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Bizarro é a característica do que é estranho, grotesco ou incomum. É assim que o Dicionário Online de Português conceitua esta palavra, adjetivo que é.

Em Areia Branca, na atualidade, considero duas estruturas, ambas construídas com o dinheiro do povo, às quais se pode acrescentar o adjetivo bizarro,por sua estranheza.

O mercado público atual, que fica ao lado do antigo e charmoso Mercado Público de nossa meninice, embora seja revestido de cores vivas e chamativas, poderia ter sido construído de forma mais simples, mais objetiva, oferecendo melhores condições para quem ali trabalha e aos consumidores que para lá se dirigem. Some-se a isso o agravo imperdoável de fechar no meio uma das melhores ruas da cidade, impedindo a passagem das pessoas e dos veículos.

A segunda estrutura é aquele monstrengo que ocupa o lugar da antiga pracinha do Tirol. Inacabado, sem utilidade, sem perspectiva.

Tenho em mãos duas fotos, a primeira feita por mim em São Miguel do Gostoso durante a festa em que comemoramos 45 anos de formados. Veja a estranheza deste arranjo.

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A segunda vem de um parque infantil na cidade de Petrolina-PE. Veja que esse escorrego termina bruscamente, deixando um espaço livre, de uns quarenta ou cinquenta centímetros, entre a ponta do escorrego e o chão duro. Agravante: o piso é calçado com tijolos de cimento. Tem tudo para provocar um trauma na coluna das crianças. É escorregar e se machucar.

Parque

Bizarrice, algo estranho em qualquer lugar.

Em Areia Branca, construções com o dinheiro do povo.

Nos outros dois casos, apenas a falta de bom senso.

Não sei onde esta foto foi feita

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EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

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No dia 14 de agosto retornei a um dos lugares mais emblemáticos de minhas recentes descobertas. Manhã ensolarada; na Rampa, um canoeiro, um acerto, um destino. A maré em preamar despertou em mim uma lembrança. E saímos no rumo do Pontal, onde descobrimos que o jogo das águas assumia um placar de empate. O mar, calmo, de um lado; o rio desconfiado do outro. Naquele momento fui tomado pela lembrança de Zilef.

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Relembrando, Zilef era um sirizinho ingênuo, que gostava de brincar na beira da praia, onde as ondas eram pequeninas, quase da sua altura. Nascido na Praia do Meio, vendo ao longe o farol de Upanema, de um lado, e a entrada da barra, do outro, ele passava os dias surfando pequenas ondas no nível da beira-mar.

Em um certo dia Zilef percebera um movimento que corria sob segredo de siri. Tratava-se de uma viagem que Zoref, seu primo mais velho, estava organizando. Iriam conhecer a cidade de Areia Branca, e partiriam ao raiar do dia seguinte. E Zilef, embora sem querer abandonar o local em que nascera, topou a aventura.

E todos se posicionaram bem ali, em frente ao Pontal, justo no ponto zero, bem na hora em que o mar ajustava seu exército invisível para a invasão do rio. O rio Ivipanim parecia tremer. Zilef estava tenso, mas feliz. Entregou-se ao prazer de ser levado pela correnteza, ao tempo em que manobrava suas patinhas traseiras para não perder o rumo.

Quando o dia amanheceu, vislumbraram a Rua da Frente e, ao longe, a torre da igreja. O sino tocou. Puro encantamento. Era quase meio dia quando finalmente chegaram. A maré estava cheia, e todos exaustos.

No cais, um menino segurava uma pequena vara com um cordão amarrado na ponta e um pedaço de carne na outra. Zilef pensou: como são bondosas as pessoas daqui. Alguém me espera com um naco de carne. Posto em um recipiente junto com outros siris, Zilef sentiu-se prestigiado, e se regozijou ao ser colocado em um caldeirão. Sentiu-se feliz, até que a água foi ficando morninha, quentinha, do jeito que gostava.

Os amigos de Zilef procuraram por ele durante um bom tempo, até que chegou o momento do retorno, quando o mar retornava ao seu descanso, arrastando as águas do rio, que as sabemos salobras.

Acertado comigo mesmo, saímos do ponto zero, para fazer o mesmo percurso daquele sirizinho que um dia encheu de alegria a parte mais rasa da Praia do Meio. O mar, com cara de bonzinho, já pressionava, empurrando o rio. Na canoa, em frente ao Pontal, o motor foi acionado por um tempo e em seguida desligado. E nos entregamos à vontade do rio, à Zilef, que nos levou no rumo da Rampa. Apenas o remo estava autorizado a corrigir nossa rota.

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Um dia Zilef passou por aqui, pensei quando ficamos de frente à igreja.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

A cidade em festa, pros lados de Honorina. Nas ruas mais centrais, um vazio que amedronta. A violência está acabando com o costume antigo da cidade. Não se colocam mais as cadeiras nas calçadas. E as ruas ficam desertas, à noite. A Rua do Meio parece um cemitério. Na pracinha não há uma pessoa sequer. Os bares que circundam a pracinha estão sem clientes. É que há dois dias, ali ao lado da igreja, assassinaram uma pessoa.

Caminhando pelas ruas, defrontamo-nos com carros de som que estremecem as casas, ligados sobre algumas calçadas, com um aglomerado de jovens em torno. No raio de um quilômetro os ouvidos sofrem com tamanha estupidez. É a total ausência do poder público.

Noite de segunda-feira, 14 de agosto de 2017. No patamar da igreja, com o temor no coração, embora cercado de pessoas amigas, contemplo o rio em frente; busco algo que me falta. Procuro no céu e descubro uma lua triste, quase sem brilho, tentando esconder-se por trás de um grupo de nuvens fugidias que brincam no céu quase sem luz. E a visão de Barra e Pernambuquinho fica mais uma vez nas sombras do ofuscamento. Mas logo a lua sai de seu bunker celeste para se expor às críticas deste escriba.

No dia seguinte, de posse do mapa lunar, descobri o motivo daquela brincadeira de esconde-esconde no céu. Na noite anterior, a lua tinha apenas 60% de sua superfície iluminada voltada para Upanema. Estava em sua fase minguante, e trazia em si esse desgosto. Seu desejo era estar plenamente iluminada na noite de 14 de agosto, para escanear nossas dunas, iluminar nossas falésias, desnudar nossas várzeas, ocasião em que tingiria de um gris particular a noite maior dos areiabranquenses.

Vou confessar uma indiscrição: no dia 7 de agosto, escondendo-se entre prédios altos, flagrei a lua meio sem jeito, em Natal, sabendo-se vista em Areia Branca. É que ela se descuidou e cometeu esse engano de datas. Saiu de casa uma semana antes.

Quem sabe no próximo ano… se a violência permitir.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Desde que comecei a escrever para este blogue, trazia comigo uma disposição ímpar para colocar algumas ideias sobre acontecimentos do dia a dia da nossa cidade, falando de personagens comuns, pessoas do povo.

Nesse caleidoscópio retrofílico, procurei enfatizar o encanto das falésias, toda a grandiosidade e harmonia dos nossos manguezais, com sua fauna diversificada, além da beleza de Barra e Pernambuquinho, localidades emblemáticas de nossa meninice. Não esqueci o Pontal, testemunha de um diuturno e amigável encontro de rio-mar bem junto à sua costela mindinho.

Também enfatizei as brincadeiras da meninada de então, com seus jogos, seus piões e suas cantigas de roda, hoje sumidos.

Falei de ruas simples, do Beco da Galinha Morta, das poucas praças e de nossa igreja, sempre disposta às lutas. Não esqueci os barcaceiros, os calafates e, de modo especial, os salineiros. Os bodegueiros e os músicos receberam de mim uma atenção especial, por ter sido meu pai um deles.

Muitas pessoas foram abordadas em minhas crônicas, com informações seguras fornecidas por pessoas que gostam da cidade e respeitam o seu passado, em que a verdade se destaca como ponto essencial. Sempre procurei evitar a citação de políticos, pelos motivos óbvios.

E fluíram crônicas sobre o Cine Coronel Fausto, galanteios quase em excesso à Rua do Meio e palavras de amor pela Rua da Frente. O Cine Miramar, o Cine São Raimundo, o Maracangalha, a Maternidade, o Palacete Municipal com sua sonora, a pracinha e toda uma fauna de estudantes que ali alimentavam discussões com alunos da Escola Técnica de Comércio foram inúmeras vezes incluídos em meus textos. Aqui, a lembrança de José Jaime e Toinho Tavernard.

Não posso deixar de citar o rio Ivipanim, com sua história ponteada por barcos e barcaças que o tempo levou. As canoas sempre participaram de minhas crônicas, fosse na ida ou na volta de Barra e Pernambuquinho. Muitas vezes falei dos caminhos que levam à Praia do Meio, e dali a Upanema, passando pela prainha de Zé Filgueira. Os siris, os tatuís e as taiobas enriqueceram nossas vivências, assim como a lembrança de Pedrinhas e Casqueira.

Quase nada foi esquecido nos meus textos. Os bichinhos do chão, do ar, do rio e do mar ocuparam lugar de destaque, como o fez Gaudi ao construir a Igreja da Sagrada Família, em Barcelona. Nas laterais de suas paredes foram colocadas pequenas esculturas de bichinhos que dali foram expulsos quando a igreja foi construída. Uma homenagem aos sem-nome. Lá como aqui, calangos, lagartixas e outros répteis de pequeno porte aparecem com um destaque que emociona. Quase esquecia os zigue-zigues e os sapinhos.

Os cataventos – ah, os cataventos! – passaram por meus textos como moinhos de vento, sem o serem de fato, posto que nada moem.

Porém tudo nasce e com o tempo perde força. O momento de parar é este. Nem que seja por alguns meses. Guardarei algumas crônicas já prontas para que, em um futuro próximo, possa eventualmente publicá-las, retomando a marca da minha areiabranquicidade.

Escrever não é fácil, pois ao fazê-lo colocamos nossas ideias em cheque, ao tempo em que nos expomos às críticas algumas vezes justas. Imagino haver escrito em torno de 350 crônicas, ou um pouco mais (Carlos Alberto poderá dizer o número exato), e certamente o fiz com esmero, sem fugir à verdade dos fatos.

 

Até a próxima.

PS – Obrigado, Jerônimo, por sua inteligência.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Aguardo-o(a) no endereço www.evaldoab.wordpress.com (AreiabranquiCidade)

 

 

 

 

Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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