Na sopaEscandalosa - que o levaria para Mossoró, o jovem aguardava, naquele distante 1962, a presença de Ritinha. Sabia que ela estudava em Mossoró, e viera passar o fim de ano em Areia Branca. Duas vezes se encontraram, e Ramiro se encantara com a garota, seu primeiro lampejo de amor.

Com um olhar 41, o rapaz mal falara com os familiares, que continham o choro, recostados na parede. Em Mossoró, encontraria os tios, o Rio de Janeiro como destino. A esperança do retorno ajudava a controlar a emoção dos dois irmãos e da irmã, agora próximos à janela. Sentado, ele estendia um olhar comprido, que ia do mercado municipal até a lateral da igreja. E nada de Ritinha. Ramiro admitia que era muito cedo, mas ela prometera estar lá.

A sopa começou a se movimentar, e se preparava para dar a volta em frente à prefeitura. Ramiro, dissimulando a ansiedade, disparou um olhar triste, quase sem vida, no sentido da Rua do Meio, para os lados da casa dos padres. A menina hospedara-se em uma casa um pouco abaixo da de José Tavernard. Quando retornava a cabeça no sentido da frente do carro, o rapazinho descobriu a moça na esquina oposta à prefeitura. Ela acenou de longe. O jovem pôs a cabeça na janela, atirou um pequeno pedaço de papel e gritou: Escreva uma carta pra mim! Ela fez sim com o polegar. Pelo retrovisor, ele vislumbrou a garota lendo o endereço que colocara no papel. Encheu-se de esperança.

Ramiro sentou-se no assento duro, confundindo os pulos de seu coração com os catabis – pronunciava-se catabilhos – do  velho automóvel, mais para caminhão que para ônibus. O jovem, tentando resignar-se, não queria olhar para os lados da estrada, a poeira encobrindo as casinhas do caminho. Soluçou e engoliu um choro quadrado, difícil de passar nos gorgomilos. O ruído de dois bacorinhos que estavam no bagageiro, na parte de cima do carro, ajudavam a tirar do rumo os seus pensamentos.

Não quero saber de coisas da cidade, se fulano morreu ou beltrano passou de ano. Quero saber se o sol do entardecer ainda é bonito, escondendo-se no rumo de Tibau, berrava Ramiro ao receber carta dos familiares. Queria saber se a turma da pracinha ainda se encontrava à noite, depois da igreja. Saber se as noites no Tirol ainda eram bonitas, tal como na noite em que encontrara a jovem sentada na pracinha, no depois do depois da igreja. Queria saber se aqueles calangos que moravam na árvore mais grossa do quintal ainda continuavam por lá. Ouvira falar que o Tirol estava desmoronando, mas queria detalhes informados por ela, por serem seus também, dizia Ramiro com sua voz perdida de ventríloquo de feira, com um boneco no colo, falando para dentro, quando lia carta de algum parente.

Ramiro ansiava por uma carta de Tena, digo, Ritinha. É que, para ele, Tena era um nome lindo, quase místico, e só seu. Tirara esse nome daquela brincadeira que diz una, duna, tena, catena, bico de pena, solá, soladá, gurupi, gurupá, conte bem que são dez. Contou? São dez.

Há alguns meses, ao ler o livro O Comedido Fidalgo, de Juan Eslava Galán, o agora senhor Ramiro daria uma estrondosa gargalhada, e entenderia o nome pastoril – Tena – de Ritinha. No livro, o valentão Chiquiznaque, ao solicitar que dom Alonso lhe escrevesse uma carta para sua amada, assim falou:

- Ponha o meu nome pastoril.

- Nome pastoril? – perguntou dom Alonso.

- Sim – disse Chiquiznaque -, pois haveis de saber que, quando estamos juntos, minha dama e eu, não me chamo Cristóbal nem Chiquiznaque, e sim Elício, e ela, que para a sociedade é Salud, chama-se Florgalana.

Ramiro sabia que Tena se mudara de Mossoró, mas nunca soube para onde. Queria muito que ela estivesse no Rio de Janeiro exatamente hoje, dia de sua formatura, dezembro de 1972.

Ano de 2012, seus filhos já formados. A empresa prosperava, porém sua satisfação não chegava à beira do copo. Depois da janta, o filho mais velho trouxe-lhe o iPhone que tocara na cozinha.

- Pai, tem mensagem pra você.

No aparelho, um SMS curto, de três palavras: estou no Rio. Rita. Uma dose de whisky. Um suspiro profundo, uma olhada sem ponto futuro no rumo da parede.

Mensagem deletada. E a voz de Nana Mouskouri ecoou pela sala naquela noite de sexta-feira, desafiando a capacidade dos altos e baixos de seu multimídia.

Cinquenta anos, resmungava contemplando uma enorme canvas do Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. Cinquenta anos, e um interstício de vida camerlengado pela incerteza, sob a doutrina da saudade.

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