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Desde que comecei a escrever para este blogue, trazia comigo uma disposição ímpar para colocar algumas ideias sobre acontecimentos do dia a dia da nossa cidade, falando de personagens comuns, pessoas do povo.

Nesse caleidoscópio retrofílico, procurei enfatizar o encanto das falésias, toda a grandiosidade e harmonia dos nossos manguezais, com sua fauna diversificada, além da beleza de Barra e Pernambuquinho, localidades emblemáticas de nossa meninice. Não esqueci o Pontal, testemunha de um diuturno e amigável encontro de rio-mar bem junto à sua costela mindinho.

Também enfatizei as brincadeiras da meninada de então, com seus jogos, seus piões e suas cantigas de roda, hoje sumidos.

Falei de ruas simples, do Beco da Galinha Morta, das poucas praças e de nossa igreja, sempre disposta às lutas. Não esqueci os barcaceiros, os calafates e, de modo especial, os salineiros. Os bodegueiros e os músicos receberam de mim uma atenção especial, por ter sido meu pai um deles.

Muitas pessoas foram abordadas em minhas crônicas, com informações seguras fornecidas por pessoas que gostam da cidade e respeitam o seu passado, em que a verdade se destaca como ponto essencial. Sempre procurei evitar a citação de políticos, pelos motivos óbvios.

E fluíram crônicas sobre o Cine Coronel Fausto, galanteios quase em excesso à Rua do Meio e palavras de amor pela Rua da Frente. O Cine Miramar, o Cine São Raimundo, o Maracangalha, a Maternidade, o Palacete Municipal com sua sonora, a pracinha e toda uma fauna de estudantes que ali alimentavam discussões com alunos da Escola Técnica de Comércio foram inúmeras vezes incluídos em meus textos. Aqui, a lembrança de José Jaime e Toinho Tavernard.

Não posso deixar de citar o rio Ivipanim, com sua história ponteada por barcos e barcaças que o tempo levou. As canoas sempre participaram de minhas crônicas, fosse na ida ou na volta de Barra e Pernambuquinho. Muitas vezes falei dos caminhos que levam à Praia do Meio, e dali a Upanema, passando pela prainha de Zé Filgueira. Os siris, os tatuís e as taiobas enriqueceram nossas vivências, assim como a lembrança de Pedrinhas e Casqueira.

Quase nada foi esquecido nos meus textos. Os bichinhos do chão, do ar, do rio e do mar ocuparam lugar de destaque, como o fez Gaudi ao construir a Igreja da Sagrada Família, em Barcelona. Nas laterais de suas paredes foram colocadas pequenas esculturas de bichinhos que dali foram expulsos quando a igreja foi construída. Uma homenagem aos sem-nome. Lá como aqui, calangos, lagartixas e outros répteis de pequeno porte aparecem com um destaque que emociona. Quase esquecia os zigue-zigues e os sapinhos.

Os cataventos – ah, os cataventos! – passaram por meus textos como moinhos de vento, sem o serem de fato, posto que nada moem.

Porém tudo nasce e com o tempo perde força. O momento de parar é este. Nem que seja por alguns meses. Guardarei algumas crônicas já prontas para que, em um futuro próximo, possa eventualmente publicá-las, retomando a marca da minha areiabranquicidade.

Escrever não é fácil, pois ao fazê-lo colocamos nossas ideias em cheque, ao tempo em que nos expomos às críticas algumas vezes justas. Imagino haver escrito em torno de 350 crônicas, ou um pouco mais (Carlos Alberto poderá dizer o número exato), e certamente o fiz com esmero, sem fugir à verdade dos fatos.

 

Até a próxima.

PS – Obrigado, Jerônimo, por sua inteligência.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Aguardo-o(a) no endereço www.evaldoab.wordpress.com (AreiabranquiCidade)

 

 

 

 

Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Olhando da Rampa, Grossos e Porto Franco pareciam quase invisíveis, apesar do dia claro. Em frente, o manguezal mostrava-se incomodado. Seus moradores se agitavam ao perceber os últimos avisos da subida da maré. Era preciso cada qual procurar sua moradia. A maré se agigantava.

Sabíamos que por trás daquele manguezal esparso, do outro lado da Rampa, dois pequeninos lugarejos tentavam manter-se ocultos. Apenas as canoas dispunham de alvará que as permitiam adentrar pelo estreito canal. E fomos lá, bem no dia da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes.

Ao chegarmos a um pequeno banco de areia, a canoa encostou e algumas pessoas desceram do pequeno barco. Agora sozinhos, passemos à nossa visita. Queríamos visitar aquele encontro aqui já relatado, onde o céu, o mar e o rio pareciam fazer uma reunião. O que, afinal, combinavam?

Uma Operação Controlada foi armada em Upanema. Munidos de máquina fotográfica e um prévio acerto com o canoeiro, fomos com cara de sem-querer-querendo no rumo do encontro rio-mar.

Saímos de leve, motor em baixa rotação. Desligados da pressa do dia a dia, fingíamos um deslocamento sem compromisso, no desinteresse que ali se engendrava. Nada falamos, mas nosso objetivo oculto era flagrar aquele encontro tripartite em uma pequena área de exclusão entre mar e rio, sob a arbitragem de um céu muito abaixo de sua altura habitual. Foi o que imaginei.

Ao chegarmos, uma surpresa. Não havia área de exclusão, como acontece na fronteira das litigantes Coreias sob supervisão da ONU.

 

E descobrimos um rio calmo em contato chegado com um mar sereno. De diferente, penas um discreto vai e vem que mais parecia um tremelique junto à linha que demarcava aquele escasso território até então imaginado como tenso. Até um peixe que os supervisionava se afastara de forma sorrateira e agora olhava distante, um olho no rio outro no mar.

O céu, o mar e o rio flagrados em um encontro marcado em frente ao Pontal, e agora delatado.

Como surpresa, a descoberta de uma boa relação entre as partes, e nada de alteração. A natureza em bom comportamento, como sempre acontece.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Pelas ruas de Areia Branca sempre nos defrontamos com pichações horrorosas e rabiscos sem justa causa emporcalhando muros e paredes de residências e casas de comércio. São muros e paredes que recepcionam o pior de quem não se fez grafiteiro. São jovens trazendo em suas mãos irresponsáveis o spray e o pincel da estupidez.

De repente, versos começaram a brotar nos mesmos muros mal cuidados, como arautos dos bons tempos que estão por vir. Os poemas trazem consigo a pureza de um anonimato responsável e a aura poética de uma juventude criativa, de olho em um ponto futuro determinado por um planejamento estratégico ainda não formatado.

Em Verona, na Itália, conheci o Muro da Julieta. Visitando Praga, capital da República Tcheca, conheci outro muro também famoso. Ali, alguns jovens poetas da cidade decidiram protestar contra o imobilismo cultural e a falta de liberdade, depois da morte de John Lennon, inserindo poemas em um muro até então inexpressivo, sendo hoje o Muro de Lennon a maior atração turística cultural de Praga.

Muro de Lennon, Praga

 

Em Areia Branca, a sutileza de uma geração de jovens na aridez de um muro.

A cultura na terra do sal.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

“[…] Eu sei que você já viu um pé de goiaba, um pé de laranja e um pé de manga. Pode até ter plantado algum no quintal da sua casa […] Mas suponho que você nunca viu um pé de saudade. […]”

O trecho acima está no livro “PORTO FRANCO”, a mais recente obra do escritor areia-branquense Chico de Neco Carteiro, a quem, no meio literário, insistem em chamar de Francisco Rodrigues da Costa. Porto Franco é o retorno de Chico ao seu memorialismo apaixonado e puro, carregado de saudade, após ter ele se enveredado em dois romances: Perdão e Guanabara. Quando muitos pensavam que se haviam esgotados todos os dizeres do memorialismo areia-branquense, mais uma vez com o selo da Editora Sarau das Letras, o escritor reaparece com suas crônicas encantadoras, falando sobre o antigo porto que marcou época na região da Costa Branca. O lançamento ainda não tem data definida. Mas, quando chegar a hora, vale a pena conferir.

2017.04.19 Porto Franco capa.png

Abaixo, recortes da crônica “A Igrejinha da Barra”, de Porto Franco.

A IGREJINHA DA BARRA

Do patamar da nossa igreja matriz em Areia Branca, avistava-se, no outro lado da maré, uma capelinha branca. Um belo quadro. Mas, para que os areia-branquenses desfrutassem dessa paisagem, foi preciso a iniciativa de Chico Amâncio, morador da Barra. Ele podou uma área do manguezal que encobria a capelinha. […]

[…]

Dia desses eu estava em Areia Branca. Um sábado. Tomei conhecimento que o meu amigo Dom Marcelo iria cantar a Ave-Maria de Schubert num programa musical intitulado: Projeto “Pôr do Sol”. Justamente na hora em que a Estrela-mor nos abandona e vai iluminar a outra parte da Terra.
Fui prestigiar o filho de Manoel de Marina. Cheguei cedo, antecipando-me ao salmista oficial da paróquia, nomeado pelo padre César.
Enquanto isso, do patamar da igreja, eu procurava ver a Igrejinha da Barra. Não conseguia, os mangues me impediam. A Capitania dos Portos, numa preservação ao meio ambiente, não permitiu que outro Chico Amâncio podasse o manguezal.

[…]

Finalmente, a apresentação. Além dos aplausos do público, Dom Marcelo recebeu calorosas palmas de uma turista francesa, acompanhadas do incentivo:

─ Bravo, monsieur.”

(*) Os grifos em negrito são nossos.

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