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Toinho Tavernard ocupa espaço no camarote das lembranças da minha infância e juventude em Areia Branca.

Os garotos da minha geração tinham em Toinho duas identificações. A primeira, aquela ligada aos bons papos na pracinha, junto com José Jaime e outros nomes dentre o que havia de melhor na cidade.

Alguns estudantes da Escola Técnica de Comércio, depois das aulas,  gostavam de se aproximar daquele grupo de rapazes que conversavam na pracinha, enchendo de sons a noite, gargalhadas destravadas pela força da juventude e um especial o gosto pela vida, a música aí incluída.

Por seu lado, as garotas adoravam seu porte físico e sua boa pinta, além de sua voz especial de barítono, fazendo par com Ribamar, neste item.

Quando de uma viagem a Areia Branca, visitando o Passárgada, descobri, fruto da conversa na varanda, que meu amigo era também um pintor de quadros. E entrei em seu mundo particular, escondido em seu ateliê. Ali,  quadros finalizados pelo artista enchiam nossos olhos, e nossa alma se locupletava de boas lembranças da nossa cidade, pois retratar Areia Branca era uma das preocupações de sua bela e eternizada arte.

Apontei para um belíssimo quadro retratando antigas salinas, repousando sobre uma bancada, e perguntei se ele estava reservado para alguém. Respondeu: Se estava, deixou de estar. Acertado o preço, hoje ele repousa em minha sala junto a um grupo de amigos, todos de boa lavra.

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Toinho Tavernard, o rapaz boa pinta que sabia conversar, cantava e pintava quadros. E o sete, também, que ninguém é de ferro.

Por tudo isso, seu nome e acervo se perpetuarão na memória de quem gosta das boas coisas da vida. Um amigo. Um bom papo. Uma boa voz. Um artista.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Em Areia Branca, os muros são pichados com o que há de pior na ponta de um pincel. Garatujas se espalham pela cidade, emporcalhando o que bonito não era.

Como uma onda benfazeja, alguns poetas anônimos iniciaram um movimento que, mesmo desordenado, espalhou-se pela cidade, atirando poesias na cara de um povo ainda desacostumado aos bons ventos da cultura.

E surgiram coisas assim, por mim fotografadas há alguns anos:

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Em maio de 2019 caminhei por essas ruas, revisitei esses muros. Uma lástima. Tudo indo por descaso, digo, por água abaixo. Não houve fotos, pois seriam horríveis.

Hoje, tristeza também nos muros. A poesia se esvai. Sem fotos.

No contraponto, o Muro de Lennon, em Praga, continua vibrante. E o de Julieta também, em Verona.

muro-de-lennon-em-praga-rep-tchecaMuro de Lennon

muro-de-julieta-em-verona-itMuro de Julieta

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Quase esquecia da minha preferida

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Chegamos a Areia Branca no final da tarde do dia 18 de maio de 2019. Depois de alguns dias de viagem, o desejo de caminhar pela beira da praia de Upanema. À nossa disposição, uma maré cheia se exibia inteira, parecendo esperar nossa visita.

À noite, por ser uma quinta-feira quase sem hóspedes, obtivemos a liberação de um passaporte para uma seresta improvisada na beira da piscina do Hotel Costa Atlântico, sem qualquer compromisso com os limites.

Seresta 1

Encomendamos uma panela de sopa feita na hora, abrimos nosso vinho trazido de Natal – e ainda no gelo – e a noite foi nada mais que uma criança, inocente e pura como nós.

Na beira da piscina, sob os eflúvios de um vinho tinto do Alentejo, Assis Câmara e Ivo promoveram um desfile de músicas dos bons tempos, acompanhadas pelo som de um plangente violão. Ao fundo, onde mora a escuridão, uma lua prenha de luz observava três setentões meio desafinados tentando replicar coisas do passado.

Seresta 2

Upanema. Encerramento da nossa romaria/2019 em grande estilo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

                                                                               As viagens são os viajantes. O que vemos

                                                                               não é o que vemos, senão o que somos

                                                                               Fernando Pessoa

Menino da Rua da Frente, nunca tive arroubos viajatórios. Nem poderia. Somente aos doze anos fiz uma viagem. Ao pegar a sopa que me levaria a Mossoró, muitos conselhos e recomendações de minha mãe. Uma hora depois desembarcava nas proximidades do mercado público, coberto de poeira. Fiquei hospedado na casa de Chico Lino, pai de Horácio.

Em Mossoró, com ares de beradeiro, conheci um banco de verdade, ao tempo em que admirei e me encantei com o Cine Pax, com suas colunas que me pareceram monumentais. Em Mossoró também conheci um estacionamento exclusivo para bicicletas, ao lado do cinema. De quebra, vi de  perto alguns sinais de trânsito em funcionamento, respeitados pelos poucos veículos que existiam àquela época. Ali, conheci o Mercado Público de Mossoró, que até hoje me encanta. Minha segunda e mais importante viagem da a minha vida ocorreria no ano de 1960, quando nos mudamos para Natal. Como a maioria das estradas era de terra, a poeira também foi nossa companheira de viagem.

Em Natal, uma de minhas primeiras viagens foi para Mossoró, a serviço. Na volta, um imbróglio quase me tira do sério. E do emprego. É que dois auditores do INSS vieram de carona conosco para Natal e fizeram uma aposta para ver de qual lado do carro havia mais jumento. E foram contando os animais, sob minha auditoria quase sempre neutra. A viagem, que demoraria 4 horas, demorou mais de seis. É que eles pediam para parar o carro a todo momento, para que pudessem contar os jumentos que passavam em grandes grupos. Certa vez, um deles desceu e se pôs a enxotar os jumentos para o seu lado, e eles insistiam em continuar do lado contrário, e quase sai briga entre os dois.

Em julho de 1971 viajei para Brasília. Aí, sim, minha grande aventura. Foi ali que conheci o Vale do Jequitinhonha, e dei de cara com o semblante da miséria. Nessa viagem tive a oportunidade de ver uma cerração pela primeira vez. Lembrei-me da cerração ao ver, pelos caminhos da Suíça, flocos gigantes de neve juntamente com chuva forte. Algo surreal, os dois, cada qual no seu tempo.

Na cidade histórica de Sacramento, no Uruguai, um aviso colocado no alto da porta de um pequeno restaurante me ensinou coisas novas. Ali, diverti-me com a sinceridade de um poema: Abrimos quando chegamos; fechamos quando nos vamos, e se vens e não estamos é que não coincidimos.

Aviso

Quando viajo para Areia Branca, as poesias rabiscadas nos muros de Upanema me emocionam, por falar das coisas do coração, como esta: Na ilha de Maritataca Belchior é recitado para fins medicinais. Um dez é pouco.

Poesia

Quando passamos por um lugar, aí deixamos, além de pegadas, nossas células de descamação, e são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, bem como nossas secreções e excreções. Desse modo, espalhamos o nosso DNA nos mais distantes pontos deste mundo. Os pássaros alimentam-se desses elementos e em seguida servem de alimento para as pessoas, replicando os nossos caracteres. Por outro lado, esses elementos são incorporados ao solo, formando compostos que serão ingeridos por seres humanos ao se alimentarem de frutas e verduras. É assim que pequenas partes de nós vão se incorporando a este imenso mundo, através das pessoas.

Células descamadas, secreções, excreções. Perpetuação do corpo pelas veredas do mundo.

Viagens são os viajantes. Por isso, cada pessoa tem sua viagem particular, que vai muito além da viagem física.

Porque a viagem é você.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

No olhar do papafigo, o medo que ficou

Na incelença, a esperança que anima

Na serração, o terror na noite escura

Um barulho no escuro, temor, respingos da infância

buzuoco que passava, Bíblia na mão; intolerância religiosa

O vento que vem da várzea, salitre

O barulho do cata-vento, moinho de vento que jamais existiu

O manguezal que protege; a limpeza do Ivipanim

O homem que destrói; cicatrizes urbanas

Procissão dos Navegantes, a fé que anima

Barcaça no mar, velas ao vento

Os barcos no rio; lembrança dos beijus

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Buzuocos: os primeiros protestantes de Areia Branca, nas décadas de 1940/50.

agosto 2019
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