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É difícil esquecer os apelidos das pessoas que conviveram conosco no dia a dia de uma cidade pequena. Em Areia Branca existiam os apelidos carinhosos, como Chico de Boquinha, uma pessoa muito querida na cidade, que sempre participava ativamente dos eventos socioculturais daquela época. Propõe é outro apelido que todos conhecemos, de certa forma respeitoso.

Do mesmo modo, há outros que caíram bem em seus protagonistas, sendo assim conhecidos por toda a vida, como Macaco, Casca de Ovo, Zé Moconha,Mundico.

Não esquecer daqueles clássicos, tipo Chico Novo, Evaldo de Zé Silvino, Dedé de Zé Dantas, Carlos Alberto de Clodomiro, Chico de Neco Carteiro, Quiquico  de seu Lauro Duarte, Horácio de Chico Lino. Ainda cabe aqui citar seu Lalá da Padaria e seu filho, Titico de seu Lalá, Petinho, filho de tona Branca e irmão de Tututa.

Porém há um lado pesado, em que os apelidos soam como bullying, por agregar a si preconceitos e discriminações. Aqui se encontra a maioria dos apelidos menos afáveis da nossa cidade, pelos idos de 1950 e 1960.

Nesta lista estão alguns nomes excêntricos citados por Ronald Lima de Góes em um de seus comentários neste blog:

Pé de Grude, Augusto Preto, Banda, Rasga Saco, Fabi, João Doido, João Tundá, Xixá, Cota, Zé Doidim, Raimundo Cabeça Baixa, Garapa, Parum do Gelé, Dedé Moconha, Chico da Formosa, Pedro de Zefa, Zé da Vara. Lembro Carneirinho, o primeiro protestante que conheci na cidade (chamados buzuoco).

Marciana,que todos conhecemos, foi uma mulher sofrida, que deixou marcas nas mentes de muitas crianças de Areia Branca, por ser agressiva e atirar pedras nas pessoas, em especial naquelas que gritavam o seu nome.

Nono foi outro que conheci. Certa vez, próximo ao Palacete Municipal, Nono saiu da pracinha e se dirigiu a uma moça que passava, agarrando-a pela cintura. Logo em seguida, o namorado dessa moça levantou Nono e o atirou no chão, fato que chamou a tenção das pessoas. Depois dessa, dizem que nunca mais Nono agarrou qualquer mulher em Areia Branca.

Contam que dona Zefa, a amada vovó da nossa amiga Dodora, foi apresentada a Manoel Avelino, na época prefeito de Areia Branca:

– Dr. Manoel, esta é dona Zefa.

– Qual Zefa?

– Zefa, de Pedro de Zefa.

Aqui, um apelido dentro de outro.

Apelidos; nomes fora do padrão. Respeito para uns, preconceito e discriminação para os de menor peso social.

EvaldOOliveira

Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Pela Rua da Frente dos anos 1950 transitavam pessoas de todos os níveis sociais, de autoridades a trabalhadores das mais diversas atividades. Na Rua da Frente, afinal, estavam as melhores lojas da cidade, como as Lojas Paulista, nossa vizinha do lado esquerdo, que tinha como gerente José Dimas, irmão de Bobô. Ali, Chico de Brito exerceu um dos primeiros empregos de sua vida. A loja de seu Quincó, vizinho à casa de Chico Lino, também estava lá, bem como a maioria das bodegas da cidade, por motivos óbvios. Era na Rua da Frente onde as coisas aconteciam.

Os maiores armazéns estavam ali instalados, como o de Antônio Calazans, o de Quidoca, o armazém de Antônio Noronha, além das bodegas de Chico Lino, seu Josa, pai de Bezinho, a de José Silvino; a bodega de José Leonel e dona Hilda, além da fábrica de vinagre de dona Branca, mãe de Tututa e Lázaro, e da padaria de seu Lalá. Tututa foi aquele jovem que saiu pela Rua da Frente exibindo um rádio tocando sobre a cabeça de um conhecido, chamando a atenção de todos para a novidade do momento. A prova da evolução tecnológica.

Desse modo, era para a Rua da Frente que convergiam os interesses das pessoas, os investimentos que geravam trabalho e emprego. No meio daquele tumultuado ambiente, repleto de barcos grandes e pequenos, uma fauna humana circulava em meio ao cheiro de pixe (asfalto em estado líquido), do barulho típico dos calafates e do emaranhado de sons próprios da movimentação das embarcações.

Muitas pessoas circulavam pela Rua da Frente durante o dia, carregando consigo histórias e enredos nem sempre notáveis. Alguns até hoje são lembrados, como Macaco e Mundico, este, filho de seu Isídio, pai de Queca. Entre os desconhecidos, dois homens simples se destacavam. Não porque tinham uma vida comum, mas por serem desempregados, do ponto de vista formal, e desempenharem papel  importante no dia a dia das atividades do cais.

Fernando, sujeito pacato, calmo, de boa índole. Com sua sutil elegância, Fernando participava de quase todos os trabalhos do cais, sem que estivesse formalmente vinculado a nenhum deles. Chegava pela manhã e logo era solicitado a ajudar em alguma tarefa, fosse providenciando uma ferramenta ou disponibilizando algum equipamento solicitado por alguém que trabalhava no cais, ou trazendo água ou algum alimento para os trabalhadores. Com o mesmo desprendimento, também executava pequenas tarefas para os comerciantes. No contraponto, Areia Branca sequer o conheceu.

O outro homem invisível da Rua da Frente era Casca de Ovo. Jamais soube do seu nome real. Era magro, de voz mansa e tom cauteloso, caminhando para lá e para cá o dia inteiro, cumprindo pequenas tarefas, sem que desempenhasse algum trabalho dignamente remunerado. Na ida para lá, algum recado sem qualquer recheio; na volta, uma resposta igualmente desprovida de valor. Parecia um ser evanescente, tocado pelo vento, movido por chamados. Correspondia à forma halogênica mais primitiva do Whatsapp.

Casca de Ovo era o homem dos recados e dos pequenos serviços de dona Hilda, nossa vizinha na costela mindinho direita. Esposa de Zé Leonel, eram os pais de Haroldo, aquele menino que sonhava ser paraquedista. Na hora do almoço e da janta, Casca de Ovo surgia com a fluidez dos eflúvios à casa/bodega de dona Hilda. À sua espera, um prato de comida à altura de sua importância.

Fernando. A invisibilidade sutil de um sujeito pacato que, com seu trabalho e seu modo de ser, ajudou a pacificar a  Rua da Frente.

Rua da Frente c:botequimEu, Caronte, o teria conduzido pelas águas tranquilas do Estige.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Era uma vez… um professor universitário teve uma ideia. Criar um blogue sério, comprometido com a história de Areia Branca, desde os mais antigos habitantes. A preocupação era manter viva a memória do seu folclore, com foco em seus pastoris, seus carnavais, sua religiosidade, seus aspectos econômicos, suas praias, seu turismo.

No início, um pequeno grupo passou a elaborar textos descritivos e crônicas comentando sobre fatos e pessoas que fizeram a história da cidade, seus trabalhadores, estudantes, suas ruas, praças e monumentos. A esse grupo inicial se juntariam outras pessoas, que enfocaram a importância do rio Ivipanim e a necessidade de preservação do manguezal que o cerca e o ampara. Outro ponto importante é a preocupação com a destruição de algumas das mais antigas edificações urbanas, e do descaso pelo que ainda persiste.

Jamais fugimos da crítica às autoridades quando a defesa dos interesses da nossa cidade estava em jogo, ou nos negamos à crítica por temor de se sentirem ofendidas as autoridades do poder público.

Desse modo, figuras do povo foram evidenciadas, com seus apelidos, predicados e modo de ser. Pessoas comuns tiveram vez e voz em nossos textos, preocupados que somos com o respeito à verdade. Práticas antigas foram evidenciadas, como a serração da velha, sem esquecer a aura de mistério envolve as noites em que a cruviana saía pelas madrugadas disfarçada de vento, assessorada pela escuridão.

Areiabranquenses ou naturalizados pelo coração passaram a colaborar com este espaço, escrevendo sobre as pessoas do povo, suas famílias, seu modo de vida, seus hábitos, suas profissões.

Com o congraçamento entre os que escrevem e os que leem e comentam, foi-se formando um amálgama temperado pelo respeito e amizade, fazendo com que profissionais de muitas partes do Brasil e até do exterior se encontrem todos os anos quando da realização da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.

Aqui, areiabranquenses reencontraram filhos, parentes, amigos já quase no nível do esquecimento, renovando amores de família e amizades da infância.

Aqui, a história da cidade. A verdade dos fatos.

Obs.: Em um único dia (8 de janeiro deste ano) houve 525 acessos a este blogue, um recorde histórico. Uma prova de sua importância e grandiosidade. Mantenhamo-nos na luta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Ancorado no descompromisso, iniciei uma romaria/via-sacra pessoal em agosto deste ano, saindo de Natal com destino a Juazeiro do Norte, desligado de relógio e calendário. Era o deixar-se ir.

Nos caminhos de ida, Tangará e Boa Saúde nos orientavam para as terras de Santa Cruz; daí a Currais Novos e Caicó foi fácil. Logo depois, enfim, conheceria Pombal e um rio de nome estranho – Saco do André. Um tropeço no mapa e fomos parar na cidade de Patos, na contramão do nosso ponto futuro, Juazeiro do Norte. Mais uma boa surpresa ao nos depararmos com uma cidade que nos impressionou por seu estágio de desenvolvimento. Finalmente, Juazeiro do Norte nos receberia ao cair da noite.

Entre Barbalha e Milagres, mais um tropeço e adentramos Pernambuco. Foi um sem-querer-querendo que serviu como amostra – tipo biópsia – do alto nível de desenvolvimento daquele Estado.

Cajazeiras muito nos impressionou. Imaginava uma cidade pequena, de população reduzida. O que vimos foi uma efervescência de pessoas e mercadorias que nos profetiza o futuro promissor que se avizinha.

Mas eu tinha um encontro com o Padim Ciço, que foi marcado em um quintal de uma festa de são-joão em Brasília, ele vestido a caráter.

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Ainda na estrada, utilizando os binóculos do interesse, uma metrópole despontava altaneira, vibrante. Eram os primeiros sinais de Juazeiro do Norte na paisagem. Ao transitarmos por suas ruas bem calçadas, a certeza de uma economia forte, onde a aura e a mística do Padre Cícero Romão Batista influenciam comportamentos e decisões. Em Juazeiro percebemos uma aura mística semelhante à que flui nas cidades de Assis, na Itália, e Santiago de Compostela, na Espanha. Só indo para entender.

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No cedinho de uma manhã que se anunciava quente, uma parada que obedecia a um quase inaudível chamado. Era o Padim Ciço em pessoa.

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– Garoto, finalmente!

– Eu, garoto?!

– É que tens apenas alguns minutos de vida. Ela começa a partir de agora.

– Soube que fizeste uma bonita litania do penitente. Sei que tua via sacra pessoal foi um tempo de reaproximação e de descobertas.

– Ora, padim, foi uma simples ladainha.

– Litania, garoto! Isto é o que é. E por que não vieste aqui falar comigo? Eu te diria sobre os modos do meu povo, suas lutas e necessidades. Sei que conheces – e bem – os caminhos e as encruzilhadas. Falta o mote.

– É que fiquei sem jeito.

– Pois retoma o tema. Atrás, à tua direita está o roteiro. Toma a caneta, coloca o chapéu e refaz o percurso.

Fortalecidos com o encontro, enfim chegamos a Areia Branca na antevéspera da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, trazendo conosco os bons fluidos de Apodi e Mossoró. Areia Branca, apesar das conhecidas dificuldades, caminha com passos decididos no rumo de um desenvolvimento ordenado.

Pelos caminhos, boas estradas. Pelas cidades, sinais de vida pujante.

Coisas do desenvolvimento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Surpreendi Toinho Tavernard concluindo esta tela que sua filha, Leila, encomendou para me presentear.

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A propósito, ele está planejando produzir séries numeradas de alguns monumentos areia-branquenses que desapareceram, ou foram modificados ou correm o risco de desaparecerem. Para quem não está habituado com esse tipo de produção, muito comum na serigrafia, trata-se de telas com numeração certificada pelo artista. O adquirente sabe a quantidade de cópias existentes, e qual é o número da que adquiriu.

Um dos monumentos em vista é o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, na forma em que se encontrava nos anos 60-70. Talvez ele produza apenas 10 telas 40×50 desse sacrossanto edifício da educação areia-branquense.

G.E. Cons. Brito Guerra

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