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Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Tatuí. Por que esse bichinho é tão importante para quem, na década de 1950, corria pelos caminhos de Zé Filgueira, no rumo da Praia do Meio, subindo e descendo as pirâmides de sal, com o risco de, do outro lado, ser surpreendido por um buraco a esperá-lo para um acidente?

Por que lembramos das taiobas, tantas vezes capturadas do outro lado do rio, pros lados de Pernambuquinho, na maré baixa, quando imensas costelas de areia enfeitavam o leito do Ivipanim ali exposto?

Em Lisboa, no Bar do Ramiro, um encontro com uma parenta da taioba e, de quebra, fui apresentado a um marisco bonito e de nome estranho: percebes, uma espécie de crustáceo que se tornou uma iguaria em Portugal.

Percebes

Por onde andarão os sapos que coaxavam no depois das chuvas, muitas vezes servindo de acalanto na hora de dormir?

Raros também estão os zigue-zigues, também conhecidos como libélulas, que enfeitavam quintais e agitavam a meninada quando brincava nas águas das poucas enchentes.

É que hoje amanheci saudoso, tentando uma resposta para questões simples, mas que refletem toda uma qualidade de vida que o tempo foi confiscando das pessoas.

Há saguis em Areia Branca? Não lembro. Visitando São Miguel do Gostoso, tive o prazer de duas surpresas. Logo na entrada, um frondoso pé de cajarana, que há muitos anos não via. Durante o café da manhã, fomos saudados por uma colônia de saguis saltitantes, que somente se acalmavam com um pedaço de banana.

Tatuís, taiobas, sapos, zigue-zigues, saguis. Saudade.

Os dois últimos costumam aparecer em meu quintal. Uma curtição.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

…puxa vida logo hoje sábado esqueci de desligar a droga desse despertador e essa música horrorosa não para de tocar vou desligar e me virar pro outro lado talvez consiga dormir mais um pouco quando criança em Areia Branca tive muitas dúvidas e aflições que tiravam meu sono nem quero pensar nas ameaças do bicho papão e aquela estória de que o fim do mundo ia chegar no final do ano fora isso um dos maiores problemas era sobre o que eu seria quando adulto meu irmão Zé Maria era marinheiro e meu irmão João trabalhava no Sesi o outro mais velho Mauro trabalhava em Natal no Banco do Brasil por isso minhas pretensões de futuro eram muito limitadas que coisa bonita ouvir esse galo do vizinho cantar isso me lembra das galinhas e dos galos que meu pai criava em Areia Branca e quando nasciam os pintinhos era uma festa desde pequeno eu vivia em uma casa com um grande quintal e com bodega na parte da frente e minhas referências eram os trabalhadores do cais os barcaceiros os carpinteiros os calafates além do pessoal que trabalhava nas salinas é que os empregos eram raríssimos e as pessoas que assumiam certas funções se achavam ricas mas esse tipo de serviço nunca me passou pela cabeça eu não tinha em quem me espelhar para orientar meu futuro e não fazia ideia do que fazer com o curso que estava fazendo na Escola Técnica de Comércio que funcionava no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra teve um dia eu ia vestir uma calça nova que Maria Laís fez pra mim com reforço nos suspensórios mas mamãe trouxe uma que acabara de engomar e eu saí com ela pensei até em alugar uma bicicleta e passear pela Rua do Meio nessa época fui trabalhar no consultório de doutor Vicente Dutra e depois no consultório de doutor Willon Cabral também trabalhei na movelaria de seu Antonio Silvino e finalmente fui trabalhar nas Lojas Paulista como auxiliar de empacotador engraçado Chico Brito assumiu o meu lugar e eu não o conheci foi quando minha mãe me pôs no curso de datilografia que funcionava no final do Beco da Galinha Morta e que abriria muitas portas nos empregos que assumiria quando cheguei em Natal e fui estudar no Padre Miguelinho que fica ali perto da igreja de São Pedro na subida do Baldo para o Alecrim em frente ao cemitério naquela época acalentava o sonho de ser sargento da aeronáutica quando maiorzinho fiz até prova para entrar no mundo militar mas desisti quando fui fazer a prova na Base Aérea de Natal é que estávamos no ônibus aguardando o transporte para o local da prova quando um militar graduado chamou um soldado e disse quero o sargento Almeida aqui agora mesmo e o soldado saiu apressado e dali a pouco ele retornou resfolegante dizendo que o sargento não estava e o militar graduado berrou descontrolado eu falei que queria o sargento aqui volte e traga o sargento Almeida aqui como eu falei naquele mesmo dia eu desisti da vida militar em seguida trabalhei tomando conta da Confeitaria Mirim no Grande Ponto depois fui trabalhar no Arquivo Geral do Estado e em seguida no IML onde me encantei com as necrópsias dos cadáveres e os exames de corpo de delito nos envolvidos em acidentes e outros eventos de violência foi no IML que conheci alguns médicos e comecei a tomar gosto pelo trabalho na área da medicina a festa dos quarenta e cinco anos de formado em São Miguel do Gostoso foi muito bonita que coisa o despertador tocou novamente devia ter desligado vou levantar e fazer meu café…

45 anos de formatura

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Dois eventos religiosos que eu frequentava em Areia Branca ficariam marcados a ferro em minha mente. O primeiro, as missas em frente à casa de Bagaé. Famílias de Areia Branca dirigiam-se, antes da saída do sol, para a casa de Bagaé com a intenção de participar de um evento inusitado. Uma missa.

O segundo, outra missa. Desta vez, no povoado de Pedrinhas. Quando pequeno, por diversas vezes saí com minha mãe com destino a Pedrinhas, para participar de outro evento religioso. E mais uma vez bem no início da manhã. Pelo caminho, as pessoas carregavam velas acesas nas mãos, protegidas por uma redoma de papel. Uma imagem embonitando uma estrada poeirenta, como se diria à época.

A imagem de um possível rio em Areia Branca veio à tona quando um grupo de WathsApp do qual participo levantou essa questão. É que o Google Maps mostra claramente a imagem de um pequenino rio desaguando no Ivipanim. Seria o rio Pedrinhas? Ninguém soube responder.Google Maps

Esse filete à esquerda da foto seria a prova de sua existência?

Pedrinhas, um rio desconhecido? Ou teria se perdido pelos caminhos do sal?

Foto Google Maps

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

agosto 2017
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