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Este blog tem um leitor que, em algumas ocasiões, tem ultrapassado os articulistas na linha de corrida, por suas observações pertinentes, meio misteriosas, com um toque de humor subliminar, mesmo nos assuntos mais insípidos. Fizemos, aqui, um resumo de alguns comentários, reproduzidos a seguir.

Os que retornaram à cidade no dia 15/08/2014 estavam, com certeza, em outra data e em outro tempo que, enquanto durar a lembrança, vai continuar existindo: a Rua da Frente, a Rua do Meio, a Silva Jardim, a Rua 30 de Setembro, a Rua das Almas, o Beco da Galinha Morta, sem falar do Tirol, do Mercado.

A cidade dorme no coração do poeta. Entre pregões matinais, subitamente desperta. Atrás da Serra Vermelha, nascem manhãs: nas levadas, na solidão das salinas, nas águas envenenadas. Os maçaricos alçam voos nas várzeas de pirrixiu. Os pescadores solitários tarrafeiam o silêncio do rio. Em um bosque de mata-pasto, que fica atrás da Amaro Besouro, desabrocha o fumo bom, em finos cálices de ouro.

Os calafates de Areia Branca calafetam velhos barcos irreais. Os moinhos de vento movem tardes que não voltam mais. O sol caindo na Barra, entre mangues e canoas, põe rebrilhos de vidrilhos nas marolas das gamboas. A noite chega. Cães vadios ladram à distância. Deslizam sombras esquivas nas esquinas da lembrança. Os que se mudaram para o outro lado da vida, vêm a mim, me cumprimentam.

Converso com Pum-de-Guerra, Fumo-Bom e Baranhaca, abraço Maria Mole, Ciço Cabelo de Vaca. Aproveito e passo no Canal do Mangue, vou à Fuzarca, à Favela. Na Rua da Frente, tem moças debruçadas na janela. D. Adelina me argui na tabuada e ABC. Começa tudo de novo, pela estrada do aprender. Ouço valsas da Água Doce, como nas tardes de antigamente, entre Bois e Pastoris; Dodora e a saudosa Marinete dançam, agora, na minha mente; volto pelo portal do tempo, sou menino novamente.

Assim, vejo as ruas se embandeirando, há lanternas pelas portas, é São João, tem fogueira, milho verde, pamonha, batata doce e quentão. O menino corre pelas ruas do sem-fim, o tempo não conta mais, pois partiu-se dentro de mim. E como dizia o poeta Deífilo Gurgel: Nesse burgo de lembranças, guardado pela memória, minha vida se inicia, recomeça minha história.

Zé Lagatixa. Tudo passou há muito tempo. Mas parece que foi ontem. Zé Lagatixa nasceu em 1907. Eu nasci em 1956. Assim, quando nasci Zé Lagatixa já tinha 50 anos. Nessa idade ele já estava praticamente cego, e aposentado pelo IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Empregados em Transportes e Cargas). Ele trabalhava em Porto Franco, no gesso, provavelmente sem nenhuma proteção para os olhos.

Antes de Porto Franco ele foi marinheiro, mas não tenho notícia de que tenha viajado para fora do país. Ele falava da Praça Mauá, no Rio de Janeiro; assim dá para entender que a viagem mais longa foi até o Rio.

Zé Lagatixa era farrista por natureza, gostava dos bailes, das valsas e dos carnavais. Por outro lado, a minha avó Antônia não gostava de nada disso, até era contra. O pai da minha avó Antônia, Olinto Ferreira de Brito, veio de Luís Gomes/RN com toda afamília, e quando chegaram em Areia Branca a minha avó Antônia tinha 10 anos de idade; ela nasceu em Luís Gomes, em 1910. Conta-se que Olinto não retornou mais a Luís Gomes; dos filhos dele, só o tio Cirilo retornou. Imagine naquela época um comboio de jumentos carregando os pertences, e a família acompanhando, e chegaram a Areia Branca fugindo da seca em 1920. Em Areia Branca, Olinto encontrou trabalho em Porto Franco, e todos os filhos homens foram estivadores, menos o tio Cirilo, que teve a vida mais sacrificada. Merandolina Maria da Conceição, às vezes, reclamava da vida, mas Olinto replicava: Você não deixou eu procurar meu tesouro. Ele dizia que o tesouro dele estava em Minas Gerais.

A situação estava boa, Olinto comprou uma máquina de costura e dizem que um dos primeiros rádios de Areia Branca foi o dele. A máquina de costura ele prometeu dar de presente à minha avó Antônia quando ela se casasse. Mas Olinto não esperava que minha avó Antônia fosse namorar Zé Lagatixa; daí a menina, que nunca desobedeceu a ele, casou-se com José Luiz da Silva, passando a assinar como Antônia Ferreira de Brito para Antônia Ferreira da Silva.

Zé Lagatixa, nos primeiros anos de casamento, não bebia; ia para os bailes, para as valsas, tocava pandeiro, tocava gaita. Mas depois passou a beber, uma vez ou outra, e as brigas, as agressões. Foi nessa situação que a minha mãe, com 7 anos, foi adotada por eles; na realidade não foi uma adoção, pois ela foi dada para ser criada, uma filha de criação.

Com a morte do meu avô Irineu Pereira Maia, minha avó Joana Ferreira da Silva dá a sua filha mais nova (Jovina Joana) à minha avó Antônia. Até hoje não sei dizer se existe algum grau de parentesco entre as minhas duas avós. A minha avó Antônia disse que foi buscar a minha mãe em Areias (Icapuí) de barco (Areia Branca – Icapuí = 59 km). O que soube depois é que naquela época havia briga de família, mas isso é outra história.

Para Zé Lagatixa era só festa, não havia tempo ruim. Mesmo cego, era procurado para tocar pandeiro. Quando dei conta de mim, foi sendo carregado (no tuntum) por Zé Lagatixa em direção à praia do meio para pegar taioba.

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Jerônimo, o herói das palavras.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Toinho Tavernard ocupa espaço no camarote das lembranças da minha infância e juventude em Areia Branca.

Os garotos da minha geração tinham em Toinho duas identificações. A primeira, aquela ligada aos bons papos na pracinha, junto com José Jaime e outros nomes dentre o que havia de melhor na cidade.

Alguns estudantes da Escola Técnica de Comércio, depois das aulas,  gostavam de se aproximar daquele grupo de rapazes que conversavam na pracinha, enchendo de sons a noite, gargalhadas destravadas pela força da juventude e um especial o gosto pela vida, a música aí incluída.

Por seu lado, as garotas adoravam seu porte físico e sua boa pinta, além de sua voz especial de barítono, fazendo par com Ribamar, neste item.

Quando de uma viagem a Areia Branca, visitando o Passárgada, descobri, fruto da conversa na varanda, que meu amigo era também um pintor de quadros. E entrei em seu mundo particular, escondido em seu ateliê. Ali,  quadros finalizados pelo artista enchiam nossos olhos, e nossa alma se locupletava de boas lembranças da nossa cidade, pois retratar Areia Branca era uma das preocupações de sua bela e eternizada arte.

Apontei para um belíssimo quadro retratando antigas salinas, repousando sobre uma bancada, e perguntei se ele estava reservado para alguém. Respondeu: Se estava, deixou de estar. Acertado o preço, hoje ele repousa em minha sala junto a um grupo de amigos, todos de boa lavra.

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Toinho Tavernard, o rapaz boa pinta que sabia conversar, cantava e pintava quadros. E o sete, também, que ninguém é de ferro.

Por tudo isso, seu nome e acervo se perpetuarão na memória de quem gosta das boas coisas da vida. Um amigo. Um bom papo. Uma boa voz. Um artista.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Em Areia Branca, os muros são pichados com o que há de pior na ponta de um pincel. Garatujas se espalham pela cidade, emporcalhando o que bonito não era.

Como uma onda benfazeja, alguns poetas anônimos iniciaram um movimento que, mesmo desordenado, espalhou-se pela cidade, atirando poesias na cara de um povo ainda desacostumado aos bons ventos da cultura.

E surgiram coisas assim, por mim fotografadas há alguns anos:

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Em maio de 2019 caminhei por essas ruas, revisitei esses muros. Uma lástima. Tudo indo por descaso, digo, por água abaixo. Não houve fotos, pois seriam horríveis.

Hoje, tristeza também nos muros. A poesia se esvai. Sem fotos.

No contraponto, o Muro de Lennon, em Praga, continua vibrante. E o de Julieta também, em Verona.

muro-de-lennon-em-praga-rep-tchecaMuro de Lennon

muro-de-julieta-em-verona-itMuro de Julieta

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Quase esquecia da minha preferida

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Chegamos a Areia Branca no final da tarde do dia 18 de maio de 2019. Depois de alguns dias de viagem, o desejo de caminhar pela beira da praia de Upanema. À nossa disposição, uma maré cheia se exibia inteira, parecendo esperar nossa visita.

À noite, por ser uma quinta-feira quase sem hóspedes, obtivemos a liberação de um passaporte para uma seresta improvisada na beira da piscina do Hotel Costa Atlântico, sem qualquer compromisso com os limites.

Seresta 1

Encomendamos uma panela de sopa feita na hora, abrimos nosso vinho trazido de Natal – e ainda no gelo – e a noite foi nada mais que uma criança, inocente e pura como nós.

Na beira da piscina, sob os eflúvios de um vinho tinto do Alentejo, Assis Câmara e Ivo promoveram um desfile de músicas dos bons tempos, acompanhadas pelo som de um plangente violão. Ao fundo, onde mora a escuridão, uma lua prenha de luz observava três setentões meio desafinados tentando replicar coisas do passado.

Seresta 2

Upanema. Encerramento da nossa romaria/2019 em grande estilo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

                                                                               As viagens são os viajantes. O que vemos

                                                                               não é o que vemos, senão o que somos

                                                                               Fernando Pessoa

Menino da Rua da Frente, nunca tive arroubos viajatórios. Nem poderia. Somente aos doze anos fiz uma viagem. Ao pegar a sopa que me levaria a Mossoró, muitos conselhos e recomendações de minha mãe. Uma hora depois desembarcava nas proximidades do mercado público, coberto de poeira. Fiquei hospedado na casa de Chico Lino, pai de Horácio.

Em Mossoró, com ares de beradeiro, conheci um banco de verdade, ao tempo em que admirei e me encantei com o Cine Pax, com suas colunas que me pareceram monumentais. Em Mossoró também conheci um estacionamento exclusivo para bicicletas, ao lado do cinema. De quebra, vi de  perto alguns sinais de trânsito em funcionamento, respeitados pelos poucos veículos que existiam àquela época. Ali, conheci o Mercado Público de Mossoró, que até hoje me encanta. Minha segunda e mais importante viagem da a minha vida ocorreria no ano de 1960, quando nos mudamos para Natal. Como a maioria das estradas era de terra, a poeira também foi nossa companheira de viagem.

Em Natal, uma de minhas primeiras viagens foi para Mossoró, a serviço. Na volta, um imbróglio quase me tira do sério. E do emprego. É que dois auditores do INSS vieram de carona conosco para Natal e fizeram uma aposta para ver de qual lado do carro havia mais jumento. E foram contando os animais, sob minha auditoria quase sempre neutra. A viagem, que demoraria 4 horas, demorou mais de seis. É que eles pediam para parar o carro a todo momento, para que pudessem contar os jumentos que passavam em grandes grupos. Certa vez, um deles desceu e se pôs a enxotar os jumentos para o seu lado, e eles insistiam em continuar do lado contrário, e quase sai briga entre os dois.

Em julho de 1971 viajei para Brasília. Aí, sim, minha grande aventura. Foi ali que conheci o Vale do Jequitinhonha, e dei de cara com o semblante da miséria. Nessa viagem tive a oportunidade de ver uma cerração pela primeira vez. Lembrei-me da cerração ao ver, pelos caminhos da Suíça, flocos gigantes de neve juntamente com chuva forte. Algo surreal, os dois, cada qual no seu tempo.

Na cidade histórica de Sacramento, no Uruguai, um aviso colocado no alto da porta de um pequeno restaurante me ensinou coisas novas. Ali, diverti-me com a sinceridade de um poema: Abrimos quando chegamos; fechamos quando nos vamos, e se vens e não estamos é que não coincidimos.

Aviso

Quando viajo para Areia Branca, as poesias rabiscadas nos muros de Upanema me emocionam, por falar das coisas do coração, como esta: Na ilha de Maritataca Belchior é recitado para fins medicinais. Um dez é pouco.

Poesia

Quando passamos por um lugar, aí deixamos, além de pegadas, nossas células de descamação, e são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, bem como nossas secreções e excreções. Desse modo, espalhamos o nosso DNA nos mais distantes pontos deste mundo. Os pássaros alimentam-se desses elementos e em seguida servem de alimento para as pessoas, replicando os nossos caracteres. Por outro lado, esses elementos são incorporados ao solo, formando compostos que serão ingeridos por seres humanos ao se alimentarem de frutas e verduras. É assim que pequenas partes de nós vão se incorporando a este imenso mundo, através das pessoas.

Células descamadas, secreções, excreções. Perpetuação do corpo pelas veredas do mundo.

Viagens são os viajantes. Por isso, cada pessoa tem sua viagem particular, que vai muito além da viagem física.

Porque a viagem é você.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

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