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Menino de Areia Branca, conheci algumas bodegas importantes, quase armazéns. Uma delas era a bodega de Antônio Calazans, na parte de cima da Rua da Frente, um pouco depois da casa de dona Cota, a mãe de Manoel Avelino. Não havia um nome no frontispício. A beleza daquela mercearia estava por trás do balcão. Ali, o destaque era uma estrutura de madeira, bem projetada, que Julieta replicou na decoração do seu apartamento no Rio de Janeiro.

No ano de 1966, nas férias de julho, já estudante do primeiro semestre do curso de Medicina, visitando Alcaçuz, antes que aquele paraíso fosse dominado pela estupidez das drogas e dos fuzis, conheci uma bodega com cara de antigamente. Era a casa/mercearia de Manoel Cabelo Ralo, casado com dona Maria Rala, uma dupla vip daquele vilarejo. Chegamos pela manhã e fomos direto para a bodega do casal Cabelo Ralo.

No alto da casa, a inscrição Secos e Molhados definia, sem arrodeios, os ditames e os interesses comerciais. Um velho banco de madeira, ancorado debaixo de uma árvore, fazia as vezes de abrigo a um cachorro vira-lata quase morto de preguiça, que mal abriu um olho, quando me viu.

O piso na frente da bodega era coberto por cascas de caramujos recolhidos de uma lagoa perto dali. Logo me lembrei da esquistossomose, uma doença terrível.  O que me levara até ali estava dentro da casa; entremos. Ocupando inteiramente a sala da casa, vislumbrava-se uma bodega recheada de produtos. De quebra, a agradável sensação de  que o tempo ali estacionara, em conluio com o silêncio.

À venda, um pouco de quase tudo. De querosene a fumo de rolo, pinga, cabresto, arame farpado, açúcar preto, enxadeco, alpercata, dobradiça, confeito, colorau, tareco, pão doce, rapadura e sabão em grandes barras, que eram cortadas à faca. Ali era vendido fósforo, cigarros Yolanda e até Hollywood. Também havia linha, agulha, dedal, sianinha e ri-ri, como era chamado o zíper em Areia Branca. Sobre o balcão, ainda aberta, uma garrafa de Conhaque de Alcatrão. Em uma prateleira ao fundo, juntos, mariola e pirulitos.

MerceariaFoto internet

Sabendo, através da tagarelice do meu irmão Dedé, que eu era doutor, na hora fui intimado por uma senhora para realizar um parto, ali perto. Conto este momento tenso da minha vida em outra crônica.

Alcaçuz 1971, conluio de tempo e silêncio. Hoje, terror e lágrimas. A desinvenção do progresso.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

setembro 2019
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