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O primeiro mercado público que conheci, fora de Areia Branca, foi o de Mossoró, inaugurado em 12 de julho de 1877. Era a minha primeira viagem, e o Mercado Público de Mossoró até hoje me encanta. Encantam-me suas ruelas estreitas, com aquele odor característico das coisas de usar e de comer. Finalmente, encantam-me suas lojinhas repletas de quase tudo que pode ser vendido em um mercado do Nordeste. Foi no mercado de Mossoró que comprei uma vestimenta completa de vaqueiro, feita de couro.

Em Natal, tive a felicidade de morar próximo ao mercado público, que ficava na avenida Rio Branco, no local onde hoje funciona a agência central do Banco do Brasil. Na época diziam que o incêndio deste mercado fora criminoso.

Há alguns dias visitei o Mercado Central de Santiago que, por ser de pequeno porte, me arrebatou de volta à minha primeira viagem, quando em Mossoró conheci o seu grandioso mercado. Na Turquia, visitei os famosos Grande Bazar e o Mercado Egípcio. Aqui, sem comentário, face à grandiosidade e beleza.

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Um dos modelos atualmente em uso nas grandes metrópoles do mundo é utilizar  antigas fábricas ou grandes depósitos transformados em modernos mercados.  Ali se instalam lojas de renome no mundo da alimentação, que competem com o que de melhor existe em cada cidade. Nesse padrão encontra-se o Eataly de São Paulo, que certamente é o que de melhor existe em toda a América do Sul. O seu homônimo de Florença, junto com o Mercado da Ribeira, em Portugal, também se destacam pela beleza de suas instalações e pela qualidade de seus produtos.

IMG_1618Eataly São Paulo

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Porém foi no Mercado Público de Areia Branca onde se configuraram muitas de minhas melhores imagens da infância. Nesse pequenino mercado também teria origem um dos meus maiores traumas. No mercado de Areia Branca, no início da  manhã, assisti ao terrível assassinato de Francisco Paulino de Medeiros com uma facada nas costas. Esse crime foi tema de uma esclarecedora crônica escrita por Gibran, e publicada neste blogue.

Mercados pelo mundo. A grandiosidade  que encanta.

Mercado público de Areia Branca. Sonhos e marcas da infância.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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Eu não consigo precisar o que significa em nosso ciclo de vida o momento em que nossos contemporâneos começam a nos deixar para sempre. Semana passada aqui escrevi sobre Manoel Lúcio Filho, Elsinho para os íntimos, que nos deixou vitimado por um infarto fulminante. Seu irmão gêmeo, Francisco Marques Neto já nos deixara no início de 2011.

Hoje, li na imprensa que Vildomar Nogueira sofreu um infarto fulminante e faleceu em Areia Branca, na manhã deste sábado, 30 de junho de 2018. Por esse nome de batismo quase ninguém sabe de quem se trata. Pelo seu apelido de infância, PAITABOM, é reconhecido no universo futebolístico do RN.

A partida de um contemporâneo, qualquer que seja o laço de relação social, não é apenas um momento de tristeza. É também um momento de reflexão sobre o que fizemos em nossas vidas.

Há anos, tantos anos que a memória não me deixa saber quando, escrevi a crônica que se segue. Não, não sei onde foi publicada. Foi escrita quando todos os personagens ainda estão vivos.

Eis uma adaptação da crônica:

O lugar não é apropriado. Onde já se viu, jogar futebol na rua das Almas? Ainda por cima, a rua não tem areia como na dr. Almino. Aqui só tem carago. Vamos arrebentar nossos pés, reverberava um irritado amigo do time. Luta inglória; todos os outros jogadores do Mirim Futebol de Rua queriam que o jogo fosse ali, bem em frente ao cemitério. Mais precisamente, bem em perto da casa das belas irmãs, para quem os meninos, todos os meninos, não se cansavam de se exibir. Era esta a razão de o jogo ser ali.

O Mirim era também conhecido como time da Rua do Meio. Dele participavam Wellington de Reinério, outro que nos deixou há anos, esse por vontade própria. Não lembro se Antonio José estava nesse dia. Acho que Toninho era o goleiro. Faz mais de um ano foi jogar no time do outro plano, vítima de um câncer.

Nosso adversário naquele dia era o temido time da rua do Progresso. Temido pelas habilidades e pela coragem de entrar no braço com quem se metesse a besta.

No time da rua do Progresso, Wilson de João Quixabeira. Cada um do Mirim se encarregava de dar uma bicadinha no seu calcanhar. Aquele galalau de pernas finas e gingado preciso não podia ficar à vontade para exercer a sua descomunal habilidade. No final do jogo, tornozelo inchado e canela com alguns pelos a menos, faz aquela cara de menino zombeteiro e comenta:

– Mirim? Elefantim!

O jogo teria terminado com esta nota de fino humor, não fosse a impertinência de Paitabom, que tinha fama de menino valente e estava importunando Flávio de Pitita. O Mirim ganhava o jogo, folgado. Flávio poderia ter deixado Paitabom resmungando sozinho, mas os olhos azuis de uma das meninas que nos assistiam não desgrudavam dos olhos negros de Flávio. A notória, reconhecida e temida valentia de Paitabom não foi suficiente para enfrentar aquela sinergia amorosa. Talvez jamais na vida nosso amigo Paitabom tenha sido desafiado daquele modo.

Olhando tudo aquilo com seu jeitão ZEN, Manoel Gago, que destoava do DNA daquele time pela sua veia pacífica.

Depois Paitabom e Manoel se profissionalizaram no futebol. Na foto abaixo, do São Paulo de Areia Branca, anos 70, Paitabom é o segundo agachado, a partir da direita. À esquerda, também agachado está Manoel Gago. O segundo em pé, a partir da esquerda é Beque, outro amigo que nos deixou não faz muito.

Do Mirim, que vencia quase todos seus adversários, ninguém se profissionalizou no futebol. A foto abaixo é a versão FutSal do Mirim, anos 1960. Em pé, a partir da esquerda: Voltaire (natalense, ia a AB nas férias), Enóquese, Wilson Quixabeira. Agachados, a partir da esquerda: Carlos Alberto, Flávio de Pitita e Wicliff.

Os meninos da Rua da Frente, óbvio, moravam de frente para o rio Ivipanim, tendo a visão de Barra e Pernambuquinho como uma grande aquarela pintada na parede do céu à sua frente. Para esses meninos e meninas as opções para suas brincadeiras eram restritas, fosse pelo movimento dos trabalhadores do cais ou das pessoas nas calçadas, no vai e vem das lojas e das bodegas.

Na década de 1950 a Rua da Frente, pela maciça presença de lojas e de armazéns, e do movimento de pessoas e trabalhadores, ocupava lugar de destaque em Areia Branca como uma via de grande movimento. O Tirol e a Rampa serviam de ponto de chegada e partida de pessoas e embarcações, contribuindo para o intenso vai e vem de pessoas e chegada de mercadorias.

Com isso, os meninos da Rua da Frente tinham reduzidas suas opções de lazer e entretenimento, pois sequer uma pelada podia ali ser jogada. Tínhamos, então, que improvisar. E improvisávamos.

Aquela brincadeira antiga de amarrar uma linha em uma carteira de dinheiro, colocar na calçada e puxar quando alguém se abaixava para pegá-la era por nós executada com frequência. Outra brincadeira era colocar um paralelepípedo na calçada, debaixo de um chapéu e ficar de longe aguardando o primeiro que se dispusesse a chutá-lo.

Quando queríamos juntar algum dinheiro para gastar nos brinquedos do parque de diversão, fazíamos suco de fruta (tamarindo ou limão) servido com raspas de gelo para vender nas calçadas da Rua da Frente. Não lembro de onde tirávamos o gelo.

Estendendo a brincadeira para o lado da Rua do Meio, tínhamos as aventuras do Zorro, com espadas e bons safanões. Ali, fizemos muitos quebra-canelas que nos custaram algumas chineladas. Certo dia, percebendo que Popõe vinha, como de costume, empurrando o seu carrinho de doces e balinhas pelo meio da rua, com destino à pracinha, fizemos um grande laço com uma corda, cobrindo-o com terra. Quando Popõe pisou sobre o laço, puxamos a corda e ele foi ao chão. A meninada correu em diversas direções, sob os esconjuros de um indignado e bravo Popõe. Maldade…

Meninos da Rua da Frente. Muitas brincadeiras, apesar das limitações.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

                                                          Tempo: “Uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão.” (Einstein)

Que não se mexa na roda do tempo. Ela se move tangida por leis que sequer ousamos perscrutar. A Areia Branca do passado foi vivida por uma geração que lutou e ainda luta pela defesa do seu patrimônio arquitetônico, cultural, artístico e histórico. E foi assim que vivemos dias de glória de nossa cidade. Mas foi; passou. Não provoquemos os deuses do nosso Olimpo tupiniquim. Deixemos à História a avaliação derradeira.

Ah, se eu pudesse parar a roda do tempo. Ou então: Quem me dera que o tempo parasse, nem que fosse por alguns anos; depois, poderia continuar atuando de forma desgovernada, como vem fazendo.Estas são expressões que, vez por outra, ouvimos, mesmo que em tom de brincadeira, mas sempre com um teor nostálgico.

Quando pensarmos em mexer na roda do tempo, alguns fatores têm que ser levados em conta, como acontece quando se decide mexer na puberdade de uma criança com o objetivo de melhorar sua estatura final. Isso acontece com meninas e meninos.

Antes de propormos alteração do ritmo do tempo, por impetuoso, analisemos o que as Diretrizes das Sociedades Europeia e Norte-americana de Endocrinologia Pediátrica falam sobre o bloqueio da puberdade de uma criança, isto é, parar por um tempo a evolução da puberdade: Respeitar e aceitar tanto a maturação orgânica fisiológica como o canal familiar de cada paciente são pontos importantes de serem trabalhados durante a consulta médica. As melhores e mais recentes evidências científicas mostram que não há ganho na estatura final ou nos aspectos emocionais com o bloqueio de uma puberdade fisiológica. O médico assistente é o profissional mais habilitado para lidar com esta situação.

E o médico assistente do tempo, quem será? Que outros aspectos também mudariam com uma parada no tempo? O resultado final seria melhor? Duvido.

O tempo somente pode ser parado pelos poetas, em seus devaneios e alegorias que  tudo envelopam no espectro do possível. E que não necessitemos de desculpas, como neste verso a seguir, exposto em um muro qualquer de Areia Branca, na rua principal da praia de Upanema:

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EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Na manhã deste domingo, revendo algumas fotos de Areia Branca, deparei-me com esta do ano de 1942. Nela, um grupo de carnavalescos se posiciona para uma fotografia que se tornaria histórica. É que no alto da foto, sobrepondo-se às cabeças das pessoas, aparece uma estátua cujo busto me chamou a atenção.

Bloco carnavalesco   Busto

A foto, ao que parece, foi feita em frente à prefeitura. Possui data e proprietário definidos, camerlengada pelo Comandante Miranda, conforme consta do escrito.

E surge uma pergunta: onde estará esse busto de bronze? Qual a autoridade ou herói ali imortalizado?

E por falar em busto, onde estará aquele busto que ficava no centro da Pracinha do Pôr do Sol, que ficava contemplando o manguezal por trás do Tirol?

Estátuas falam de pessoas. Pessoas têm história. Queremos saber da nossa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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