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Há alguns anos havia aqui um equipamento comunitário belíssimo chamado Tirol, que ruiu sob o furacão do abandono e do desprezo. A cidade pulsava no Tirol, com os passageiros chegando de Grossos ou retornando depois de um dia de negócios em Areia Branca. No portar-se e no vestir, a marca de uma elegância também varrida pelo tempo.

Praça do Pôr do Sol e Tirol

Há alguns anos havia aqui um equipamento comunitário maravilhoso, utilizado pelas pessoas que saíam ou chegavam ao Tirol. Fosse de passagem obrigatória por este local ou curtindo seus momentos de lazer, boa parte dos areiabranquenses aqui parava para uma contemplação do movimento dos passageiros no Tirol, ao tempo em que aqui ficava, parado, a contemplar o pôr do sol pros lados do Tibau, um banco a instiga-lo. Era o momento da troca de plantão, em que o sol entregava à lua as chaves e os códigos do arsenal celeste. E lentamente uma luz com aura de um Olimpo salitrado substituía o amarelo hélio pelo prateado luna, justo aquele gris emblemático meio encantamento meio luz. Era a Praça do Pôr do Sol.Quadro de Antonio Tavernard

Há alguns anos havia aqui umas casas lindas, com cheiro de jasmim e com um ar bucólico, que despertavam aquela inveja benfazeja nas pessoas. Aqui, alguns areiabranquenses privilegiados cuidavam com orgulho de suas moradias. Quantas vezes o menino eu ficava encantado com aquelas casinhas coladas umas nas outras. À noite, cadeiras nas calçadas e, à frente, uma visão maravilhosa das sombras quase assombração do manguezal que ainda hoje tenta se ocultar do outro lado do rio. Virando a cabeça um pouco para o lado, a quase bênção de contemplar uma embarcação fugindo na noite para se aninhar próximo à Rampa, de frente para a igreja.

Há alguns anos havia nesta esquina uma pensão que recebia caminhantes de outras latitudes, navegantes de outras águas igualmente salobras. Tenho uma quase certeza de que, antes da pensão, aqui morou o Tenente Durval, policial sério e competente que valorizou com brio as cores da sua farda. O Tenente Durval era aquele delegado que dava voz de prisão ao indivíduo e determinava que ele o esperasse na delegacia. E todos ficavam à sua espera.

Hoje, destruídos o Tirol e a Praça do Pôr do Sol – e descaracterizada a antiga pensão –, resta o vazio com o gosto amargo da desesperança que a todos incomoda e assusta. É um esqueleto de cimento que acolhe todo tipo de elementos indesejáveis, da sujeira a viciados em drogas.

Puro desencanto onde em outros dias reinavam a alegria e o toque poético.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Desde que comecei a escrever para este blogue, trazia comigo uma disposição ímpar para colocar algumas ideias sobre acontecimentos do dia a dia da nossa cidade, falando de personagens comuns, pessoas do povo.

Nesse caleidoscópio retrofílico, procurei enfatizar o encanto das falésias, toda a grandiosidade e harmonia dos nossos manguezais, com sua fauna diversificada, além da beleza de Barra e Pernambuquinho, localidades emblemáticas de nossa meninice. Não esqueci o Pontal, testemunha de um diuturno e amigável encontro de rio-mar bem junto à sua costela mindinho.

Também enfatizei as brincadeiras da meninada de então, com seus jogos, seus piões e suas cantigas de roda, hoje sumidos.

Falei de ruas simples, do Beco da Galinha Morta, das poucas praças e de nossa igreja, sempre disposta às lutas. Não esqueci os barcaceiros, os calafates e, de modo especial, os salineiros. Os bodegueiros e os músicos receberam de mim uma atenção especial, por ter sido meu pai um deles.

Muitas pessoas foram abordadas em minhas crônicas, com informações seguras fornecidas por pessoas que gostam da cidade e respeitam o seu passado, em que a verdade se destaca como ponto essencial. Sempre procurei evitar a citação de políticos, pelos motivos óbvios.

E fluíram crônicas sobre o Cine Coronel Fausto, galanteios quase em excesso à Rua do Meio e palavras de amor pela Rua da Frente. O Cine Miramar, o Cine São Raimundo, o Maracangalha, a Maternidade, o Palacete Municipal com sua sonora, a pracinha e toda uma fauna de estudantes que ali alimentavam discussões com alunos da Escola Técnica de Comércio foram inúmeras vezes incluídos em meus textos. Aqui, a lembrança de José Jaime e Toinho Tavernard.

Não posso deixar de citar o rio Ivipanim, com sua história ponteada por barcos e barcaças que o tempo levou. As canoas sempre participaram de minhas crônicas, fosse na ida ou na volta de Barra e Pernambuquinho. Muitas vezes falei dos caminhos que levam à Praia do Meio, e dali a Upanema, passando pela prainha de Zé Filgueira. Os siris, os tatuís e as taiobas enriqueceram nossas vivências, assim como a lembrança de Pedrinhas e Casqueira.

Quase nada foi esquecido nos meus textos. Os bichinhos do chão, do ar, do rio e do mar ocuparam lugar de destaque, como o fez Gaudi ao construir a Igreja da Sagrada Família, em Barcelona. Nas laterais de suas paredes foram colocadas pequenas esculturas de bichinhos que dali foram expulsos quando a igreja foi construída. Uma homenagem aos sem-nome. Lá como aqui, calangos, lagartixas e outros répteis de pequeno porte aparecem com um destaque que emociona. Quase esquecia os zigue-zigues e os sapinhos.

Os cataventos – ah, os cataventos! – passaram por meus textos como moinhos de vento, sem o serem de fato, posto que nada moem.

Porém tudo nasce e com o tempo perde força. O momento de parar é este. Nem que seja por alguns meses. Guardarei algumas crônicas já prontas para que, em um futuro próximo, possa eventualmente publicá-las, retomando a marca da minha areiabranquicidade.

Escrever não é fácil, pois ao fazê-lo colocamos nossas ideias em cheque, ao tempo em que nos expomos às críticas algumas vezes justas. Imagino haver escrito em torno de 350 crônicas, ou um pouco mais (Carlos Alberto poderá dizer o número exato), e certamente o fiz com esmero, sem fugir à verdade dos fatos.

 

Até a próxima.

PS – Obrigado, Jerônimo, por sua inteligência.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Aguardo-o(a) no endereço www.evaldoab.wordpress.com (AreiabranquiCidade)

 

 

 

 

Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Tatuí. Por que esse bichinho é tão importante para quem, na década de 1950, corria pelos caminhos de Zé Filgueira, no rumo da Praia do Meio, subindo e descendo as pirâmides de sal, com o risco de, do outro lado, ser surpreendido por um buraco a esperá-lo para um acidente?

Por que lembramos das taiobas, tantas vezes capturadas do outro lado do rio, pros lados de Pernambuquinho, na maré baixa, quando imensas costelas de areia enfeitavam o leito do Ivipanim ali exposto?

Em Lisboa, no Bar do Ramiro, um encontro com uma parenta da taioba e, de quebra, fui apresentado a um marisco bonito e de nome estranho: percebes, uma espécie de crustáceo que se tornou uma iguaria em Portugal.

Percebes

Por onde andarão os sapos que coaxavam no depois das chuvas, muitas vezes servindo de acalanto na hora de dormir?

Raros também estão os zigue-zigues, também conhecidos como libélulas, que enfeitavam quintais e agitavam a meninada quando brincava nas águas das poucas enchentes.

É que hoje amanheci saudoso, tentando uma resposta para questões simples, mas que refletem toda uma qualidade de vida que o tempo foi confiscando das pessoas.

Há saguis em Areia Branca? Não lembro. Visitando São Miguel do Gostoso, tive o prazer de duas surpresas. Logo na entrada, um frondoso pé de cajarana, que há muitos anos não via. Durante o café da manhã, fomos saudados por uma colônia de saguis saltitantes, que somente se acalmavam com um pedaço de banana.

Tatuís, taiobas, sapos, zigue-zigues, saguis. Saudade.

Os dois últimos costumam aparecer em meu quintal. Uma curtição.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

agosto 2017
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