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Pelas ruas de Areia Branca sempre nos defrontamos com pichações horrorosas e rabiscos sem justa causa emporcalhando muros e paredes de residências e casas de comércio. São muros e paredes que recepcionam o pior de quem não se fez grafiteiro. São jovens trazendo em suas mãos irresponsáveis o spray e o pincel da estupidez.

De repente, versos começaram a brotar nos mesmos muros mal cuidados, como arautos dos bons tempos que estão por vir. Os poemas trazem consigo a pureza de um anonimato responsável e a aura poética de uma juventude criativa, de olho em um ponto futuro determinado por um planejamento estratégico ainda não formatado.

Em Verona, na Itália, conheci o Muro da Julieta. Visitando Praga, capital da República Tcheca, conheci outro muro também famoso. Ali, alguns jovens poetas da cidade decidiram protestar contra o imobilismo cultural e a falta de liberdade, depois da morte de John Lennon, inserindo poemas em um muro até então inexpressivo, sendo hoje o Muro de Lennon a maior atração turística cultural de Praga.

Muro de Lennon, Praga

 

Em Areia Branca, a sutileza de uma geração de jovens na aridez de um muro.

A cultura na terra do sal.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No hoje que o ontem supora ser, a saudade – em um dia inusitado -, juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita. No mundo Upanema, à esquerda, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduzirá ao ponto estático.

Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. Com uma troca de olhares, sem a necessidade de um piscar, convocam a esperança e, juntos, vislumbram a cidade que se exibe à margem esquerda de um Ivipanim estafado de tantas idas e vindas, em seu trabalho diuturno de purificação das águas que aqui chegam no depois de um poluente Mossoró pleno de descaso.

Um filme retrofitlico lhes assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje lhes chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam ao vento gris. Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje.

Sei que a história, plena de desconsolo, em sua frustração de não encontrar aqui os tatuís de outrora, e por os saberem fugazes habitantes de páginas vernissageadas de poetas loucos como eu, fará constar em seus anais os ditames da realidade do hoje, em que a memória se desfaz no roldão do nada a dizer.

No contraponto de uma visão binocular, percebemos uma vela triangular a nos lembrar que tudo valeu a pena. E como valeu!

 

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EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Tatá era um filhote de tainha que gostava de se exibir ao sol, fazendo suas pequeninas escamas brilharem ao sol da manhã, quando saltava sobre as pequenas marolas bem no raso, junto à areia. Nascera e morava na Praia do Meio, de onde tinha uma bela  visão de  Upanema, de um lado, e da entrada da barra, do outro. Não conhecera seus pais, de quem se perdera logo depois do nascimento.

Pela manhã, brincava de apostar corrida com outros peixinhos. Seguia um ritual. Ficava parada, ganhava impulso, adquiria velocidade, movimentando suas pequenas barbatanas, passando a mil pelos pequenos siris, que se exibiam abrindo suas patinhas, como se batessem palmas. Em um dessas brincadeiras, conheceu Rodedrom, um peixinho estranho, de cara e corpo arredondados, ostentando pequenos fios de barba na parte de baixo das bochechas, mesmo ainda sendo pré-adolescente. Tatá achava engraçado, pois nunca vira um peixe de bigode. Rodedrom não gostava dessa observação, mas aceitava em nome de sua amizade.

Rodedrom quis participar da brincadeira, e pediu a atenção de todos para sua performance. O peixinho arredondado concentrou-se, fechou os olhos e disparou em alta velocidade, só que em movimento de parafuso, , deslocando a água ao seu redor e levantando a areia do fundo, incomodando a todos. Ziziu, um pequeno siri, achou que foi puro exibicionismo. Depois, reconheceu que era ciúme. A turma sempre achou que ele tinha uma queda por Tatá.

Sair com Rodedrom era o pretexto que Tatá queria para abandonar seus amigos, e passou a  se aventurar em passeios por águas mais profundas, cada vez mais se afastando da areia e das pequenas marolas. De longe, observava seus amigos siris e outras tainhas, para quem olhava com um certo ar de desdém. Agora só nadava em águas profundas, instigada por Rodedrom, que demonstrava desembaraço e firmeza nesse ambiente de peixes maiores, onde – Tatá sabia – somente a respeitavam devido à presença de Rodedrom, com sua cara de mau e seu bafo borbulhante.

Tatá percebeu que seu amigo crescia bem mais do que ela, e se avantajava em relação aos outros peixes. Percebeu, também que ele desaparecia por algum tempo, retornando em seguida, trazendo, em suas barbatanas, ora o cheiro de outros peixes ou de crustáceos, outras vezes odores de lula, polvo, tartaruga e arraias. Nessas ocasiões, seu bigode apresentava arranhões, beliscados e marcas vermelhas. Porém Tatá estava embevecida com as novidades das águas profundas, onde o sol batia menos, e os siris já não eram vistos. E isso a fascinava.

Certo dia, saíram juntos para passear. Era uma tarde nublada, e por isso Tatá se confundira com a hora. Achava que era mais cedo. Quando se deu conta, estava nas proximidades do Porto Ilha, distante de sua moradia. Seu amigo Rodedrom estava inquieto, e olhava para ela com ar dissimulado. No retorno, Rodedrom trazia em suas barbatanas um cheiro conhecido de tainha jovem, e em seu bigode reluziam algumas escamas cor de prata.

É da natureza. Os siris bem o sabiam. E Tatá não conhecia este adágio popular:

‘’Se o comemos, é cação; se ele nos come, é tubarão”.

As barcaças que singravam o rio Ivipanim e penetravam no mar, transportando o sal nosso de cada dia, eram abastecidas de água e lenha pelas bodegas da Rua da Frente.

A lenha era trazida por velhos e barulhentos caminhões, ou em barcos, e enfileirada em um canto das mercearias, chegando quase ao teto. O produto, a partir de 1959, foi se tornando cada vez mais escasso, e o preço dificultava sua comercialização. Sem saída, meu pai resolveu pegar o trem em Porto Franco, no rumo de Mossoró. Era a estrada de ferro Mossoró-Souza.

No caminho, ele saltou com o trem em movimento, e foi procurar um fornecedor. Saltou com cuidado, pois tinha um antraz no pescoço, onde colocara um emplastro de basilicão.

O local era desolador; o sol, escaldante, reinando absoluto em um céu sem nuvem; brisa, nenhuma. Cansado, olhou em volta. Só viu devastação. Região de caatinga, avisaram-no.

Avistou uma casinha e para lá se dirigiu. No quintal, um pé de juá fê-lo lembrar de Vidas Secas – um livrinho que havia lido -, e uma sósia de Baleia veio roçar-se em sua perna, balançando o rabo. Sentiu-se o próprio Fabiano, e  a lembrança  de Sinhá Vitória, digo, da esposa veio-lhe à mente.

Pediu água, e ficou sabendo que a lenha que vendia em sua bodega era retirada dali. Mas como retirar lenha daquela mata rala, com pequenos arbustos de folhas ressequidas, embora verdes? E de que viviam aquelas pessoas? De cortar o mato e vender lenha – ele próprio concluiria. Sentou-se debaixo da latada e matou a sede com  água turva, que mais parecia suco de limão.

Havia duas crianças na casa. Uma delas brincava de fazer bolinhas de sabão, utilizando um canudo de folha de mamoeiro; a outra imitava o barulho de um caminhão, puxando um carrinho feito com lata de manteiga. Mas pareciam felizes. No nível do solo, até onde a vista alcançava, parecia sair fumaça do chão, e o ar ficava tremelicante, como se dançasse sob o eflúvio-mormaço pesado e silente que brotava daquele ambiente estorricado.

Correu os olhos de um lado ao outro, e percebeu que não mais havia lenha a ser retirada, e sentiu-se culpado pela devastação que estava sendo feita naquele local.

Em casa, no final do dia, exausto, ele tentava explicar por que não mais venderia lenha em sua mercearia. Não havendo lenha para vender, o faturamento caiu ainda mais, e os negócios só pioravam.

Porém uma palavra não saía de sua cabeça: caatinga. O dono da pequena bodega sabia que caatinga significava região árida do nordeste brasileiro. Mas desejava saber a origem primeira daquela palavra tão áspera.

Nunca ficou sabendo que aquela palavra vem do tupinambá ka’átinga, e significa, literalmente, “mato branco” (ka’a = mato, e tinga = branco, esbranquiçado, usada pela primeira vez com essa concepção,  no Brasil, em 1584). Este conceito  foi-me  revelado em São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa.

Meu pai, em seu mea culpa, esquecera-se de que quase todas as indústrias, bem como cem por cento das padarias e a maioria das casas de todas as cidades, funcionavam com lenha ou carvão vegetal.

Em seguida, a família viajaria para Natal e meu pai morreria dezessete dias depois da chegada.

E a visão da caatinga a acompanhá-lo.

 

 

Desde pequeno aquele menino tinha um sonho: conhecer uma igrejinha branca que ficava do outro lado do rio. Próximo à Rampa, do patamar da igreja, do lado de cá, ele ficava fascinado com a ideia de um dia entrar naquela igrejinha que era menor que a das Pedrinhas, onde ia com sua mãe, uma vez ao ano, assistir a uma missa. Passava o resto do ano esperando chegar o mês da festa para novamente ir a Pedrinhas.

Mas, ali, o desafio era outro. Para chegar à igrejinha branca, teria de atravessar o rio, de canoa, e isso era muito caro. Seu limite de conhecimento de moeda era quinhentos réis, e não dava para ir e vir, e ainda tinha a tentação do cuscuz do mercado público, e tinha a cocada de rapadura com pedacinhos de coco. Não dava. Ele sabia ser muito difícil realizar esse sonho.

Naquele dia, novamente, foi para o patamar da igreja , e sentou-se em um degrau. Mirou Tibau –, que não passava de um ligeiro brilho na linha do infinito, voltou o olhar por Pernambuquinho e ficou pensando em um modo de ir a Barra, que sabia esconder-se atrás do manguezal. Se soubesse nadar igual a Macaco, que um dia vira atravessando o rio nos dois sentidos, seria muito fácil. Iria pela manhã, ficaria rezando um pouco na igrejinha e voltaria na hora do almoço. Mas sabia que seu fôlego de criança não resistiria a essa empreitada.

Olhou para a Rampa. A maré cheia formava um platô tremelicante que terminava bem depois do manguezal; portanto, perto da igrejinha. Havia uma canoa ancorada. Criou coragem e pediu ao canoeiro que o deixasse ir até a Barra, e que retornaria quando outro passageiro fizesse o itinerário contrário. O canoeiro sorriu, passou a mão em sua cabeça e concordou. Fique aqui, pois aquele senhor vai embarcar. Logo estavam se afastando do cais, e seu coraçãozinho transbordava de emoção.

Olhou a água de pertinho, deitou-se no banco da frente e pôs a mão para fora, tentando fazer cócegas no rio. O suspensório da calça rompeu. Deu um nó e continuou. Viu alguns peixinhos passando, e ficou imaginando se eles moravam em Barra ou em Areia Branca. A canoa foi deslizando altaneira, tocada pelo vento do final da manhã, virou um pouco para um lado, a água quase entrou, e se equilibrou novamente. Não sentiu medo. À esquerda, distante, o esqueleto enferrujado de uma embarcação sujava a beleza do manguezal. Talvez, quem sabe, algum fantasma more ali, pensou o menino. Ele já ouvira falar de alma de gato e de passarinho. Será que peixe não tem alma?

Finalmente, a canoa encostou a barriga na areia do outro lado, e o menino viu a igrejinha a uma certa distância. Quando se preparava para se encaminhar para o pequenino templo, foi chamado de volta pelo canoeiro. Havia um passageiro retornando. Hora de voltar. Não fora de dessa vez.

Passados mais de cinquenta anos, o ex-menino ainda não satisfez seu desejo perdido no tempo.

Talvez em dezembro próximo, quem sabe, eu vá à igrejinha de Barra. De canoa.

agosto 2017
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