Não adianta sonhar. Eu sei que nunca mais verei as coisas da minha infância. Reviver os fatos, revisitar fisionomias, sentir o vai e vem da cidade no seu dia a dia, com as pessoas caminhando sem pressa no rumo do mercado público. Sem chance.

Não verei as pessoas de então, com os modos e os trejeitos inscritos no tempo, como uma consulta com Dr. Gentil no IAPC, uma conversa com Chico Lino, uma tarde no Tirol, contemplando o rio Ivipanim caminhando com seu passo lento para se entregar ao mar, nem o incansável Chico de Boquinha, que sempre se envolvia nas atividades sociais da cidade. Sua participação no mais famoso pastoril, que foi armado em frente à casa dos padres, vizinho à residência de Antonio Tavernard, foi decisiva para o sucesso daquele evento.

foto antiga de ABnU21voeXTbn9ed4k6a4FT9HnDbXuuyiUGBMJzA9dQgY5jhBh8rIZ6D8TWD0rgAm1T1UCGK1M6HlvbiCDQYImyf7h1cc9j2

Não verei cidadãos e cidadãs no rumo do mercado público com seus baldes de alumínio. Não há mais espaço para o subir e descer correndo pelas pirâmides de sal, sem avaliação dos riscos, sejam estes nos pés ou de morte, e chegarmos em paz à praia do meio. No sentir-se único nessas empreitadas talvez esteja o cerne da nossa vantagem competitiva

Do patamar da velha igreja, não adianta fechar os olhos na tentativa de identificar qual a barcaça que passava com seu jeito brejeiro, exibindo-se para um manguezal que disputava esse privilégio com a Rua da Frente, do outro lado do rio. Os iates, nem pensar.

Nunca mais verei os cataventos girando, tocados pelo vento solto e matreiro que corria pelas várzeas. Lembro das salinas sem qualquer mecanização, onde o suor do homem era subproduto de um esforço sofrido em sua tentativa de substituir por um tempo a força das máquinas que um dia forçosamente viriam. E chegaram com a prepotência dos decibéis e a desproporcional força de seus motores. Nos restos a lembrar, esqueletos de embarcações pairavam à deriva do carbono 14.

carcac3a7a-de-bote1

Sei que não mais verei a Rua do Meio, que parecia estar sempre com roupa e pose de festa. À noite, o Cine Coronel Fausto nos acenava com sua aura de portal iluminado. Sei que hoje as novenas na igreja de Nossa Senhora da Conceição já não têm o amálgama que unia crianças e adultos, servindo de ponto de encontro no depois dos eventos, a pracinha a nos esperar, com as músicas da sonora acariciando nossos ouvidos com as canções de então.

Percebo que as canoas também se foram. Sei que jazem escondidas em um cantinho escuro, na dobra do tempo. E a festa que a chuva trazia, acompanhada de seus ciclopes lançadores de raios e trovões atraídos de um Olimpo ainda não formatado em nós, desentocando a meninada de suas casas para a festa debaixo das bicas. Hoje, sem chance.

DSC03743

E haja água na moleira!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Anúncios