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O ano, 1959. O local, a igreja em frente à Rampa. No contraponto, o manguezal que nos encanta. O que fazer, então? Enquanto penso, vou caminhando por essas calçadas no sentido da prainha de Zé Filgueira.

Na esquina, ao lado da igreja, a loja de Pedrinho Rodrigues chama a atenção pela variedade de produtos em suas prateleiras. Antonio José nos lembra que Maria Odete trabalha aqui.

Em seguida, a sortida bodega de seu Quidoca; na sequência, as bodegas de José Batista e a de Antonio Noronha. Chico Lino, homem sério e de pavio curto, logo aparece no balcão de sua mercearia, também uma das melhores daquele trecho. Ao lado, a casa onde morava com seus filhos Horácio, Araci, Concebida e Pedro. Vou parar um pouco. Está entrando um iate branquinho com listas escuras nas laterais.

A loja de tecidos de seu Quincó fica bem aqui, ao lado de sua casa. Vizinho à loja de seu Quincó fica a padaria de seu Lalá, seguida das Lojas Paulista, onde o irmão de Bobô é gerente. Esta mercearia pouco sortida é a de seu José Silvino e dona Ester, pais de Ivo, Mauro, João Alves, Eraldo, Evaldo, Zé Maria, Francisco, Isabel e Ana Maria. Aqui ao lado, a bodega de José Leonel e dona Hilda. Aqui fica a bodega de seu Josa, sempre com uma piada engraçada na ponta da língua. Ele é o pai de Bezinho e Vavá. A mercearia de Valdemiro fica aqui. A esta hora dona Noêmia, com certeza, deve estar assando algum bolo com cobertura açucarada grossa, geralmente vermelha. Aqui fica a mercearia de seu Isídio, controlada com muita sabedoria por Queca. Esta é a mercearia de dona Branca, mãe de Tututa, Lázaro e Petinho. Eles fabricam vinagre de forma artesanal. Na esquina, seu Eduardo tem como vizinho uma barbearia logo no início da rua que corta à direita.

Conheço pouco o trecho que se segue, mas vou seguir a orientação de Miranda, que é um sujeito que não conheço, mas entende muito de Areia Branca. Da rua Joaquim Nogueira à rua dos Calafates, vejamos, tem seu Eduardo, a mercearia de Vicente Simão, a casa de Quinca Pereira, a de Toinho de Chico Inácio, que é o pai de Alzenir Rolim, a cooperativa dirigida por Quiquinho Lúcio, a casa de Quinca Semeão e esta bela mercearia ao meu lado direito, que me faz lembrar de um episódio contado por Evaldo.

É a bodega de Sebastião Amorim. Evaldo e sua turminha tinham como costume vender garrafas aqui na mercearia de Sebastião Amorim. Um empregado dessa mercearia, sabendo muito bem com quem tratava, tinha o hábito de cheirar a boca de todas as garrafas, para afastar aquelas que tinham sido utilizadas para guardar querosene. Certo dia, os meninos esperaram até que alguém estivesse preparado e soltasse um pum na garrafa, sendo tapada com a mão logo em seguida. Ao chegarem com cara de anjo, o rapaz foi logo cheirando a boca das garrafas. Alguém falou: Não tem querosene em nenhuma. Ele respondeu: De fato, não tem querosene, mas nesta tem bosta, e eu não quero nenhuma delas. E a turma voltou sem o dinheiro das cocadas. Porém comemorando a vingança.

Agora vem a casa de Zé Braz, a casa de João de Pixico, Chico Carvalho, Chaguinha Carvalho, Chico Ludugero (pai de Cleodon), Luiz Mariano, Adauto peixeiro e Liberato. Ainda temos a bodega de Pedrinho Duarte, que fica aqui defronte ao mercado do peixe, a casa de Vicente Besouro, Antonio Pimenta, Zé Cazuza, Manoel Gonçalves, Chico de Neco, Antero Xixico e outras cujos moradores desconheço.

O tempo é cruel, e sei que esqueci algumas. Mas a memória é curta, e o sol está muito forte.

Voltemos ao patamar da igreja, que a parte de cima da Rua da Frente nos espera.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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Órtese é um dispositivo utilizado para auxiliar ou modificar aspectos do funcionamento de estrutura ou sistema do corpo (muletas, palmilhas ortopédicas, munhequeiras). Assim entendido, uma órtese de palavras serviria para fazer funcionar um fonema ou formação de uma nova palavra, que sem seu auxílio não existiria. A prótese, por seu lado, serve para substituir partes do corpo que foram amputadas ou não funcionam como deveriam. A Agência Nacional de Saúde determina obrigatoriedade de cobertura de custos apenas para as próteses ligadas ao ato cirúrgico.

Já me referi às palavras escravas, aquelas que são aprisionadas por outras, que lhes suga vida ou sentido, ao tempo em que determina a perda de sua existência de forma isolada. Quase nunca tais palavras aparecem sozinhas.

Em bel-prazer, a palavra bel foi escravizada – anexada – por prazer. Em ledo engano, ledo tornou-se escrava de engano. Crasso é outra palavra historicamente escrava. Erro escravizou esta palavra de tal modo que poucos poetas conseguiram libertá-la desse estado. Visconde de Taunay, em O Encilhamento, escreveu: …Correspondentes à sua crassa ignorância. Aqui, crasso mantém o sentido de grosseiro. Ululante é outro exemplo de palavra escrava. Óbvio a mantém subjugada, para que aquela ganhe vida e sentido. Sozinha, a palavra ululante significa ruído semelhante ao ululo – grito ou ruído plangente; ganir; uivar.

Agora falemos das órteses de palavras. Se essas palavras pertencessem ao mundo da medicina, assim poderíamos pensar. São termos que sequer existem sozinhos, e passam a ter vida e sentido quando auxiliados por palavras-órteses.

Aqui estão algumas: 1. Branquense – palavra que não existe. Para que passe a existir de fato, necessita da palavra areia, criando uma terceira: areiabranquense. Imagino que tais palavras devam ser escritas juntas, para formar o adjetivo gentílico correspondente a quem nasce em Areia Branca, cidade do Rio Grande do Norte localizada na esquina do mundo.

Passemos a outras: 2. Grossense – esta também não consta dos nossos dicionários. Necessita do auxílio de uma órtese para formar matogrossense. Não estamos nos referindo a grossense, que se refere aos nascidos na cidade de Grossos; 3. Grandense – palavra utilizada no Nordeste – norte-riograndense ou rio-grandense do norte – e no Sul – sul-riograndense ou riograndense do sul.

Areiabranquense = areia + branquense –, fazendo sentido quando nos referimos nos domínios da deusa das salinas.

Gostou da brincadeira?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

Há sempre, em algum lugar de mim, um sentimento que aflora nos momentos inesperados, em lugares muitas vezes esquecidos do nosso GPS. São ocasiões em que o nosso sentimento é despertado pelo toque de uma emoção ou por uma imprevista convocação retrofílica.

Portugal, Évora, 2017. Adega da Cartuxa. Após uma proveitosa visita à vinícola, fomos levados a uma sala especial. Em torno de uma mesa, várias garrafas de vinho escolhidas por orientação de um profissional. Ali, ao alcance da mão, cinco delícias internacionais, a começar por uma Pera Manca. Era uma degustação de vinhos agendada do Brasil.

Areia Branca, década de 1950. A Rua da Frente amanhecera agitada, como toda a cidade. Era véspera da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, e as pessoas se movimentavam pelas ruas em um frenesi inimaginável. Eram filhos da terra que retornavam para a festa, assim como visitantes de cidades e lugarejos próximos e distantes.

Na mercearia de papai, na Rua da Frente, eu procurava ajudar no que podia. Só não podia servir as bicadas e as meiotas solicitadas pelos frequentadores. O fornecimento de víveres às barcaças estava suspenso, pelos motivos óbvios. Era a festa. E a festa maior da nossa cidade, aquecia corações e vendas.

No balcão, novos produtos eram ofertados, novas marcas de cachaças eram provadas, aprovadas ou rechaçadas. A de jatobá era uma das preferidas. Nesse vai e vem, eu me empolgava com o clima das ruas e o calor dos bebericantes.

Em Areia Branca, suspiros, a dose do santo, comentários maliciosos, conversas de botequim. Alguém fugira (roubara) uma moça, e o pai exigia casamento. Um tubarão muito grande fora apanhado em Upanema com a perna de um pescador em sua barriga.

Em Évora, discussões sobre o bom momento que vive Portugal, atraindo mais e mais brasileiros tentando fugir da bandalheira que aqui foi instalada por grupos políticos e econômicos agora na mira da justiça.

Em Areia Branca ou em Évora, a alegria de viver. Tim-tim.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Ele não é um areiabranquense qualquer. Oriundo de família pobre; seu pai, Manoel Marcelino de Souza (Manoel Lagartixa) perdeu o emprego no serviço de estiva e, desiludido, viajou para Santos no navio Volta Redonda, como estivador do Lloyd Brasileiro. No ano de 1969, seu pai embarcou no navio Itaberá, também do Lloyd Brasileiro, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1985. No final do ano de 1970, a família viajaria para Santos, junto com a mãe, Jovina Joana, onde permanece até hoje.

Daí, junto com seus primos Zacarias e Carlinhos, trabalhou na empreiteira de uma pessoa da família; em seguida prestaria serviços em uma padaria. Logo seria técnico de rádio e televisão e trabalharia em uma empresa autorizada da Phillips, para em seguida tornar-se auxiliar de escritório de uma empresa multinacional (Techint). Trabalhou na Embraer e no INSS, até se firmar como funcionário da Receita Federal, em Santos, onde trabalha até hoje.

E nunca mais retornou a Areia Branca. É que um emaranhado de nós existenciais, em conluio com lembranças das dificuldades vividas em sua cidade, o impediam de empreender a viagem de volta. De uns tempos para cá , no entanto, foi se formatando em sua mente o ambiente para o retorno, que se efetivou neste mês de agosto de 2017, talvez tocado por seu amor pela avó Antonia e seu avô Vital Marcelino de Souza, personagens frequentes em seus comentários no Era Uma Vez em Areia Branca.

Em Areia Branca, tentamos de todas as formas encontrar nosso amigo, que se anunciava hóspede da Pousada do Mestre, na rua Silva Jardim. De posse do seu endereço na cidade, formamos um grupo – eu, Sônia, Chico de Neco Carteiro, Ivo e Assis Câmara – e fomos à pousada indicada, onde nada conseguimos além de uma vaga indicação de que ele ali estaria hospedado.

No dia seguinte, véspera da procissão marítima, saíamos do café da manhã e fomos abordados em nossa pousada por um homem sisudo segurando o riso e tentando esconder seu espírito brincalhão. Logo imaginei ser ele aquele que há um dia procurávamos. Acertei.

Jerônimo, areiabranquense sério, inteligente, crítico ardiloso, de humor sutil. De volta a Areia Branca, tentou de todas as maneiras manter-se oculto.

Quase conseguiu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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