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Há muito que estou para escrever esta crônica, mas um preciosismo besta foi empurrando o ímpeto para depois, em busca de um tom irretocável. Pura idiotice, dada a inexistência de “um tom irretocável”. Quando, em seguidos e recentes textos colaboradores e visitantes do blogue passaram a fazer referências a Manoel Avelino, incluíndo seu neto Isaac, a pretensão, sufocada pela avalanche sociológica, deu lugar à necessidade inadiável de soltar os registros de minha memória.
Os Avelinos eram primos de meu pai. Meu avô, João Avelino dos Santos era tio deles. Depois de ter trabalhado com Antônio Calazans durante vários anos, o primeiro e único empreendimento do meu pai foi aquele bar mencionado na crônica de Chico de Neco Carteiro (http://areiabranca.wordpress.com/2010/09/10/becos-ruas-e-esquinas/). A história daquele bar é tão trágica em nossa família, que jamais falamos sobre ele. Não sei quanto tempo durou. Provavelmente menos de 5 anos, pois foi com essa idade que nos mudamos da Cel. Liberalino para a Silva Jardim e meu pai já não possuía o bar. Ele o perdeu praticamente em mesas de baralho. O extraordinário senso de economia doméstica da minha mãe foi quem nos salvou. A partir de então e até a sua morte foi ela quem administrou todas as economias da casa. E foi Manoel Avelino quem nos colocou em situação econômica suportável. Conseguiu emprego para meu pai no correio e provavelmente ajudou também a colocá-lo no sindicato dos conferentes.
Sempre tive boas relações de amizade com os Avelinos (Vicência, Manoel e Chico) e seu filhos, Raimundinho, Graça e Chico Novo (foto). Poderia falar das vezes em que, ao lado de Raimundinho fui comer bolo na casa de dona Cota, sua avó, mãe de Manoel Avelino. Morava na Rua da Frente, ao lado do armazém de Antônio Calazans. Coincidentemente Manoel e Chico tinham esposas com o mesmo nome. Entre os íntimos, eram conhecidas como Jandira de Manoel Avelino e Jandira de Chico Avelino. Em uma crônica antiga relatei um dos últimos contatos que presenciei entre meu pai e Chico Avelino (http://areiabranca.wordpress.com/2009/03/03/um-nao-fala-o-outro-nao-ouve/).
Em 1960 fui para Natal, estudar no Marista e morar na casa dos meus avós. Manoel Avelino, deputado estadual, morava na Rua Potengi, próximo ao Atheneu e bem em frente à sede social do ABC. Uma simpática casa de dois andares que eu frequentava com muito prazer pela gentileza com que era recebido por Jandira, uma mulher bonita, elegante e de uma educação comovente.
Eu tinha uma profunda admiração por Manoel Avelino, pela sua inteligência e pela extraordinária maestria com que manipulava as palavras. Era um orador à altura de um Cícero. Exagero à parte, não havia quem ficasse alheio a um discurso de Manoel Avelino. Até hoje, uso expressões que ouvi pela primeira vez em seus discursos, que acompanhei ainda criança em Areia Branca, e durante a adolescência em Natal, no programa que ele mantinha na Rádio Nordeste.
Mas, eu tinha a nítida sensação que Manoel Avelino não me via com bons olhos. Nossas relações sempre foram um pouco conflituosas, pois eu me atrevia, tinha a audácia de questioná-lo com uma frequência que ele deveria considerar intolerável. Em função disso, ele sempre demonstrou mais afeição pelo meu irmão mais novo, Clécio. Em contrapartida, não sei se por um simples mecanismo de compensação ou por empatia mesmo, Jandira me cobria de afagos. E como aquilo me fazia bem. Jandira, quando eu for a Natal quero limpar essas lágrimas dos olhos tomando um café na sua casa.
Quem conviveu ou convive com Chico Novo, filho de Chico Avelino, conhece bem, ou já foi vítima do seu atilado senso de humor. Conheço algumas boas protagonizadas por ele. Vou relatar a última. Já faz mais de cinco anos do ocorrido. Um pouco antes da morte do pai dele, e alguns anos antes da morte de Clodomiro, meu pai.
Eu estava de férias em Natal e meu pai convidou-me a fazer uma visita a Chico Avelino.
Era uma bela manhã de domingo e a casa de Neópolis irradiava a alegria que Jandira, mulher de Chico Avelino, jamais perdeu, mesmo nos momentos mais sofridos. E aqueles eram tempos de tristeza, o marido enfrentava um câncer na garganta, e as cirurgias a que se submetera comprometeram irremediavelmente suas cordas vocais.
Em lá chegando (Usei esta expressão só para lembrar Manoel Avelino, que costumava usá-la em seus emocionantes discursos.) encontramos Chico Novo que viera visitar os pais, obrigação dominical cumprida religiosamente.
Chico Novo abriu uma cerveja, e depois de rápidas atualizações memoriais, passamos a observar nossos velhos sentados num canto da sala, encurvados um em direção ao outro, numa animada conversa. Chico Novo não se conteve e comentou, com aquele sorriso maroto:
- A conversa ali tá é boa. Um não fala, o outro não ouve!
Meu pai, há muitos anos tinha uma deficiência auditiva que só piorava com o tempo. Mas ali, naquele tocante diálogo, estavam dois amigos de muitas décadas que se entendiam só com os olhares.
Descobri nesses últimos dias, o blog do Marcelo, filho do Dr. Vicente Dutra, nosso dentista na Areia Branca dos anos sessenta. Dr. Brás Pereira era o outro dentista. Circulando por lá, encontrei uma bela mensagem que fez em homenagem a D. Ritinha, mulher do Dr. Gentil, os pais de Axel, Izolda, Evangelina, Chico Zé, Haroldo, Júnior, e mais dois ou três cujos nomes não lembro. Coloquei um comentário, cujos principais trechos reproduzo aqui.

Esta é uma foto dos anos 60-70. No primeiro plano vê-se a prefeitura. A casa grande na esquina é a casa de Manoel Bento. A casa menor, no canto direito da foto, é a casa onde morava a família de Dr. Gentil. Ficava quase em frente à casa do Dr. Vicente.
Tenho agradabilíssimas recordações da família do saudoso Dr. Gentil. Fui amigo de muitos dos seus filhos, a começar pela Izolda (acho que o Marconi estava se referindo a ela, quando mencionou o envolvimento de Evangelina com o movimento estudantil). Izolda era minha grande rival na escola de D. Chiquita do Carmo. D. Alice Carvalho era nossa professora. Com o perdão pela falta de modéstia, devo dizer que ao final de cada mês era uma ansiedade danada para saber quem tinha tirado as melhores notas. Ora Izolda ficava na frente, ora eu tirava notas melhores. Ninguém nos ultrapassava. Isso deixava Seu Clodomiro e D. Albertina cheios de orgulho e certamente que Dr. Gentil e D. Ritinha também tinham mais do que motivos para se orgulharem da filha inteligente e aplicada.
Nos anos 70 Izolda foi presa em frente à ETFERN. Soube depois que ela tinha conseguido asilo político em algum país da América do Sul, parece que no Chile.
Fui amigo do Axel e do Chico Zé. Haroldo e Júnior eram mais amigos do meu irmão, Clécio.
Quando estive no Rio, fazendo meu curso de física na PUC, visitei o Axel, em companhia de Chico Novo (Chico Avelino, filho de Chico Avelino). Ele morava, huuum, não lembro o nome do bairro, na zona norte do Rio. Lembro que depois do almoço sentamos numa varanda e devoramos uma bacia enorme de laranjas. Por que diabos aquela imagem ficou marcada em minha memória?
Saudades, saudades . . .
Saudade / Palavra triste / Quando se perde / Um grande amor / Na estrada longa da vida / Eu vou chorando / A minha dor . . .
Não, não é desse gênero musical que eu gosto, nem é este sentimento que me domina o espírito. Mencionei o trecho da música, simplesmente porque ecoava de muitas casas nas manhãs areia-branquenses dos anos 60.


