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Por uma dessas coincidências da vida, estive ontem na Gráfica Quatro Cores, e lá encontrei Gibran e Ramon Rodney revisando a revista comemorativa do Centenário de Criação da Paróquia Nossa Senhora da Conceição.

Trata-se de um trabalho primoroso e de grande valor histórico. E se existe algo de valor histórico onde Gibran está metido, pode ficar ciente de que o resultado será de qualidade.

Tive o inolvidável privilégio de ficar com o exemplar que eles estavam examinando antes de receber a encomenda da gráfica. O fato foi por coincidência, mas o valor sentimental restará perene em minha alma.

A revista será lançada em Areia Branca dia 29 de novembro, mas disse-me Ramon, que também tentará lançá-la em Natal,  provavelmente com uma missa celebrada pelo Padre Alfredo, meu amigo Alfredinho. O lucro com a venda da revista será revertido em obras na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição.

Para estabilizar a emoção ao ler a revista, gostaria de pontuar partes do que foi relatado no contexto da minha breve permanência em Areia Branca. De 1947, data de meu nascimento, até agosto de 1960, foi o período que vivi continuamente em terra natal. Depois desse período retornei por poucos períodos durante as férias de fim de ano. Depois de 1967 minhas visitas foram curtas e raras. Todavia, as marcas da infância continuam indeléveis em minhas memórias.

Padre Ismar, que assim conheci e assim me batizou, foi a primeira personagem destacada na revista com quem tive contato. Quando virou Cônego, acho que eu já não estava mais indo a Areia Branca.

Do nascimento até aproximadamente os 5 anos, morei numa casa ao lado da casa de Zé Tavernard, ao lado da qual ficava a casa paroquial. Contam que quando eu tinha entre 3 e 5 anos, Padre Ismar divertia-se com minha performance cantando “o coelhinho da páscoa” (coelhinho da páscoa, que trazes pra mim . . .). E costumava me levar na garupa de sua moto. Se fosse hoje seria preso.

Ainda no capítulo paroquiano. Pertenci à Cruzada Eucarística Infantil, mas não lembro de qualquer atividade a não ser dos jogos de futebol. Foi o primeiro time do qual participei, além dos times de rua.

Dos padres nascidos em Areia Branca só cheguei a conhecer dois, ambos contemporâneos: Luiz Martins, 4 meses mais novo do que eu, e Alfredinho (não consigo chamá-lo nem Alfredo, nem Padre Alfredo), quase um ano mais novo do que eu. Espero que se um dia os encontrar, que eles não me chamem de prof. Carlos. Ficarei feliz de ouvir simplesmente Carlos Alberto, ou como muitos me chamavam: Carlos de Clodomiro.

 

Final dos anos 1950 ou início dos anos 1960. Eu beirava meus 10 anos. Um time de futebol de AB enfrentou outro de fora. Acho que foi o Potiguar de Mossoró, ou teria sido o Baraúnas, também de Mossoró, quem sabe a seleção de Açu ou de Macau? E o time de AB, o Ipiranga? Ou a seleção? Tudo isso é um nevoeiro na minha memória. Só tem nitidez a cena protagonizada por aquele rapaz magro e alto, centro-avante, que estava passando férias em AB. Teria vindo de Aracati? É o que me sugere esses cansados neurônios com dificuldades para fazer sinapses, por mais simples que seja. Não sei quanto foi o jogo, mais o gol decisivo foi do “estrangeiro”.

Eu estava bem atrás do gol, no glorioso e icônico campo da saudade, ao lado do cemitério. Felinho recebeu a bola na pequena área, amaciou no peito, deu um chapéu no zagueiro e estufou as redes, para delírio da pequena multidão. Eu morava rua Silva Jardim e lembro que a multidão transportou Felinho nos ombros, até à casa de seus parentes, que não lembro quem eram e que moravam lá para o final da Silva Jardim. Aquele gol está entre os cinco mais bonitos que presenciei em minha vida.

Reunião de areia-branquenses ontem, 26/10, em Natal, para sessão de autógrafos de 3 livros recém lançados por conterrâneos.
Tenho uma ou outra conexão com os livros.
No livro de Rogério a conexão vem por intermédio das inúmeras fotografias de meu tio Antônio do Vale (Toinho do Foto) reproduzidas no livro.
No livro de Alcindo e Paulinho, tem uma crônica que publiquei no jornal O Sal da Terra, em 1991, reproduzido nas fotografias abaixo.
A conexão mais pessoal e emotiva está no livro da prima Lúcia Eneida. Quando adolescente em Natal, eu costumava visitar Baía em sua residência na praia de Areia Preta. Sempre ficava embevecido com as lições de vida daquela mulher, sem pernas e apenas um dos braços. Culta e inteligente, tinha um papo que a ninguém era permitido perder.

Dois meses depois de seus 80 anos, Toinho Tavernard nos deixa, vitimado por um AVC.

Ao lado de Antonio do Vale (Toinho do Foto), Toinho Tavernard é o grande responsável pelos registros iconográficos areia-branquenses. Muitos monumentos arquitetônicas de nossa cidade sobrevivem hoje apenas nas fotografias de AVale e nas magistrais pinturas de ATavernard.

Para quem com ele conviveu certamente jamais esquecerá suas interpretações de canções de Nelson Gonçalves. E como seu ídolo, ele tinha aquela voz de barítono que deixava seus ouvintes embevecidos. Aos 75 anos resistiu em repetir as performances, porque de vez em quando esquecia trechos das letras.

Eu nasci na casa ao lado da sua, nove anos depois que ele nasceu. Na sala de visitas de nossa casa tinha uma tela em óleo do casamento de meus pais, de sua autoria.

Sua arte manifestava-se em óleo sobre tela. Era a sua ferramenta preferencial. Em 2014 fiz-lhe uma visita e adquiri essa tela com do pôr do Sol, com o Tirol em primeiro plano.

Na ocasião o provoquei a experimentar grafite e nanquim e encomendei alguns quadros, que exponho na sequência. É claro que um artista do seu naipe produz obras-primas em qualquer técnica. Embora em tempos passados ele tenha feito alguns desenhos com grafite e caneta bic, para ele isso não passava de um divertimento. Insisti para que fizesse algumas tentativas profissionais.

Fazendo os primeiros esboços com grafite.

Esboço do Castelinho dos Dantas, de enorme valor histórico, uma vez que a fachada já foi alterada.

Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, em nanquim.

Talvez esta seja a primeira fachada da prefeitura. Em grafite.

Esboço do moinho da Norsal, em grafite.

O que mais me entristece é que nossa pobreza cultural é de tal ordem, que um artista do quilate de Toinho Tavernard jamais teve de nossos gestores o apoio para criar uma escola de artes em Areia Branca.

É o que consta no registro civil e como foi pronunciado na pia batismal, mas na fala de seus conterrâneos e contemporâneos era simplesmente Zé Leite. Para os que o conheceram na fase adulta, o doutor que lhe foi outorgado na Faculdade de Odontologia da UFRN era acrescentado ao nome popular: Dr. Zé Leite.

Tenho razões para lamentar não ter privado de sua amizade. A única vez que estive em sua presença foi em julho de 1998, quando estive em Areia Branca visitando Antônio do Vale. Certa noite eles (AVale e Zé Leite) se encontraram na rua dr. Almino Afonso (hoje dep. Manoel Avelino), em frente à casa em que Zé Leite nascera. Tinha uma terceira pessoa que não recordo. Os três colocavam em dia papos de antanho, coisas de quando eu era adolescente de calças curtas. Permaneci na minha condição de testemunha privilegiada daquela conversa sobre uma Areia Branca de ruas de areia batida. Lembro que logo depois caminhei pela Rua do Meio (rua Cel. Fausto), em direção à praça da igreja, quando me deparei com Celso Luiz, Dedé de Zé Solon e Carlos Soares, na calçada da casa onde o patriarca José Justiniano Solon faleceria alguns dias depois.

Há um ano, Zé Leite publicou sua autobiografia, intitulada 100 livros para cem amigos. Consulto o exemplar que me foi emprestado pelo seu primo, Antônio José Gois Nepomuceno. Valho-me dessa fonte de primeira mão para relatar meu encontro virtual com Zé Leite. Sempre que alguém que foi meu contemporâneo em Areia Branca me chama a atenção tardiamente, logo passo a analisar as possibilidades de encontros passados. Quero dizer, na mesma época ou em épocas próximas estivemos nos mesmos espaços sem fazer qualquer contato. É por essa via retrospectiva e tendo como fonte seu livro, que faço meu encontro com Zé Leite. E o farei na ordem que os temas aparecem no livro.

Já na p. 26, Zé Leite apresenta os moradores da rua da Frente da década 40-50, começando pela ponta da praça do Tirol. A descrição é detalhada até a casa do Cel. Jorge Caminha, onde nos anos 60 morou Manoel Lúcio, cujos filhos, saudosos Marques Neto e Elsinho foram meus colegas de escola desde o preparatório para o exame de admissão com Maria Felipe, até o final do ginasial no Marista de Natal. A partir daí a descrição tem lacunas. Essa parte bem descrita por Zé Leite está eternizada nesta foto de Antônio do Vale.

A propósito de registros iconográficos, o dr. Zé Leite cometeu o engano típico de quem não tem o hábito da escrita acadêmica. Refiro-me ao fato de que ele usa inúmeras fotografias sem a devida informação da fonte. Na p. 33, uma bela fotografia mostrando canoas e a lancha Santa Isabel de Luiz Cirilo, em frente à igreja é provavelmente de autoria de Antônio do Vale. Ele gostava muito desse ângulo. No meu arquivo tenho essa foto similar àquela usada pelo dr. Zé Leite.

Na p. 98, Zé Leite fala de Nicodemos e reproduz crônica que sobre ele escreveu o ilustre professor de português da salinésia. Texto também reproduzido na quarta capa do livro e aqui também.

Nessa página, Zé Leite me faz viajar no tempo, desde as memórias de meu pai em relação a Chico de Neco Carteiro, aos meus tempos de adolescente, que embevecidos com a sabedoria de Nicodemos ficávamos na praça da igreja, depois dos namoros, ouvindo nosso guru cultural falar sobre quase tudo. Nunca menos de meia dúzia de meninos em busca de conhecimento. É também nessa página que Zé Leite refere-se ao prefácio que Leontino para o livro Guanabara de Chico de Neco Carteiro. Caminhos cruzados esses que a vida nos reserva. Pois a orelha do livro Guanabara foi escrita por mim, e tomo a liberdade de reproduzi-la aqui, sem saber se Zé Leite a leu.

 

A dor e a paz do amor eterno

Lembro um olhar/lembro um lugar/teu vulto amado/lembro um sorriso/e um paraíso/ que tive ao seu lado . . .

Era assim que Chico de Neco Carteiro encantava Zezinha nas enluaradas noites da Fazenda Guanabara. E com a mesma e comovente entonação do seu cantar, ele revela-nos, em narrativa precisa, toda a dor que a perda da pessoa amada provoca. Revela-nos também que a dor é grande, mas não supera em intensidade a felicidade que viveram e a que persiste na forma da prole que criaram. É a paz que emerge do amor eterno que faz Chico suportar a dor.

Nos trechos mais tocantes deste livro, acompanho meu amigo como se estivesse caminhando na relva plantada pela sua dor e embalado pelo lamento de amor de Beethoven na sua obra dedicada ao luar, o mesmo luar em que inúmeras vezes Zezinha se viu enamorada pelo cantar de seu amado. No aconchego da fazenda Guanabara, até um inocente beijo era acompanhado pelos pungentes versos de Catulo da Paixão Cearense: Ontem ao luar nós dois em plena solidão/. . ./A dor da paixão não tem explicação/ . . . /É mister sofrer para se saber.

Nos trechos mais serenos, ao largo dos atropelos da vida, Chico me faz lembrar A. J. Cronin em seu magnífico Pelos Caminhos da Vida. E com a precisão e poder de síntese do médico e escritor escocês, o filho de Neco Carteiro nos leva pelas ruas de Areia Branca, sua tão amada terra natal, que jamais esquece e que lhe faz lembrar o paraibano José Américo de Almeida, quando diz que tudo se desfaz, menos os elos nativos que prendem o homem à terra.

E não é apenas a terra em que nasceu que ele descreve com emoção. Este sentimento transborda nas páginas do livro quando, por exemplo, narra cenas cariocas. Me surpreendi emocionado quando ele relata a primeira vez em que ficou no pátio da Igreja da Glória apreciando a movimentação dos carros dos carros no aterro da Glória. Chico me fez caminhar um pouco mais e chegar ao aterro do Flamengo, onde ficava minha primeira morada na Cidade Maravilhosa, em 1970, quando lá fiz meu bacharelado em física.

E com sua precisão também me sinto caminhando em ruas históricas que jamais visitei na cidade do Recife: apanhamos um ônibus e descemos na Av. Guararapes. Depois de passarmos em frente ao Savoy, paramos um pouco na esquina do Cine Trianon, confrontando com o prédio dos Correios e Telégrafos; logo adiante a ponte Duarte Coelho, que separa a Av. Guararapes da Av. Conde da Boa Vista.

E com a sensibilidade saindo pelos poros, Chico não poderia deixar de terminar o livro por onde comecei esta breve apresentação:  lembro a saudade/ que hoje invade/ os dias meus/  para o meu mal/ lembro afinal/ um triste adeus/ sou agora/ no mar desta vida/ um barco a vagar/ onde está seu olhar/ onde está seu sorriso/ e aquele lugar/ eu devia, sorrir eu devia/ para o meu padecer ocultar/ mas diante de tantas lembranças/ me ponho a chorar

Carlos Alberto dos Santos

 

Na p. 101 Zé Leite faz uma justa e merecida homenagem Máximo Rebouças e suas iniciativas para preservação do acervo histórico areia-branquense. Visitei, há uns 5 anos, e fiquei deslumbrado com seu pequeno e valioso museu.

Na p. 150 ele reproduz uma bela e clássica foto de Antonio do Vale, reproduzindo o pôr do Sol, com o Tirol em primeiro plano. Essa foto eternizada no óleo de Antonio Tavernard, que mantenho em posição de honra na sala de visitas.

Finalmente, na p. 199 Zé Leite reproduz uma foto de incalculável valor histórico. Trata-se de uma das raras edificações de dois andares feito de taipa construído por Alexandre de Souza Nogueira no final do século 19. Passou a ser conhecido como o sobrado de Zé Filgueira, depois que este adquiriu a edificação.

Por tudo isso que li em seu livro é que disse acima e aqui repito: lamento não ter privado da sua amizado.

dezembro 2019
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