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Era final de uma tarde de sexta-feira, a quatro dias da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Estávamos reunidos no hotel de Upanema quando fomos avisados de que em frente ao Marco Zero, voltado para o patamar da igreja, estava ocorrendo a apresentação semanal de um conjunto musical que acontecia ao cair da noite. Um happy hour com direito a um belo pôr de sol. Saímos de forma estabanada no rumo da Rampa.

Uma pequena multidão se aglomerava entre o Marco Zero e a Rampa. Na frente da igreja, as pessoas, em postura viking, saudavam a apresentação do alto do patamar – agora em forma de um barco – e pareciam dispostas a invadir o rio, no resgate dos últimos fragmentos de um sol muito vermelho que agonizava pros lados de Tibau. A música como incentivo.

De fato, ali, em pleno Marco Zero, alguns músicos prestavam uma homenagem ao pôr do sol mais belo do Rio Grande do Norte.

Ao sairmos, assistimos a um sol confuso, cominutivo, tentando espalhar os restos de vermelho em um céu gris. Um convite à reflexão. Puro encantamento.

Somente depois viríamos saber que se tratava de mais uma apresentação do Projeto Pôr do Sol, iniciativa da Prefeitura Municipal para incentivar o deslocamento das pessoas nos finais das tardes das sextas-feiras para, de forma comunitária, curtir o pôr do sol do patamar da igreja, ao tempo em que assiste à apresentação de músicas de boa qualidade, sejam cantadas ou executadas por excepcionais instrumentistas.

Projeto Pôr do Sol. Um oásis de boa música. Uma sobremesa para a Poesia Nos Muros.

Uma seresta, ao final.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Ancorado no descompromisso, iniciei uma romaria/via-sacra pessoal em agosto deste ano, saindo de Natal com destino a Juazeiro do Norte, desligado de relógio e calendário. Era o deixar-se ir.

Nos caminhos de ida, Tangará e Boa Saúde nos orientavam para as terras de Santa Cruz; daí a Currais Novos e Caicó foi fácil. Logo depois, enfim, conheceria Pombal e um rio de nome estranho – Saco do André. Um tropeço no mapa e fomos parar na cidade de Patos, na contramão do nosso ponto futuro, Juazeiro do Norte. Mais uma boa surpresa ao nos depararmos com uma cidade que nos impressionou por seu estágio de desenvolvimento. Finalmente, Juazeiro do Norte nos receberia ao cair da noite.

Entre Barbalha e Milagres, mais um tropeço e adentramos Pernambuco. Foi um sem-querer-querendo que serviu como amostra – tipo biópsia – do alto nível de desenvolvimento daquele Estado.

Cajazeiras muito nos impressionou. Imaginava uma cidade pequena, de população reduzida. O que vimos foi uma efervescência de pessoas e mercadorias que nos profetiza o futuro promissor que se avizinha.

Mas eu tinha um encontro com o Padim Ciço, que foi marcado em um quintal de uma festa de são-joão em Brasília, ele vestido a caráter.

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Ainda na estrada, utilizando os binóculos do interesse, uma metrópole despontava altaneira, vibrante. Eram os primeiros sinais de Juazeiro do Norte na paisagem. Ao transitarmos por suas ruas bem calçadas, a certeza de uma economia forte, onde a aura e a mística do Padre Cícero Romão Batista influenciam comportamentos e decisões. Em Juazeiro percebemos uma aura mística semelhante à que flui nas cidades de Assis, na Itália, e Santiago de Compostela, na Espanha. Só indo para entender.

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No cedinho de uma manhã que se anunciava quente, uma parada que obedecia a um quase inaudível chamado. Era o Padim Ciço em pessoa.

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– Garoto, finalmente!

– Eu, garoto?!

– É que tens apenas alguns minutos de vida. Ela começa a partir de agora.

– Soube que fizeste uma bonita litania do penitente. Sei que tua via sacra pessoal foi um tempo de reaproximação e de descobertas.

– Ora, padim, foi uma simples ladainha.

– Litania, garoto! Isto é o que é. E por que não vieste aqui falar comigo? Eu te diria sobre os modos do meu povo, suas lutas e necessidades. Sei que conheces – e bem – os caminhos e as encruzilhadas. Falta o mote.

– É que fiquei sem jeito.

– Pois retoma o tema. Atrás, à tua direita está o roteiro. Toma a caneta, coloca o chapéu e refaz o percurso.

Fortalecidos com o encontro, enfim chegamos a Areia Branca na antevéspera da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, trazendo conosco os bons fluidos de Apodi e Mossoró. Areia Branca, apesar das conhecidas dificuldades, caminha com passos decididos no rumo de um desenvolvimento ordenado.

Pelos caminhos, boas estradas. Pelas cidades, sinais de vida pujante.

Coisas do desenvolvimento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Quem foi à festa de Nossa Senhora dos Navegantes nesses últimos anos deve ter concluído, como eu, que as coisas mudaram radicalmente em nossa cidade.

Quando crianças, aprendemos que os caminhos que levavam a Honorina eram proibidos para meninos e meninas. Naturalmente, a turminha dos pequenos sabia que lhe era negado o acesso àquela área da cidade, onde o vento solto fingia brincar com a terra ressequida, um conluio orquestrado para a formação da poeira. Honorina sempre foi uma palavra maldita para nossa geração. Somente muito depois uma crônica do Comandante Miranda veio para esclarecer de forma definitiva essa questão. A história é outra, e melhor.

Na véspera da procissão marítima deste ano de 2016, uma noite de segunda-feira, dirigimo-nos para o centro da cidade, no rumo da pracinha. O interesse era rever a movimentação que envolve o maior evento religioso de Areia Branca.

Pracinha vazia. Cinco pessoas, se muito. Olhando do lado direito da igreja, de pé na calçada da prefeitura, descobrimos um conjunto de cadeiras e mesas onde alguns jovens curtiam os livores daquela noite de brisa forte. Apenas isto. O resto era solidão.

Na Rua do Meio, quase ninguém nas calçadas. Rua da Frente vazia. Na Rua 30 de Setembro um carro com três rapazes, estacionado sobre a calçada, emitia sons de decibéis quase imensuráveis, com músicas de gosto bastante duvidoso.

Este era o movimento na área central. A cidade inteira havia se dirigido para a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, epicentro da grande festa, onde pessoas se deslocavam com dificuldade entre caminhões à direita do estacionamento e parques de diversões à esquerda. E a igreja fervilhando de fiéis que, desde nossa meninice, conjugam o verbo encontrar e crer. A felicidade transparecia dos olhares de adultos e crianças.

Tudo isso nos caminhos de Honorina, quase vizinho ao estádio de futebol, que recebeu o nome de Dr. Gentil Fernandes. Justa homenagem.

Nos caminhos de Honorina, a festa máxima do catolicismo areiabranquense.

Quem diria!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Sabemos que os carnavais de Areia Branca são e sempre foram muito animados, com os clubes de frevo e os blocos de índios liderando as apresentações de rua, tendo como ponto do desfecho a pracinha. Ali, muitas vezes fiquei deslumbrado com as cores berrantes e o brilho ofuscante das passistas, no embalo das músicas de carnaval, replicação dos sucessos musicais que embalavam o carnaval de todos os carnavais: o do Rio de Janeiro.

Nas ruas, de domingo a terça-feira, os ursos aterrorizavam as crianças que, apavoradas, escondiam-se nos recônditos mais profundos de suas casas, ou agarravam-se às pernas seguras do vovô ou da vovó.

Nas rádios, desde o raiar do dia até o desligamento da energia, por volta das dez horas da noite, músicas carnavalescas animavam as raras casas que dispunham de rádio. As pessoas eram tomadas pelo espírito carnavalesco, independentemente de sua condição financeira ou social.

Lembro do último carnaval de que participei, já grandinho. Não lembro o ano. Meu sonho de adolescente era ter uma calça azul com uma franja amarela na lateral. Nunca realizei meu sonho.

Não sei como consegui entrar no baile do Palacete Municipal. O que lembro é de minha ansiedade por apertar o gatilho de uma Rodouro, na tentativa de expandir aquele cheirinho mágico pelo salão. O lança-perfume tinha o condão de acalentar amores juvenis mal correspondidos ou em formatação. No meio da festa, o resmungar de umo sonho: se tivesse uma Rodouro, eu ganhava aquela menina. Pura ilusão. À disposição, apenas um pequeno rolo de serpentina já usada. E isso era insuficiente.

Palacete MunicipalFoto histórica da inauguração do Palacete Municipal – Gibran Araújo

No ano de 1961, por decreto, o presidente Jânio Quadros proibiu a comercialização do lança-perfume no Brasil, em face dos prejuízos causados ao organismo quando inalado de forma tresloucada. O uso indevido desse produto podia causar desde euforia e excitação, passando pelo famoso “tuim” – parece o barulho de uma linha telefônica aguardando uma chamada – até o coma profundo e a perda da memória.

Para mim, carnaval e lança-perfume traziam, juntos, a incrível capacidade de produzir sonhos. No caso do lança-perfume – Rodouro -, jamais consegui ter uma em minhas mãos, para uso próprio.

Lembro que pessoas menos esclarecidas utilizavam o metal do lança-perfume para, nas festas populares, fazer uma capa para os dentes, geralmente os dois caninos, para distribuir um falso e azinabrado sorriso. O zinabre é o resultado da oxidação do cobre, deixando escuro, em poucos dias, o que antes brilhava e encantava nos sorrisos que se escancaravam nas cercanias dos brinquedos dos parques de diversões. Daí, a lembrança daquela mensagem em forma de postal sonoro para a jovem de sorriso brilhante ao lado do carrossel de cavalinhos.

Assim foi meu carnaval em um dos últimos anos da década de 1950. Alegria, emoção, encantamento.

E sem Rodouro.

Texto enviado por Chico Brito. 

Algo que, desde há muito, venho compartilhando com minha família, são os festejos em louvor a Momo, o qual, para os gregos é o Deus do Sarcasmo e do Delírio e, para nós, brasileiros, trata-se simplesmente do Rei da Folia e da Alegria. Nessas ocasiões, nos esquecemos das azáfamas do dia a dia e aumentamos o consumo de magníficos churrascos regados a muitas e muitas cervejinhas. Uma vez saciado nosso apetite e sede, sempre junto aos entes queridos, incluindo aí a esposa, filhos, genros, noras e netos, costumo conceder-me alguns instantes de concentração, com o olhar fixo na telinha, apreciando os blocos dos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Num desses momentos, meus pensamentos empreenderam uma maravilhosa viagem rumo ao Nordeste querido, com o foco voltado para os Blocos Carnavalescos de Areia Branca.

Tentando ordenar as lembranças, em meio a forte emoção, parecia ouvir o som produzido pelo Bloco do Zé Pereira que desfilava no sábado, depois que os geradores de energia elétrica de minha terra Natal, Areia Branca, eram desligados, às 22:00. Era a abertura do Carnaval. A letra da música cantada pelos foliões, na semi-escuridão, era mais ou menos assim: “VIVA ZÉ PEREIRA, CALUNGA DE CERA, VIVA ZÉ PEREIRA VIVA O CARNAVAL”.

No domingo, ao raiar do dia, começavam as BAGACEIRAS. Havia uma corda cercando os participantes e uma pessoa desfilava vestida de urso (tal fantasia sendo de saco de estopa e fibra de agave, com uma máscara moldada em saco de cimento e embebida em grude feito de goma). Era uma gritaria quando o urso se dirigia a uma criança. Havia pessoas que convidavam a BAGACEIRA para entrar em sua casa. Lá havia bebida e comida para os participantes.

Na parte da tarde, era a vez dos blocos denominados “NEM QUEIRA SABER”, “SALENISTA”, “OS DEMOCRATAS”, “OS REMADORES” e “CENTENÁRIO”. Anos depois, desfilou a primeira escola de samba “BAFO DA ONÇA” criada por Joel. Tais blocos desfilavam junto a um palanque construído defronte à Prefeitura. Os blocos passavam pela Rua do Meio, seguiam pela Coronel Liberalino, Travessa dos Calafates, 30 de Setembro (hoje Silvério Barreto), Dr. Manoel Avelino, Rua do Meio e passavam novamente em frente ao palanque onde recebiam as notas dos jurados.

Todos os anos minha mãe comprava serpentinas, confetes e lança perfume da marca Rodoro para eu jogar nos blocos. Era maravilhoso ver os blocos passarem com suas lanças, estandartes e adereços.

De noite, aconteciam os bailes carnavalescos nos clubes. O principal era o Ivipanim Clube, somente para as pessoas da alta sociedade. Já para as pessoas das ruas de trás rolavam bailes populares no SINDICATO DOS ESTIVADORES, MOÇOS E MARINHEIROS, MESTRES ARRAIS, CÍRCULO OPERÁRIO e SINDICATO DOS CONFERENTES.

Eram bailes muito animados e sem violência. As pessoas que não tinham condições de frequentar qualquer deles ficavam, ‘no sereno’ como se dizia à época. Nos dias subsequentes, ouvíamos as fofocas:  – Quem fez isso ou aquilo?  – Quem bebeu demais?

– Quem beijou a boca de quem?

Não vamos nos esquecer de que os bailes eram animados com orquestras contratadas pelos clubes e só tocavam músicas carnavalescas, o que difere em muito do comportamento de hoje, quando a animação fica por conta de CDs de músicas que não têm nada a ver com o Carnaval, principalmente, o importado Funk.

Como uma odiosa fumaça, meu enlevo foi, repentinamente, interrompido por minha mulher, perguntando se eu gostaria de mais uma cerveja para acompanhar o desfile pela TV. Como bom marido que entendo ser, perdoei-a por ter cometido ‘esse atroz crime’ , qual seja o de  me ‘expulsar’ de um alegre bloco imaginário criado pelo meu estado ligeiramente etílico e animado pela minha intensa saudade dos carnavais da minha querida Areia Branca.

agosto 2017
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