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O quebrar das ondas na praia de Upanema; a batida de martelos pregando cavilhas nos cascos das barcaças; o “chuá” de pequenas marolas da maré de enchente; são ruídos encasquetando o juízo deste saudosista incontrolável, remetendo-me para um encontro com minha não esquecida meninice. E, num sonho memorável, ouço o cantar de galos madrugadores: seria o de dona Zulmira de Quinca Caetano, ou o de dona Cecília de Alfredo Bernardo ou, quem sabe, o de dona Nanola de Zé Birunga?

Praia de Upanema, 1990 (Foto Vale).
E outros sons invadem meus ouvidos, como invadiam as ouças daquele menino acostumado às andanças pela beira do cais. Agora, são os apitos dos rebocadores “Salinas”, “São Miguel”, “Mossoró”, “Macau”, ou o longo apito do trem, ao alcançar Carro Quebrado, prestes a chegar em Porto Franco. E, como se estivesse no patamar da igreja, escuto o plac-plac-plac da matraca, convidando os fiéis para os ritos da Semana Santa.

Porto Franco, anos 1960 (Foto Antônio do Vale)
E o acorde do clarim do Exército também me comove: Será o cabo Brasil, ou o soldado Canindé executando tão bem o toque de silêncio? Sim, o toque de silêncio. Aquele som plangente que varava a noite de incertezas ordenando à população o recolhimento ao lar. Em Areia Branca vivíamos o período de apreensões causado pela Conflagração Universal.
Quem não tem saudade da sirene do velho Cine coronel Fausto, avisando aos seus habitués a hora de começar a sessão? E o dobrar do sino da Igreja, (sem ser aquele do filme “Por Quem os Sinos Dobram?”) cujos repiques, Antônio Sacristão, irmão de Marciana, tocava tão bem? E, por falar em Marciana, quem esqueceu dos seus alaridos, suas queixas?
- “Valei-me meu padrinho Lustosinha”, – que deixavam José Brasil preocupado, pois era na saleta do seu cartório que ela, Marciana, despejava o produto de suas lamúrias!

Prédio onde funcionou o Cine Cel. Fausto (dois andares), na época calçamento da Rua Cel. Fausto (antiga Rua do Meio). Foto Vale.
Ah! E do misto de Chico Germano, cuja buzina tocava aquela modinha do cangaço? “Acorda Maria Bonita/ Levanta vem fazer o café/ O dia já vem raiando/ E a polícia já está de pé”. Se não posso ouvir todos esses ruídos, pelo menos tenho esperança de escutar, brevemente, as batidas do relógio da igreja, há algum tempo “aposentado”. O prefeito Souza prometeu que restauraria o marcador das horas com suas badaladas. E Souza não é homem de prometer para faltar! Somente um pedido, senhor prefeito: aproveite, e recupere a varanda que havia no topo da torre. Era linda e dava um charme todo especial. Os saudosistas agradecem.

(Crônica publica na Gazeta do Oeste, Mossoró, RN.)
O texto apresentado a seguir foi postado como comentário à crônica de Marconi e Marcelo Dutra, sobre a Escola Santa Terezinha. Causou tanta impressão em Marcelo e em mim, que decidimos publicá-lo como uma crônica. Temos razões para assim proceder:
- Trata-se de um texto com uma extraordinária carga emocional. A publicação aqui é uma homenagem à autora e seus amados antepassados.
- Publicado com a devida contextualização, que faremos após o texto e que esperamos ser complementados com comentários de outros visitantes do blog, sobretudo de Antônio Fernando Miranda (que memória ele tem!), se constituirá em importante documento a respeito de uma parte da vida e do espaço urbano na Areia Branca dos anos 1950. Para elaborar a contextualização, mantivemos contato com a autora, por intermédio do correio eletrônico.
- Finalmente, uma motivação acadêmica. Esse tipo de iniciativa que estamos empreendendo tem um potencial histórico e sociológico fantástico. Uma pessoa lá nos EUA, encontra-se virtualmente com outras, umas aqui outras acolá para reconstituir uma parte da história que de outro modo ficaria perdida após a morte desses correspondentes. Agora, esses fatos estão registrados. É verdade que com a peculiar perspectiva de Dodora, mas trata-se de uma peça importante no quebra-cabeça histórico.
O texto de Dodora
Eu nasci em Areia Branca em 1938.
Minha familia mudou para o Rio de Janeiro quando eu tinha 11 meses de idade(a minha mae foi na frente para morar com uma irma e arranjar emprego) mais com a minha querida e saudosa Avo voltei a Areia Branca 8 vezes .
A historia da minha familia e enorme , pois a minha avo casou duas vezes e teve 17 filhos todos nascidos em Areia Branca.Muitos morreram.
Mais a unica da familia que sempre ia a Areia Branca e sempre me levava era a minha avo.
O nome dela era Josefa Bernardo da Costa e tinha um marido que bebia muito e que fiou em Areia branca .O Pedro. Ele faleceu em 1964 ou 1965
Ela contava que quando chegava de navio .O navio ficava ao largo e ela descia em uma escada de corda comigo no colo, depois pegavamos um barco e saltavamos no cais.
Os filhos nao tinham muito orgulho do pai e por este motivo se desgostaram e nunca mais quiseram voltar.
No Ano de 1952 voltei a Areia Branca e fiquei 2 anos so retornando ao Rio de Janeiro em Maio de 1954.
E este e o periodo que quero relatar.
Conheci a Areia Branca que so tinha um cinema .Nao lembro do nome. ,mais era localizado na rua do meio quase em uma esquina Foi la que vi o filme SanSao e Dalilah .
Naquela epoca as unicas ruas que se podia caminhar e que a areia nao tomava conta era a rua da frente, rua do meio, e o jardim (assim que chamavam a pracinha)
Foram os melhores dois anos da minha vida.
Brinquei Carnaval no baile da Prefeitura,
Dancei pastoril(Era do cordao encarnado)
Corri para a Ilha quando todos corriam quando chegava um elicoptero na cidade que era coisa rara.
Namorei varios rapazes e por um eu era apaixonada.
O nome dele era Titico e quando estavamos namorando(imagina com 15 anos )a familia dele mandou ele para Mossoro ou Natal .Nao lembro.
Creio que para servir o exercito e estudar.Quase morri.
E ele fez uma linda Serenata para mim.Inesquecivel para uma menina de 15 anos que morava no Rio de Janeiro onde nao existe estas maravilhas.
Ele ainda voltou a Areia Branca 1 vez e depois nao tive mais noticias.
Mais era gostoso namorar em Areia Branca.
Os rapazes ficavam encostados nos postes do Jardim e as mocas ficavam dando volta no Jardim(a praca em enter a Igreja e Prefeitura) ate que um encostava, como chamavam naquele tempo.
O autofalante da Prefeitura tocaca sempre aquela musica .
India Teus cabelos nos ombros caindo.Negros como a noite que nao tem luar………………………………………..
Fiz o que uma jovem na minha idade em Areia Branca fazia sem me machucar moralmente. Aproveitei a minha mocidade.
Fugia aos Domingos para ir dancar nas valsas da rua de traz(lugar proibido naquele tempo, pois nao ficava bem uma moca de familia ir para a rua de traz.
Sei que estudei no periodo que estive em Areia Branca mais nao consigo lembrar do nome da professora.
Tambem eu nao estava muito interessada pois sabia que ia voltar para o Rio de Janeiro,.
Me lembro que uma vez me disseram que eu tinha que ir cantar no cinema, pois iam vender ingresso, para levantamento das obras de caridade para comecarem os alicerces do primeiro Hospital em Areia Branca.O cinema ficou superlotado.
Fui candidata a rainha de algunha coisa que tinha a ver com o pastoril e ate venderam as minhas fotografias em um vestido londo .
Mais nao ganhei. Na ultima hora a outra candidata coldocou todos os votos e ela foi coroada.
Nao lembro do nome da minha oponente.
Mais uma coisa ela nem ninguem conseguiu tirar foram as memorias maravilhosas que tenho desta cidade.
Uma das musicas que fizeram para eu cantar comecava assim
O MINHA AREIA BRANCA TERRA TAO QUERIDA .
DE TODOS OS TEUS FILHOS TU ES DOCE GUARIDA
FICARAS ETERNAMENTE EM NOSSOS CORACOES………………………
E assim foi.Ficou eternamente no meu coracao.
Voltei para o Rio de Janeiro em 1954 e casei em 1958 .
Tive dois filhos e no ano de 1971 mudamos para os Estados Unidos.
Completamos Outubro ultimo 50 anos de Feliz casamento.
Mais voltarei a Areia Branca ,Meu filho ja me prometeu.
Pena que algunhas das pessoas que tenho memoria e que lembro os nomes que a vovo comentava sempre historias das comadres e compadres, com certeza nao estao mais nesta terra.
Alguns dos nomes mencionados eu lembro bem.
Dna Ritinha e Dr Gentil.
Joao da Quidoca, eu lembro que vovo era muito amiga da Dna Quidoca e que tinha alguns filhos, e filhas.
Sei que eu tinha uns padrinhos que moravam em uma casa muito grande na rua do meio, e que os fundos da casa dava para a rua Silva Jardim e eu sempre ia na casa deles e entrava pelo portao dos fundos pois moravamos na Silva Jardim.
Eles tinham bastante filhos, mais infelizmente nao lembro do nome deles.
As meninas eram muito boas e amigas.
Eu adorava jantar na casa deles, a comida era uma gostosura.
Tinha uma senhora muito bonita que morava na rua da frente, eu penso que o nome dela era Maria Dehil., que foi muito boa comigo e era ela que me ajudava com as fantazias do pastoril.
Ela era envolvida com a igreja, e todas as nossas festas eram com objetivo de levantar dinheiro para o hospital
Quando eu estava em Areia Branca houve uma tragedia.
Uma familia muito boa que morava na Rua Silva Jardim tinham dois filhos homes eu penso que tambem tinham mocas.
Eram mais velhos do que eu .
Sei que a historia era que um dos filhos estava namorando uma mulher casada e o marido descobriu saiu uma briaga e um dos irmaos que nao tinha nada a ver com coisa atirou no marido de infiel.
Foi uma tristeza total, porque o que atirou era considerado uma pessoa calma ,incapaz de matar uma mosca.
Nao sei em que ficou a historia, pois como disse voltei para o Rio de Janeiro.
Outra coisa que eu adorava em Areia Branca era o dia de malhar o Juda.
Aquela historia que a gente tinha que ficar a noite toda acordada velando o juda para ninguem roubar o bendito.Era fabuloso.
Aquilo era genial.
Imagina que quando voltei ao Rio que tentava contar as minhas amigas ninguem acreditava.
Bem Adorei ver o que voces escreveram sobra a minha querida Areia Branca.
Para mim uma surpresa maravilhosa.
obrigada pelas boas fotografias.
E exatamente o que tenho na minha memoria.
Espero que quando volte ,nao encontre tao diferente.
Adoro esta terra do jeito que ela e.
Dodora
Nossa contextualização (as fotos aqui apresentadas são de Antônio do Vale)
Com o croqui da Areia Branca de 1930, que Deífilo Gurgel colocou em seu livro, Areia Branca. A terra e a gente, montamos o espaço Dodora.
Dodora diz: “Sei que eu tinha uns padrinhos que moravam em uma casa muito grande na rua do meio, e que os fundos da casa dava para a rua Silva Jardim e eu sempre ia na casa deles e entrava pelo portao dos fundos pois moravamos na Silva Jardim.”
Provavelmente Dodora morava na altura do ponto indicado pela casa. Os padrinhos que ela se refere deve ser Celso Dantas e sua esposa (como era seu nome?), que moravam em um verdadeiro palacete (veja foto abaixo), próximo ao Cine Cel. Fausto, na época o único cinema em Areia Branca. Poucos anos depois seria instalado o Cine São Raimundo, próximo ao ponto onde anos depois foi construída a Maternidade sarah kubitschek. No início dos anos 1960 foi construído o Cine Miramar, na rua do Meio, atual Cel. Fausto.
Seu avô Pedro era uma personagem bem conhecida. Lembro bem de meu pai mencionando seu nome, “Pedro de Zeja”, mas não lembro sobre o que ele falava.
“Ela contava que quando chegava de navio .O navio ficava ao largo e ela descia em uma escada de corda comigo no colo, depois pegavamos um barco e saltavamos no cais.” Dito assim, parece que o navio ficava ali perto. O navio ficava na costa, como se dizia. Ou seja, em alto mar. Para chegar até o cais era uma aventura. Era tão longe, que do cais víamos apenas as silhuetas dos navios.
Aliás, há uma historinha muito interessante a esse respeito. Havia em mentiroso “profissional” em Areia Branca. Não lembro o nome, mas presenciei algumas das suas mentiras, no Armazém de Antônio Calazans. Ele adorava mentir, acho que só para ver a reação dos incrédulos. Uma vez estávamos no cais, ele e um monte de jovens e adolescentes. Daí ele diz: Tá chegando um navio japonês. Imediatamente alguém retrucou: Como é que você sabe que é japonês? Ora, pelo nome! Isso é que era vista telescópica.
Dodora, olhaí o Cine Cel. Fausto, onde você assistiu “SanSao e Dalilah”.
“Namorei varios rapazes e por um eu era apaixonada.
O nome dele era Titico e quando estavamos namorando(imagina com 15 anos )a familia dele mandou ele para Mossoro ou Natal .Nao lembro.
Creio que para servir o exercito e estudar.Quase morri.“
Quem era Titico?
Dodora me informou que: “ele era alto, claro com cabelos escuros. Ele morava na rua que creio posso chamar da Rua do Meio, pois era a continuacao da Rua do meio . Se voce estiver em frente a prefeitura olhando para a direcao do mar e da Igreja e a rua que vai sem sentido direito. A casa deles nao era muito perto da prefeitura“.
Por esta descrição deveria morar depois da casa de Antônio Noronha, em direção à travessa dos Calafates.
“O autofalante da Prefeitura tocaca sempre aquela musica . . “. As músicas que tocavam nos autofalantes dos cinemas merece um texto especial.
“Quando eu estava em Areia Branca houve uma tragedia. Uma familia muito boa que morava na Rua Silva Jardim tinham dois filhos homes eu penso que tambem tinham mocas. Eram mais velhos do que eu. Sei que a historia era que um dos filhos estava namorando uma mulher casada e o marido descobriu saiu uma briaga e um dos irmaos que nao tinha nada a ver com coisa atirou no marido de infiel. Foi uma tristeza total, porque o que atirou era considerado uma pessoa calma ,incapaz de matar uma mosca. Nao sei em que ficou a historia, pois como disse voltei para o Rio de Janeiro.“
Alguém lembra dessa história? Eu lembro de um assassinato bárbaro na Silva Jardim, mas acho que foi alguns anos depois, aí por volta de 1957.
Ano II, n. 3, 1998
Fotos de Antônio do Vale
Aproveitando a deixa do artigo assinado pelo Rodrigues, quero dizer que tenho diversas e belas recordações do Cine Miramar e do Cine São Raimundo, principalmente porque, fazendo minhas as palavras da titia roqueira Rita Lee, “ No escurinho do cinema / chupando drops de anis / longe de qualquer problema / perto de um final feliz ”, era como nos sentíamos naqueles anos
sessenta. Não lembro qual o primeiro filme que assisti. Certamente foi numa vesperal do Cine São Raimundo, pois em meados dos anos cinqüenta este era o único cinema em Areia Branca. O Cine Cel. Fausto, como cinema, é uma imagem difusa na minha mente. Não lembro de ter aí assistido filme. Lembro do prédio ainda inteiro, e com o passar dos anos acompanhei seu progressivo desmoronamento. No canto direito da foto à esquerda, um dos últimos registros do Cel. Fausto, pra variar, foto de Antônio do Vale.
Com a completa transformação do prédio do Cine São Raimundo, o Cine Miramar é o que resta de registro arquitetônico da sétima arte em Areia Branca. Na foto à esquerda, Antônio do Vale pretendia registrar uma enchente nos anos sessenta, mas captou, ao fundo (à direita) o antigo prédio do Cine São Raimundo.
Ao que me lembro, esses foram os únicos cinemas de Areia Branca. A propósito, quem lembra o primeiro filme projetado no Cine Miramar? Tenho a impressão que foi “Folhas Secas”. Terá sido isso mesmo? O Celso Luiz, que tem memória de elefante, bem que poderia tirar essa dúvida.
Logo após a inauguração do Cine Miramar (prédio de 2 andares), um colega nosso conseguiu roubar uma chave que abria a porta dos fundos, que ficava no beco da Galinha Morta (ah! Que memória horrorosa! Tenho dúvidas se estou falando do beco correto. Ocorreu-me que o beco da Galinha Morta poderia ser aquele que desembocava na “rua da Saudade”, em cuja esquina ficava a oficina de Reinério -saudades de Wellington!). Enfim, correto ou não o apelido do beco, o fato é que entrávamos com a maior tranqüilidade e assistíamos filmes e mais filmes gratuitamente. Não lembro exatamente como essa história terminou, mas sei bem que perdemos a chave. Creio que Clécio lembra disso. Perguntarei depois.
Outro dia acompanhei um debate num programa de rádio aqui em Porto Alegre , sobre o “escurinho do cinema”. Descobri que, tantos anos passados, tecnologia virtual, DVD, vídeo laser, liberdade sexual, camisinha (e uso de), nada disso foi capaz de acabar com a mística do namoro no cinema. Neste particular, o mezanino do Cine São Raimundo era imbatível. Todos sabíamos, para se ver um filme bem acompanhado no Cine São Raimundo, teríamos que sentar lá em cima, de preferência na última fila de cadeiras, ao lado do box onde ficava a câmara de projeção. Tinha-se que chegar bem cedo, para sentar na última cadeira do mezanino.
A propósito, lembro de uma história bem interessante. Lá pelos anos 60, dois amigos namoravam duas amigas. Costumavam ir juntos ao cinema. As meninas, muito assanhadas, insinuavam as possibilidades de carícias mais apimentadas. Chicletes rolavam de uma para outra boca, atingindo o clímax num incomensurável prazer. Aparentemente, o mais jovem dos meninos não tinha conhecimento dessa prática, corriqueira entre os mais velhos. Na saída do cinema o mais velho perguntou ao mais jovem:
- Sua namorada lhe deu um confeito?
- Deu, respondeu o mais jovem.
- O que você fez com ele?, perguntou o mais velho.
- Comi , respondeu o mais jovem, com a candura de um amante neófito.









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