You are currently browsing the tag archive for the ‘chico de neco carteiro’ tag.

No ano de 2014, um grupo de areiabranquenses acertou pelas redes sociais um encontro em Areia Branca. Não foi fácil afinar os detalhes das agendas que, de certa forma, pareciam encaminhar-se para um  desacerto.

Finalmente, todos em Areia Branca. Éramos nove, formando um grupo de pessoas que há anos não se viam. Alguns sequer se conheciam. Nesta foto, em um almoço no Passárgada, o grupo aparece por inteiro, entregando-se à esbórnia, tendo  Toinho Tavernard como cicerone. Ali, os nove: Sonia, Chico Brito, Ricardo Dimas, Miranda, Aldo e sua esposa, Ivo e eu.

Degustamos uma deliciosa galinha à cabidela tendo ao lado um peixe que no dia anterior, pela manhã, ainda nadava no mar de Upanema. No centro da mesa, imponente, uma garrafa de cerveja tentando esconder-se em uma carapaça de plástico amarelo, já vazia e deixada de lado.

Almoço

No dia seguinte, dividimo-nos em grupos e saímos cedo do Hotel Costa Branca para um passeio pela cidade. Junto comigo, Chico de Neco Carteiro e Ivo, meu irmão violonista. Fomos ao cais da Rua da Frente e descortinamos o Ivipanim do alto do patamar da igreja. Retornamos à pracinha e dali adentraríamos a Rua do Meio. Não vou falar do Portal Mágico, porque já não existe.

Estávamos nós três na pracinha, quando de repente Ivo parou. Olhou para os lados, conferiu distâncias e, virado para o antigo prédio da Coletoria Estadual, onde hoje funciona uma escola, mas parece um presídio, falou:

– Quando eu tinha uns seis anos de idade, certo dia passava exatamente por este local, em frente a um escritório, que havia aqui, quando aconteceu uma briga de dois homens. De repente, saiu um rapaz do interior do escritório e deu um tiro com uma arma bem pequena, e o homem caiu agonizando. Essa bala raspou em minha barriga. Quase fui junto para o cemitério -, enfatizou Ivo.

Chico de Neco Carteiro olhou para Ivo e disse, tristeza evidente no rosto:

– Aquele maluco era eu!

Ficamos os três em silêncio, e voltamos para o carro sem dar uma palavra.

Depois veio o livro PERDÃO, e o espírito daquele homem se acalmou.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Chegamos a Areia Branca no dia 14 de agosto de 2014, depois de uma viagem tranquila de Natal até o Hotel Costa Atlântico. No caminho, o cheiro de maresia e a visão das salinas alimentava minha vontade de chegar. Na entrada do hotel, uma recepção de peso nos esperava: Ricardo Dimas, o Comandante Miranda, Chico Brito, Sônia e o outro Chico, este, o filho de Neco Carteiro.

Miranda

Miranda aparece espremidinho nessa postagem. Hoje sua alma voa ao encontro do lado desconhecido, onde moram os anjos, e ficará nos esperando com seu sorriso franco.

“[…] Eu sei que você já viu um pé de goiaba, um pé de laranja e um pé de manga. Pode até ter plantado algum no quintal da sua casa […] Mas suponho que você nunca viu um pé de saudade. […]”

O trecho acima está no livro “PORTO FRANCO”, a mais recente obra do escritor areia-branquense Chico de Neco Carteiro, a quem, no meio literário, insistem em chamar de Francisco Rodrigues da Costa. Porto Franco é o retorno de Chico ao seu memorialismo apaixonado e puro, carregado de saudade, após ter ele se enveredado em dois romances: Perdão e Guanabara. Quando muitos pensavam que se haviam esgotados todos os dizeres do memorialismo areia-branquense, mais uma vez com o selo da Editora Sarau das Letras, o escritor reaparece com suas crônicas encantadoras, falando sobre o antigo porto que marcou época na região da Costa Branca. O lançamento ainda não tem data definida. Mas, quando chegar a hora, vale a pena conferir.

2017.04.19 Porto Franco capa.png

Abaixo, recortes da crônica “A Igrejinha da Barra”, de Porto Franco.

A IGREJINHA DA BARRA

Do patamar da nossa igreja matriz em Areia Branca, avistava-se, no outro lado da maré, uma capelinha branca. Um belo quadro. Mas, para que os areia-branquenses desfrutassem dessa paisagem, foi preciso a iniciativa de Chico Amâncio, morador da Barra. Ele podou uma área do manguezal que encobria a capelinha. […]

[…]

Dia desses eu estava em Areia Branca. Um sábado. Tomei conhecimento que o meu amigo Dom Marcelo iria cantar a Ave-Maria de Schubert num programa musical intitulado: Projeto “Pôr do Sol”. Justamente na hora em que a Estrela-mor nos abandona e vai iluminar a outra parte da Terra.
Fui prestigiar o filho de Manoel de Marina. Cheguei cedo, antecipando-me ao salmista oficial da paróquia, nomeado pelo padre César.
Enquanto isso, do patamar da igreja, eu procurava ver a Igrejinha da Barra. Não conseguia, os mangues me impediam. A Capitania dos Portos, numa preservação ao meio ambiente, não permitiu que outro Chico Amâncio podasse o manguezal.

[…]

Finalmente, a apresentação. Além dos aplausos do público, Dom Marcelo recebeu calorosas palmas de uma turista francesa, acompanhadas do incentivo:

─ Bravo, monsieur.”

(*) Os grifos em negrito são nossos.

Entendida como manumissão, sabemos que a alforria correspondia à liberdade conferida pelo proprietário ao seu escravo. Confirmando tal posicionamento, um documento chamado carta de alforria confirmava a rescisão dos direitos de propriedade sobre o escravo.

Depois de Perdão, passei a perceber em Chico de Neco Carteiro uma aura especial, como se novos raios de luz traduzissem disposição e alegria naquele homem de corpo e alma grandes. Percebe-se este comportamento até nos telefonemas. A alegria transborda de Mossoró e nos contagia.

Em seu novo livro – Guanabara -, encontramos a anunciação desse canto novo já a partir das orelhas. Referindo-se à perda da esposa, Carlos Alberto nos brinda com “ele nos revela toda a dor que a perda da pessoa amada provoca” para em seguida tachar: “É a paz que emerge do amor eterno que faz Chico suportar a dor”. Não poderia faltar a referência aos passeios pelas ruas de Areia Branca, antes repletos de temores.

E surge o prefácio, onde Leontino Filho nos brinda com preciosas pérolas. Aqui, peço licença para citar algumas. “O tempo costura as histórias que se deixam plasmar por solidões. A viuvez das horas singra os dias estriados do olhar. A pelagem do tempo é unguento, candeeiro alumiando breves fiapos de saudades. Sem perdão, o tempo luxuriante do ser fustiga dores e afia palavras”.

Chico de Neco Carteiro perdoou-se. Os escravos romanos alforriados usavam como distintivo o barrete frígio – espécie de touca ou carapuça vermelha – que simbolizava a liberdade, e que foi adotado pelos republicanos franceses que lutaram pela tomada da Bastilha em 1789.

Chico também se apresenta levando consigo algo que configura sua autoalforria.

Um livro.

“Perdão”.

– –

Carta de alforria (internet) – Digo eu Manoel de Souza Magalhães que entre os bens livres e desembargados de que sou legítimo senhor e possuidor, é uma escrava mestiça de nome Joanna filha de minha escrava Helena criola, que tem de idade treze annos, a qual escrava Joanna, deve acompanhar-me atte o dia em que eu a cazar ou fallecer, e sendo que a mesma descre [?] e tenha filhos, tanto ella como seus filhos gozarão da mesma liberdade, cuja liberdade é do dia de minha morte por diante como si de ventre livre nascesse; e não poderão meus herdeiros prezentes e esta liberda de que a faço de minha livre vontade sem constrangimento algum, e sim pelo muito amor que lhe tenho pela ter creado como filha, e alem disso me ter servido completamente; e havendo duvida sobre o ponderado recebo a dita escrava em minha terça pela quantia de cento e vinte mil reis, e declaro que presentemente o posso fazer por possuir bens abundantes que bem chegão para esta liberdade: e para título mandei passar a presente que pedi ao Senhor Jose Thomaz de Aquino

 

 

Ontem, 17 de novembro de 2015, Chico de Neco Carteiro (Francisco Rodrigues da Costa) lançou, na Academia Norte-Riograndense de Letras, seu sexto livro, Guanabara. Um relato comovente de sua vida ao lado de Zezinha, sua mulher durante 41 anos. Tive a honra de escrever a orelha do livro, que a seguir transcrevo, sem antes não esquecer de mencionar o feliz encontro com conterrâneos, alguns, amigos de priscas eras, outros, quem sabe amigos de futuros promissores. Aldivete Costa e Jória Calazans, sempre vivazes e joviais em suas mais de oito décadas de vida, Antônio José com seus impagáveis causos, acompanhado de sua querida Luzimar que aqui e acolá tirava uma foto. Getúlio Costa, Mauro de Zé Silvino, Manuzinho, Haroldo de doutor Gentil, com a sua calma imperturbável. O ilustre deputado Souza, que só ontem tive o prazer de conhecer pessoalmente, prestigiou o lançamento do livro.

Estávamos numa conversa, Haroldo, Antônio José e eu, quando aproxima-se um jovem dizendo-se de Areia Branca (aquele alemão aqui ao meu lado não me deixa lembrar o nome do pai do jovem). Marcelo Almeida é médico, e hoje vive em Brasília. Sabia que Haroldo era filho de doutor Gentil, sabia o nome de Antônio José, e me conhecia deste blog, para o qual deverá escrever em breve. Gosta de literatura e escreve crônicas. Descobriu Chico de Neco Carteiro há algum tempo, leu todos os seus livros e eventualmente se despenca de Brasília para uma sessão de autógrafo em Mossoró ou Natal. Escreveu a quarta página do Perdão, o quinto livro de Chico.

Entre os não-areiabranquenses, Clauder Arcanjo e David de Medeiros Leite, editores de Chico, Liacir Lucena, Paulo de Tarso, Manoel Onofre Filho, que sempre marcam presença nos lançamentos de Chico em Natal.

Vamos à orelha do livro.

A dor e a paz do amor eterno

Lembro um olhar/lembro um lugar/teu vulto amado/lembro um sorriso/e um paraíso/que tive ao seu lado . . .

Era assim que Chico de Neco Carteiro encantava Zezinha nas enluaradas noites da Fazenda Guanabara. E com a mesma e comovente entonação do seu cantar, ele revela-nos, em narrativa precisa, toda a dor que a perda da pessoa amada provoca. Revela-nos também que a dor é grande, mas não supera em intensidade a felicidade que viveram e a que persiste na forma da prole que criaram. É a paz que emerge do amor eterno que faz Chico suportar a dor.

Nos trechos mais tocantes deste livro, acompanho meu amigo como se estivesse caminhando na relva plantada pela sua dor e embalado pelo lamento de amor de Beethoven na sua obra dedicada ao luar, o mesmo luar em que inúmeras vezes Zezinha se viu enamorada pelo cantar de seu amado. No aconchego da fazenda Guanabara, até um inocente beijo era acompanhado pelos pungentes versos de Catulo da Paixão Cearense:

Ontem ao luar nós dois em plena solidão/. . ./A dor da paixão não tem explicação/ . . . /É mister sofrer para se saber.

Nos trechos mais serenos, ao largo dos atropelos da vida, Chico me faz lembrar A. J. Cronin em seu magnífico Pelos Caminhos da Vida. E com a precisão e poder de síntese do médico e escritor escocês, o filho de Neco Carteiro nos leva pelas ruas de Areia Branca, sua tão amada terra natal, que jamais esquece e que lhe faz lembrar o paraibano José Américo de Almeida, quando diz que tudo se desfaz, menos os elos nativos que prendem o homem à terra.

E não é apenas a terra em que nasceu que ele descreve com emoção. Este sentimento transborda nas páginas do livro quando, por exemplo, narra cenas cariocas. Me surpreendi emocionado quando ele relata a primeira vez em que ficou no pátio da Igreja da Glória apreciando a movimentação dos carros dos carros no aterro da Glória. Chico me fez caminhar um pouco mais e chegar ao aterro do Flamengo, onde ficava minha primeira morada na Cidade Maravilhosa, em 1970, quando lá fiz meu bacharelado em física.

E com sua precisão também me sinto caminhando em ruas históricas que jamais visitei na cidade do Recife:

apanhamos um ônibus e descemos na Av. Guararapes. Depois de passarmos em frente ao Savoy, paramos um pouco na esquina do Cine Trianon, confrontando com o prédio dos Correios e Telégrafos; logo adiante a ponte Duarte Coelho, que separa a Av. Guararapes da Av. Conde da Boa Vista.

E com a sensibilidade saindo pelos poros, Chico não poderia deixar de terminar o livro por onde comecei esta breve apresentação:

lembro a saudade/ que hoje invade/ os dias meus/ para o meu mal/ lembro afinal/ um triste adeus/ sou agora/ no mar desta vida/ um barco a vagar/ onde está seu olhar/ onde está seu sorriso/ e aquele lugar/ eu devia, sorrir eu devia/ para o meu padecer ocultar/ mas diante de tantas lembranças/ me ponho a chorar.

 

ChicoNecoCarteiroGuanabaraFoto extraída do Portal Gazeta do Oeste 38 (http://gazetadooeste.com.br/escritor-francisco-rodrigues-lanca-romance-guanabara-hoje-na-biblioteca/).

casChicoNecoCarteiroJoseRodriguesLiacir151117Na Academia Norte-Riograndense de Letras. A partir da esquerda: Carlos Alberto, Chico de Neco Carteiro, seu irmão José Rodrigues da Costa e Liacir Lucena, professor aposentado do Departamento de Física da UFRN.

outubro 2019
S T Q Q S S D
« set    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Para receber as novidades do blog