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Eu, menino pobre, morador da Rua da Frente, sempre gostei de percorrer a Rua do Meio, em especial aquele quadrilátero do famoso Portal Mágico. Foi naquele trecho que assumi meu primeiro emprego; foi justo ali nas proximidades do Cine Miramar onde eu e Chico Novo construímos dois quebra-canelas antológicos.

No início da rua, do lado esquerdo, a casa de Manoel Bento. Do outro lado, a casa onde residia um membro da família Lúcio – José Lúcio (?).

Esses dois prédios, por suas características arquitetônicas e excelente localização estratégica, sempre contaram com a minha admiração, mas, pela pequenez dos meus projetos de futuro, jamais fizeram parte de meus sonhos patrimoniais. Era apenas admiração. Mas ambas já derreteram sob o peso do desleixo dos nossos administradores.

Nas proximidades da outra ponta da rua, duas casas chamaram minha atenção e a de quase todos os areiabranquenses: o sobradinho dos Dantas e a casa de dona Edite Belém, esta de frente para outro ícone arquitetônico de Areia Branca, nosso querido Cine Coronel Fausto. O sobradinho dos Dantas era um palacete que, aos meus olhos de criança, cintilava como se fosse incrustado de lantejoulas.

Visitando Areia Branca em agosto, tive o prazer de contemplar com emoção a casa amarela, agora de pintura nova e ares de balzaquiana em dia de Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Parei por um momento e dediquei toda a minha atenção àquele casarão. Imaginei-me então seu proprietário. Regressei no tempo e vislumbrei do lado direito a casa onde morava Sonia de seu Adauto. E virei-me para contemplar o que resta do cineteatro que um dia tocou nossos corações. No outro lado da rua, um pouco à esquerda, de soslaio, ainda contemplei o imóvel que substitui o sobrado dos Dantas.

Não sei por que, sinto que esse belo casario guarda resquícios de uma monarquia por nós desconhecida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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Naquela noite, depois da novena, deixei a pracinha às pressas para continuar na incerteza. Hoje, não sei quem de fato era ela.

Naquela festa, na praia de Upanema, quando alguém cantava em homenagem a um amigo – Chico Novo –, ajudei-o a fugir do local, dirigindo uma Vespa, quando tudo conspirava a nosso favor.

Na Rua do Meio, naquela noite que levava a crer que seria inesquecível, quando tudo parecia tudo, fiquei olhando para o chão escuro, em busca de um nada que se mostraria nada.

Entre o temor do futuro e a perplexidade frente a uma partida inesperada, deixei-me ser tomado por esta, e não me abasteci da força e da energia benfazejas dos amigos, mesmo que poucos. Quando, em face da saudade, tentei desfazer essa querela com o passado, senti o peso da dificuldade.

Nesse diapasão, perdi contato com o chão da minha terra, desiludido pela suposição de um caos que nunca veio. Logo, a exigência de uma reviravolta retornaria nos diversos momentos em que a força de cada descoberta exigia o respaldo das comparações com os idos e vividos em minha meninice, e esses momentos foram muitos.

Quase se apagaram da lembrança as expressões do povo, os causos da Rua da Frente, a fauna humana que ali habitava, atiçando minha mente e servindo de mote para as decisões que a vida exigiria de mim, um pós-menino ainda despossuído do choque e da experiência das grandes desilusões. Poucas, reconheço.

Decorridos vinte anos de uma ausência que se desanuviava a cada ano, com a confiança e a fé brotando e se fortalecendo feito plantinhas em um solo há pouco ressequido, eu, asa branca, percebia a necessidade de um retorno, e isto ganhava corpo em meus projetos de vida.

No início da década de 1980, enfim, retornei. Uma decepção. Uma cidade em mau estado de conservação. Em seguida, a volta por cima. Uma cidade que se renova a cada dia.

A fênix ressurgia.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há muito que estou para escrever esta crônica, mas um preciosismo besta foi empurrando o ímpeto para depois, em busca de um tom irretocável. Pura idiotice, dada a inexistência de “um tom irretocável”. Quando, em seguidos e recentes textos colaboradores e visitantes do blogue passaram a fazer referências a Manoel Avelino, incluíndo seu neto Isaac, a pretensão, sufocada pela avalanche sociológica, deu lugar à necessidade inadiável de soltar os registros de minha memória.

Os Avelinos eram primos de meu pai. Meu avô, João Avelino dos Santos era tio deles. Depois de ter trabalhado com Antônio Calazans durante vários anos, o primeiro e único empreendimento do meu pai foi aquele bar mencionado na crônica de Chico de Neco Carteiro (https://areiabranca.wordpress.com/2010/09/10/becos-ruas-e-esquinas/). A história daquele bar é tão trágica em nossa família, que jamais falamos sobre ele. Não sei quanto tempo durou. Provavelmente menos de 5 anos, pois foi com essa idade que nos mudamos da Cel. Liberalino para a Silva Jardim e meu pai já não possuía o bar. Ele o perdeu praticamente em mesas de baralho. O extraordinário senso de economia doméstica da minha mãe foi quem nos salvou. A partir de então e até a sua morte foi ela quem administrou todas as economias da casa. E foi Manoel Avelino quem nos colocou em situação econômica suportável. Conseguiu emprego para meu pai no correio e provavelmente ajudou também a colocá-lo no sindicato dos conferentes.

Sempre tive boas relações de amizade com os Avelinos (Vicência, Manoel e Chico) e seu filhos, Raimundinho, Graça e Chico Novo (foto). Poderia falar das vezes em que, ao lado de Raimundinho fui comer bolo na casa de dona Cota, sua avó, mãe de Manoel Avelino. Morava na Rua da Frente, ao lado do armazém de Antônio Calazans. Coincidentemente Manoel e Chico tinham esposas com o mesmo nome. Entre os íntimos, eram conhecidas como Jandira de Manoel Avelino e Jandira de Chico Avelino. Em uma crônica antiga relatei um dos últimos contatos que presenciei entre meu pai e Chico Avelino (https://areiabranca.wordpress.com/2009/03/03/um-nao-fala-o-outro-nao-ouve/).

Em 1960 fui para Natal, estudar no Marista e morar na casa dos meus avós. Manoel Avelino, deputado estadual, morava na Rua Potengi, próximo ao Atheneu e bem em frente à sede social do ABC. Uma simpática casa de dois andares que eu frequentava com muito prazer pela gentileza com que era recebido por Jandira, uma mulher bonita, elegante e de uma educação comovente.

Eu tinha uma profunda admiração por Manoel Avelino, pela sua inteligência e pela extraordinária maestria com que manipulava as palavras. Era um orador à altura de um Cícero. Exagero à parte, não havia quem ficasse alheio a um discurso de Manoel Avelino. Até hoje, uso expressões que ouvi pela primeira vez em seus discursos, que acompanhei ainda criança em Areia Branca, e durante a adolescência em Natal, no programa que ele mantinha na Rádio Nordeste.

Mas, eu tinha a nítida sensação que Manoel Avelino não me via com bons olhos. Nossas relações sempre foram um pouco conflituosas, pois eu me atrevia, tinha a audácia de questioná-lo com uma frequência que ele deveria considerar intolerável. Em função disso, ele sempre demonstrou mais afeição pelo meu irmão mais novo, Clécio. Em contrapartida, não sei se por um simples mecanismo de compensação ou por empatia mesmo, Jandira me cobria de afagos. E como aquilo me fazia bem. Jandira, quando eu for a Natal quero limpar essas lágrimas dos olhos tomando um café na sua casa.

Aproveitando a deixa das últimas crônicas, nas quais mencionamos a família Calazans, e Evaldo chamou a atenção para o fato de haver poucas bicicletas em AB, lá pelos idos anos 1950, lembro de uma novidade daquela época: a bicicleta de corrida adquirida por Toinho Calazans, que já era o verdadeiro administrador do Armazém do seu pai. A gente chamava de bicicleta de corrida porque tinha o guidon virado para baixo e as rodas bem fininhas. Eu, que aprendera a andar de bicicleta “roubada” de salineiros, lá do outro lado do rio, meia légua depois da barra, sofri o diabo com aqueles pneus finos da bicicleta de Toinho. Acho que, além do dono, apenas Chico Novo e eu tínhamos o privilégio de andar naquela bicicleta. De vez em quando ele ficava brabo comigo, porque chegava um pouco depois de tempo combinado para a devolução. Não sei que propósitos Chico Novo tinha quando pedia a bicicleta. Da minha parte, não tenho vergonha em declarar: pedia para me exibir na frente das casas das namoradas ou daquelas com quem estava flertando. Coisa boa uma flertada na praça da igreja, heim? Lembro que uma vez, a ciumenta mãe de uma namoradinha nos surpreendeu de mãos dadas, entre o Correio e o Grupo Escolar, esse que foi motivo da recente crônica de Evaldo. A menina ficou alguns dias de castigo. Para irritação da mãe eu passava várias vezes ao dia, chispando na bicicleta de Toinho Calazans. Santa bicicleta!

Sei que ficou nebulosa a história da “bicicleta roubada”. Era assim. Meus avós moravam num sítio, meia légua depois da Barra, para onde íamos nas férias. Na frente do sítio, meu tio tinha um armazém, que fornecia de tudo para os salineiros da região. Eles encostavam suas bicicletas, burros e cavalos, feito aqueles armazéns dos filmes de faroeste, e ficavam um bom tempo comprando seus mantimentos e tomando umas e outras. Nisso, a meninada que estava em férias no sítio aproveitava e “roubava” a bicicleta, e na falta desta, o animal que não desembestasse. Claro, de vez em quando um desprevenido pegava um burro-mulo mais tinhoso e era um Deus-nos-acuda. Geralmente só tinha duas alternativas: agarrar-se no pescoço do bicho até ele parar, ou pular, correndo o risco de quebrar pernas e braços.

Post-Scriptum (desculpe o aparente esnobismo, mas é que gosto tanto dessa expressão em Latim, que raramente escrevo PS) – Dois comentários, um de Evaldo e outro de Antônio José me motivaram a escrever nova crônica com o registro dos desafios de resistência de Horácio de Chico Lino e Toinho de Eneas.

Quem conviveu ou convive com Chico Novo, filho de Chico Avelino, conhece bem, ou já foi vítima do seu atilado senso de humor. Conheço algumas boas protagonizadas por ele. Vou relatar a última. Já faz mais de cinco anos do ocorrido. Um pouco antes da morte do pai dele, e alguns anos antes da morte de Clodomiro, meu pai.

Eu estava de férias em Natal e meu pai convidou-me a fazer uma visita a Chico Avelino.

Era uma bela manhã de domingo e a casa de Neópolis irradiava a alegria que Jandira, mulher de Chico Avelino, jamais perdeu, mesmo nos momentos mais sofridos. E aqueles eram tempos de tristeza, o marido enfrentava um câncer na garganta, e as cirurgias a que se submetera comprometeram irremediavelmente suas cordas vocais.

Em lá chegando (Usei esta expressão só para lembrar Manoel Avelino, que costumava usá-la em seus emocionantes discursos.) encontramos Chico Novo que viera visitar os pais, obrigação dominical cumprida religiosamente.

Chico Novo abriu uma cerveja, e depois de rápidas atualizações memoriais, passamos a observar nossos velhos sentados num canto da sala, encurvados um em direção ao outro, numa animada conversa. Chico Novo não se conteve e comentou, com aquele sorriso maroto:

– A conversa ali tá é boa. Um não fala, o outro não ouve!

Meu pai, há muitos anos tinha uma deficiência auditiva que só piorava com o tempo. Mas ali, naquele tocante diálogo, estavam dois amigos de muitas décadas que se entendiam só com os olhares.

outubro 2017
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