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A terra, por ser redonda, não tem esquina, mas tem pontos que se antecipam ou, ao contrário, posicionam-se do lado oposto, no giro do planeta. No início do giro, em cada manhã, nós, areiabranquenses, sempre somos os primeiros a passar por essa parte do giro. Pois é exatamente por aqui que os aviões que vêm de outros pontos  adentram o Brasil e a América do Sul. É nesse lugar que estamos nós: na esquina do mundo.

cópia de Mapa do RN

Em suas 24 horas diárias para completar uma volta sobre seu eixo, a espaçonave Terra viaja a uma velocidade de 1675 km/h, ou 465 m/s. Um moderno avião de passageiros, ao atingir o nível de cruzeiro, desenvolve uma velocidade em torno de 890 km/h.

Na Inglaterra ocorre o contrário. Eles se orgulham de ter uma montanha bem no lugar onde o mundo termina.Onde a Terra acaba

Na Inglaterra, o ponto onde a Terra acaba.

Areia Branca. Um pontinho onde o mundo começa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Quando ultrapassamos a barreira dos 65, sentamos os três para uma conversa. Ao final, muitas possibilidades, e um projeto. Naquela mesa, um amigo da cidade e dois areiabranquenses decidiram que gastariam com viagens o restinho de combustível que cada um de nós tinha no fundo do tanque, sem preocupação com distâncias. Apenas um detalhe: as viagens deveriam acontecer no mês de agosto e terminar em Areia Branca, antes do dia 15, para tirarmos a poeira das estradas no mar de Upanema.

Em Areia Branca, quantas vezes ouvi, na bodega do meu pai, estórias de encontro de rio e mar, pros lados do Pontal? Pois vamos lá, sentir de pertinho, cara a cara,  o rio sendo segurado pelo Mar, em uma emocionante calmaria. Nada de tumulto, como sempre imaginei. Fui lá conferir.

Ainda em Areia Branca, conversas de adultos sobre uma romaria anual a Juazeiro do Norte. Pois vamos a Juazeiro para um papo cabeça com o Padim Ciço. E o calor de Teresina? Você conhece? Então vamos à capital do Piauí matar essa vontade. E ainda tem aquele desejo não realizado de conhecer Canindé, onde romeiros do Brasil inteiro se reúnem e se agitam para um reforço em sua fé, sob os eflúvios de São Francisco. Vamos lá, então. Eu fui.

E tem aquele local que você já conhece, mas quer rever. Lembra daquela cidade do leste europeu onde  você degustou uma rosca estranha, super crocante e de nome difícil de pronunciar? Vamos, pois,  sentir novamente o sabor do Trdelnik, vendido em quiosques de rua, colocá-lo no braço como um troféu-pulseira e sair cantarolando pelas ruas de Praga, capital da República Tcheca, imaginando que um dia Kafka também ousou.

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Se você for um pouco mais exigente, pode aproveitar essa viagem a Praga para  provar a Dobos Torta, a mais célebre torta húngara, criada pelo confeiteiro Josef Dobos em 1885, e cuja receita foi mantida em segredo até 1906, quando afinal foi doada à Associação de Padeiros de Budapeste.

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Para você, que prefere viagens mais curtas, porém repletas de emoção, que tal cruzar o rio Ivipanim e sair por Barra e Pernambuquinho, admirando recantos, acredite, jamais visitados? Que tal uma travessura? Esticar a viagem até Tibau, para rever as areias que a natureza coloriu com as nuances do sonho, aqui e em Majorlândia? É pertinho; vamos lá!

O Projeto Romaria tem a sutileza do sonho e a leveza do desejo. A amplitude é dada por cada um dos envolvidos. O combustível vai determinar a extensão da viagem. É formar o grupo e cair na estrada. E repetir em 2020.

Para 2020 estamos discutindo a escolha de um destes roteiros: 1. Conhecer as cidades históricas de Sergipe, com ênfase em São Cristóvão, fundada em 1590; 2. Conhecer as cidades históricas de Minas Gerais, saindo de Brasília.

Porém no dia 15 de agosto Areia Branca nos receberá com o carinho de sempre.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Em Areia Branca dos anos 1950/60 algumas pessoas vagavam pela Rua da Frente. Elas  chamavam a tenção por serem pacatas e, apesar de todas as dificuldades, mantinham o humor em alta. Já falamos disso aqui.

Macaco, Fernando e Casca de Ovo estão nesse quesito. Deixavam a vida passar de forma descontraída, sem uma ocupação definida. Se provocados, poderiam até produzir coisas engraçadas. E passaram pela vida, como passa a cruviana. Em Areia Branca existia uma mulher irascível, espalhafatosa, agressiva – Marciana. Servia de troça para a meninada. Essas pessoas passaram sem deixar marcas. Uma foto sequer. Incluindo Mundico de seu Isídio nessa lista.

Contam que Mundico passava em frente à igreja e viu uma fila. Parou e decidiu juntar-se ao último. Era para confissão, descobriu ao chegar à frente do padre. Reze o Pai Nosso/ Não sei. Uma Ave-Maria/Não sei. O senhor sabia que Jesus morreu por nós?/Eu não sabia nem que ele tava doente -, respondeu.

No contraponto, Bratislava é uma pequenina cidade, capital da Eslováquia, um pequeno país que surgiu depois que a República Tcheca englobou a região desenvolvida, após o fim da antiga Checoslováquia.

Em busca de estratégias para atrair turistas que circulam pelo leste europeu, a pequena Bratislava desenvolveu uma ideia para chamar a atenção dos visitantes: utilização de esculturas em bronze de figuras populares espalhadas por ruas e praças da cidade.

Assim, o turista, logo na chegada, depara-se com a figura de um homem sorrindo, com um capacete de soldado, tentando sair de um esgoto. Trata-se de alguém da cidade, eternizado em bronze. Chegando à rua Rybárska, nossa atenção se volta para a imagem de um homem sorridente, de cartola. É um cidadão que viveu na cidade no século passado, conhecido como Schoner Náci, que sempre se vestia com trajes velhos, porém elegantes, e saía pelas ruas saudando com sua cartola as pessoas que passavam. Lembra de Gentileza, no Rio de Janeiro?

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Macaco, Fernando, Casca de Ovo. Vivos em nossa memória. Vida curta.

O homem do esgoto e Schoner Náci. Eternizados no bronze, como o foi Napoleão na praça em frente à igreja. Napoleão esteve na cidade para assinar um acordo, depois da batalha de Austerlitz , no ano de 1805, juntamente com o imperador Francisco I da Áustria.

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suveniresSuvenires de Bratislava

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Os detalhes estão nas pequenas coisas, esquecidas pelos apressados, ocupados com os grandes eventos, que rendem pixels em excesso. Temos que dispor de tempo para ver os movimentos sutis, satisfazermo-nos com um detalhe simples, que pode valer mais que um quase tudo.

Em Areia Branca, a sensação de ver o rio Ivipanim de rostinho colado com o mar, naquele remanso gostoso da preamar. Silêncio e paciência na espera da preamar.

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Em uma viagem, admirar um rostinho antigo eternizado no bronze. Respeito.

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Em um imenso cemitério, perceber uma vela acesa no menor dos túmulos, no despertar da manhã. Aqui, a marca da saudade.

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Ainda em viagem, emocionar-se com mensagens de não acomodação. Protesto que se eterniza.

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Em um evento em São Paulo, admirar este aviso. O nada, exposto para chocar.

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Nada aqui é grandioso por si, e sim por nós.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente

O Prof. Carlos Alberto foi um dos primeiros a dar seu grito de protesto contra a  destruição do nosso patrimônio arquitetônico. Chamava a atenção para a série de construções antigas que foram tombando, uma depois da outra, como em um dominó do mal comandado pela corrosão, tanto a do tempo quanto a da omissão e do desinteresse.

Assim, desapareceu o Tirol, arrastando consigo muito da beleza da parte de cima da Rua da Frente. A pracinha atrás do Tirol, bastante abalada pela tristeza do pôr do sol que, estupefato, olhava para a beira do cais e não mais visualizava sua plateia quase cativa, imaginou ela, a pracinha, que escaparia à fúria destruidora de seus algozes, mas foi descoberta e também levada ao cadafalso.

O Palacete Municipal, prédio inaugurado em 31 de março de 1918, também foi atingido pelo facão do desrespeito, e seu substituto com cara de policlínica ainda insiste em se fazer importante.

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O Cine Coronel Fausto, palco de apresentações artísticas e responsável pelo lado bom dos espetáculos da cidade, também ruiu. O espectro que envolve seus restos até nos mete medo, se à noite passamos por ali.

O Cine Miramar, que por várias vezes assumiu funções de grande utilidade para a cidade, foi-se no roldão do entulho e da caliça, e hoje é um quase vazio.

Ainda na Rua do Meio, o sobrado dos Dantas, que encantou crianças e adultos de tantas gerações, também foi jogado ao chão, nessa guerra de vaidades.

No mesmo diapasão e na mesma latitude, duas das mais importantes casas de Areia Branca também perderam o seu lado bonito e glamoroso, uma assistindo à lenta degeneração da outra, posto que de frente estavam, olhando-se cara a cara. Ali, marcavam com sua beleza o que de elegante havia naquele trecho. A casa da Coletoria Estadual e a casa de Luiz Batista formavam os pilares que sustentavam o inesquecível Portal da Rua do Meio, que não mais existe.

Coletoria estadual

Por se manterem fingindo de mortos, escondidos entre os escombros de uma guerra de picaretas, escaparam dois elementos de nossa arquitetura urbana: o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra e o Mercado Público. O grupo escolar mantém-se de pé, mesmo exibindo cicatrizes das intervenções intempestivas em sua estrutura.

Grupo EscolarTalvez seja essa a primeira fachada do Grupo Escolar

O prédio do antigo Mercado Público é hoje uma das estruturas arquitetônicas mais bonitas da cidade, e somente conseguiu resistir porque, em conluio com o grupo escolar, manteve-se calado, misturando-se aos restos das várias batalhas conduzidas pela inconsequência, com assessoria da insensibilidade.

MercadoQuando visito Areia Branca, não deixo de passar em frente à casa onde morou dona Edite Belém. Ali, uma bela construção insiste em mostrar como era a Rua do Meio de nossa meninice.

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EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

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