Um cheiro de maresia. Um barulho de um mar revolto tentando em vão afastar as pedras que o impedem de se esparramar na areia, desimpedido.

A noite chega de leve, tomando conta do que antes era luz, cuidando para não se atritar com os vagalumes que chegam mais cedo, pegando carona no vento que ela própria, a noite, desvia do dia. Aqui, uma inusitada transposição.

Ao alcance da mão, duas taças e uma garrafa. Sei bem quem as colocou ali, sem sequer ser vista. E para quê.

No céu, uma confusão de estrelas. As mais brilhantes querem chegar mais tarde, quando o cansaço tomar conta das que brilharam cedo e se desgastaram. No coqueiro em frente à rede, que range no seu vai e vem, um calango com cara de mau tenta amedrontar uma mariposa, que nem se mexe. Apenas olha e prepara as asas; afinal, para que as quer?

Do lado direito, estendendo a visão, um velho farol insiste em avisar aos marujos de todos as latitudes sobre os perigos do mar. E pisca. E acende. Apaga e volta. E eu na rede, que agora balança no tom da provocação, tangida pelas mãos de quem o vinho e as taças ali colocara. Percebo e disfarço. Charminho de quem se imagina amado.

Uma varanda, uma noite enluarada, uma taça de vinho branco, e o som de uma música trazido de longe, com suas estórias marcadas pelo salitre. E eu a ouço. E gosto. Sei que é música brega, que modula ao sabor de não sei quais fatores, mas modula, tentando iludir nossos sentidos agora liberados de seus cuidados, de suas precauções.

Devaneios de uma noite em Upanema.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN