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Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Um livro secular. Em 1885, o jovem José Joaquim de Mendonça, que depois seria meu avô materno, por ser católico fervoroso, comprou os livros Antigo e Novo Testamento. Esses dois volumes eram apenas de gravuras.

Lembro que ainda muito pequeno, durante a Semana Santa, ele reuniu os netos todos sentados no chão da sala da casa onde é hoje a Papelaria Brasília, e ia descrevendo os fatos ocorridos em cada gravura. Naquela época, os católicos não comiam carne durante toda a semana. Não se varia a casa, na sexta feira santa, não se fazia barba e tampouco se cortava o cabelo.

O livro por serem dois volumes, ele usava o primeiro, por tratasse do começo quando Deus criou o mundo, a primeira figura era de Adão e Eva sendo expulso do paraíso. E assim, durante toda a Semana Santa, mantinha todos seus netos informados sobre o que ocorreu na criação do mundo.

Após sua morte, como ele morava conosco, minha mãe guardou com muito carinho os mesmo. Após o falecimento dela, como ela morava com nossa irmã Socorro, esta se encarregou de guardá-los. Com a morte desta, fiquei com esta incumbência, e combinando com a minha irmã que aqui reside, decidi que na próxima oportunidade quando for a Areia Branca, doarei ao Museu Maximo Rebouças.

O que me impressiona neste livro, é que passado 132 anos, as gravuras estão perfeitamente visível, não demonstrando ter tantos anos. E também a explicação deixada do próprio punho por minha saudosa mãe, quando ela diz: RECORDANDO COM SAUDADES OS DIAS FELIZES DA MINHA INFÂNCIA, CONSERVO COMIGO ESTE LIVRO QUE FOI DE MEU PAI. É UMA LEMBRANÇA ETERNAMENTE, DE 1885. ANA MARIA DE MIRANDA. Isto ela escreveu em 1960, conforme podemos observar na foto.

capa do livro

Por ser um livro histórico para a família, não devo arriscar que o mesmo se perca no tempo.

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Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto enviado por Miranda, que deve ter esquecido a senha e não conseguiu fazer a postagem (Carlos Alberto).

No dia 18 de junho de 1937, nascia na cidade de Areia Branca-RN, o sexto filho de uma prole de dez, do casal Pedro Felipe Sobrinho e Ana Maria de Miranda, que recebeu o nome de Antonio Fernando Miranda.

Como todo menino do interior, jogou bola de meia, pulou fogueira e soltou balão. Aos dez anos, começou a trabalhou como ajudante de marceneiro, para não ter que esperar pela mesada, coisa na época inexistente. E assim, ia aos sábados assistir no Cel. Fausto, os filmes de Buck Jones, Durango Kid, Zorro, Hopalong Cassidy, e tantos outros.

Aos treze anos, iniciei um namoro com uma vizinha de 26 anos. Apesar da vigilância de minha mãe, que era contra, aconteceu o inevitável. E aos 17 anos me casava, por ter “bulido” com ela. Apesar da menoridade, o meu pai ao ser contatado pelo irmão dela, acertadamente “lavou as mãos” deixando essa decisão comigo. Como na época, era comum quem “bulisse com uma moça” se casava, seguindo essa norma me casei.

Desde casamento, nasceram dois filhos. A partir daí, passei a trabalhar, não para ir ao Cel. Fausto, mais sim, para sustentar a família. Trabalhei de aprendiz de calafate na Companhia Comercio e Navegação. Depois na mesma empresa, trabalhei como Moço de Convés, passando a marinheiro. Fui Delegado do Sindicato de Marinheiro em Areia Branca, e depois, deposto pela “redentora”. Sabendo que devido a prisão (injusta), não teria mais chance de trabalho na cidade, fui para o Rio de Janeiro.

Embarquei no navio passageiro Anna Nery, depois no navio cargueiro Guarujá, e outros, que me permitiu conhecer 77 países e 127 cidades do exterior. Destes tenho algumas lembranças boas.

Em 1984, me aposentei, e me casei pela segunda vez. Deste casamento, nasceu minha filha em 06/09/1986, na Clinica Dr. Aloan, na Rua Chaves Faria em São Cristóvão -RJ. Em junho de 1988, vim residir em Fortaleza. E aí ficou fácil voltar sempre a terrinha, especialmente nas festas de agosto, final de ano.

Em 1998 como minha filha já estava necessitando de entrar para a informática, comprei um PC sem nada conhecer desse “animal”. Entretanto aos pouco fui me familiarizando com o mesmo, pois o teclado me lembrava das maquinas de escrever, nas quais, “catei milho” durante muito tempo, quando era Delegado sindical. Lembro que a memória desse “animal”, era de 468 MB, considerada na época pelos expert, como suficiente. Hoje existe Pendrive de mais de 15 Gigabytes.

Em 2002, pela primeira vez acessei a internet. Encontrei através da rede social Orkut, algumas pessoas de Areia Branca, que quando de lá saí, eram pequenas porem ao indagar pelos nomes dos pais, sem dúvidas o conhecia. Encontrei Sueli filha de Geraldo de Zé Guilherme, mestre da CCN. Encontrei Mércia Lopes, filha de Luis Lopes, funcionário do INSS, grande amigo do meu saudoso cunhado Zé Nicodemos, e que tive o prazer de revê-lo. Encontrei Luzia Neponuceno, salvo engano filha do saudoso Azevedo. Encontrei também uma filha de Hildebrando Soares de Amorim, conhecido também como Brandinho, ou alicate.

Conheci também este Blog do Professor Carlos Alberto dos Santos, um dos maiores Físicos do Brasil, filho do saudoso Clodomiro, que ainda não tive tempo de encontrá-lo. Neste blog, tive algumas participações, tendo me ausentado por falta de tempo, e que hoje ao completar 40 anos (sim, porque a vida começa aos 40), decidir que iria aos pouco, publicando minhas lembranças de Areia Branca, do Brasil e do mundo, que sem dúvidas será uma bela historia.

Tatuí. Por que esse bichinho é tão importante para quem, na década de 1950, corria pelos caminhos de Zé Filgueira, no rumo da Praia do Meio, subindo e descendo as pirâmides de sal, com o risco de, do outro lado, ser surpreendido por um buraco a esperá-lo para um acidente?

Por que lembramos das taiobas, tantas vezes capturadas do outro lado do rio, pros lados de Pernambuquinho, na maré baixa, quando imensas costelas de areia enfeitavam o leito do Ivipanim ali exposto?

Em Lisboa, no Bar do Ramiro, um encontro com uma parenta da taioba e, de quebra, fui apresentado a um marisco bonito e de nome estranho: percebes, uma espécie de crustáceo que se tornou uma iguaria em Portugal.

Percebes

Por onde andarão os sapos que coaxavam no depois das chuvas, muitas vezes servindo de acalanto na hora de dormir?

Raros também estão os zigue-zigues, também conhecidos como libélulas, que enfeitavam quintais e agitavam a meninada quando brincava nas águas das poucas enchentes.

É que hoje amanheci saudoso, tentando uma resposta para questões simples, mas que refletem toda uma qualidade de vida que o tempo foi confiscando das pessoas.

Há saguis em Areia Branca? Não lembro. Visitando São Miguel do Gostoso, tive o prazer de duas surpresas. Logo na entrada, um frondoso pé de cajarana, que há muitos anos não via. Durante o café da manhã, fomos saudados por uma colônia de saguis saltitantes, que somente se acalmavam com um pedaço de banana.

Tatuís, taiobas, sapos, zigue-zigues, saguis. Saudade.

Os dois últimos costumam aparecer em meu quintal. Uma curtição.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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