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Hoje amanheci pensando nas figuras importantes de Areia Branca, nas décadas de 1950/60. Nesse passeio pelas ruas da história, encontrei o Sr. Dimas Pimentel Ramos, o primeiro farmacêutico da cidade, Dr. Vicente de Paula Gurgel Dutra, Dr. Gentil Fernandes, para citar os não políticos. Porém nessa caminhada surgiu um nome forte, que todos conhecemos, e que até hoje engrandece o portfólio político da cidade.

Tudo isso começou ao ler o comentário de Junior Di Guerreiro, postado no dia 10 de outubro de 2014, na crônica do Comandante Miranda enfocando O Beco De Zé Filgueira, de 2012. Ali, Di Guerreiro se manifesta: Gostaria de saber se Manoel Avelino é realmente filho de Areia Branca e quem eram seus pais.

Manoel Avelino Sobrinho nasceu em Areia Branca no dia 24.09.1924, filho de seu José Avelino dos Santos (Dedé) e dona Cota (Maria Etelvina dos Santos). Com seu um espírito forte, foi o prefeito mais carismático da Salinésia. Conseguia, com seu modo particular, controlar a massa de seguidores, por entender a psicologia das mutidões. Em tempo: Manoel Avelino era tio de Chico Novo, amável criatura que reencontrei em Brasília como engenheiro terceirizado da Petrobrás. Costumo brincar, afirmando que Chico Novo foi meu único amigo rico em Areia Branca.

M. Avelino Chico Novo

No início dos anos 1950, já com o título de advogado (primeiro advogado nascido na cidade), retornou a Areia Branca, instalando seu escritório na Rua  João Félix, em frente à pracinha. De refinada oratória, no período de 1953 a 1955 viria a ser prefeito de Areia Branca. Os marcos de sua administração foram a melhoria da iluminação pública, com a substituição dos postes de madeira por estruturas de concreto, além da limpeza da cidade.

No ano de 1962, Manoel Avelino se tornaria o primeiro Deputado Estadual do RN nascido em Areia Branca, disputando a eleição com Manoel Lúcio, Antônio do Vale e Celso Dantas Filho. Ainda participaria de mais duas legislaturas na Câmara Federal, como deputado. Ao final do seu mandato, assumiria a representação do RN em Brasília.

Em tempo: Manoel Avelino administrou Areia Branca de seu gabinete, neste belo prédio do Palacete Municipal. Foto Antônio do Vale, de 1960.

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Um homem de boa formação, educado, respeitoso. Inscrito com letras douradas no Livro da História da Salinésia.

avelino_juscelinoManoel Avelino discursando. Nesta foto da campanha de Juscelino para presidente, aparecem da esquerda para a direita: Rudson Góis, Jofre Josino, Manoel Avelino (discursando), Vingt Rosado, Quinquinho Lucio, Juscelino, Jango, seu Dimas. Foto O Manoelito (Mossoró).

EvadOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Em Areia Branca dos anos 1950/60 algumas pessoas vagavam pela Rua da Frente. Elas  chamavam a tenção por serem pacatas e, apesar de todas as dificuldades, mantinham o humor em alta. Já falamos disso aqui.

Macaco, Fernando e Casca de Ovo estão nesse quesito. Deixavam a vida passar de forma descontraída, sem uma ocupação definida. Se provocados, poderiam até produzir coisas engraçadas. E passaram pela vida, como passa a cruviana. Em Areia Branca existia uma mulher irascível, espalhafatosa, agressiva – Marciana. Servia de troça para a meninada. Essas pessoas passaram sem deixar marcas. Uma foto sequer. Incluindo Mundico de seu Isídio nessa lista.

Contam que Mundico passava em frente à igreja e viu uma fila. Parou e decidiu juntar-se ao último. Era para confissão, descobriu ao chegar à frente do padre. Reze o Pai Nosso/ Não sei. Uma Ave-Maria/Não sei. O senhor sabia que Jesus morreu por nós?/Eu não sabia nem que ele tava doente -, respondeu.

No contraponto, Bratislava é uma pequenina cidade, capital da Eslováquia, um pequeno país que surgiu depois que a República Tcheca englobou a região desenvolvida, após o fim da antiga Checoslováquia.

Em busca de estratégias para atrair turistas que circulam pelo leste europeu, a pequena Bratislava desenvolveu uma ideia para chamar a atenção dos visitantes: utilização de esculturas em bronze de figuras populares espalhadas por ruas e praças da cidade.

Assim, o turista, logo na chegada, depara-se com a figura de um homem sorrindo, com um capacete de soldado, tentando sair de um esgoto. Trata-se de alguém da cidade, eternizado em bronze. Chegando à rua Rybárska, nossa atenção se volta para a imagem de um homem sorridente, de cartola. É um cidadão que viveu na cidade no século passado, conhecido como Schoner Náci, que sempre se vestia com trajes velhos, porém elegantes, e saía pelas ruas saudando com sua cartola as pessoas que passavam. Lembra de Gentileza, no Rio de Janeiro?

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Macaco, Fernando, Casca de Ovo. Vivos em nossa memória. Vida curta.

O homem do esgoto e Schoner Náci. Eternizados no bronze, como o foi Napoleão na praça em frente à igreja. Napoleão esteve na cidade para assinar um acordo, depois da batalha de Austerlitz , no ano de 1805, juntamente com o imperador Francisco I da Áustria.

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suveniresSuvenires de Bratislava

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Em minha última viagem a Natal, conheci o filho de Ivan Barroca, meu amigo de juventude e colega de estudo para o vestibular. Junto com ele, conheci Shirley, sua esposa. Ela, neta de Bezinho.

Bezinho era filho de seu Josa, comerciante da Rua da Frente, que ficou famoso por suas tiradas cheias de humor, além do seu temperamento às vezes ácido. Sua bodega ficava a umas três casas da nossa, pros lados de seu Isídio. Seu Josa era irmão de seu Juvenal, pai de Deífilo Gurgel. Em certo momento as famílias Santos e Gurgel se misturam; daí, o meu parentesco com Deífilo, através de minha mãe.

Explico: o sobrenome de seu Juvenal e de seu Josa era Santos. Quando o pai de Deífilo casou com dona Dalila, o nome dela ficou Dalila dos Santos Gurgel. Os filhos de seu Josa receberam o sobrenome Santos e os de seu Juvenal ficaram com o Gurgel que pertencia à mãe.

É de seu Josa aquela estória do beiju que foi comprar fumo de rolo no balcão de sua bodega e  pediu para provar. Seu Josa cortou uma birica de fumo e ofereceu ao freguês. Ele provou, mascou, rolou de um lado pro outro dentro da boca, e nesse movimento soltou um pum. Seu Josa nada falou. O beiju então perguntou:

– O senhor não tem um fumo mais forte?

– Não tenho. Só tenho o de peidar. O de cagar acabou.

Seu Josa tinha três filhos: Geovane, Vavá e Bezinho. Geovane participou de um concurso nacional para a Receita Federal e foi aprovado em primeiro lugar. Após idas e vindas, Geovane veio morar em Brasília, onde nos tornamos amigos. Vavá morreu ainda jovem, ao sofrer um traumatismo craniano, consequência de uma queda. Não sei se a bebida teve alguma coisa a ver com isso.

Bezinho era um rapaz forte, boa pinta, bom caráter, que ficou na memória dos moradores da Rua da Frente por haver realizado uma festa que durou um dia inteiro e agitou o ambiente já tumultuado da Rua da Frente. Em Areia Branca, Bezinho não tinha profissão definida, mas contava com boas amizades.

A festa foi uma homenagem aos trabalhadores do cais, e teve a colaboração dos comerciantes e dos barcaceiros. O que mais chamou atenção naquele evento foi o fato de ter acontecido no convés do esqueleto de um iate afundado, quase em frente à bodega de seu Isídio. Chega a ser redundante afirmar que a cachaça foi a bebida preponderante, ou única. A festa começou pela manhã, e o pessoal passou  o dia inteiro bebendo, contando lorotas e empinando papagaios (pipas) gigantes, que chegavam ao outro lado rio, pros lados de Barra e Pernambuquinho.

Bezinho, na verdade, chamava-se Francisco das Chagas Santos, e casou com uma prima de nome Lindalva, com quem teve 6 filhos. Ao sair de Areia Branca, ele foi morar em Macapá, onde foi administrador do Mercado Central. Ao deixar o cargo de administrador, tornou-se marchante (açougueiro), ainda em Macapá. Faleceu em Mossoró, acometido de cirrose hepática.

Bezinho, boas amizades e sem profissão, em Areia Branca. Em Macapá, capital do estado do Amapá, Administrador do Mercado Central e açougueiro (marchante).

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

É difícil esquecer os apelidos das pessoas que conviveram conosco no dia a dia de uma cidade pequena. Em Areia Branca existiam os apelidos carinhosos, como Chico de Boquinha, uma pessoa muito querida na cidade, que sempre participava ativamente dos eventos socioculturais daquela época. Popõe é outro apelido que todos conhecemos, de certa forma respeitoso.

Do mesmo modo, há outros que caíram bem em seus protagonistas, sendo assim conhecidos por toda a vida, como Macaco, Casca de Ovo, Zé Moconha,Mundico.

Não esquecer daqueles clássicos, tipo Chico Novo, Evaldo de Zé Silvino, Dedé de Zé Dantas, Carlos Alberto de Clodomiro, Chico de Neco Carteiro, Quiquico  de seu Lauro Duarte, Horácio de Chico Lino. Ainda cabe aqui citar seu Lalá da Padaria e seu filho, Titico de seu Lalá, Petinho, filho de tona Branca e irmão de Tututa.

Porém há um lado pesado, em que os apelidos soam como bullying, por agregar a si preconceitos e discriminações. Aqui se encontra a maioria dos apelidos menos afáveis da nossa cidade, pelos idos de 1950 e 1960.

Nesta lista estão alguns nomes excêntricos citados por Ronald Lima de Góes em um de seus comentários neste blog:

Pé de Grude, Augusto Preto, Banda, Rasga Saco, Fabi, João Doido, João Tundá, Xixá, Cota, Zé Doidim, Raimundo Cabeça Baixa, Garapa, Parum do Gelé, Dedé Moconha, Chico da Formosa, Pedro de Zefa, Zé da Vara. Lembro Carneirinho, o primeiro protestante que conheci na cidade (chamados buzuoco).

Marciana,que todos conhecemos, foi uma mulher sofrida, que deixou marcas nas mentes de muitas crianças de Areia Branca, por ser agressiva e atirar pedras nas pessoas, em especial naquelas que gritavam o seu nome.

Nono foi outro que conheci. Certa vez, próximo ao Palacete Municipal, Nono saiu da pracinha e se dirigiu a uma moça que passava, agarrando-a pela cintura. Logo em seguida, o namorado dessa moça levantou Nono e o atirou no chão, fato que chamou a tenção das pessoas. Depois dessa, dizem que nunca mais Nono agarrou qualquer mulher em Areia Branca.

Contam que dona Zefa, a amada vovó da nossa amiga Dodora, foi apresentada a Manoel Avelino, na época prefeito de Areia Branca:

– Dr. Manoel, esta é dona Zefa.

– Qual Zefa?

– Zefa, de Pedro de Zefa.

Aqui, um apelido dentro de outro.

Apelidos; nomes fora do padrão. Respeito para uns, preconceito e discriminação para os de menor peso social.

EvaldOOliveira

Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Pela Rua da Frente dos anos 1950 transitavam pessoas de todos os níveis sociais, de autoridades a trabalhadores das mais diversas atividades. Na Rua da Frente, afinal, estavam as melhores lojas da cidade, como as Lojas Paulista, nossa vizinha do lado esquerdo, que tinha como gerente José Dimas, irmão de Bobô. Ali, Chico de Brito exerceu um dos primeiros empregos de sua vida. A loja de seu Quincó, vizinho à casa de Chico Lino, também estava lá, bem como a maioria das bodegas da cidade, por motivos óbvios. Era na Rua da Frente onde as coisas aconteciam.

Os maiores armazéns estavam ali instalados, como o de Antônio Calazans, o de Quidoca, o armazém de Antônio Noronha, além das bodegas de Chico Lino, seu Josa, pai de Bezinho, a de José Silvino; a bodega de José Leonel e dona Hilda, além da fábrica de vinagre de dona Branca, mãe de Tututa e Lázaro, e da padaria de seu Lalá. Tututa foi aquele jovem que saiu pela Rua da Frente exibindo um rádio tocando sobre a cabeça de um conhecido, chamando a atenção de todos para a novidade do momento. A prova da evolução tecnológica.

Desse modo, era para a Rua da Frente que convergiam os interesses das pessoas, os investimentos que geravam trabalho e emprego. No meio daquele tumultuado ambiente, repleto de barcos grandes e pequenos, uma fauna humana circulava em meio ao cheiro de pixe (asfalto em estado líquido), do barulho típico dos calafates e do emaranhado de sons próprios da movimentação das embarcações.

Muitas pessoas circulavam pela Rua da Frente durante o dia, carregando consigo histórias e enredos nem sempre notáveis. Alguns até hoje são lembrados, como Macaco e Mundico, este, filho de seu Isídio, pai de Queca. Entre os desconhecidos, dois homens simples se destacavam. Não porque tinham uma vida comum, mas por serem desempregados, do ponto de vista formal, e desempenharem papel  importante no dia a dia das atividades do cais.

Fernando, sujeito pacato, calmo, de boa índole. Com sua sutil elegância, Fernando participava de quase todos os trabalhos do cais, sem que estivesse formalmente vinculado a nenhum deles. Chegava pela manhã e logo era solicitado a ajudar em alguma tarefa, fosse providenciando uma ferramenta ou disponibilizando algum equipamento solicitado por alguém que trabalhava no cais, ou trazendo água ou algum alimento para os trabalhadores. Com o mesmo desprendimento, também executava pequenas tarefas para os comerciantes. No contraponto, Areia Branca sequer o conheceu.

O outro homem invisível da Rua da Frente era Casca de Ovo. Jamais soube do seu nome real. Era magro, de voz mansa e tom cauteloso, caminhando para lá e para cá o dia inteiro, cumprindo pequenas tarefas, sem que desempenhasse algum trabalho dignamente remunerado. Na ida para lá, algum recado sem qualquer recheio; na volta, uma resposta igualmente desprovida de valor. Parecia um ser evanescente, tocado pelo vento, movido por chamados. Correspondia à forma halogênica mais primitiva do Whatsapp.

Casca de Ovo era o homem dos recados e dos pequenos serviços de dona Hilda, nossa vizinha na costela mindinho direita. Esposa de Zé Leonel, eram os pais de Haroldo, aquele menino que sonhava ser paraquedista. Na hora do almoço e da janta, Casca de Ovo surgia com a fluidez dos eflúvios à casa/bodega de dona Hilda. À sua espera, um prato de comida à altura de sua importância.

Fernando. A invisibilidade sutil de um sujeito pacato que, com seu trabalho e seu modo de ser, ajudou a pacificar a  Rua da Frente.

Rua da Frente c:botequimEu, Caronte, o teria conduzido pelas águas tranquilas do Estige.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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