You are currently browsing the tag archive for the ‘manoel avelino’ tag.

O título é muito maior do que a pequena nota que o acompanha. Foi Antônio José quem me chamou a atenção para os fatos relatados, em duas mensagens enviadas recentemente. São contribuições importantes para a montagem do nosso cenário histórico. Um estudante de pós-graduação de ciência política ou sociologia bem que poderia apropriar-se do mote e desenvolver um estudo mais sistemático. Que resultaria em relevante material não tenho a menor dúvida. E aqui mesmo no blogue temos o início do caminho das pedras, representado pelos textos relacionados abaixo. Antes do relato de Antônio José, um lembrete do Editor. O objetivo deste espaço é contribuir para o resgate da História de Areia Branca. Não devemos cair na tentação da discussão política contemporânea, que poderia desvirtuar a tão apreciada rota do blogue. A referência que Antônio José faz a Paulo Wagner tem a sua justificada pertinência tão somente pela contextualização histórica.

Nosso memorialista resgata fatos que já se esvaíram da minha memória. Por exemplo, em 1962, Areia Branca teve quatro candidatos a deputado estadual: Manoel Lúcio, Antônio do Vale, Celso Dantas Filho e Manoel Avelino. Reclama que nós, areia-branquenses, não soubemos aproveitar, ou que a classe política não soube dar um seguimento consistente dessa inserção na política estadual. Nesse contexto lembra que depois de décadas, Areia Branca tem um representante no cenário nacional, o deputado federal Paulo Wagner, sobrinho de Sebastião Leite e do Procurador Geral do Estado, Miguel Josino Neto, que vem a ser filho de Sebastião.

Euclides Leite Rebouças, o saudoso Quidoca, avô de Paulo Wagner e Miguel Josino, foi vereador, eleito com 100% dos votos de Ponta do Mel, comunidade que representava na Câmara de Vereadores de AB. Será que há outro caso igual no Brasil?

O Editor acrescenta: dos quatro candidatos a deputado, Manoel Avelino foi o eleito. Foi deputado durante 4 ou 5 legislaturas (Antônio José, pode confirmar isso?). No final da carreira perdeu uma eleição para prefeito, após o que ocupou o cargo de representação do governo do RN em Brasília, até sua morte prematura, resultado de um infarto fulminante.

Textos sobre política em AB:

Há muito que estou para escrever esta crônica, mas um preciosismo besta foi empurrando o ímpeto para depois, em busca de um tom irretocável. Pura idiotice, dada a inexistência de “um tom irretocável”. Quando, em seguidos e recentes textos colaboradores e visitantes do blogue passaram a fazer referências a Manoel Avelino, incluíndo seu neto Isaac, a pretensão, sufocada pela avalanche sociológica, deu lugar à necessidade inadiável de soltar os registros de minha memória.

Os Avelinos eram primos de meu pai. Meu avô, João Avelino dos Santos era tio deles. Depois de ter trabalhado com Antônio Calazans durante vários anos, o primeiro e único empreendimento do meu pai foi aquele bar mencionado na crônica de Chico de Neco Carteiro (http://areiabranca.wordpress.com/2010/09/10/becos-ruas-e-esquinas/). A história daquele bar é tão trágica em nossa família, que jamais falamos sobre ele. Não sei quanto tempo durou. Provavelmente menos de 5 anos, pois foi com essa idade que nos mudamos da Cel. Liberalino para a Silva Jardim e meu pai já não possuía o bar. Ele o perdeu praticamente em mesas de baralho. O extraordinário senso de economia doméstica da minha mãe foi quem nos salvou. A partir de então e até a sua morte foi ela quem administrou todas as economias da casa. E foi Manoel Avelino quem nos colocou em situação econômica suportável. Conseguiu emprego para meu pai no correio e provavelmente ajudou também a colocá-lo no sindicato dos conferentes.

Sempre tive boas relações de amizade com os Avelinos (Vicência, Manoel e Chico) e seu filhos, Raimundinho, Graça e Chico Novo (foto). Poderia falar das vezes em que, ao lado de Raimundinho fui comer bolo na casa de dona Cota, sua avó, mãe de Manoel Avelino. Morava na Rua da Frente, ao lado do armazém de Antônio Calazans. Coincidentemente Manoel e Chico tinham esposas com o mesmo nome. Entre os íntimos, eram conhecidas como Jandira de Manoel Avelino e Jandira de Chico Avelino. Em uma crônica antiga relatei um dos últimos contatos que presenciei entre meu pai e Chico Avelino (http://areiabranca.wordpress.com/2009/03/03/um-nao-fala-o-outro-nao-ouve/).

Em 1960 fui para Natal, estudar no Marista e morar na casa dos meus avós. Manoel Avelino, deputado estadual, morava na Rua Potengi, próximo ao Atheneu e bem em frente à sede social do ABC. Uma simpática casa de dois andares que eu frequentava com muito prazer pela gentileza com que era recebido por Jandira, uma mulher bonita, elegante e de uma educação comovente.

Eu tinha uma profunda admiração por Manoel Avelino, pela sua inteligência e pela extraordinária maestria com que manipulava as palavras. Era um orador à altura de um Cícero. Exagero à parte, não havia quem ficasse alheio a um discurso de Manoel Avelino. Até hoje, uso expressões que ouvi pela primeira vez em seus discursos, que acompanhei ainda criança em Areia Branca, e durante a adolescência em Natal, no programa que ele mantinha na Rádio Nordeste.

Mas, eu tinha a nítida sensação que Manoel Avelino não me via com bons olhos. Nossas relações sempre foram um pouco conflituosas, pois eu me atrevia, tinha a audácia de questioná-lo com uma frequência que ele deveria considerar intolerável. Em função disso, ele sempre demonstrou mais afeição pelo meu irmão mais novo, Clécio. Em contrapartida, não sei se por um simples mecanismo de compensação ou por empatia mesmo, Jandira me cobria de afagos. E como aquilo me fazia bem. Jandira, quando eu for a Natal quero limpar essas lágrimas dos olhos tomando um café na sua casa.

Texto de Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro)

Era assim que, em tempos idos, a gente chamava aquele beco que dava acesso à praia de Upanema. E, para se chegar até lá, somente em jipe de tração nas quatro rodas, como o de seu Alfredo Rebouças, gerente da Cia. Comércio e Navegação. Salvo engano, o único de então na cidade.

A não ser assim, o negócio era enfrentar aqueles mil e duzentos metros a pé. Além de ter que romper um areal frouxo, o transeunte se deparava com uns carrapichos pretos, ditos cabeças-de-boi, que lhe infernizavam a sola dos pés. Como sofreram os jovens da Cruzada Eucarística quando faziam seus piqueniques ali.

Na época do veraneio, algumas famílias, de certo prestígio, arranjavam o caminhão da prefeitura, que as conduzia até onde iniciava o areal; a pé, os veranistas levavam alguns utensílios e mantimentos, enfrentando certa dificuldade, mas valia pelo lazer que os aguardava. De número reduzido, as casas eram de taipa, chão de barro, cobertas com palhas de coqueiro.

Foi no ano de 1953 que o prefeito Manoel Avelino deu início à construção de uma estrada para beneficiar aquele caminho. Talvez pela falta de recursos financeiros, ou por não existir material próprio, foi utilizado o lixo coletado na cidade que era colocado ao longo do beco. Uma grande peste de mosca tomou conta do local, incomodando alguns moradores nas imediações. Jerônimo Rolim, cuja casa era situada bem à beira da passagem, foi dos que mais sofreram.

Para amenizar o problema o prefeito mandou que, logo após despejar o lixo, fosse jogada areia sobre ele.

Até que, com muito custo, conseguiu terminar a obra. Convém salientar que todo o serviço foi realizado com um caminhão, pás e picaretas, de vez que não se dispunha de trator ou qualquer outro mecanismo, a não ser o braço humano.

Concluída a empreitada, se não de primeira qualidade, mas de muita serventia ao povo areia-branquense. Logo apareceram coletivos, como a “Escandalosa” de Luiz Cirilo, o “Pau de Arara”, de Antonio Bernardo, fazendo a linha até a Casa do Farol, local da chegada. A meninada agora  tinha mais um lazer além do gostoso banho na maré.

Se na ótica do ex-presidente da República Washington Luiz, “governar é construir estradas”, Manoel Avelino, com a construção daquele quilômetro e duzentos metros de estrada, facilitou chegar-se à praia mais perto de Areia Branca. Sem dúvida, um sonhado benefício pelo seu povo.

Hoje, o antigo e penoso percurso de um quinto de légua, transformou-se numa pista asfaltada, graças à ação de sucessivos prefeitos. Muitos dos que se deleitam, trafegando por ela nos seus veículos confortáveis, não sabem como sofreram os jovens da Cruzada Eucarística, tendo que enfrentar os espinhentos “cabeça de boi”, para chegarem ao agradável recanto do Atlântico.

Texto de Antônio Fernando Miranda

(Veja também a Parte II)

O grande problema de Areia Branca, o abastecimento de água potável, remontava desde o tempo em que a cidade era um povoado. Segundo o professor Deífilo Gurgel, em seu livro Areia Branca a terra e a gente, depois da grande seca de 1877, conhecida como “a seca grande”, foi construído um pequeno açude no local onde hoje é a Praça Luiz Batista. Como nasci na rua João Felix com Machado de Assis, numa casa onde hoje é a papelaria Brasil, lembro nos anos 40 do século passado, quando burros e carroças, vinham se abastecer, para vender a água aos seus habitantes. Porém, naquela época a água só servia “para o gasto”, ou seja, para lavar roupa, louça e tomar banho. O abastecimento da água potável era feito por burros e carroças, de várias cacimbas existentes no Upanema de Cima. As mesmas eram conhecidas pelos nomes de seus donos. Assim havia a cacimba de Pitico, de Pedro Rodrigues, de João Ramos, Rufino, Antonio de Pautilia, esta e outras ainda existem (foto abaixo). Somente este ano tomei conhecimento dessas que ainda existem, graças às informações prestadas pelo senhor Manoel Gonzaga da Silva, que foi um guia neste assunto.

A única cacimba que frequentei, algumas vezes em companhia de um primo que ia lá colher água, foi a que existia no farol da praia de Upanema, atrás da casa do faroleiro, e que até hoje, apesar de encoberta por uma laje, poderia servir como um marco, caso fosse restaurada. Ela era, e é, de pedra, tendo aproximadamente um metro e pouco de diâmetro, e tinha uma elevação do solo cerca de uns 60 a 80 cm. Foto Miranda

Esta cacimba, bem poderia ser reparada, porque pertence à Marinha do Brasil. Caso semelhante aconteceu em Fortaleza, quando uma cacimba foi aberta no centro da cidade em 1839, e funcionou até 1920.

Esta cacimba, que abastecia os moradores de água potável, foi coberta por uma laje, e durante muito tempo assim ficou, até que na reforma da Praça do Ferreira em 1991, foi restaurada, e hoje serve para o abastecimento da fonte na citada praça, e para mostrar aos seus habitantes, o valor que a mesma tinha na época. Foto Miranda
Foto Miranda Esta é outra cacimba que tomei conhecimento graças ao meu guia, e que também deveria ser restaurada, pois foi obra (ou é ainda?) da prefeitura, e que no momento o terreno onde se encontra, pertence ao senhor Joãozinho ourives. É uma cacimba com aproximadamente 4 metros de diâmetro, que muito contribuiu para o abastecimento da cidade, através dos burros e carroças, e do caminhão pipa da prefeitura.

Duas cacimbas que ficaram famosas pelo zelo dos seus donos, em mantê-las em completo asseio, eram a de Zé Lucena e a de Fransquinha de Pixico. Isto porque nas demais, os que enchiam as pipas ou ancoretas, depois tomavam banho em cima da própria cacimba, voltando a água novamente para ela acrescida do suor. As duas citadas ficavam próxima uma da outra, ambas fechadas a cadeado. Devem ter sido soterradas pela ação dos ventos, no terreno próximo ao reservatório da Petrobrás.

Os burros e carroças eram a adutora móvel, conduzidos pelos tropeiros (na época não se chamavam assim). O mais conhecido de todos foi João de Lelé, que era assim chamado porque, desde a hora que se levantava para ir buscar a água no Upanema, geralmente às 3 horas da manhã, e até encerrar suas atividades do dia, estava sempre assobiando. Ao contrário de dona Lelé, João era um magricela. Havia ainda, Zé de Rosa, Zé da burra e outros. Geralmente os donos dos burros, tinham seus pontos de revenda cujos donos mantinham tambores como coletor de água, que era vendida aos que necessitavam.

Isto porque era difícil fazer o equilíbrio nas ancoretas, pois nem sempre a água era vendida toda em uma mesma rua, e isto causava desequilíbrio. Então, o processo de encher e esvaziar era da seguinte maneira: tirava-se meia lata d’água de uma, e depois da outra, sempre mantendo as mesmas em equilíbrio, e isto tornava o trabalho demorado. Assim, ao retirar uma lata d’água de cada ancoreta, ao iniciar a caminhada dos burros, provocava um balanço, que certa vez causou o rolamento de uma cangalha, indo as ancoretas ao chão. Foto de Abimael Thales

Um dos pontos de revenda da água mais conhecido que eu lembro, era a de Joana do Açu, mãe de Caramuru, Carapoca e Cueca, famosos por suas peripécias. Esta casa ficava na atual rua Deputado Manoel Avelino (antiga rua Dr. Almino) com desembargador Silvério, só que na época, não existia a casa da esquina e a vizinha, não havendo assim o alinhamento de hoje. Certa vez, foi encontrado uma lombriga dentro de um dos tonéis, colocada sem dúvida por um dos três artistas.

Mesmo depois da perfuração do poço, em 15/08/1968, na administração do Prefeito Dr. Chico Costa, para o abastecimento d’água em Areia Branca, o abastecimento d’água continuou sendo feito por burros e carroças, das cacimbas citadas. Isto porque, ao jorrar a água do poço perfurado, a mesma atingia uma temperatura inicial de 70º, que não permitia sua utilização de imediato.

Sanado o problema cruciante da cidade, o abastecimento de água potável, continuou o mesmo nas as comunidades rurais, que será objeto da próxima crônica.Por enquanto apreciem esses tipos de cacimba. À direita, Manoel Gonzaga ao lado de uma cacimba descoberta pela erosão.

Fotos Miranda.

Cacimba de Antônio Pautilia Dono desconhecido
capa_saudades_chico_200px Quando Chico de Neco Carteiro saiu de Areia Branca eu ainda não tinha completado dois anos de vida, mas as personagens com quem ele teve contato e de quem fala nesta maravilhosa obra, ocupam todo o meu imaginário social em AB. Para nossa felicidade, sempre tem um Chico de Neco Carteiro na nossa vida, assim como tem um Antônio Fernando Miranda, um Antônio José, um Othon Souza, essas enciclopédias memorialistas ambulantes.

Outro dia pensei em contar um fato que presenciei, envolvendo Zé de Chumbinho num ringue de box, mas não me lembrava o nome do organizador daquelas lutas. Lembrava que era na casa de Chico Santeiro. O nome me veio à memória quando li “O esporte em Areia Branca” (p.101). Era Parelha quem organizava as lutas, em um ringue imaginário, numa grande área na casa de Chico Santeiro. Depois eu conto essa história.

Sempre relato a história que vivi muitas vezes em relação ao cheiro de melancia na maré. Jamais tinha lido sobre isso, que também fez parte da adolescência de Chico. Ele dá uma explicação que eu não tinha conhecimento: trata-se do arroto do cação ou tubarão.

Cadinha eu não vi jogar em AB, mas vi algumas vezes em Natal. Depois, já aposentado, ia lá em casa para fazer longas caminhadas com meu pai, quando morávamos na Potilândia. Tem uma jogada memorável que assisti no Juvenal Lamartine, que contarei depois.

É para isso que servem as grandes obras: iluminar o caminho literário das gerações futuras. É isso que está fazendo Chico de Neco Carteiro.

Obrigado, Sr. Francisco Rodrigues da Costa!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.