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capaChicoNecoCarteiro_2012Becos, ruas e esquinas, recebi com o autógrafo do autor, na grafia conhecida de todos, Chico de Neco Carteiro, no seu lançamento na Academia Norte-Riograndense de Letras. Publicado pela editora Sarau das Letras e lido de uma talagada só. Não é que eu seja um voraz devorador de páginas impressas, como se pastéis de Belém fossem. É que livros de memórias, se bem feitos como esse, são apetitosas iguarias, que, fora da metáfora, são consumidas avidamente.

Chico de Neco Carteiro mudou-se para Mossoró antes que eu fizesse, ao meu tempo e ao meu jeito, muitas das estripulias que ele praticou. Por isso, por causa dessa desconexão temporal, seu livro me toca o imaginário afetivo apenas levemente, em breves referências de uma parte da vida areia-branquense por nós compartilhada. Em compensação me instrumentaliza intelectualmente, como inestimável fonte histórica que é. Entre as figuras populares citadas, bem me lembro de Marciana, mas Chico não menciona Casca de Ovo, personagem que mencionei em crônica aqui (https://areiabranca.wordpress.com/2012/08/15/nos-de-macatuba-eles-de-amarcord/). Quando teria surgido esse doidinho manso da minha adolescência?

Não posso deixar de registrar a emoção que senti ao ler a referência ao bar de meu pai, logo na crônica que dá nome ao livro. Apesar dessa emoção, aquele beco continua sendo o beco de Alfredo Piriquito e seu famoso café. A menção ao bar de meu pai, que existiu (o bar) até meus 5 anos de idade, me faz recuperar lembranças felizes e tristes, que não devem ser contadas aqui, neste espaço dedicado ao livro de Chico de Neco Carteiro.

Não sabia que o time de futebol da Cruzada Eucarística tinha uma história tão longa. Fui seu atleta no final dos anos 1950, quando ele já existia há mais de uma década, sei agora após a leitura da crônica Era um descampado só.

Invejo as pessoas de boa memória, e este meu amigo é um dos principais alvos. Como ele consegue lembrar os nomes de todas aquelas embarcações, iates, barcaças e rebocadores que singravam o rio Ivipanim? Se não lembra, mas tem tudo anotado, ou fez pesquisa, aí já entra em outra rota de inveja que tenho, daqueles possuidores de talento para a pesquisa histórica. Na crônica Francisco Ferreira Souto, Chico me obriga a um mergulho hoje imaginário e outrora real, da popa do iate Narciso e do rebocador São Miguel, este quase permanentemente ancorado em frente à Salmac, na rua das Almas, onde residi por mais de uma década.

Zé de Cadinha, amigo e companheiro de futebol de Chico de Neco Carteiro, e um dos mais elegantes jogadores de futebol que vi em minha vida. Lembro de um jogo no velho Juvenal Lamartine, ABC contra não lembro qual time. Um atacante coloca a bola entre as pernas de Cadinha e corre para apanhar a bola nas suas costas. Seria um drible avassalador, não fosse a calma, habilidade e sangue frio de nosso ídolo. Fez um giro de 90 graus para a direita e apanhou a bola, deixando o atacante chupando o dedo. Anos depois tive o prazer de conhece-lo. Com muita frequência ia na nossa casa, em Potilândia, para caminhar com meu pai. Com aqueles cabelos brancos ainda preservava a elegância do jovem centro-médio do ABC.

O beco do Panema, por ali passei inúmeras vezes, a pé e na Sopa de Luiz Cirilo, nome pelo qual conheci aquela espécie de ônibus. Curioso que Chico a denomina Escandalosa. Estamos falando de transportes diferentes, ou de nomes diferentes para o mesmo transporte? Fiz muitas viagens naquele pequeno coletivo, mas apenas uma resiste ao tempo na minha memória, quando criança fui a um piquenique, com galinha e farofa.

Ficaria aqui, agradecendo ao Chico por me trazer essas doces lembranças, mas não posso deixar de dizer que sua prosa gostosa navega por mares literários e históricos para além da Serra do Mel. De Intérpretes da MPB a Mário Negócio, passando por Ignácio de Loyola Brandão, Chico nos alimenta com seu extenso e profundo conhecimento.

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Há muito que estou para escrever esta crônica, mas um preciosismo besta foi empurrando o ímpeto para depois, em busca de um tom irretocável. Pura idiotice, dada a inexistência de “um tom irretocável”. Quando, em seguidos e recentes textos colaboradores e visitantes do blogue passaram a fazer referências a Manoel Avelino, incluíndo seu neto Isaac, a pretensão, sufocada pela avalanche sociológica, deu lugar à necessidade inadiável de soltar os registros de minha memória.

Os Avelinos eram primos de meu pai. Meu avô, João Avelino dos Santos era tio deles. Depois de ter trabalhado com Antônio Calazans durante vários anos, o primeiro e único empreendimento do meu pai foi aquele bar mencionado na crônica de Chico de Neco Carteiro (https://areiabranca.wordpress.com/2010/09/10/becos-ruas-e-esquinas/). A história daquele bar é tão trágica em nossa família, que jamais falamos sobre ele. Não sei quanto tempo durou. Provavelmente menos de 5 anos, pois foi com essa idade que nos mudamos da Cel. Liberalino para a Silva Jardim e meu pai já não possuía o bar. Ele o perdeu praticamente em mesas de baralho. O extraordinário senso de economia doméstica da minha mãe foi quem nos salvou. A partir de então e até a sua morte foi ela quem administrou todas as economias da casa. E foi Manoel Avelino quem nos colocou em situação econômica suportável. Conseguiu emprego para meu pai no correio e provavelmente ajudou também a colocá-lo no sindicato dos conferentes.

Sempre tive boas relações de amizade com os Avelinos (Vicência, Manoel e Chico) e seu filhos, Raimundinho, Graça e Chico Novo (foto). Poderia falar das vezes em que, ao lado de Raimundinho fui comer bolo na casa de dona Cota, sua avó, mãe de Manoel Avelino. Morava na Rua da Frente, ao lado do armazém de Antônio Calazans. Coincidentemente Manoel e Chico tinham esposas com o mesmo nome. Entre os íntimos, eram conhecidas como Jandira de Manoel Avelino e Jandira de Chico Avelino. Em uma crônica antiga relatei um dos últimos contatos que presenciei entre meu pai e Chico Avelino (https://areiabranca.wordpress.com/2009/03/03/um-nao-fala-o-outro-nao-ouve/).

Em 1960 fui para Natal, estudar no Marista e morar na casa dos meus avós. Manoel Avelino, deputado estadual, morava na Rua Potengi, próximo ao Atheneu e bem em frente à sede social do ABC. Uma simpática casa de dois andares que eu frequentava com muito prazer pela gentileza com que era recebido por Jandira, uma mulher bonita, elegante e de uma educação comovente.

Eu tinha uma profunda admiração por Manoel Avelino, pela sua inteligência e pela extraordinária maestria com que manipulava as palavras. Era um orador à altura de um Cícero. Exagero à parte, não havia quem ficasse alheio a um discurso de Manoel Avelino. Até hoje, uso expressões que ouvi pela primeira vez em seus discursos, que acompanhei ainda criança em Areia Branca, e durante a adolescência em Natal, no programa que ele mantinha na Rádio Nordeste.

Mas, eu tinha a nítida sensação que Manoel Avelino não me via com bons olhos. Nossas relações sempre foram um pouco conflituosas, pois eu me atrevia, tinha a audácia de questioná-lo com uma frequência que ele deveria considerar intolerável. Em função disso, ele sempre demonstrou mais afeição pelo meu irmão mais novo, Clécio. Em contrapartida, não sei se por um simples mecanismo de compensação ou por empatia mesmo, Jandira me cobria de afagos. E como aquilo me fazia bem. Jandira, quando eu for a Natal quero limpar essas lágrimas dos olhos tomando um café na sua casa.

Crônica de Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro), publicada no jornal Gazeta do Oeste, em 9/9/2010.

Acredito que toda criança, quer nascida ou não na cidade em que viveu, guarde na memória os seus becos, ruas e esquinas. Por mais importante que se torne quando adulta, suponho que não os esqueça. Fernando Pessoa, por exemplo, não lembraria os de sua Lisboa encantadora? De Salamanca, por Miguel de Unamuno idolatrada, ele os olvidaria? Qualquer um dos dois Alexandre Duma conheceria, certamente, os de sua romântica Paris.

E Castro Alves, o condoreiro abolicionista, de sua memória jamais se apagariam as esquinas da Bahia, onde tanta poesia cantou.  Carlos Lacerda que, em cada esquina procurava um presidente para depor, na sua cachola tinha desenhados todos os becos e esquinas da Cidade Maravilhosa.

Deixemos os que já partiram desta vida. Vamos a São Paulo. Fico imaginando a Mogi das Cruzes, do meu amigo Mario Silveira. Mogiano até a medula, será que ele esqueceu a esquina da Cel. Souza Franco, ou a da Senador Dantas? Garanto que não, como viva na sua cuca está a esquina da Livroeton.

Vamos dar uma voltinha aqui mais perto da gente: Por Osair Vasconcelos boto até a mão no fogo, sem receio de chamuscá-la, como carrega no pensamento a esquina da Rua do “gango”, ou daquela rua que servia de marco para as duas turmas dos meninos guerreiros. Nenhum garoto, de um dos bandos, a atravessaria, sob pena de haver um tremendo quebra-pau. Isso acontecia na inesquecível Macaíba de Osair.

O diabo é quem discute com Paulo Balá. Este, além dos becos ruas e esquinas, tem vivo na lembrança um punhado de curral de Acari de sua meninice! Conhece tudo sobre a terra do ex-Cardeal dom Eugênio Sales.

E o que dizer de Manoel Onofre, “de camisa aberta ao peito, pés descalços e braços nus”, em suas andanças, esqueceu os da sua Martins de clima agradável? Du-vi-d-o-dó.

E Aluízio Alves Filho? A memória lhe traiu a ponto de esquecer o estádio Juvenal Lamartine, na Hermes da Fonseca, ou o Café São Luiz, na Rio Branco? Não! Estas duas avenidas da cidade do Natal, que destoam do título deste texto, estão fixas no quengo de Aluízio; exemplo de pai e avô e um grande saudosista natalense.

Afinal, chego aos becos, ruas e esquinas de Areia Branca. E inicio pelo beco mais famoso, cuja popularidade ultrapassou os limites da cidade: o Beco da Galinha Morta. Também muito falado, foi o “Beco do Panema”, que deixou de existir quando o libertaram das cercas que o ladeavam. Um prêmio para o professor Wilson de Moisés, se souber o nome do beco onde dr. Vicente Gurgel Dutra tinha seu consultório dentário; também já não existe; desapareceu com a demolição daquele quarteirão que ia da esquina da Mossoró Comercial à esquina da oficina do “Ferreiro”, avô de Naldinho.

Outro beco, que nem nome tinha, iniciava na esquina do bar de Clodomiro, na Barão do Rio Branco, terminando na Travessa dos Calafates. [Como indica a placa, hoje o beco tem nome: Rua Padre Afonso Lopes. A foto é uma cortesia de A.F. Miranda. Nota do Editor]

E por falar em esquina, a da loja de Pedro Leite dando a frente para a Rua Cel. Fausto, e o oitão para a antiga Almino Afonso. A esquina do Conselheiro Brito Guerra, na Rua do Progresso com a antiga Getúlio Vargas; a esquina da loja de Pedrinho Rodrigues, na Rua Barão do Rio Branco com a Rua da Frente.

A esquina da casa de Caboclo Lúcio, de frente para esquina da casa de Manoel Bento, ambas na Rua Cel. Fausto.

A esquina do Sindicato dos Estivadores na Rua Almino Afonso com a Rua de Trás, que era Silva Jardim e hoje é Francisco Ferreira Souto. A esquina do antigo clube Democratas na Rua Cel. Liberalino com a Travessa dos Calafates. A esquina do Sindicato dos salineiros na Machado de Assis, com a Rua Joaquim Nogueira.

Muitos becos, ruas e esquinas não foram citados aqui, mas ficam guardados no cofre de minhas saudades para outra convocação.

Reaprendendo a brincar: uma viagem à minha infância é um livro de apenas 74 páginas. Você pode ver as informações editoriais no Cânone areiabranquense. Mas, esse livro que não consegue ficar em pé, de tão fino, me causa uma inveja imensa, uma incurável dor de cotovelo. Quase chego a dizer pra mim mesmo: tá com raiva? Tire as calças e pise em cima! Hei de me vingar, viu Evaldo? Qualquer dia desses vou plagiá-lo e escrever um igualzinho. Como eu queria ter escrito esse livro! Tem nada não, vou fazer minhas as lembranças de Evaldo, pedindo-lhe permissão para dar meus retoques pessoais.

Lá na página 15, depois de mencionar o nome da sua primeira professora, Dorinha, ele escreve: “Outro método usado em classe era a professora atirar uma régua comprida, de madeira, lá de onde estava, no rosto de quem estivesse atrapalhando a aula.”  Fica subentendido que era um método usado pela professora Dorinha. Não conheci Dorinha, mas fui aluno, na 5a série, da professora Geralda Cruz. Um dia, um aluno atrevido fez alguma traquinagem que não lhe agradou. Recebeu nas costas uma reguada. A régua era daquelas triangulares, tipo um serrote de sal, com uns 40 centímetros de comprimento. O gemido do coitado deve ter sido ouvido lá no meio da rua.

Professora Geraldo Cruz, em 1965-1966. O primeiro à esquerda, sentado, é Clodomiro Alves Jr. O terceiro Manoel Souza Neto, o saudoso Souza, filho de Antônio do Vale.

Na página 16 ele menciona muitos conhecidos daquela época. Quero me fixar em Antônio Calazans. Sim, é verdade: Jurineida era lindíssima. Meu pai tinha laços familiares com Antônio Calazans. Não sei bem o grau de parentesco. Parece que Calazans era sobrinho da minha vó. Não importa. O fato é que aos 11 anos ele foi trabalhar no armazém de Calazans, mencionado por Evaldo. Quando criança eu não perdia a oportunidade de dar uma passada “despretenciosa” na casa deles. Nunca vi faltar um bolo e um refresco naquela casa. Parecia que D. Julinha fazia bolo diariamente. Quando conheci Julieta, ela já não morava em AB. Vinha todo final de ano. Pelo menos uma vez lembro que ela chegou num daqueles jeeps de guerra, verde oliva. Ela me adorava e me obrigava a chamá-la “Tia Êta”. Adário era outro dos filhos de D. Julinha que gostava muito das minhas traquinices, sobretudo das imitações que eu fazia de alguns adultos. Anos depois, quando fazia faculdade no Rio, juntamente com Chico Novo, ia vez ou outra no apartamento de Aldemir, na Glória, onde ele tinha um bar. Tomava umas boas biritas ali.

Acho que Evaldo faz uma pequena confusão na página 25. O “calmo” dono da mercearia não é Seu Firmino?

E por falar em José Tavernard e D. Didiz, nunca vi um casal fazer tantas filhas bonitas! E os picolés, ou polis que ela vendia? Quando minha mãe me mandava comprar algo, eu costumava ficar com o troco para gastar tudo à noite na casa de José Tavernard.

O cão buldogue mencionado na página 35, um dia me encurralou no beco da galinha morta. Veja aqui como foi isso.

Mas, Evaldo por que você foi logo esquecer de mencionar o jogo de bandeirinha? Quando parava a chuva todos corriam para a rua. Uns brincavam de fura-chão, magistralmente descrito por Evaldo, outros iam jogar futebol, mas não sei bem porquê, a maioria preferia brincar de bandeirinha. Era um jogo sensacional. Para quem também gostava de jogar futebol, a bandeirinha era como um treinamento para o drible de corpo.

O tamanho do campo dependia da quantidade de jogadores. Os dois times ficavam em lados separados por uma linha traçada no chão. No final de cada campo ficava uma bandeira. Na verdade um pequeno pedaço de pau enfiado na terra. Ganhava o jogo o time que conseguisse tirar a bandeirinha do adversário e trazê-la para o seu lado, sem ser tocado por nenhum adversário. Era aí que se precisava ter jogo de corpo. Se algum defensor tocasse no invasor, este ficava parado (“preso”) no local em que foi tocado. Tinha que ser tocado por um companheiro para se livrar. Ou seja tinha que ser tocado e correr para seu campo sem ser tocado novamente, tanto ele quanto seu salvador. Para ganhar o jogo, o time tinha que trazer a bandeirinha e não ter ninguém “preso” no campo do adversário.

É mentira, Terta?

Quem conviveu ou convive com Chico Novo, filho de Chico Avelino, conhece bem, ou já foi vítima do seu atilado senso de humor. Conheço algumas boas protagonizadas por ele. Vou relatar a última. Já faz mais de cinco anos do ocorrido. Um pouco antes da morte do pai dele, e alguns anos antes da morte de Clodomiro, meu pai.

Eu estava de férias em Natal e meu pai convidou-me a fazer uma visita a Chico Avelino.

Era uma bela manhã de domingo e a casa de Neópolis irradiava a alegria que Jandira, mulher de Chico Avelino, jamais perdeu, mesmo nos momentos mais sofridos. E aqueles eram tempos de tristeza, o marido enfrentava um câncer na garganta, e as cirurgias a que se submetera comprometeram irremediavelmente suas cordas vocais.

Em lá chegando (Usei esta expressão só para lembrar Manoel Avelino, que costumava usá-la em seus emocionantes discursos.) encontramos Chico Novo que viera visitar os pais, obrigação dominical cumprida religiosamente.

Chico Novo abriu uma cerveja, e depois de rápidas atualizações memoriais, passamos a observar nossos velhos sentados num canto da sala, encurvados um em direção ao outro, numa animada conversa. Chico Novo não se conteve e comentou, com aquele sorriso maroto:

– A conversa ali tá é boa. Um não fala, o outro não ouve!

Meu pai, há muitos anos tinha uma deficiência auditiva que só piorava com o tempo. Mas ali, naquele tocante diálogo, estavam dois amigos de muitas décadas que se entendiam só com os olhares.

dezembro 2017
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