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Olhando da Rampa, Grossos e Porto Franco pareciam quase invisíveis, apesar do dia claro. Em frente, o manguezal mostrava-se incomodado. Seus moradores se agitavam ao perceber os últimos avisos da subida da maré. Era preciso cada qual procurar sua moradia. A maré se agigantava.

Sabíamos que por trás daquele manguezal esparso, do outro lado da Rampa, dois pequeninos lugarejos tentavam manter-se ocultos. Apenas as canoas dispunham de alvará que as permitiam adentrar pelo estreito canal. E fomos lá, bem no dia da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes.

Ao chegarmos a um pequeno banco de areia, a canoa encostou e algumas pessoas desceram do pequeno barco. Agora sozinhos, passemos à nossa visita. Queríamos visitar aquele encontro aqui já relatado, onde o céu, o mar e o rio pareciam fazer uma reunião. O que, afinal, combinavam?

Uma Operação Controlada foi armada em Upanema. Munidos de máquina fotográfica e um prévio acerto com o canoeiro, fomos com cara de sem-querer-querendo no rumo do encontro rio-mar.

Saímos de leve, motor em baixa rotação. Desligados da pressa do dia a dia, fingíamos um deslocamento sem compromisso, no desinteresse que ali se engendrava. Nada falamos, mas nosso objetivo oculto era flagrar aquele encontro tripartite em uma pequena área de exclusão entre mar e rio, sob a arbitragem de um céu muito abaixo de sua altura habitual. Foi o que imaginei.

Ao chegarmos, uma surpresa. Não havia área de exclusão, como acontece na fronteira das litigantes Coreias sob supervisão da ONU.

 

E descobrimos um rio calmo em contato chegado com um mar sereno. De diferente, penas um discreto vai e vem que mais parecia um tremelique junto à linha que demarcava aquele escasso território até então imaginado como tenso. Até um peixe que os supervisionava se afastara de forma sorrateira e agora olhava distante, um olho no rio outro no mar.

O céu, o mar e o rio flagrados em um encontro marcado em frente ao Pontal, e agora delatado.

Como surpresa, a descoberta de uma boa relação entre as partes, e nada de alteração. A natureza em bom comportamento, como sempre acontece.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Ricardo Dimas, neto de Seu Dimas Ramos, não nasceu em AB, mas tem uma memória e uma saudável nostalgia dignas de um filho da terra. Tudo isso fruto de suas visitas durante as férias escolares da sua feliz adolescência. O comovente relato a seguir, alinhavado em texto de alta qualidade, tem valor histórico e sentimental merecedores de leitura por quem já passou dos 50 anos, para lembrar e deixar lágrimas correrem, e por quem tem menos de 40 para continuar com o pé na terra natal. Não tenho dúvida, esse texto vai tocar no coração de todos. Fica aqui meu registro pessoal: lamento profundamente não ter podido acompanhá-lo nessa viagem. (Carlos Alberto).

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O texto abaixo é do meu irmão Marconi, que solicitou sua publicação neste espaço. Atenção para a proposta de um encontro em Areia Branca, no último parágrafo.

Meu nome é Marconi, segundo filho do Dr. Vicente Dutra e D.Nenen. Nasci em 1.951 e sou de Areia Branca, como meus outros quatro irmãos Marta, Marco Aurélio, Marcelo e Márcia. Aos onze anos fui estudar no Colégio Militar em Fortaleza, para onde a família se mudou definitivamente no final de 1.963, em busca de melhores condições de educação.
Nos quatro anos seguintes, as nossas férias eram em Areia Branca viajando na companhia de Duarte e Júlio César, que moravam em Fortaleza.
Muitas coisas aconteceram neste período… as primeiras namoradas, serenatas, passeios, futebol, voley, praias, pescarias, carnaval, conversa fiada e muita diversão.
Daí pra frente a Universidade, os estágios, o trabalho, novas perspectivas de vida, o namoro e os novos amigos, fizeram com que as idas fossem ficando raras.
Em 1.973 me formei Engo.Mecânico na UFC, e desde 1.975 estou casado com e cearense Diva, com quem tive três filhos – Igor e Leo cearenses e casados, e Tiago, baiano e solteiro, um neto e o segundo sendo esperado para maio próximo.
Voltei a Areia Branca em 1.975 para conhecer o porto ilha da Termisa, num passeio maravilhoso e emocionante a bordo da lancha Natal da C.C. Navegação.
Em 1.977 vim transferido para Salvador na Bahia, cidade onde moro e que por opção escolhi para viver.
Retornei a minha cidade em 1.978 já com a família e novamente em 1.984, agora acompanhado dos meus irmãos. Nas duas ocasiões fomos muito bem recebidos por Gracinha e toda a sua família, com sua conhecida hospitalidade de seus pais Sérvulo e Celi .
A cidade tinha crescido, vimos alguns dos nossos velhos amigos e visitamos os lugares conhecidos.
Em dezembro de 2.003, de férias em Fortaleza e sem qualquer programação prévia, resolvi que depois de quase vinte anos deveria rever Areia Branca, e acompanhado por Diva e Tiago, fizemos uma viagem relâmpago mas bastante interessante, onde em apenas um dia visitamos a cidade, passeamos e almoçamos na praia de Upanema, e fomos até a Ponta do Mel que ainda não conhecíamos e ficamos encantados com a beleza do lugar e do hotel que ali se instalou, não tendo a oportunidade de procurar ou rever nenhum dos velhos amigos.
Encontramos uma cidade bem diferente. Mais populosa, ruas pavimentadas, um comércio mais vigoroso, novas praças, um novo mercado municipal, um novo cais, um sistema de travessia do rio para Grossos por “ferry”, mais moderno e eficiente, uma indústria naval ativa e a bela praia de Upanema bem mais estruturada com restaurantes, casas novas e um novo farol.
Mas ainda pude ver a velha Maternidade Sara Kubitscheck, o Ivipanim Clube, a Prefeitura Municipal, a Igreja Matriz e a casa onde moramos na rua Cel. Fausto. A decepção ficou por conta do Cine Miramar, que vimos inaugurar e que estava em ruínas.
Pensando nisso tudo, conversei ontem com Marcelo e propus a ele que visse com os velhos amigos, a possibilidade de organizar um encontro em Areia Branca, aproveitando um dos feriados que teremos este ano numa das terça ou quintas-feiras.
Sei que não é tarefa fácil juntar tantos amigos, mas quem sabe se não teremos sucesso !!!
Um abraço,
Marconi

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 2, 1998

Quisera fosse o contrário: lembrar muito, e com cristalina nitidez. O sujeito sai do seu rincão e se larga pelo mundo afora, conhece gente, vida nova, vai trocando a casca, abandonando as raízes. Quando pára, descobre, com tristeza, que a memória é curta e turva. Alguns registros permanecem intactos, mas outros parecem uma nuvem mal-definida. Não esqueço os comícios e as passeatas de Manoel Avelino, ao som de(…) enquanto a minha vaquinha / tiver o couro e o osso / e puder com o chocalho / pendurado no pescoço / (…) / só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara (…).

Quando a bossa nova encaminhava-se para o sucesso, um trio (como se chamava?) embalava nossas festas em Areia Branca. Mirabô, Maninho e, se não me falha a memória, Zé Amorim; é isso mesmo? Lembro que o Mirabô gostava muito de cantar “chove chuva / chove sem parar (…)“, de Jorge Ben, mas não lembro das canções prediletas do trio. O que eu lembro é que a bossa nova nos alimentava de músicas para curtir ou para dançar agarradinho, mas o que agitava mesmo a tchurma, era o twist e, logo depois, o iê-iê-iê. Alguns se achavam tão bons dançarinos de twist, que resolveram cobrar por apresentações. A efêmera companhia de dança apresentou um único show, em Grossos. Eram duplas, apenas de rapazes – as meninas não tinham suficiente cara-de-pau! Não lembro nem quantas duplas tínhamos, nem os nomes das mesmas.

E as serenatas com radiola portátil? Como éramos ridículos! Éramos, vírgula, porque quando Mirabô & Cia resolvia fazer serenata, a história era outra! Não esqueço “Hoje é noite / de ficar sozinho / de cantar baixinho / pra ninguém notar / (..) / noite triste assim como esta / não quero passar nunca mais / todo mundo olhando pra gente / pensando que a gente / não se ama mais (…)“. Se não era bem essa a letra, é porque a memória é curta e turva.

Para dançar, rostinho colado, no centro do salão, nada comparava-se a “a taste of honey“, estranhos ao luar” (é esse mesmo o nome?), “tender is the night“, a irresistível “the shadow of your smile“, ao som da qual muitas juras e promessas de amor eterno devem ter sido feitas.

Quem esquece “capri c’est fini“, Mamas and the Papas com “sunday will never be the same” (não havia uma versão dessa música?), o grande sucesso “monday, monday” e a inesquecível “califórnia dreamin“? E Nat King Cole com “Mona Lisa“, Paul Anka com “you are my destiny“, (tocava muito no Cine São Raimundo e no Cine Miramar, antes das sessões). Também eram muito executadas, “Malaguenha” e “Granada“.


Antônio do Vale queria registrar uma enchente na Areia Branca dos anos 60, mas captou ao fundo, o Cine São Raimundo. À direita, o prédio original do Cine Miramar.

Mais tarde, já na década de 70, “Marie jolie” embalou corações e mentes de jovens apaixonados. Na sessão dor-de-cotovelo, biriteiros e mal-amados não podiam deixar de lado “negue“, “a volta do boêmio“, “risque“, “sentimental demais” e “brigas” (as duas últimas com o seresteirão Altemar Dutra).

Não pensem que de um parágrafo para o outro minha memória ficou prodigiosa. É que compro tudo que é gravação de música que fez minha cabeça na adolescência e juventude. Depois eu conto como em Paris eu fiz uma vendedora achar uma gravação de “Marie Jolie“. Agora, eu quero é ver o Mirabô aceitar a provocação e, qual uma batalha de repentistas, tomar o mote e fazer as correções que este arremedo de apontamentos históricos merece.

agosto 2017
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