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O Prof. Carlos Alberto foi um dos primeiros a dar seu grito de protesto contra a  destruição do nosso patrimônio arquitetônico. Chamava a atenção para a série de construções antigas que foram tombando, uma depois da outra, como em um dominó do mal comandado pela corrosão, tanto a do tempo quanto a da omissão e do desinteresse.

Assim, desapareceu o Tirol, arrastando consigo muito da beleza da parte de cima da Rua da Frente. A pracinha atrás do Tirol, bastante abalada pela tristeza do pôr do sol que, estupefato, olhava para a beira do cais e não mais visualizava sua plateia quase cativa, imaginou ela, a pracinha, que escaparia à fúria destruidora de seus algozes, mas foi descoberta e também levada ao cadafalso.

O Palacete Municipal, prédio inaugurado em 31 de março de 1918, também foi atingido pelo facão do desrespeito, e seu substituto com cara de policlínica ainda insiste em se fazer importante.

Palacete Municipal 1

O Cine Coronel Fausto, palco de apresentações artísticas e responsável pelo lado bom dos espetáculos da cidade, também ruiu. O espectro que envolve seus restos até nos mete medo, se à noite passamos por ali.

O Cine Miramar, que por várias vezes assumiu funções de grande utilidade para a cidade, foi-se no roldão do entulho e da caliça, e hoje é um quase vazio.

Ainda na Rua do Meio, o sobrado dos Dantas, que encantou crianças e adultos de tantas gerações, também foi jogado ao chão, nessa guerra de vaidades.

No mesmo diapasão e na mesma latitude, duas das mais importantes casas de Areia Branca também perderam o seu lado bonito e glamoroso, uma assistindo à lenta degeneração da outra, posto que de frente estavam, olhando-se cara a cara. Ali, marcavam com sua beleza o que de elegante havia naquele trecho. A casa da Coletoria Estadual e a casa de Luiz Batista formavam os pilares que sustentavam o inesquecível Portal da Rua do Meio, que não mais existe.

Coletoria estadual

Por se manterem fingindo de mortos, escondidos entre os escombros de uma guerra de picaretas, escaparam dois elementos de nossa arquitetura urbana: o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra e o Mercado Público. O grupo escolar mantém-se de pé, mesmo exibindo cicatrizes das intervenções intempestivas em sua estrutura.

Grupo EscolarTalvez seja essa a primeira fachada do Grupo Escolar

O prédio do antigo Mercado Público é hoje uma das estruturas arquitetônicas mais bonitas da cidade, e somente conseguiu resistir porque, em conluio com o grupo escolar, manteve-se calado, misturando-se aos restos das várias batalhas conduzidas pela inconsequência, com assessoria da insensibilidade.

MercadoQuando visito Areia Branca, não deixo de passar em frente à casa onde morou dona Edite Belém. Ali, uma bela construção insiste em mostrar como era a Rua do Meio de nossa meninice.

IMG_1485

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Areia Branca, hoje, é uma bela cidade, a deusa das salinas

IMG_9842          Foto Lucas Fonseca

Em 1981 encontrei Areia Branca debilitada, sem vida, e decidi não mais retornar; eita promessa sem futuro!

Foto AB 1981Rua da Frente com o Botequim em frente à mercearia de seu Isídio, pai de Queca e Mundico

Foto rua da frente c:botequim

Pracinha com coreto no centro, ponto das retretas

Foto Pracinha:prefeituraPracinha sem o coreto

areia Branca antiga 5

Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra novinho em folha

cópia de Arquivo Escaneado 5

Foto G.E. Cons. Brito GuerraGrupo Escolar quando lá estudei

Tirol com cobertura de telha (a data da foto está incorreta – seria 1948?)

cópia de Foto Tirol 1988Tirol com cobertura de concreto, da minha época

Foto Tirol e praçaPorto-ilha em construção

Foto Porto-Ilha:construçãoTudo isso nos cativa e comove.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

…puxa vida logo hoje sábado esqueci de desligar a droga desse despertador e essa música horrorosa não para de tocar vou desligar e me virar pro outro lado talvez consiga dormir mais um pouco quando criança em Areia Branca tive muitas dúvidas e aflições que tiravam meu sono nem quero pensar nas ameaças do bicho papão e aquela estória de que o fim do mundo ia chegar no final do ano fora isso um dos maiores problemas era sobre o que eu seria quando adulto meu irmão Zé Maria era marinheiro e meu irmão João trabalhava no Sesi o outro mais velho Mauro trabalhava em Natal no Banco do Brasil por isso minhas pretensões de futuro eram muito limitadas que coisa bonita ouvir esse galo do vizinho cantar isso me lembra das galinhas e dos galos que meu pai criava em Areia Branca e quando nasciam os pintinhos era uma festa desde pequeno eu vivia em uma casa com um grande quintal e com bodega na parte da frente e minhas referências eram os trabalhadores do cais os barcaceiros os carpinteiros os calafates além do pessoal que trabalhava nas salinas é que os empregos eram raríssimos e as pessoas que assumiam certas funções se achavam ricas mas esse tipo de serviço nunca me passou pela cabeça eu não tinha em quem me espelhar para orientar meu futuro e não fazia ideia do que fazer com o curso que estava fazendo na Escola Técnica de Comércio que funcionava no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra teve um dia eu ia vestir uma calça nova que Maria Laís fez pra mim com reforço nos suspensórios mas mamãe trouxe uma que acabara de engomar e eu saí com ela pensei até em alugar uma bicicleta e passear pela Rua do Meio nessa época fui trabalhar no consultório de doutor Vicente Dutra e depois no consultório de doutor Willon Cabral também trabalhei na movelaria de seu Antonio Silvino e finalmente fui trabalhar nas Lojas Paulista como auxiliar de empacotador engraçado Chico Brito assumiu o meu lugar e eu não o conheci foi quando minha mãe me pôs no curso de datilografia que funcionava no final do Beco da Galinha Morta e que abriria muitas portas nos empregos que assumiria quando cheguei em Natal e fui estudar no Padre Miguelinho que fica ali perto da igreja de São Pedro na subida do Baldo para o Alecrim em frente ao cemitério naquela época acalentava o sonho de ser sargento da aeronáutica quando maiorzinho fiz até prova para entrar no mundo militar mas desisti quando fui fazer a prova na Base Aérea de Natal é que estávamos no ônibus aguardando o transporte para o local da prova quando um militar graduado chamou um soldado e disse quero o sargento Almeida aqui agora mesmo e o soldado saiu apressado e dali a pouco ele retornou resfolegante dizendo que o sargento não estava e o militar graduado berrou descontrolado eu falei que queria o sargento aqui volte e traga o sargento Almeida aqui como eu falei naquele mesmo dia eu desisti da vida militar em seguida trabalhei tomando conta da Confeitaria Mirim no Grande Ponto depois fui trabalhar no Arquivo Geral do Estado e em seguida no IML onde me encantei com as necrópsias dos cadáveres e os exames de corpo de delito nos envolvidos em acidentes e outros eventos de violência foi no IML que conheci alguns médicos e comecei a tomar gosto pelo trabalho na área da medicina a festa dos quarenta e cinco anos de formado em São Miguel do Gostoso foi muito bonita que coisa o despertador tocou novamente devia ter desligado vou levantar e fazer meu café…

45 anos de formatura

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Surpreendi Toinho Tavernard concluindo esta tela que sua filha, Leila, encomendou para me presentear.

ATavernardEinstein2014e

A propósito, ele está planejando produzir séries numeradas de alguns monumentos areia-branquenses que desapareceram, ou foram modificados ou correm o risco de desaparecerem. Para quem não está habituado com esse tipo de produção, muito comum na serigrafia, trata-se de telas com numeração certificada pelo artista. O adquirente sabe a quantidade de cópias existentes, e qual é o número da que adquiriu.

Um dos monumentos em vista é o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, na forma em que se encontrava nos anos 60-70. Talvez ele produza apenas 10 telas 40×50 desse sacrossanto edifício da educação areia-branquense.

G.E. Cons. Brito Guerra

Quando passamos por um lugar qualquer, aí deixamos – além de pegadas – nossas células de descamação, que são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, nossas secreções e excreções também. Nos mais distantes lugares nossos dejetos espalham um DNA único, o nosso. Os pássaros e outros animais alimentam-se desses elementos, que passam a servir de alimento para pessoas que jamais conheceremos, ou são incorporados ao solo, formando compostos, que serão retirados por raízes e farão parte de frutas e legumes que novamente serão ingeridos por seres humanos. E assim vamos fazendo parte deste imenso mundo, inclusive da estrutura das pessoas.

Não estou interessado em saber em quais partes deste mundo espalhei minhas células ou dejetos. Apenas uma pergunta descompromissada neste sábado pós-jet lag antifuso horário, pois fragmentos de mim ficaram com pessoas com quem convivi e equipamentos com os quais lidei: onde estão os garotos e garotas de minha infância que, comigo, partilharam alegrias e desventuras? No contrafluxo do tempo, tento identificar rostos, semblantes, nomes hoje quase sob o domínio do esquecimento, já invadidos pelos pucumãs que insistem em povoar nossos recantos de lembranças.

Partilhar alegrias. Lembrei-me de Bentinho – Dom Casmurro -, ao falar de suas conversas com Escobar, ocasião em que Capitu lhe respondeu: você não tem o direito de contar um segredo que não é só seu, mas também meu. Nesse contexto,  preocupa-me falar de outras pessoas, que comigo dividiram segredos da minha infância. E aflora uma questão: onde estarão aqueles meninos que nadavam no rio Ivipanim e faziam marcação cerrada aos barcos dos beijus, capturando mangas e bananas atiradas para a molecada que afluía à Rampa? E os garotos que, de forma acrobática, saltavam das barcaças nas marés de sizígia? E aquele menino prodígio que, com seu acordeon, enchia a cidade de música e seus pais de esperança? Lembro que ele morava pros lados do Grupo Escolar.

Por onde andará Esgalamido, um menino forte e brigão que provocava a molecada na Rua da Frente, e com quem tive uma das poucas brigas em Areia Branca? E aquele menino magricela que testemunhou o exato momento em que eu quebrei o vidro de um quadro grande, com uma fotografia, que acabara de chegar, e encontrava-se sobre a mesa de uma professora no Grupo Escolar? Fui delatado. Paguei caro. E nem sei seu nome.

Etinha, menina bonita do Circulo Operário, alugava minha visão todas as manhãs durante as aulas, caneta-tinteiro na carteira e a ansiedade pela hora do recreio. Qual seria o seu nome? Em um baile de carnaval no Palacete Municipal, uma menina me fez, por um momento, acreditar que a vida poderia ser bela, sob os eflúvios dos lança-perfumes espargidos no salão 42 graus. Também não sei seu nome, nem lembro de algum detalhe de seu rosto.

Em que cemitério náutico estarão as barcaças da minha infância, os iates de velas brancas que riscavam a lousa ondulante deste rio Ivipanim, que nasce em uma serra, caminha, sofre terríveis agressões nos lugares que abençoa com suas águas, para se entregar ao mar, resfolegante e turvo? Por acaso, o Comandante Miranda tem notícia?

Alguém me responda: onde andarão os cataventos de então, com seu espectro de monstro da cabeça redonda e cauda de quero-quero gigante, amedrontando passarinhos de canela fina e olhinhos desconfiados? E as cadeiras do Cine Coronel Fausto, por onde andarão?

Em respeito a Capitu, todos nos calaremos sobre segredos compartilhados, em que um dos lados tenta relembrar encontros e cochichos no portão, na calçada ou na pracinha. Ah, e no escurinho do cinema.

Células descamadas, secreções, excreções; perpetuação  do corpo pelas veredas da vida. Conversas no portão, papo na pracinha; a alma partilhada. Com a licença de Capitu.

 

 

dezembro 2019
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