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Areia Branca perdeu, nesse mês de novembro, duas personalidades do seu folclore. A história das traquinagens adolescentes na salinésia não pode ser contada sem amplas referências a Zé Moconha. Da mesma forma, a história do nosso futebol passa obrigatoriamente pelas diabruras nascidas nos pés de Lourinho. As datas me foram informadas por Antônio José. Dedé de Antônio Noronha, se foi dia 10 e ontem, 24, foi a vez de Lourinho de Chico Mariquinha.
Ambos foram objeto de crônicas nesse blogue, cujos links apresento abaixo para um momento de singela homenagem.
http://areiabranca.wordpress.com/2008/12/03/ze-moconha/
http://areiabranca.wordpress.com/2009/02/07/lourinho/
http://areiabranca.wordpress.com/2009/08/08/o-dono-da-bola/
http://areiabranca.wordpress.com/2009/09/14/madureira-cheio-de-gloria/
Não, não pense que ele fazia sofismas, qual o pensador grego. O “jogador socrático” aqui significa que ele possuía aquele físico longilíneo e refinada arte no domínio e no gingado com a bola, como o craque da seleção brasileira de 1982 e 1986. Só o vi uma vez em ação. Foi o bastante para jamais esquecê-lo. Tinha esquecido seu nome, mas Celso Luiz, com sua memória de elefante, me socorreu: era Felinho. Deve estar beirando os 70 anos hoje em dia.
Naquela época, 1957-1959, eu, com meus 10 anos de idade morava na Silva Jardim. O Ypiranga ia enfrentar um time de fora, Mossoró, Macau ou Açu, não lembro. Acho que era de Mossoró, mas isso tem pouca importância. O fato importante é que o jogo se anunciava difícil, previsão comprovada ao longo de boa parte da partida. Não lembro de quanto ganhamos, mas a jogada que selou nossa vitória não me sai da memória.
Felinho era centroavante, “center for”, como diziam os contemporâneos do meu pai (Center forward é a expressão correta). Estava na sua posição de ofício quando a bola lhe chega na altura do peito. Faz o movimento clássico de quem conhece o metiê: estufa e encolhe o peito rapidamente; a bola, magnetizada pela beleza do movimento torácico, ali gostaria de ficar parada, mas Felinho a deixa escorregar até o seu pé direito, dá um balãozinho no adversário e estufa a rede. Lembra aquele gol que Pelé fez na Suécia? Foi igualzinho!
Foi uma gritaria no Campo da Saudade, diria mesmo uma quase histeria naquela ensolarada tarde de domingo. Não sei se aquilo aconteceu no último minuto do jogo, mas tudo que me aparece na memória diz que o jogo acabou em seguida. Felinho foi rodeado de admiradores, na maioria crianças e adolescentes, eu entre eles, para testemunhar e contar essa história. Ele jogava como Pelé, e sambava como um passista carioca, sambou ali mesmo na roda de seus admiradores.
Mas, quem era Felinho, esse prodígio areia-branquense? Pelo que lembro, era de Aracati, estava de férias em AB, coincidentemente na casa de alguém que morava na Silva Jardim, entre a esquina da nossa casa e a travessa dos Calafates. Mais do que isso não lembro.
No final dos anos 1990 estive em Areia Branca, oportunidade em que consultei o extraordinário acervo fotográfico de Chico de Janjão. Essa foi a parte alegre da visita. A parte triste foi o estado de saúde de “Seu” José Solon. Na visita simbólica que lhe fiz, fiquei na calçada com meus diletos amigos, Dedé (filho), Carlos Soares (genro) e Celso Luiz (vizinho). Foi nessa conversa de rememorações que discutimos o primeiro filme no Cine Miramar, e Celso me lembrou o nome de Felinho. Disse que ainda costumava visitar AB.
Alguém lembra desse acontecimento?
Lourival Rocha é seu nome, Chico Mariquinha seu pai. A foto ao lado retirei de uma foto maior, exposta em http://portalcostabranca.blogspot.com/2008/10/reviva-areia-branca-do-passado-no-nosso.html. O portal não informa a autoria da foto. Talvez seja de Antônio do Vale, mas não há sua famosa assinatura, AVale.
Entre 1953 e 1959 morei na rua Silva Jardim, quase ao lado da casa do seu pai. Na adolescência cheguei a jogar futebol de Salão com ele, acho que no Renner (com Chico Carlos, Décio de Pascoal) e no América de Jonas de Josué, com Chico Carlos, de quem falarei em outra oportunidade.
Tenho na memória duas historinhas. Uma eu presenciei, boquiaberto, no Campo da Saudade. A outra me foi relatada pelo meu irmão, Clécio, e teria acontecido na quadra de Futebol de Salão (Praça de Esportes Maria Duarte).
Não lembro o ano (década de 1960) nem o time pelo qual ele jogava. Muito menos o time adversário. Mas, a jogada, que jogada, está ainda hoje nítida na minha memória. Parece que estou me vendo de pé na lateral do campo, na altura da meia-cancha adversária. Lourinho atacava pela ponta esquerda, a cinco metros de onde eu estava, quando alguém deu um balão em sua direção. Foi um alvoroço naquela zona do campo. Os defensores, uns dois ou três correram para o local, olhando para cima e se encandeando, enquanto a bola descia. Lourinho ali, parado, olhando com calma a trajetória da bola. Quando ela aproximava-se do chão, deu dois ou três passos para trás. A bola quicou em algum buraco do terreno, encobriu os defensores e foi cair mansa no seu peito. Depois do primoroso lançamento para a pequena área, seu centro-avante, que não lembro quem era, cumpriu a tarefa do seu métier com um gol antológico.
Lourinho não era apenas um jogador genial, era um malandro. Sabia driblar e irritar os adversários, duas armas fatais no futebol. No time de futebol de salão adversário, um marcador implacável, fungando, como se diz na gíria futebolística, sem parar. Bola na direção de Lourinho e lá vinha o zagueirão junto. Conhecedor do pavio curto do adversário, Lourinho postou-se atrás e passou a mão na sua bunda. Coisa que qualquer jogador de futebol suporta olimpicamente, não aquele zagueirão. “Não faça isso, sou homem casado”, disse irritado com o dedo em riste. Lourinho corre de um lado para outro, deixa passar umas duas jogadas e de novo passa-lhe a mão, dessa vez com um pouco mais de vigor. Não deu outra, o zagueirão virou-se, meteu a mão na cara de Lourinho e foi expulso.
Atualizada em 2 de maio de 2008
Há muito que venho alimentando a idéia de compilar fatos e boatos ocorridos ou ditos na Areia
Branca dos anos sessenta. O plano tem sido discutido, aqui e acolá, numa ou noutra mesa de bar (ei, Flávio de Pitita, diga aí, não me deixe mentir
sozinho, homem!). Agora, com a leitura dos livros de Zé Jaime e Wilson de Moisés a vontade de realizar o plano tornou-se obsessiva.
Em recente visita que fiz ao Mirabô, ouvi dele a promessa de participar ativamente do projeto, coletando depoimentos (orais e escritos) e escrevendo suas “memórias” daquela época (ei, Bobô, você prometeu escrever sobre as músicas que fizeram nossas cabeças; aquelas para serenatas e aquelas para o “rala-bucho”).
Para a nossa geração, a obra poderá servir como agradável e nostálgica volta aos felizes dias de
adolescência e juventude. Mas, mais importante do que isso, o resgate de regras e comportamentos sociais proporcionará a montagem de um texto sociologicamente significativo. Por exemplo, na época em que as ruas de Areia Branca não eram calçadas (nem com paralelepípedo, nem com asfalto), os meninos costumavam praticar jogos hoje desaparecidos, tais como tica-bandeira (ou bandeirinha), fura-chão e pião, além das disputadíssimas partidas de futebol, acirrando as rivalidades entre os times da rua do meio e das ruas de trás. Certamente teremos histórias a contar sobre esses jogos. Como eram mesmo o nome e a regra daquele jogo de pião em que o vitorioso tinha o direito de bicar o pião do adversário? Recentemente, Evaldo Alves de Oliveira, hoje médico em Brasília, fez uma interessante contribuição, com seu livro Reaprendendo a Brincar: uma viagem à minha infância. Em breve deverei me ocupar dessas e outras publicações, mas a idéia aqui é provocar amigos e amigas de antanho.
Com a extraordinária fama da Canoa Quebrada de nossos dias, seria interessante que alguém relatasse como era vista essa praia nos anos sessenta. Ei, Altair o que é que você achava de Majorlândia? Conta pra gente! A propósito de praia, o que dizer das nossas caminhadas dominicais (alguma vezes com namoradas!), indo pela praia de Zé Filgueira, atravessando o Pontal e a Costa, para chegar em Upanema? Alguém tem uma história (fato ou boato) sobre os piqueniques escolares, aquele ingênuo lazer que passou a caracterizar os farofeiros de hoje? Quem lembra de Casca-de-ovo (o meu coração é só de Jesus / a minha alegria é o…)? Alguém lembra o último filme do Cine Coronel Fausto?
A propósito de lembrança, uma pequena provocação ao Zé Jaime: homem, você esqueceu Dona Alice Carvalho, minha primeira professora, na Escola de Dona Chiquita do Carmo. Depois fui aluno da prof a Maria Felipe na 3a e 4a Série. Na 5a Série fui estudar com a prof a Geralda Cruz, cujo rigor disciplinar nos deixava arrepiados. Lembram daqueles tarugos de madeira, com formato triangular, que eram colocados sobre os papéis nas escrivaninhas? Pois certa vez a prof a Geralda Cruz arremessou o exemplar que estava sobre sua mesa, em direção às costas de um aluno malcriado, cujo gemido deve ter sido ouvido na rua.
Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens
típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos os pontos de contato comportamental entre sociedades tão diferentes. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord, de Fellini. A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel, assim como Rimini está para Areia Branca.
Amarcord também tinha um farol, como o da praia de Upanema.
Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão.
Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, nos escombros de uma velha edificação. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério.

Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mentia feito nosso Chico Pavão.
Recentemente revi Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone. Uma edição em DVD, com comentários, entrevistas e depoimentos de pessoas envolvidas com o filme ou profissionais de cinema. Bernardo Bertolucci confessa que sentia-se o próprio caubói, depois que assistia um filme com John Wayne. Também éramos assim em Areia Branca. Havia casos até mais curiosos: um amigo estava convencido de que era a encarnação salineira de Jean-Paul Belmondo.





