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Olhando da Rampa, Grossos e Porto Franco pareciam quase invisíveis, apesar do dia claro. Em frente, o manguezal mostrava-se incomodado. Seus moradores se agitavam ao perceber os últimos avisos da subida da maré. Era preciso cada qual procurar sua moradia. A maré se agigantava.

Sabíamos que por trás daquele manguezal esparso, do outro lado da Rampa, dois pequeninos lugarejos tentavam manter-se ocultos. Apenas as canoas dispunham de alvará que as permitiam adentrar pelo estreito canal. E fomos lá, bem no dia da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes.

Ao chegarmos a um pequeno banco de areia, a canoa encostou e algumas pessoas desceram do pequeno barco. Agora sozinhos, passemos à nossa visita. Queríamos visitar aquele encontro aqui já relatado, onde o céu, o mar e o rio pareciam fazer uma reunião. O que, afinal, combinavam?

Uma Operação Controlada foi armada em Upanema. Munidos de máquina fotográfica e um prévio acerto com o canoeiro, fomos com cara de sem-querer-querendo no rumo do encontro rio-mar.

Saímos de leve, motor em baixa rotação. Desligados da pressa do dia a dia, fingíamos um deslocamento sem compromisso, no desinteresse que ali se engendrava. Nada falamos, mas nosso objetivo oculto era flagrar aquele encontro tripartite em uma pequena área de exclusão entre mar e rio, sob a arbitragem de um céu muito abaixo de sua altura habitual. Foi o que imaginei.

Ao chegarmos, uma surpresa. Não havia área de exclusão, como acontece na fronteira das litigantes Coreias sob supervisão da ONU.

 

E descobrimos um rio calmo em contato chegado com um mar sereno. De diferente, penas um discreto vai e vem que mais parecia um tremelique junto à linha que demarcava aquele escasso território até então imaginado como tenso. Até um peixe que os supervisionava se afastara de forma sorrateira e agora olhava distante, um olho no rio outro no mar.

O céu, o mar e o rio flagrados em um encontro marcado em frente ao Pontal, e agora delatado.

Como surpresa, a descoberta de uma boa relação entre as partes, e nada de alteração. A natureza em bom comportamento, como sempre acontece.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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Uma praça em frente ao Tirol, que ficava no Cais da Rua da Frente. Qual a força que pode ter uma praça em frente a um rio?

Voltemos ao ponto zero. Um banco. Uma praça – a Praça do Pôr do Sol. À frente, o Tirol. Emoldurando os lados e o fundo da paisagem, o belo rio Ivipanim. No nível do horizonte, um exuberante manguezal. Se houvesse um encontro/conluio com o inesperado, poderiam ser vistas três barcaças juntas, partindo para mais um dia de trabalho estafante.

Ainda sentado no banco, esticando o olhar para a direita, vislumbramos sinais do encontro do rio com o mar, que se sabe hoje formatado em uma tênue linha na superfície das águas. Neste ponto, basta virar à esquerda e temos a visão de Tibau, com suas areias multicoloridas. Forçando o olhar, agora à direita, a visão do Pontal.

No hoje que nos impacta, não há praça nem Tirol. Sumiram no irresponsável vento da insensatez. Em seus lugares, apenas o vazio. O mesmo vazio que sentimos ao perceber a ausência daquelas lanterninhas coloridas que enfeitavam a frente das casas nos são-joões de nossa infância, com o pipocar de peidos-de-velha e o brilho das estrelinhas. As coisas mais bonitas sumiram sem deixar rastros, como aconteceu com os pastoris de verdade. E por falar em sumiço, será que, em Areia Branca, ainda se encontram tatuís e taiobas?

Com esse mote na cabeça, resolvi caminhar pelas ruas do passado. Percebi que seus nomes foram trocados, e em boa parte por outros que pouco ou nada dizem, perdendo a cidade, a história e seu simbolismo.

Confuso, e como de medida de autopreservação, blindei minha cabeça com uma criptografia oriunda do mundo nano, utilizando técnicas da ciência noética. Isso me garante que nenhum hacker pode acessar meus sonhos. Por conta deles ainda estou vivo.

Uma praça, o Tirol, o rio, Tibau, o Pontal. E o mar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

A igreja matriz de Areia Branca sempre fez parte de nossos interesses e vivências desde quando ainda pequeninos. Quase todos nós fomos ali batizados, e muitos de nós retornamos à nossa referência como casa de oração logo que pisamos o solo areiabranquense. É sempre a primeira visita.

De nossas casas ouvíamos as batidas do sino da velha igreja a nos convocar para os eventos religiosos. Em outros momentos, três batidas em sequência nos comunicavam que alguém havia morrido. A primeira era grave e longa, seguida de dois toques curtos e agudos. Saber quem fora tornava-se a conversa daquele dia, fosse em casa, no trabalho ou na rua. Logo a cidade inteira seria informada por quem os sinos dobravam.

Muitas escolas da cidade – como o Círculo Operário – chegavam a exigir que seus alunos frequentassem a missa aos domingos, e logo na segunda-feira cada escola sabia quem havia faltado.

Sempre achei a frente da igreja – frontispício – com cara de esfinge, seja por sua sisudez ou pela postura serena na beira do cais, tomando conta do rio Ivipanim e do manguezal que o protege dos dois lados.

Pela primeira vez tenho em mãos uma foto reveladora. O telhado de nossa igreja

Reproduz perfeitamente o formato de cruz. Uma grande cruz que abençoa uma cidade planejada desde o início. Mas este fato somente agora vem demonstrar a preocupação dos construtores da nossa igreja.

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Em Brasília, o rabisco de uma cruz em forma de avião, e o primeiro cruzamento. A cidade.

2017-02-13-photo-00000625Foto Dario Lima

Em Areia Branca, a descoberta de uma cruz no alto da igreja, que nos encanta, em uma cidade igualmente planejada. A paz.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Saí da Rampa quase no final da tarde. Sem que nada lhe fosse dito ou perguntado, o canoeiro, companheiro de outras lidas, guinou para a esquerda, no sentido de Grossos. Deixei-me levar. À esquerda, imagens da Rua da Frente, digo, do que resta daquilo que foi o cartão postal da cidade, começando na igreja matriz e terminando no Tirol, estrutura que emoldurava a Praça do Pôr do Sol. Hoje restam apenas as marcas da insensatez. Em todo aquele trecho da rua não há uma loja em atividade, ou qualquer outro sinal de vida inteligente.

canoeiro

Onde outrora imperava a elegância e o bucolismo do Tirol, restam apenas espectros sem vida. São fácies doentias compondo o enredo da devastação. Nos dias de nossa meninice era ali que ficavam as casas mais aconchegantes da Rua da Frente, e com certeza habitadas por famílias felizes, influentes, pertencentes à classe média alta da cidade.

E a canoa foi deslizando nu rumo de Grossos, onde o rio Ivipanim aprende a dar seus primeiros passos em busca da autopreservação, mas ainda confuso, saindo de um tilt teste que revelara uma síndrome vasovagal aquática quase sem solução. O manguezal que o diga, responsável que é por sua depuração.

De repente, sem que uma palavra fosse pronunciada, a canoa deu uma volta com a elegância de uma serpente, retornando de forma serena, quase que sem que o rio percebesse. Imaginei uma êntese em ação, movimentando articulações de madeira que não admitem torções, exceto as do motor.

Fechei os olhos. Não queria um bis visual do final da Rua da Frente. E assim, como se houvera em mim um rebaixamento do nível de consciência, passei novamente por toda a rua tendo os olhos fixos em pequenas poças d’água que se acumulavam no fundo da pequena embarcação. De repente, fui surpreendido pela parada do motor. Levantei o olhar. À minha frente, um pôr de sol indecente, digo, incandescente, com o amarelão pontilhando um céu escuro. Era o brilho do esplendor. O êxtase da pura beleza.

Ali, percebi que tudo valera a pena. De volta à Rampa, uma triste constatação. Ficara tão embevecido com aquela imagem de final de tarde que esqueci de tirar uma foto. Não adiantava retornar. Naquele canto do céu tudo se fragmentara. À direita, imagens do Pontal. Pros lados de Tibau, um furdunço de cores pontuava os estertores de um sol em agonia.

No início, achei que bastava uma canoa como parte de um sonho em movimento, o Ivipanim como provedor. Mas faltava a foto.

Alguém foi lá e fez o que eu não consegui. Uma foto. A foto da minha visão, mesmo que em outro ponto do rio.

por-do-sol

Esta, com assinatura. No canto direito.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Realizei uma romaria pessoal em agosto deste ano, saindo de Natal, passando por Currais Novos, Caicó, Sousa e chegando a Juazeiro do Norte, onde tive uma audiência privativa com o Padim Ciço, retornando por Apodi, Pau dos Ferros, Mossoró e Açu, com o epílogo na Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em Areia Branca. Essa via sacra teve uma aura de despedida em relação a alguns lugares e o conhecimento de novas terras, sonhos da infância. Aí Estão as cidades de Juazeiro do Norte e Sousa, aquela no Ceará e esta na Paraíba.

Em minha conversa reservada com o Padim Ciço, no silêncio de uma manhã sem romeiros, falei de Areia Branca e de sua grande festa popular. Ele determinou que eu retornasse ao início e recuperasse o que fora perdido.

Fiz de conta que entendera a determinação. Em casa, fiquei remexendo em alguns papéis deixados sobre a mesa de trabalho, em que escrevera rabiscos para a minha Balada de Um Penitente, ponto de partida para o planejamento dessa viagem. A Balada de Um Penitente é uma via sacra pessoal marcando um tempo de reaproximação e de descobertas. Uma caminhada lenta, solitária, com o viés do descompromisso. Marcadores do tempo e do espaço desconectados. Uma busca de não sei o quê. Uma viagem sem ponto futuro. Recolhi fragmentos escritos – ideias, pensamentos, frases soltas – que apareciam em pequenos papéis, alguns já rasgados, restos de um esforço literário de pequena monta.

Ao final, tinha em mãos rabiscos de escritos recuperados, aqui agrupados de forma aleatória. Eis o que restou:

Areia Branca,

Rua da Frente; do outro lado,

Manguezais no céu limite,

Sal que outrora foi carago.

ab-lucasFoto Lucas Fonseca

 

Pés descalços, perda do norte

Caminhos, veredas, encruzilhadas

Calor quase inferno, mente que tremelica

Desassossego que antecipa o desespero

Riscos poeirentos em costelas de rios secos

Riachos há alguns meses prenhos d’água.

Na pisada do tatu, muitas vezes viro bola

Para rolar na ribanceira

Quando as pernas dificultam.

Na inadimplência da razão

A visão se encaracola

O claro se escurece.

A noite montando jumento

Dá guarida a todo o mal

Que fica no rés-do-chão

Aguardando outra manhã

Para poder se renovar.

No pipocar do fogo fátuo

Na ira do boitatá

Homem virando onça

Boi virando embuá

 

Restos de uma litania. Fragmentos de escritos não aproveitados no prato principal.

Uma feijoada literária.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

dezembro 2017
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