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Pela Rua da Frente dos anos 1950 transitavam pessoas de todos os níveis sociais, de autoridades a trabalhadores das mais diversas atividades. Na Rua da Frente, afinal, estavam as melhores lojas da cidade, como as Lojas Paulista, nossa vizinha do lado esquerdo, que tinha como gerente José Dimas, irmão de Bobô. Ali, Chico de Brito exerceu um dos primeiros empregos de sua vida. A loja de seu Quincó, vizinho à casa de Chico Lino, também estava lá, bem como a maioria das bodegas da cidade, por motivos óbvios. Era na Rua da Frente onde as coisas aconteciam.

Os maiores armazéns estavam ali instalados, como o de Antônio Calazans, o de Quidoca, o armazém de Antônio Noronha, além das bodegas de Chico Lino, seu Josa, pai de Bezinho, a de José Silvino; a bodega de José Leonel e dona Hilda, além da fábrica de vinagre de dona Branca, mãe de Tututa e Lázaro, e da padaria de seu Lalá. Tututa foi aquele jovem que saiu pela Rua da Frente exibindo um rádio tocando sobre a cabeça de um conhecido, chamando a atenção de todos para a novidade do momento. A prova da evolução tecnológica.

Desse modo, era para a Rua da Frente que convergiam os interesses das pessoas, os investimentos que geravam trabalho e emprego. No meio daquele tumultuado ambiente, repleto de barcos grandes e pequenos, uma fauna humana circulava em meio ao cheiro de pixe (asfalto em estado líquido), do barulho típico dos calafates e do emaranhado de sons próprios da movimentação das embarcações.

Muitas pessoas circulavam pela Rua da Frente durante o dia, carregando consigo histórias e enredos nem sempre notáveis. Alguns até hoje são lembrados, como Macaco e Mundico, este, filho de seu Isídio, pai de Queca. Entre os desconhecidos, dois homens simples se destacavam. Não porque tinham uma vida comum, mas por serem desempregados, do ponto de vista formal, e desempenharem papel  importante no dia a dia das atividades do cais.

Fernando, sujeito pacato, calmo, de boa índole. Com sua sutil elegância, Fernando participava de quase todos os trabalhos do cais, sem que estivesse formalmente vinculado a nenhum deles. Chegava pela manhã e logo era solicitado a ajudar em alguma tarefa, fosse providenciando uma ferramenta ou disponibilizando algum equipamento solicitado por alguém que trabalhava no cais, ou trazendo água ou algum alimento para os trabalhadores. Com o mesmo desprendimento, também executava pequenas tarefas para os comerciantes. No contraponto, Areia Branca sequer o conheceu.

O outro homem invisível da Rua da Frente era Casca de Ovo. Jamais soube do seu nome real. Era magro, de voz mansa e tom cauteloso, caminhando para lá e para cá o dia inteiro, cumprindo pequenas tarefas, sem que desempenhasse algum trabalho dignamente remunerado. Na ida para lá, algum recado sem qualquer recheio; na volta, uma resposta igualmente desprovida de valor. Parecia um ser evanescente, tocado pelo vento, movido por chamados. Correspondia à forma halogênica mais primitiva do Whatsapp.

Casca de Ovo era o homem dos recados e dos pequenos serviços de dona Hilda, nossa vizinha na costela mindinho direita. Esposa de Zé Leonel, eram os pais de Haroldo, aquele menino que sonhava ser paraquedista. Na hora do almoço e da janta, Casca de Ovo surgia com a fluidez dos eflúvios à casa/bodega de dona Hilda. À sua espera, um prato de comida à altura de sua importância.

Fernando. A invisibilidade sutil de um sujeito pacato que, com seu trabalho e seu modo de ser, ajudou a pacificar a  Rua da Frente.

Rua da Frente c:botequimEu, Caronte, o teria conduzido pelas águas tranquilas do Estige.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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