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Marta Wanderley, sempre atenta aos acontecimentos culturais, envia essa sugestão de leitura. A autora é neta de Dona Vanda Lima e seu Francisco Ferreira, Balaio para os íntimos.
O livro foi publicado em 2008, pela Edições Flor do Sal, de Natal0.

Ada Lima (adalima@gmail.com) é areiabranquense, nascida em 1984. Mora em Natal desde 2000. É jornalista, formada em Comunicação Social e graduanda do curso de Letras na UFRN.

Sucesso, é o que desejamos!

            Leio no jornal que a Maternidade Sarah Kubitschek vai ser reformada, em uma tentativa de adaptação às novas exigências tecnológicas e arquitetônicas. Inaugurada no dia 20 de abril de 1959, percebemos ter havido uma sucessão de melhorias incorporadas ao velho corpo da maternidade, e cada vez essa senhora de 61 anos ressurge mais bonita e altaneira, e com semblante juvenil, agora contemplando uma bela praça que se exibe à sua frente, também revigorada. No silêncio das madrugadas, elas, maternidade e praça, trocarão olhares de desafiadores, como duas misses em um concurso de beleza. Na atual reforma, está sendo usado um prédio para acomodar os pacientes, camerlengando a assistência à saúde até o retorno à velha casa, mais uma vez revigorada.

            O local onde hoje se localiza a maternidade era chamado Alto do Urubu, como nos conta Deífilo Gurgel, o velho Mestre. À frente, onde atualmente se encontra a bela Praça Luiz Batista, ficava um açude que, segundo Deífilo, fora construído na seca de 1877, resistindo bravamente até meados de 1980, quando foi soterrado para construção da praça.

            Quando admiramos o hospital-maternidade, onde médicos, enfermeiras e pessoal administrativo se dedicam diuturnamente à prestação de assistência médica aos filhos de Areia Branca e redondezas, surge uma pergunta mais que natural: quem teria contribuído para a construção do principal equipamento comunitário da nossa cidade?

            Sei que muitas pessoas participaram ativamente da construção desse valioso bem comunitário. A cidade inteira se mobilizou, começando pela Igreja. Grupos foram formados, rifas organizadas, shows planejados, além uma série de eventos culturais. Um grupo planejou e realizou o maior pastoril de Areia Branca, que aconteceu na Rua do Meio, próximo à Casa de José Tavernard, evento em que o nome de Chico de Boquinha se destacava.

            No início, homens da estatura de Dr. Gentil, Dr. Wilon Cabral e Dr. Francisco Costa assumiram o chamado primeiro, passando a atender pessoas que se dirigiam em busca de assistência e dignidade. Logo outros médicos assumiram esse belo e árduo mister de bem servir.

            Mas há um fato que não consigo esquecer. Era noite, por volta das vinte horas, quando três ou quatro homens chegaram à nossa casa. Queriam que papai os ajudasse a escrever uma carta ao presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). Desconheço o objetivo dessa carta. Sei que dizia respeito à construção da maternidade, e que saíram todos satisfeitos.

            Imagino que nenhum daqueles bravos senhores sabia que papai jamais havia se sentado em um banco escolar.

            Ao povo, o seu legado.

Éramos uma família de 10 irmãos – Nazaré, Zé Maria, Mauro, João, Eraldo, Evaldo, Ivo, Francisco, Socorro (Isabel no registro) e Ana Maria. A cidade era pequena, e oferecia poucas oportunidades. Os filhos mais velhos logo saíam em busca de um futuro melhor. Nazaré foi estudar em Mossoró e, em seguida, para Natal. Depois saiu Zé Maria (Dedé) aos dezessete anos. Em seguida saiu Mauro.

Zé Maria era brincalhão, tinha muitos amigos, e foi servir à Marinha do Brasil em Recife. Eu tinha um irmão marinheiro. Em 1953 Zé Maria, a bordo do Almirante Tamandaré, assistiria à coroação da rainha Elizabeth II em Londres, e sequer entrou na Abadia de Westminster.

A coroação dos reis e rainhas ingleses é um acontecimento majestoso, e o ato final da coroação é feito com o rei ou rainha sentado no trono da coroação. O trono da coroação é uma cadeira secular, de gosto duvidoso, que se encontra na Abadia de Westminster, em Londres. Na parte de baixo do trono encontra-se incrustada a Pedra de Scone – Pedra do Destino, um arenito medindo 67 x 42 cm por 26 cm de altura, pesando 152 quilos. A Inglaterra invadiu a Escócia em 1296, aprisionou seu rei e o enviou à Torre de Londres. Confiscou, então, os símbolos nacionais – a coroa, o cetro, a espada e a Pedra de Scone, uma tentativa de esmagar o orgulho e a identidade daquele povo. Até hoje a pedra continua lá, e eu tive o prazer e a emoção de ver a lendária Pedra de Scone.

Em 1956 Dedé esteve em Areia Branca, e o sonho de minha mãe era vê-lo sair à rua vestido de marinheiro. Mas Dedé nem trouxera a farda. Minha mãe nunca entendeu por quê.

Foi através de Dedé que tomei conhecimentos dos apelidos dos seus amigos e de pessoas conhecidas na cidade. Lembro de Piculiu, Macaco, Mundico, Vela Branca, Pum de Guerra, Pestana de Burro, Dedé Moconha, além da famosíssima Marciana. Claro que nós tínhamos os nossos apelidos, mas não vou dar munição ao inimigo.

No ano de 1999, eu, Francisco, Mauro, Eraldo e Dedé, agora como suboficial reformado, fomos a Areia Branca. Foi uma farra. No dia seguinte retornamos. Porém, antes de pegar a estrada, fomos tomar o café da manhã, e nos indicaram o melhor lugar. Era uma pousada que havia na Rua Silva Jardim, por trás do prédio do antigo Mercado Público.

Ao chegarmos à pousada, uma senhora – que parecia ser a dona -, ao nos avistar, expressou sua alegria, dizendo:            

– Vocês são filhos de Ester. Sentem que eu vou preparar um café especial.

Esperamos um pouco, e fomos convidados à mesa. Que surpresa agradável. Um belo café da manhã, com bife bem fininho, feito na manteiga, caju, mamão, ovos fritos, tapioca e cuscuz. Quase me benzi. Pois, naquele momento, lembrei-me de Abraão quando recebeu a visita do Senhor. Ao ver três homens de pé, perto dele, Abraão falou:

– Farei servir um pouco de pão para refazerdes vossas forças, antes de continuar a viagem.

Entrou na tenda, onde estava Sara, e lhe disse:

– Toma depressa três medidas da mais fina farinha, amassa alguns pães e assa-os.

Depois Abraão correu até o rebanho, pegou um bezerro dos mais tenros e melhores, e deu-o a um criado, para que o preparasse sem demora. A seguir, foi buscar coalhada, leite e o bezerro assado, e pôs tudo diante deles.

Naquela pousada, em Areia Branca, senti-me um enviado do Senhor na casa de Abraão.

Não tem jeito. O mês de junho nos traz a lembrança de suas festas, com a alegria das quadrilhas e das comidas típicas. Vejo nos jornais Areia Branca se preparando para comemorar as festas juninas, e os ensaios das quadrilhas acontecem em todos os locais, a mocidade replicando uma festa bonita, e respeitando a tradição.

Nas capitais, comemorações acontecem em escolas, quadras e associações de bairros. Porém os concursos de quadrilhas – que hoje acontecem no Brasil inteiro – ameaçam transformar uma festa tipicamente rural em um carnaval mal ajambrado, com ritmos, cores e adereços que nada têm com esse belo ritual.

 O solstício de verão, na Antiguidade, era comemorado no dia 24 de junho com uma festa pagã. Na Idade Média, esse dia passou a ser comemorado como Festa de São João. Quem leu o livro Stonehenge, de Bernard Cornwell, pôde perceber que os celtas, dois mil anos a.C., faziam suas festas religiosas coincidir com o solstício de verão que, de fato, ocorre no dia 22 de junho, quando o hemisfério norte está mais voltado para o sol, de maneira que recebe mais luz, marcando o início do verão naquele hemisfério. Os celtas tinham conhecimento deste fato há quatro mil anos.

No início eram festas joaninas, pois nos referíamos aos festejos em homenagem aos santos do mês de junho, especialmente São João. As quadrilhas foram trazidas pelos portugueses e incorporadas aos costumes do Brasil rural – daí o vestuário campesino -, e introduzidas nos festejos do mês de junho – daí o termo festas juninas. Ao tempo em que mudamos o nome da festa, introduzimos as comidas típicas do Nordeste, como a mandioca, o milho e alguns doces, e incorporamos nossos ritmos mais tradicionais, como o forró, o baião, o boi-bumbá, bem como os fogos de artifício.

A quadrilha, florescida no meio rural e nas cidades do interior, passou a ser um marco nas festas juninas, e em Areia Branca não seria diferente. Foi incentivada por clubes de bairros, e praticada por alunos das zonas rural e urbana – e por pessoas da elite local – como pura expressão da cultura do povo.

A fogueira, símbolo maior das festas juninas, é uma referência àquela que foi acesa por Isabel, sobre um monte, para comunicar à prima Maria, mais tarde mãe de Jesus, o nascimento de seu filho João Batista.

Torcemos para que as Quadrilhas de Areia Branca continuem sendo apenas isso: Quadrilhas de São João, sem adjetivos tipo Quadrilha Estilizada, Quadrilha Caipira, Quadrilha Matuta.

Nomes, somente os dos bairros e das localidades de onde elas provêm. Pelo que tenho percebido, está sendo feito desse jeito.

E que as futuras gerações de nossa terra continuem ouvindo, nas noites de São João, junto com o pipocar dos fogos de artifício, animados gritos como estes: Anavantur, Anarriê, Balancê, Travessê de Cavalheiros, Travessê de Damas, Grande Roda, Damas no Centro, Olha a Chuva… É mentira!

Parabéns,  Areia Branca. O povo e a tradição agradecem.

Desde pequeno, morando na Rua da Frente, aprendi um caminho que repetiria muitas vezes nos anos de minha meninice. Saindo da pracinha em frente ao Palacete Municipal, passava pela Rua do Meio no sentido da Rua da Saudade e, no final da Rua do Meio, à esquerda, logo depois do castelinho dos Dantas, lá estava ele, majestoso, com seus dois pavimentos e seu semblante de autoridade arquitetônica. Tinha aquele aspecto gostoso dos cines-teatro espalhados pelo interior desse Brasil. Os mais antigos ainda guardam a grafia original – Cine Theatro Central – Juiz de Fora-MG.

Todo areiabranquense de minha geração sabe que o cinema nasceu e prosperou no Cine Coronel Fausto. Sabe, também, que foi ali onde nossos pais namoraram e curtiram os filmes que encantaram plateias de todos os pontos deste pequeno e belo planeta azul. Perguntemos aos nossos parentes onde eles assistiram a filmes como Casablanca, Cidadão Kane, E o Vento Levou, Sansão e Dalila.

No início, cinema era mudo. Uma sirene tocava avisando que o filme ia começar; algum tempo depois, ela tocava novamente. E o filme parava no meio. Era um dos momentos mais esperados. No palco, tipo circo mambembe, surgia uma bandinha, tocava uma marchinha, um xote, um baião ou um maxixe, a sirene voltava a tocar e a projeção era reiniciada. O cheiro gostoso de pipoca misturava-se ao vozerio do salão. Os jovens preferiam os Chicletes Adams, que ainda hoje mantêm gosto e aroma daquela época. Os namorados não gostavam desse intervalo. É que a luz acendia, e acabava com aquele famoso escurinho (o Prof. Carlos Alberto já falou sobre isso).

Lisboa, Portugal, 2009. Entro em um cinema no Shopping das Amoreiras para assistir a um filme. Pasmem: as luzes acenderam na metade do filme, apareceu na tela a palavra INTERVALO, as pessoas ficaram conversando, outras saíram para lanchar, e cinco minutos depois o filme reiniciou. Igualzinho a Areia Branca na década de 1950. Só faltou a bandinha. Será que nós também estávamos certos?

Areia Branca, 1938. José Silvino, jovem recém-chegado de Catolé do Rocha, de dia era uma pessoa e à noite assumia outra identidade. Durante o dia trabalhava na mercearia de Jerôncio Vasconcelos, na Rua da Frente. À noite participava da bandinha que tocava no Cine Coronel Fausto, no período em que o escurinho estava abolido por cinco minutos. Não sei se Mirabô, o músico mais famoso da cidade, também participava desses eventos.

Soprando sua tuba, as bochechas superinfladas do jovem despertaram o riso de Ester, moçoila de seus vinte e poucos anos.

José Silvino é meu pai, e Ester… Preciso dizer?

agosto 2017
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