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Wellington de Reinério era um menino pacato como poucos, sem qualquer ambição de liderança. Estava sempre na dele, sem incomodar ninguém. Já Wilton, voluntarioso, briguento como parte da família, estava sempre incomodando seu irmão mais velho. Isso era uma constante nas nossas peladas.

Wellington jogava uma bola redondinha. Era um jogador habilidoso e elegante. Não fazia as habituais trapaças, como puxar o calção do adversário, levantar o pé acima da bola, armando o que se chamava de chapa, não dava uma cotovelada. Era ele e a bola, tentando apenas se esquivar dos adversários. Franzino e com esse espírito angelical, jamais conseguiu despertar interesse dos vários times de futebol em AB. Mas, nas peladas era sempre um dos primeiros a ser escolhido por quem ganhava o par-ou-ímpar.

Wilton tinha muitas dificuldades no trato com a bola. O que a natureza lhe deu de inteligência e habilidade com um maçarico, lhe tirou dos pés. De vez em quando ele obrigava Wellington a participar do par-ou-ímpar para ser um dos selecionadores, algo que violava a natureza do irmão. A estratégia tinha objetivo: ser um dos primeiros escolhidos. E ai de Wellington se não o obedecesse. Ameaçava dizer à mãe que Wellington estava jogando na rua. Sim, algumas mães não gostavam que seus filhos sujassem pés e canelas com a areia salitrosa que tomava conta da rua no embalo daqueles ventos areia-branquenses. Nunca entendi porque Wellington se preocupava tanto em respeitar as ordens da mãe, enquanto Wilton não estava nem aí! Se fosse hoje, ele ficaria cantando: Tô nem aí, tô nem aí . . .

Quem teve oportunidade de jogar bola na rua, naquela época, vai lembrar que a areia misturava-se com o suor e grudava no pé e em parte da canela. Parecia uma meia. Pois bem, para não deixar essa prova de que estivera jogando, Wellington passava o tempo todo limpando os pés. Era muito engraçado ver aquela cena. Ele dava uma corridinha e se encurvava. Passava as duas mãos, da ponta dos pés até o meio da canela. Primeiro no pé esquerdo, depois no direito, ou seria o contrário? Mas o danado jogava bem, e tinha tempo de fazer isso e executar as tarefas que lhe cabiam: dominar a bola, passar para um companheiro e fazer gol.

Já está evidente que Wilton não tinha grande intimidade com a redondinha, qualquer que fosse, de pano, de borracha ou de couro número 1 (a pequena) ou número 5 (a profissional). Mas, tinha um senso de humor discreto, sutil e refinado. Uma vez estávamos na sua pequena oficina, no fundo da casa. Em vão, ele procurava o martelo escondido em algum lugar daquela monumental desordem. De repente, estalando os dedos começou a chamar, como se a ferramenta fosse um animal doméstico:

– martelinho, martelinho, onde você se escondeu? Martelinho, martelinho, venha cá!

Com esse jeito engraçado ele fazia as ameaças a Wellington durante as peladas. Ninguém se animava em passar-lhe a bola. A chance de uma sequência bem sucedida era quase nula. Um dia, irritado com isso, aproveitou o momento em que Wellington estava de posse da bola, correu em sua direção com uma havaiana (chamávamos sandália japonesa) na mão, pronta para ser atirada, e gritou:

– Passe a bola, passe a bola senão jogo a sandália!

Não lembro quem testemunhou as cenas acima. Acho que a última também foi presenciada por Clécio. Para concluir, vou relatar uma história envolvendo Flávio de Pitita.

Era costume naquela época grupos de meninos desafiarem outros para uma partida de futebol no meio da rua. Os locais preferenciais eram a rua do meio (Cel. Fausto),

a dr. Almino (atual Dep. Manoel Avelino)

e a rua das almas, bem na frente do cemitério (olhaí, Evaldo, falei no cemitério!). Claro, isso antes do calçamento dessas ruas. Tenho várias historinhas com relação a isso. Vou relatar uma delas. Wilton, Clécio e não sei quem mais, desafiaram Wellington, Flávio de Pitita e este relator. Cada grupo deveria formar um time de 6 jogadores (um no gol e 5 na linha). Decidimos fazer um treino de 3 contra 3, no campo da saudade, logo depois do almoço! Só a energia de adolescentes para suportar tamanha loucura. O campo da saudade era o campo de futebol de AB, onde jogavam 11 contra 11. Agora, 3 contra 3 às 2 horas da tarde é uma insanidade.

Clécio, Wilton e o terceiro que não lembro, não eram páreo para Wellington, Flávio e eu. Sabíamos que no jogo prá valer era páreo corrido, como se diz no turfe quando um cavalo é claramente superior aos outros. Com essa certeza em mente e o sol na moleira, Wellington e eu decidimos amolecer. Toca a bola prá lá e cá, sem grande esforço, displicentemente, deixando os intrépidos adversários tomá-la, não fazendo qualquer esforço para recuperá-la. Flávio espumava de raiva. Wilton e Clécio se divertiam com os gols que faziam, um atrás do outro. E o pobre do Flávio correndo sozinho atrás dos 3 adversários, nos fulminando com seu olhar raivoso. No finalzinho, faltou-lhe o ar e ele ficou quase em estado de choque, parecia que ia ter uma convulsão, enquanto corria atrás de  Wilton, que se aproximava celeremente do nosso gol. Wellington e eu, assustados com a cena, ficamos parados na zona intermediária do campo. Wilton fez o gol e gritou, todo sorridente e provocativo:

– Se no treino foi assim, imagina no dia do jogo!

Flávio, com a pouca energia que lhe restava, correu em sua direção e agarrou-lhe o pescoço. Foi uma luta para evitar o enforcamento!

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Descobri nesses últimos dias, o blog do Marcelo, filho do Dr. Vicente Dutra, nosso dentista na Areia Branca dos anos sessenta. Dr. Brás Pereira era o outro dentista. Circulando por lá, encontrei uma bela mensagem que fez em homenagem a D. Ritinha, mulher do Dr. Gentil, os pais de Axel, Izolda, Evangelina, Chico Zé, Haroldo, Júnior, e mais dois ou três cujos nomes não lembro. Coloquei um comentário, cujos principais trechos reproduzo aqui.

casamanoelbento02

Esta é uma foto dos anos 60-70. No primeiro plano vê-se a prefeitura. A casa grande na esquina é a casa de Manoel Bento. A casa menor, no canto direito da foto, é a casa onde morava a família de Dr. Gentil. Ficava quase em frente à casa do Dr. Vicente.

Tenho agradabilíssimas recordações da família do saudoso Dr. Gentil. Fui amigo de muitos dos seus filhos, a começar pela Izolda (acho que o Marconi estava se referindo a ela, quando mencionou o envolvimento de Evangelina com o movimento estudantil). Izolda era minha grande rival na escola de D. Chiquita do Carmo. D. Alice Carvalho era nossa professora. Com o perdão pela falta de modéstia, devo dizer que ao final de cada mês era uma ansiedade danada para saber quem tinha tirado as melhores notas. Ora Izolda ficava na frente, ora eu tirava notas melhores. Ninguém nos ultrapassava. Isso deixava Seu Clodomiro e D. Albertina cheios de orgulho e certamente que Dr. Gentil e D. Ritinha também tinham mais do que motivos para se orgulharem da filha inteligente e aplicada.

Nos anos 70 Izolda foi presa em frente à ETFERN. Soube depois que ela tinha conseguido asilo político em algum país da América do Sul, parece que no Chile.

Fui amigo do Axel e do Chico Zé. Haroldo e Júnior eram mais amigos do meu irmão, Clécio.

Quando estive no Rio, fazendo meu curso de física na PUC, visitei o Axel, em companhia de Chico Novo (Chico Avelino, filho de Chico Avelino). Ele morava, huuum, não lembro o nome do bairro, na zona norte do Rio. Lembro que depois do almoço sentamos numa varanda e devoramos uma bacia enorme de laranjas. Por que diabos aquela imagem ficou marcada em minha memória?

Saudades, saudades . . .

Saudade / Palavra triste / Quando se perde / Um grande amor / Na estrada longa da vida / Eu vou chorando / A minha dor . . .

Não, não é desse gênero musical que eu gosto, nem é este sentimento que me domina o espírito. Mencionei o trecho da música, simplesmente porque ecoava de muitas casas nas manhãs areia-branquenses dos anos 60.

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 3, 1998
Fotos de Antônio do Vale
Aproveitando a deixa do artigo assinado pelo Rodrigues, quero dizer que tenho diversas e belas recordações do Cine Miramar e do Cine São Raimundo, principalmente porque, fazendo minhas as palavras da titia roqueira Rita Lee, “ No escurinho do cinema / chupando drops de anis / longe de qualquer problema / perto de um final feliz ”, era como nos sentíamos naqueles anos sessenta. Não lembro qual o primeiro filme que assisti. Certamente foi numa vesperal do Cine São Raimundo, pois em meados dos anos cinqüenta este era o único cinema em Areia Branca. O Cine Cel. Fausto, como cinema, é uma imagem difusa na minha mente. Não lembro de ter aí assistido filme. Lembro do prédio ainda inteiro, e com o passar dos anos acompanhei seu progressivo desmoronamento. No canto direito da foto à esquerda, um dos últimos registros do Cel. Fausto, pra variar, foto de Antônio do Vale.

Com a completa transformação do prédio do Cine São Raimundo, o Cine Miramar é o que resta de registro arquitetônico da sétima arte em Areia Branca. Na foto à esquerda, Antônio do Vale pretendia registrar uma enchente nos anos sessenta, mas captou, ao fundo (à direita) o antigo prédio do Cine São Raimundo.

Ao que me lembro, esses foram os únicos cinemas de Areia Branca. A propósito, quem lembra o primeiro filme projetado no Cine Miramar? Tenho a impressão que foi “Folhas Secas”. Terá sido isso mesmo? O Celso Luiz, que tem memória de elefante, bem que poderia tirar essa dúvida.

Estado lamentável do Cine Miramar, nos anos 1990 

Logo após a inauguração do Cine Miramar (prédio de 2 andares), um colega nosso conseguiu roubar uma chave que abria a porta dos fundos, que ficava no beco da Galinha Morta (ah! Que memória horrorosa! Tenho dúvidas se estou falando do beco correto. Ocorreu-me que o beco da Galinha Morta poderia ser aquele que desembocava na “rua da Saudade”, em cuja esquina ficava a oficina de Reinério -saudades de Wellington!). Enfim, correto ou não o apelido do beco, o fato é que entrávamos com a maior tranqüilidade e assistíamos filmes e mais filmes gratuitamente. Não lembro exatamente como essa história terminou, mas sei bem que perdemos a chave. Creio que Clécio lembra disso. Perguntarei depois.

Outro dia acompanhei um debate num programa de rádio aqui em Porto Alegre , sobre o “escurinho do cinema”. Descobri que, tantos anos passados, tecnologia virtual, DVD, vídeo laser, liberdade sexual, camisinha (e uso de), nada disso foi capaz de acabar com a mística do namoro no cinema. Neste particular, o mezanino do Cine São Raimundo era imbatível. Todos sabíamos, para se ver um filme bem acompanhado no Cine São Raimundo, teríamos que sentar lá em cima, de preferência na última fila de cadeiras, ao lado do box onde ficava a câmara de projeção. Tinha-se que chegar bem cedo, para sentar na última cadeira do mezanino.

A propósito, lembro de uma história bem interessante. Lá pelos anos 60, dois amigos namoravam duas amigas. Costumavam ir juntos ao cinema. As meninas, muito assanhadas, insinuavam as possibilidades de carícias mais apimentadas. Chicletes rolavam de uma para outra boca, atingindo o clímax num incomensurável prazer. Aparentemente, o mais jovem dos meninos não tinha conhecimento dessa prática, corriqueira entre os mais velhos. Na saída do cinema o mais velho perguntou ao mais jovem:

– Sua namorada lhe deu um confeito?

– Deu, respondeu o mais jovem.

– O que você fez com ele?, perguntou o mais velho.

– Comi , respondeu o mais jovem, com a candura de um amante neófito.

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