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Em nossa infância em Areia Branca, conhecemos pessoas que apenas passaram por nossa observação, mesmo que sequer soubéssemos seus nomes. Apenas suas figuras ou seus nomes ficaram em nossa memória, e perguntamos ao vento: Tens alguma notícia dessas pessoas?

Quando criança, gostávamos de brincar em frente àquele muro emblemático que ficava nos fundos da nossa casa e da padaria de seu Lalá; hoje, um muro elegante e de pintura nova. O grupo brincava, corria pelas calçadas e no meio da rua. Sem querer chamar nossa atenção, um homem ainda jovem, de ar sereno, passava calado pelas crianças, apenas cumprimentando com a mão. Nós, meninos da Rua da Frente/Rua do Meio, o chamávamos de Japona. Imagino que ele trabalhava ou morava na parte de baixo da Rua do Meio. Sempre imaginei que ele trabalhava no Ambulatório do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários – IAPC, onde Dr. Gentil atendia a clientela do Instituto dos Comerciários.

Sempre procurando briga, havia um garoto forte que todos sabiam ter mania de provocação. Irritava as outras crianças até saírem no tapa. Meu irmão Ivo tem boas estórias desses embates, onde pontuaram sopapos e cangapés. Ninguém sabia seu nome, mas era conhecido na Rua da Frente como Esgalamido.

Neste momento, lembrei-me de um colega do Curso de Técnico em Contabilidade que eu frequentava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. A pessoa mais conhecida, e já veterano, no último ano do curso, era José Jaime, que sempre estava no centro das reações dos estudantes; isto é, aprontava todas. José Jaime era uma figura de destaque, fosse na escola ou nas discussões que aconteciam nos bancos da pracinha, após as aulas. O nome do meu amigo polêmico: Antônio Cruz, garotão conversador, crítico, inteligente. Gostava de contestações sempre acaloradas em torno das matérias, levantando discussões pertinentes.

Finalmente, por onde andam Dedé de Zé Dantas e Toinho Quixabeira? Dedé de Zé Dantas era um meninão que fazia a alegria das garotas. Decidido, sempre tinha dinheiro para comprar cocada de rapadura em uma bodega da Rua da Frente. No contraponto, Toinho Quixabeira, questionador e esperto, fazia parte de nossas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator.

Mais um soluço da retrofilia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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A parte de cima da Rua do Meio, vista do lado que se inicia na Rua das Almas, foi uma das ruas por onde mais transitei na minha infância. Claro que todas as nossas brincadeiras eram feitas na parte de baixo, no trecho que se iniciava na prefeitura e terminava no Círculo Operário.

Dito isto, fica fácil entender minha dificuldade em identificar os moradores da parte de cima da Rua do Meio, na década de 1950. Para resolver essa lacuna, penetrei nos comentários postados neste blog e pedi ajuda a Dedé de Zé Lúcio, filho de Maria Venus (forma bonita de se identificar), Carlos Alberto e Miranda, o nosso Comandante.

Iniciando nossa aventura, temos do lado direito o Cine Coronel Fausto com toda a sua imponência de cineteatro. Vizinho ao cinema morava Huson Gois e sua esposa Enilza, irmã de Pantiquinho, tendo ao lado a casa de Manelzin Mucunza, pai de Chico Gurupi, vizinho do palacete de Zeca de Celso. Do lado esquerdo da rua, na esquina, ficava o armazém de de Pedro Leite; ao seu lado, em uma casa pertencente a Chico Souto, morava dona Edite Belém, que tinha como vizinho seu Adauto Ribeiro, pai de Sônia.

Descendo um pouco, tinha a casa de Antônio Calazans e dona Julinha e em seguida a casa de Dr. Vicente e dona Nenê, pais de Marcelo e Marconi. Do mesmo lado, o Cine Miramar dominava a paisagem, e muitas vezes perdia a hegemonia para as belas casas da Coletoria (onde morava a família dos Lúcio de Góis), tendo em frente a casa de Manoel Bento que, juntas, fechavam o quadrilátero.

Ainda do lado direito de quem desce, na casa ao lado da de Manoel Bento, onde morava Menezes, ficava a casa de Dr. Gentil e sua família, que não era pequena (a esposa e os filhos Ronald, Axel, Chico Zé e Haroldo).

Entre as casas dos Lúcio de Góis e o Maracangalha sempre houve uma edificação muito pouco citada nos comentários deste blog. Ali, várias atividades foram desenvolvidas, entre elas uma distribuidora de bebidas.

O Cine Miramar foi construído depois que o Maracangalha fechou; o prédio é o mesmo.

Sei que, em face do tempo, esquecemos pessoas muito importantes que residiam naquele trecho. Mas com certeza os comentários acrescentarão o que nossa memória deixou passar.

Evaldo de Zé Silvino, filho de Ester (com permissão de Dedé de Zé Lúcio, filho de Maria Venus)

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Quando crianças, apesar de viver em uma cidade muito pequena, as crianças tinham muita dificuldade para se deslocar por áreas mais distantes, mesmo que isso representasse apenas duas ruas. De fato, havia a Rua da Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Daí que, mesmo residindo na mesma cidade, a maioria das crianças não se conhecia, a não ser quando frequentavam a mesma escola. O Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra era o grande centralizador da meninada.

Outro ponto de aglutinação da meninada eram os cinemas. O Cine Coronel Fausto sempre encantou crianças e adultos. Garotos e garotas vestiam suas roupas de festa nas tardes de domingo para a empolgação quase sonho dos seriados, desde aqueles onde pontuavam cowboys e índios, e outros que endeusavam homens e mulheres com seus superpoderes.

Nós, meninos da Rua da Frente, vez por outra colocávamos um paralelepípedo no interior de um chapéu e o deixávamos na calçada. Ficávamos à espreita da vítima que, inexoravelmente, aparecia e chutava o chapéu com força. Era só risos.

Apesar da forte e doentia segregação social que existia, os grupinhos delimitavam locais privativos para suas brincadeiras. Juntavam-se alguns na várzea para soltar papagaio ou, em outros momentos e locais, bater bola ou participar de discussões em grupo. Esses locais eram demarcados pela habitualidade do uso ou, muitas vezes, pela truculência. Tínhamos um grupinho genérico que quase todos os dias subia naquela árvore em frente à casa de Manoel Bento e ficava jogando conversa fora e articulando traquinagens. Lembro de Dedé Sodré.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo(*). Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume(**), com dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. Ali aconteciam as reuniões do grupo, acertadas na escola, bem como os jogos de péla, que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund. obedecendo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha oficial, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas. E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os meninos da Rua Paulo, vencedores, assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Em Areia Branca, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

No Grund, a infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, belo livro de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(**) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 

 

O folclore e os fatos históricos determinam a necessidade de termos junto a nós elementos da paisagem emoldurados em nossa mente. Daí a necessidade de um mundo menor, miniaturizado. Fora do Brasil, ele conheceu algumas cidades em tamanho resumido, onde se destacam equipamentos comunitários importantes. E com autoestradas e aeroporto em atividade.

Ele sempre gostou de miniaturas. No início, um cesto utilizado em antigas salinas no transporte interno do sal nos baldes. Uma miniatura perfeita, adquirida em uma de suas viagens, em uma lojinha de artesanato que havia em Areia Branca. No fundo do pequeno cesto, um pouquinho do ouro branco de nossas salinas. Junto com o cesto também levou um catavento em miniatura que trazia até a logomarca e o nome de uma salina. Mas ambos sumiram de sua bancada.

Daí em diante, uma coleção de figuras da história universal foi ganhando espaço e vez. E foram se juntando soldados medievais com suas armaduras, figuras de D. Quixote, Sancho Pança, Napoleão, soldados romanos empunhando suas espadas, lâmpadas da era pré-cristã, catedrais, dragões ameaçadores, monges dançarinos da Capadócia, figuras da mitologia grega; olha lá o cavalo de Troia!

Em um cantinho, mesmo esquecido, ele encontra Quasímodo tentando fugir ou se esconder atrás do Portão de Brandemburgo. Ao lado desse portão, um touro de Gaudi ameaçando atacar Pinóquio. Ele trouxe Padim Ciço pro centro da roda. Aí ele se defronta com uma gárgula da Catedral de Notre Dame devorando um animal, ao lado de um feliz Balotelli que até balança a cabeça. Imponente, o farol de Mãe Luíza lhe lembra de Natal e suas praias.

Quase esquecia essas figurinhas de Óbidos, que em muito lembram aquelas do interior de Goiás, elementos fortes que pontuam nas procissões do fogaréu. Aqui, isolado, a figura de um porta-caneta com tinteiro utilizado pelos escribas árabes.

Neste cantinho, a biblioteca de Éfeso, junto ao anfiteatro onde São Paulo fazia as pregações de suas cartas, em especial aos romanos. Bem no canto, figuras vivas do folclore nordestino pedem passagem em nome de Baleia, o papagaio, Fabiano, sinha Vitória e os meninos. Só faltou o soldado amarelo.

Quando deu por encerrada a busca no mundo mini, eis que o Portal da Glória da catedral de Santiago de Compostela reluz ao fundo, com seu brilho celestial a ofuscar boa parte dos elementos ali expostos, exigindo o respeito que se impôs e merece.

Ao final, uma conferida do colecionador.

 

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Eu, menino pobre, morador da Rua da Frente, sempre gostei de percorrer a Rua do Meio, em especial aquele quadrilátero do famoso Portal Mágico. Foi naquele trecho que assumi meu primeiro emprego; foi justo ali nas proximidades do Cine Miramar onde eu e Chico Novo construímos dois quebra-canelas antológicos.

No início da rua, do lado esquerdo, a casa de Manoel Bento. Do outro lado, a casa onde residia um membro da família Lúcio – José Lúcio (?).

Esses dois prédios, por suas características arquitetônicas e excelente localização estratégica, sempre contaram com a minha admiração, mas, pela pequenez dos meus projetos de futuro, jamais fizeram parte de meus sonhos patrimoniais. Era apenas admiração. Mas ambas já derreteram sob o peso do desleixo dos nossos administradores.

Nas proximidades da outra ponta da rua, duas casas chamaram minha atenção e a de quase todos os areiabranquenses: o sobradinho dos Dantas e a casa de dona Edite Belém, esta de frente para outro ícone arquitetônico de Areia Branca, nosso querido Cine Coronel Fausto. O sobradinho dos Dantas era um palacete que, aos meus olhos de criança, cintilava como se fosse incrustado de lantejoulas.

Visitando Areia Branca em agosto, tive o prazer de contemplar com emoção a casa amarela, agora de pintura nova e ares de balzaquiana em dia de Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Parei por um momento e dediquei toda a minha atenção àquele casarão. Imaginei-me então seu proprietário. Regressei no tempo e vislumbrei do lado direito a casa onde morava Sonia de seu Adauto. E virei-me para contemplar o que resta do cineteatro que um dia tocou nossos corações. No outro lado da rua, um pouco à esquerda, de soslaio, ainda contemplei o imóvel que substitui o sobrado dos Dantas.

Não sei por que, sinto que esse belo casario guarda resquícios de uma monarquia por nós desconhecida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

dezembro 2017
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