresas, Carpinteiros X Estivadores etc., num antagonismo apenas salutar, objetivando maior lance por leilão, e com isto, maios lucro, sempre obtendo o efeito desejado, e com isto, a igreja agradecia.
No dia 15, o andor saia da igreja, onde já esperavam em filas, de um lado as Filhas de Maria, as Zeladoras, as Damas de Caridades, e do outro, os Vicentinos, os Marianos, e a Cruzada Eucarística, e se dirigiam ao tirol cantando o Hino dos Navegantes, acompanhado por Mirabeuax no trombone, Pedro Abílio no saxofone, Adolfo de Pedro Abílio no bombo, Zé Silvino na tuba, algumas vezes Chico ourives no clarinete, isto porque o mesmo era residente em Macau. Às vezes também estavam presente, Augusto Preto com sua cuíca, Raimundo enfermeiro com sua rabeca, Zé lagartixa e seu famoso pandeiro, e outros. E os fiéis atraz. Chegando ao tirol, a lancha São Salvador já estava à espera, e as barcaças da CCN, Wilson, Mossoró Comercial, Salmac, com os respectivos rebocadores, aguardava o inicio da procissão marítima. Durante todo percurso marítimo, os que estavam na lancha São Salvador, que era um numero muito superior ao de hoje, cantavam: Ó Virgem dos navegantes/na procela na bonança/salvai os pobres marinheiros/ser sempre a nossa esperança.
Findo a procissão, a lancha atracava novamente no tirol, quando se iniciava a procissão terrestre. O itinerário era sempre este: rua Dr. Almino Afonso, Floriano Peixoto, João Felix contornando o açude onde sempre havia água, passando em frente a sete casas existente onde hoje é a maternidade, seguia pela Rua Duque de Caxias, onde tinha uma parada obrigatória, em frente à casa de Bagaé, pois sempre havia um pequeno altar com algumas imagens para serem benzidas, depois seguia pela Travessa dos Calafates, Cel. Liberalino, Barão do Rio Branco quando entrava novamente na igreja, encerrando assim os festejos.
Mesmo tendo saído Areia Branca, sempre voltava á mesma, porem só depois de quarenta anos assisto uma festa dos navegantes. Quanta mudança. A Santa, apesar de já ter sua igreja, necessita pernoitar no dia 14 na antiga, para no dia seguinte facilitar o inicio da procissão marítima. O espaço existente para as barracas apesar de ser superior ao da frente da Prefeitura, é ofuscado pelas inúmeras barracas existentes no inicio da BR 110, onde a altura da Avenida Fortaleza, no bairro Nordeste ou mutirão como também é conhecido, é armado um grande palco para apresentações de cantores, que foi denominado como largo da folia. O embarque e desembarque do andor são feito no trapiche em frente à Capitania dos Portos. As barcaças rebocadas foram substituídas por barcos motorizados. Os músicos foram substituídos por um paredão de som ao lado da calçada da igreja, que durante toda a procissão marítima, executa hinos sacros. Após o desembarque, a procissão segue pela Rua Luiz Cirilo, entrando na rua dos calafates, e Jorge Caminha onde fica sua igreja, encerrando assim mais uma festa dos Navegantes. Sempre seguida pelo paredão de som.
Quantas lembranças. Quantas saudades….
Meninada nas redes, o Santo Anjo do Senhor saiu afinado, como acontecia todas as noites. A luz penetrava pelo alto da parede da sala, que era baixa. Em casa de pobre as paredes internas são pela metade, e as portas não têm ferrolho nem trave, como nas que dão para a rua. Ficam encostadas, e de madrugada batem com a força do vento. Miro desvirou seu tamanco; sabia que dava azar. Corria o ano de 1938, e o Congresso Eucarístico, que aconteceria em novembro, deixava Areia Branca com ares de festa.
Com um olho medroso, conferiu os punhos das redes, e percebeu que alguns irmãos, como ele, fingiam dormir. Miro sabia que, pé ante pé, algum deles logo fugiria para ficar sentado na calçada, onde o converseiro dos adultos ainda se prolongaria, embora já com a animação minguando feito a lua da semana passada. Um roc-roc discreto, vindo de um armador de rede mal lubrificado, desviou sua atenção.
Sobre uma pequena mesa, no corredor, uma chaleira e umas mangueirinhas ligadas a uns bobs para frisar o cabelo. Preparações para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, sabia. Na parede oposta, pendurado em um prego, um irrigador para fazer clister. O menino não gostou.
De repente, a usina de luz entrou de folga – hora do recreio – e desligou seus músculos de ferro movidos a diesel. Nos domínios da escuridão, restava à luz cambaleante da lamparina disputar tremeliques com a sombra do pé de cajarana do quintal, que aparecia na fresta da janela.
O menino pôs a cabeça fora da rede, e percebeu o bafo de querosene queimado soprado pela lamparina, que se transformava em tisna pela mágica da física. De fumaça a tisna, de vapor a pó, e com a cor da escuridão. A escuridão tem som, constatou o menino na rede. Som de assombração. O vento, ele sabia, também tem som; som de rajada, como se fosse uma vaquejada de ar. E sorriu com esse pensamento.
Pela fresta da janela, procurou uma réstia de luz; em vão. A lua – ele sabia – não viria naquela noite. Avistou uma estrela caindo bem devagar; vaga-lume do céu, pensou. Ou estrela do mar, que vira na Praia do Meio, exposta à luz, implorando pela volta à água. Percebeu barulhos desconhecidos, que vinham de pontos distintos, próprios da noite. Ruídos de uma noite pelada, escura por inteiro.
O sono se fora; a insônia e o medo chegaram. Talvez o castigo por alguma coisa errada que aprontara durante o dia, imaginou. E lembrou da alma de um gato que havia morrido, e os meninos fizeram o enterro. Até cantaram Avé, Avé, Avé Maria. Seria por isso? Cantar música de igreja em enterro de gato? Por que fui lembrar disso logo agora? – suspirou. Sentiu algo roçar em sua rede, branca e sem remendos quando era do seu tio. Fechou os olhos e puxou o lençol. Tinha medo. Muito medo.
Foi até a janela dos fundos, e olhou pela fresta. Percebeu que o pé de cajarana assumira o espectro de um monstro de muitos braços, mas continuou firme. Até esboçou um riso, quando percebeu que um guiné dormia no alto da árvore. Voltou para a rede.
De repente, o ruído surdo de um monstro passou rosnando feio, pelo alto, lembrando o barulho de um hidroavião a que assistira pousar no rio Ivipanim dias antes. O barulho voltou com mais força, e o monstro passou bem mais perto. Puxou o lençol com tanta força que ouviu o som do tecido rasgando. Pronto, pensou, o monstro vai entrar pelo buraco. Tremeu de medo, e se cobriu de suor. Encolhido, ouviu o assobio da cruviana passando pelo quintal, com seus pés de algodão.
Pela manhã, arrumou-se para seu primeiro dia de aula no segundo semestre. Nada comentou da noite atribulada que tivera.
Em um canto do corredor, sem que Miro percebesse, um rola-bosta esperneava, tentando por-se de pé. Ou seria um besouro do cão? Não deu para conferir.
Na calçada, ficou feliz em ver duas barcaças enfileiradas – uma segurando na mão da outra – indo em busca dos navios.

