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Se você chegar em Areia Branca e perguntar por Francisco Pereira de Brito, certamente terá dificuldade em receber a informação correta. O mesmo não acontece se você perguntar pelo estivador Chico Preto, uma personalidade na história areia-branquense.

Estivador por profissão, e juiz de futebol por vocação, Chico Preto foi tesoureiro do sindicato, e durante sua gestão no cargo, manteve as finanças equilibrada o que lhe deu o reconhecimento dos demais companheiros da categoria. E por isso era respeitado.

Como juiz, ele se inspirou como sempre dizia, no famoso Mario Vianna com dois enes, como o mesmo enfatizava nas suas entrevistas, pois alguns repórteres escreviam Viana com um ene só. E foi baseado no seu ídolo, que Chico Preto se tornou um grande arbitro no Campo da Saudade e posteriormente no estádio Dr. Gentil Fernandes, onde infelizmente não presenciei suas atuações, por já me encontrar ausente da minha cidade. Durante a inauguração do estádio, compôs o trio de arbitragem, conforme registro fotográfico do nosso saudoso Toinho do Foto. Como tinha duas versões sobre o jogo inaugural que se conflitavam, busquei junto ao amigo Luciano Oliveira a terceira opção, sendo que a mesma que veio, era uma confirmação do que já havia me informado o professor José Jaime. Aos dois, deixo aqui os meus agradecimentos.

O jogo de inauguração do estádio foi realizado entre o São Paulo, do saudoso Miguel de seu Dimas, e a equipe do Calouro do Ar de Fortaleza, tendo a equipe local vencido por 3 x 1, com o primeiro gol de autoria de Jonas de Josué. Teve ele ainda atuações em outras cidades como Mossoró, Macau, Açu e outras do Rio Grande do Norte.

No Campo da Saudade, presenciei várias atuações de Chico Preto, inclusive o seguinte fato: Luiz Tavernard irmão de Zé Tavernard, costumava chamá-lo de ladrão, talvez por despeito de não ser reconhecido como bom arbitro, igual a Chico Preto, e outros. E também pelo motivo de ser flamenguista, e como tal, adversário, pois Chico era vascaíno “doente”. Nesta tarde Chico Preto apitava com absoluta correção, porem Luiz Tavernard, constantemente o chamava de ladrão, e não satisfeito, adentrou no campo e foi chamá-lo bem de perto. Quando Chico partiu para as vias de fatos, a Luiz Tavernard, só restou correr, e se esconder por trás do seu irmão Zé Tavernard, que providencialmente com aquela calma que lhe era peculiar, o salvou da correção que seria merecida naquele momento. Isto porque depois, quando ambos se encontravam e relembravam o fato, era só riso, pois ambos eram pacatos cidadãos, e desavenças como aquela, era fato passageiro. Ainda no Campo da Saudade, num jogo da Seleção de Areia Branca contra o ABC de Natal em que ele era bandeirinha, e em uma determinada jogada, Zé de Isaura estava visivelmente impedido, tendo Chico Preto assinalado o impedimento, porem não foi atendido pelo arbitro que era Toinho de Amaro Duarte, que validou o gol. Os jogadores do ABC correram em direção ao bandeirinha para as devidas reclamações, e com razão, tendo Chico preto dito que tinha assinalado o impedimento, porem se o arbitro não atendeu, ele nada poderia fazer. Depois do jogo, houve a seguinte explicação para o gol de impedimento. Toinho de Amaro validou o gol, porque queria que Zé de Isaura autor do mesmo, ganhasse o premio que era uma camisa.

Em uma das minhas viagens de ferias a Areia Branca, quando não mais existia o Campo da Saudade, ouvi Chico Preto relatar um caso acontecido no estádio Dr. Gentil Fernandes. Estava ele apitando um jogo do Grêmio contra o São Paulo, e como sempre, com a sua marca registrada que era a correção. Findo o jogo, o Grêmio foi vitorioso, e Zé Romão que era diretor de futebol do Grêmio, foi ate ao trio de arbitragem (Chico Preto, Geraldo e Djaci), e disse, em alto e bom som: “VOCES SÃO OS MELHORES JUIZES DE FUTEBOL DO MUNDO”, tendo inclusive enviado carta elogiando o trio de arbitragem. Na semana seguinte, novo jogo do Grêmio, tendo desta vez sido o mesmo derrotado. O arbitro era Geraldo auxiliado por Chico Preto e Djaci. Findo o jogo, Zé Romão os esperava no portão e disse: “VOCES SÃO TRÊS LADRÕES!” e Chico Preto com aquele sorriso maroto de garoto travesso disse: Zé, domingo passado nós éramos os melhores juízes de futebol do mundo, e hoje somos três ladrões! Como é que fico isso Zé?  E continuou com o sorriso maroto que era uma marca constante no seu rosto.

Vascaíno “doente”, sempre era provocado pelos seus arqui-rivais flamenguistas. E sempre que lhe perguntavam: “Chico, se Deus disser: quando você morrer vai para o lugar de São Pedro, se torcer pelo Flamengo!”, a resposta era sempre esta: “eu digo, Deus! pode deixar eu ir para o inferno mesmo!” O sempre presente sorriso maroto acompanhava a resposta. Diferente de Toinho de Amaro Duarte, Djaci e outros, juízes e bandeirinhas e bons jogadores, não recordo de ter visto Chico Preto jogando. Ele mesmo dizia, ser um grande “perna de pau”. Este foi o grande Mário Vianna de Areia Branca, uma figura humana inesquecível.

Wellington de Reinério era um menino pacato como poucos, sem qualquer ambição de liderança. Estava sempre na dele, sem incomodar ninguém. Já Wilton, voluntarioso, briguento como parte da família, estava sempre incomodando seu irmão mais velho. Isso era uma constante nas nossas peladas.

Wellington jogava uma bola redondinha. Era um jogador habilidoso e elegante. Não fazia as habituais trapaças, como puxar o calção do adversário, levantar o pé acima da bola, armando o que se chamava de chapa, não dava uma cotovelada. Era ele e a bola, tentando apenas se esquivar dos adversários. Franzino e com esse espírito angelical, jamais conseguiu despertar interesse dos vários times de futebol em AB. Mas, nas peladas era sempre um dos primeiros a ser escolhido por quem ganhava o par-ou-ímpar.

Wilton tinha muitas dificuldades no trato com a bola. O que a natureza lhe deu de inteligência e habilidade com um maçarico, lhe tirou dos pés. De vez em quando ele obrigava Wellington a participar do par-ou-ímpar para ser um dos selecionadores, algo que violava a natureza do irmão. A estratégia tinha objetivo: ser um dos primeiros escolhidos. E ai de Wellington se não o obedecesse. Ameaçava dizer à mãe que Wellington estava jogando na rua. Sim, algumas mães não gostavam que seus filhos sujassem pés e canelas com a areia salitrosa que tomava conta da rua no embalo daqueles ventos areia-branquenses. Nunca entendi porque Wellington se preocupava tanto em respeitar as ordens da mãe, enquanto Wilton não estava nem aí! Se fosse hoje, ele ficaria cantando: Tô nem aí, tô nem aí . . .

Quem teve oportunidade de jogar bola na rua, naquela época, vai lembrar que a areia misturava-se com o suor e grudava no pé e em parte da canela. Parecia uma meia. Pois bem, para não deixar essa prova de que estivera jogando, Wellington passava o tempo todo limpando os pés. Era muito engraçado ver aquela cena. Ele dava uma corridinha e se encurvava. Passava as duas mãos, da ponta dos pés até o meio da canela. Primeiro no pé esquerdo, depois no direito, ou seria o contrário? Mas o danado jogava bem, e tinha tempo de fazer isso e executar as tarefas que lhe cabiam: dominar a bola, passar para um companheiro e fazer gol.

Já está evidente que Wilton não tinha grande intimidade com a redondinha, qualquer que fosse, de pano, de borracha ou de couro número 1 (a pequena) ou número 5 (a profissional). Mas, tinha um senso de humor discreto, sutil e refinado. Uma vez estávamos na sua pequena oficina, no fundo da casa. Em vão, ele procurava o martelo escondido em algum lugar daquela monumental desordem. De repente, estalando os dedos começou a chamar, como se a ferramenta fosse um animal doméstico:

- martelinho, martelinho, onde você se escondeu? Martelinho, martelinho, venha cá!

Com esse jeito engraçado ele fazia as ameaças a Wellington durante as peladas. Ninguém se animava em passar-lhe a bola. A chance de uma sequência bem sucedida era quase nula. Um dia, irritado com isso, aproveitou o momento em que Wellington estava de posse da bola, correu em sua direção com uma havaiana (chamávamos sandália japonesa) na mão, pronta para ser atirada, e gritou:

- Passe a bola, passe a bola senão jogo a sandália!

Não lembro quem testemunhou as cenas acima. Acho que a última também foi presenciada por Clécio. Para concluir, vou relatar uma história envolvendo Flávio de Pitita.

Era costume naquela época grupos de meninos desafiarem outros para uma partida de futebol no meio da rua. Os locais preferenciais eram a rua do meio (Cel. Fausto),

a dr. Almino (atual Dep. Manoel Avelino)

e a rua das almas, bem na frente do cemitério (olhaí, Evaldo, falei no cemitério!). Claro, isso antes do calçamento dessas ruas. Tenho várias historinhas com relação a isso. Vou relatar uma delas. Wilton, Clécio e não sei quem mais, desafiaram Wellington, Flávio de Pitita e este relator. Cada grupo deveria formar um time de 6 jogadores (um no gol e 5 na linha). Decidimos fazer um treino de 3 contra 3, no campo da saudade, logo depois do almoço! Só a energia de adolescentes para suportar tamanha loucura. O campo da saudade era o campo de futebol de AB, onde jogavam 11 contra 11. Agora, 3 contra 3 às 2 horas da tarde é uma insanidade.

Clécio, Wilton e o terceiro que não lembro, não eram páreo para Wellington, Flávio e eu. Sabíamos que no jogo prá valer era páreo corrido, como se diz no turfe quando um cavalo é claramente superior aos outros. Com essa certeza em mente e o sol na moleira, Wellington e eu decidimos amolecer. Toca a bola prá lá e cá, sem grande esforço, displicentemente, deixando os intrépidos adversários tomá-la, não fazendo qualquer esforço para recuperá-la. Flávio espumava de raiva. Wilton e Clécio se divertiam com os gols que faziam, um atrás do outro. E o pobre do Flávio correndo sozinho atrás dos 3 adversários, nos fulminando com seu olhar raivoso. No finalzinho, faltou-lhe o ar e ele ficou quase em estado de choque, parecia que ia ter uma convulsão, enquanto corria atrás de  Wilton, que se aproximava celeremente do nosso gol. Wellington e eu, assustados com a cena, ficamos parados na zona intermediária do campo. Wilton fez o gol e gritou, todo sorridente e provocativo:

- Se no treino foi assim, imagina no dia do jogo!

Flávio, com a pouca energia que lhe restava, correu em sua direção e agarrou-lhe o pescoço. Foi uma luta para evitar o enforcamento!

Fim de tarde no Campo da Saudade. O time de Manoel de Marina empata com Mossoró, 1×1. Faltando 15 minutos para o término da partida, Manoel manda entrar 3 jogadores. Juiz apita, parando o jogo e indaga:

- 14 jogadores?

Manoel invade o campo e aos berros diz:

- Não tem o 13 de Campina Grande? Aqui é o 14 de Areia Branca.

É o fim do Jogo.

lourinho1Lourival Rocha é seu nome, Chico Mariquinha seu pai. A foto ao lado retirei de uma foto maior, exposta em http://portalcostabranca.blogspot.com/2008/10/reviva-areia-branca-do-passado-no-nosso.html. O portal não informa a autoria da foto. Talvez seja de Antônio do Vale, mas não há sua famosa assinatura, AVale.

Entre 1953 e 1959 morei na rua Silva Jardim, quase ao lado da casa do seu pai. Na adolescência cheguei a jogar futebol de Salão com ele, acho que no Renner (com Chico Carlos, Décio de Pascoal) e no América de Jonas de Josué, com Chico Carlos, de quem falarei em outra oportunidade.

Tenho na memória duas historinhas. Uma eu presenciei, boquiaberto, no Campo da Saudade. A outra me foi relatada pelo meu irmão, Clécio, e teria acontecido na quadra de Futebol de Salão (Praça de Esportes Maria Duarte). 

Não lembro o ano (década de 1960) nem o time pelo qual ele jogava. Muito menos o time adversário. Mas, a jogada, que jogada, está ainda hoje nítida na minha memória. Parece que estou me vendo de pé na lateral do campo, na altura da meia-cancha adversária. Lourinho atacava pela ponta esquerda, a cinco metros de onde eu estava, quando alguém deu um balão em sua direção. Foi um alvoroço naquela zona do campo. Os defensores, uns dois ou três correram para o local, olhando para cima e se encandeando, enquanto a bola descia. Lourinho ali, parado, olhando com calma a trajetória da bola. Quando ela aproximava-se do chão, deu dois ou três passos para trás. A bola quicou em algum buraco do terreno, encobriu os defensores e foi cair mansa no seu peito. Depois do primoroso lançamento para a pequena área, seu centro-avante, que não lembro quem era, cumpriu a tarefa do seu métier com um gol antológico.  

Lourinho não era apenas um jogador genial, era um malandro. Sabia driblar e irritar os adversários, duas armas fatais no futebol. No time de futebol de salão adversário, um marcador implacável, fungando, como se diz na gíria futebolística, sem parar. Bola na direção de Lourinho e lá vinha o zagueirão junto. Conhecedor do pavio curto do adversário, Lourinho postou-se atrás e passou a mão na sua bunda. Coisa que qualquer jogador de futebol suporta olimpicamente, não aquele zagueirão. “Não faça isso, sou homem casado”, disse irritado com o dedo em riste. Lourinho corre de um lado para outro, deixa passar umas duas jogadas e de novo passa-lhe a mão, dessa vez com um pouco mais de vigor. Não deu outra, o zagueirão virou-se, meteu a mão na cara de Lourinho e foi expulso.

Texto escrito em 6 de abril de 2004
Fotos de Antônio do Vale

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos os pontos de contato comportamental entre sociedades tão diferentes. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord, de Fellini. A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel, assim como Rimini está para Areia Branca.

Amarcord também tinha um farol, como o da praia de Upanema.

Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão.


Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, nos escombros de uma velha edificação. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério.

Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mentia feito nosso Chico Pavão.

Recentemente revi Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone. Uma edição em DVD, com comentários, entrevistas e depoimentos de pessoas envolvidas com o filme ou profissionais de cinema. Bernardo Bertolucci confessa que sentia-se o próprio caubói, depois que assistia um filme com John Wayne. Também éramos assim em Areia Branca. Havia casos até mais curiosos: um amigo estava convencido de que era a encarnação salineira de Jean-Paul Belmondo.

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