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Há sempre, em algum lugar de mim, um sentimento que aflora nos momentos inesperados, em lugares muitas vezes esquecidos do nosso GPS. São ocasiões em que o nosso sentimento é despertado pelo toque de uma emoção ou por uma imprevista convocação retrofílica.

Portugal, Évora, 2017. Adega da Cartuxa. Após uma proveitosa visita à vinícola, fomos levados a uma sala especial. Em torno de uma mesa, várias garrafas de vinho escolhidas por orientação de um profissional. Ali, ao alcance da mão, cinco delícias internacionais, a começar por uma Pera Manca. Era uma degustação de vinhos agendada do Brasil.

Areia Branca, década de 1950. A Rua da Frente amanhecera agitada, como toda a cidade. Era véspera da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, e as pessoas se movimentavam pelas ruas em um frenesi inimaginável. Eram filhos da terra que retornavam para a festa, assim como visitantes de cidades e lugarejos próximos e distantes.

Na mercearia de papai, na Rua da Frente, eu procurava ajudar no que podia. Só não podia servir as bicadas e as meiotas solicitadas pelos frequentadores. O fornecimento de víveres às barcaças estava suspenso, pelos motivos óbvios. Era a festa. E a festa maior da nossa cidade, aquecia corações e vendas.

No balcão, novos produtos eram ofertados, novas marcas de cachaças eram provadas, aprovadas ou rechaçadas. A de jatobá era uma das preferidas. Nesse vai e vem, eu me empolgava com o clima das ruas e o calor dos bebericantes.

Em Areia Branca, suspiros, a dose do santo, comentários maliciosos, conversas de botequim. Alguém fugira (roubara) uma moça, e o pai exigia casamento. Um tubarão muito grande fora apanhado em Upanema com a perna de um pescador em sua barriga.

Em Évora, discussões sobre o bom momento que vive Portugal, atraindo mais e mais brasileiros tentando fugir da bandalheira que aqui foi instalada por grupos políticos e econômicos agora na mira da justiça.

Em Areia Branca ou em Évora, a alegria de viver. Tim-tim.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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Ele não é um areiabranquense qualquer. Oriundo de família pobre; seu pai, Manoel Marcelino de Souza (Manoel Lagartixa) perdeu o emprego no serviço de estiva e, desiludido, viajou para Santos no navio Volta Redonda, como estivador do Lloyd Brasileiro. No ano de 1969, seu pai embarcou no navio Itaberá, também do Lloyd Brasileiro, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1985. No final do ano de 1970, a família viajaria para Santos, junto com a mãe, Jovina Joana, onde permanece até hoje.

Daí, junto com seus primos Zacarias e Carlinhos, trabalhou na empreiteira de uma pessoa da família; em seguida prestaria serviços em uma padaria. Logo seria técnico de rádio e televisão e trabalharia em uma empresa autorizada da Phillips, para em seguida tornar-se auxiliar de escritório de uma empresa multinacional (Techint). Trabalhou na Embraer e no INSS, até se firmar como funcionário da Receita Federal, em Santos, onde trabalha até hoje.

E nunca mais retornou a Areia Branca. É que um emaranhado de nós existenciais, em conluio com lembranças das dificuldades vividas em sua cidade, o impediam de empreender a viagem de volta. De uns tempos para cá , no entanto, foi se formatando em sua mente o ambiente para o retorno, que se efetivou neste mês de agosto de 2017, talvez tocado por seu amor pela avó Antonia e seu avô Vital Marcelino de Souza, personagens frequentes em seus comentários no Era Uma Vez em Areia Branca.

Em Areia Branca, tentamos de todas as formas encontrar nosso amigo, que se anunciava hóspede da Pousada do Mestre, na rua Silva Jardim. De posse do seu endereço na cidade, formamos um grupo – eu, Sônia, Chico de Neco Carteiro, Ivo e Assis Câmara – e fomos à pousada indicada, onde nada conseguimos além de uma vaga indicação de que ele ali estaria hospedado.

No dia seguinte, véspera da procissão marítima, saíamos do café da manhã e fomos abordados em nossa pousada por um homem sisudo segurando o riso e tentando esconder seu espírito brincalhão. Logo imaginei ser ele aquele que há um dia procurávamos. Acertei.

Jerônimo, areiabranquense sério, inteligente, crítico ardiloso, de humor sutil. De volta a Areia Branca, tentou de todas as maneiras manter-se oculto.

Quase conseguiu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Todos nós temos lembrança de pessoas de comportamento inadequado. Em geral, notamos que, no início, são  crianças desrespeitosas em casa, na escola, com professores e colegas, ao ponto de desenvolver comportamento grosseiro e violento com os amigos. vizinhos, e com pessoas do seu relacionamento. Desse modo, destroem brinquedos, placas de rua, picham paredes e equipamentos comunitários, destratam as pessoas. Em comum, o fato de  contarem sempre com a conivência e a estratégica proteção dos pais.

Em Areia Branca, lembro de um imbróglio criado por um adolescente problemático ao lado da barraca de Zacarias nos momentos que antecediam a contagem dos votos para a escolha da Rainha da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, pelos idos de 1958. Quem havia protagonizado aquela confusão? Um adolescente problemático que costumava frequentar a Rua da Frente, embora ali não morasse. Quase todos os meus irmãos homens – éramos sete meninos – foram vítimas de suas inconsequências e brutalidade.

Havia sempre uma querela a ser resolvida com o distinto, devido a suas provocações, hoje bulling. Sei que jamais o vi participando das conversas com os jovens de sua idade, na pracinha, nem jogando futebol com a molecada. Lembro, sim, de José Jaime, Toinho Tavernard e Ribamar, dentre outros. Não sei se ele ainda mora em Areia Branca, nem o que faz na vida.

Tempos depois, já morando em Natal, soube que, mantendo sua aura de criança agressiva,  tornara-se um adolescente provocador e brigão, um construtor da desconstrução, sempre baseado na discórdia e com um inconveniente apego à grosseria e ao mau gosto.

Muitos anos fiquei a imaginando: o que leva uma criança ou um adolescente a uma vida de provocações e desacatos. Geralmente esses adolescentes ficam fora da escola, embora pertençam a família com boa situação financeira. Sabemos que, quase sempre, há a superproteção dos pais e a desagregação familiar como pano de fundo, dentre outros fatores.

Há duas semanas, em meu trabalho, revendo um caso de lesão crônica de pele, localizada na linha de junção da pele com a mucosa do lábio superior de uma senhora, fui despertado para o entendimento dessa questão. A entidade clínica Grânulos de Fordyce, identificada por John Addison Fordyce (fordaice), médico dermatologista americano  falecido em 1925, que estudou dermatologia em Viena e Paris, caracteriza-se pela invasão (migração) de células da pele para a mucosa adjacente, neste caso a mucosa labial, com forte impacto estético. São células estranhas (da pele) que migram para a mucosa, um meio diferente do seu habitat original. Células da pele em um ambiente de mucosa,

Ao final, fiquei com a impressão de que, do mesmo modo que as células da pele que migram para a mucosa causarem um desarranjo no meio celular – Grânulos de Fordyce -, por não pertencerem àquele ambiente, pessoas de comportamento inadequado, que tentam conviver com outras de boa índole, geram uma disfunção no meio social e destoam completamente desse meio inadequado em que tentam viver.

Células da pele que migram para região de mucosa, provocando reação local – Grânulos de Fordyce.

Pessoas de comportamento inadequado, estranhas ao ambiente, provocando disfunção no meio social – Síndrome de Fordyce, por mim aqui definida, com as desculpas ao Dr. John Addison Fordyce.

Fordyce

Foto da internet – Grânulos de Fordyce

Ah, não se conhece um tratamento definitivo para a entidade clínica Grânulos de Fordyce

Uma menina bonita que encantou familiares e amigos em Areia Branca. Muitas serestas foram feitas em sua calçada, quase em frente ao Cine Coronel Fausto. O Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra teve essa menina como aluna por alguns anos. Também estudou em algumas escolas particulares da cidade.

Mais tarde, já estudante bem qualificada, retornou a Areia Branca e, aqui, algumas crianças tiveram o privilégio de ser seus alunos.

Estávamos em visita a Areia Branca – eu, Miranda, Chico Brito, Ricardo Dimas e Sônia – por ocasião da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, quando fomos convidados pelo Dr. Bruno, amigo e gentil Assessor Especial da prefeitura, para um encontro em seu gabinete de trabalho.

No meio da conversa, quis saber o Dr. Bruno em que ano ele havia sido aluno da nossa valorosa conterrânea e amiga.

Sônia explicou, expôs, rememorou fatos, e nada. Uma dúvida permanecia. O Dr. Bruno não se lembrava, de fato. Não havia uma foto para dirimir as dúvidas e os questionamentos. Mas agora há.

Consultando meus arquivos pessoais, encontrei uma foto. Nela, uma professorinha perfila-se junto a um grupo de crianças sorridentes, meninos e meninas, que hoje, certamente, ocupam postos importantes Brasil afora.

Professora

Suponho ser a professora Sônia e seus alunos.

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