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…puxa vida logo hoje sábado esqueci de desligar a droga desse despertador e essa música horrorosa não para de tocar vou desligar e me virar pro outro lado talvez consiga dormir mais um pouco quando criança em Areia Branca tive muitas dúvidas e aflições que tiravam meu sono nem quero pensar nas ameaças do bicho papão e aquela estória de que o fim do mundo ia chegar no final do ano fora isso um dos maiores problemas era sobre o que eu seria quando adulto meu irmão Zé Maria era marinheiro e meu irmão João trabalhava no Sesi o outro mais velho Mauro trabalhava em Natal no Banco do Brasil por isso minhas pretensões de futuro eram muito limitadas que coisa bonita ouvir esse galo do vizinho cantar isso me lembra das galinhas e dos galos que meu pai criava em Areia Branca e quando nasciam os pintinhos era uma festa desde pequeno eu vivia em uma casa com um grande quintal e com bodega na parte da frente e minhas referências eram os trabalhadores do cais os barcaceiros os carpinteiros os calafates além do pessoal que trabalhava nas salinas é que os empregos eram raríssimos e as pessoas que assumiam certas funções se achavam ricas mas esse tipo de serviço nunca me passou pela cabeça eu não tinha em quem me espelhar para orientar meu futuro e não fazia ideia do que fazer com o curso que estava fazendo na Escola Técnica de Comércio que funcionava no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra teve um dia eu ia vestir uma calça nova que Maria Laís fez pra mim com reforço nos suspensórios mas mamãe trouxe uma que acabara de engomar e eu saí com ela pensei até em alugar uma bicicleta e passear pela Rua do Meio nessa época fui trabalhar no consultório de doutor Vicente Dutra e depois no consultório de doutor Willon Cabral também trabalhei na movelaria de seu Antonio Silvino e finalmente fui trabalhar nas Lojas Paulista como auxiliar de empacotador engraçado Chico Brito assumiu o meu lugar e eu não o conheci foi quando minha mãe me pôs no curso de datilografia que funcionava no final do Beco da Galinha Morta e que abriria muitas portas nos empregos que assumiria quando cheguei em Natal e fui estudar no Padre Miguelinho que fica ali perto da igreja de São Pedro na subida do Baldo para o Alecrim em frente ao cemitério naquela época acalentava o sonho de ser sargento da aeronáutica quando maiorzinho fiz até prova para entrar no mundo militar mas desisti quando fui fazer a prova na Base Aérea de Natal é que estávamos no ônibus aguardando o transporte para o local da prova quando um militar graduado chamou um soldado e disse quero o sargento Almeida aqui agora mesmo e o soldado saiu apressado e dali a pouco ele retornou resfolegante dizendo que o sargento não estava e o militar graduado berrou descontrolado eu falei que queria o sargento aqui volte e traga o sargento Almeida aqui como eu falei naquele mesmo dia eu desisti da vida militar em seguida trabalhei tomando conta da Confeitaria Mirim no Grande Ponto depois fui trabalhar no Arquivo Geral do Estado e em seguida no IML onde me encantei com as necrópsias dos cadáveres e os exames de corpo de delito nos envolvidos em acidentes e outros eventos de violência foi no IML que conheci alguns médicos e comecei a tomar gosto pelo trabalho na área da medicina a festa dos quarenta e cinco anos de formado em São Miguel do Gostoso foi muito bonita que coisa o despertador tocou novamente devia ter desligado vou levantar e fazer meu café…

45 anos de formatura

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Surpreendi Toinho Tavernard concluindo esta tela que sua filha, Leila, encomendou para me presentear.

ATavernardEinstein2014e

A propósito, ele está planejando produzir séries numeradas de alguns monumentos areia-branquenses que desapareceram, ou foram modificados ou correm o risco de desaparecerem. Para quem não está habituado com esse tipo de produção, muito comum na serigrafia, trata-se de telas com numeração certificada pelo artista. O adquirente sabe a quantidade de cópias existentes, e qual é o número da que adquiriu.

Um dos monumentos em vista é o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, na forma em que se encontrava nos anos 60-70. Talvez ele produza apenas 10 telas 40×50 desse sacrossanto edifício da educação areia-branquense.

G.E. Cons. Brito Guerra

Quando passamos por um lugar qualquer, aí deixamos – além de pegadas – nossas células de descamação, que são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, nossas secreções e excreções também. Nos mais distantes lugares nossos dejetos espalham um DNA único, o nosso. Os pássaros e outros animais alimentam-se desses elementos, que passam a servir de alimento para pessoas que jamais conheceremos, ou são incorporados ao solo, formando compostos, que serão retirados por raízes e farão parte de frutas e legumes que novamente serão ingeridos por seres humanos. E assim vamos fazendo parte deste imenso mundo, inclusive da estrutura das pessoas.

Não estou interessado em saber em quais partes deste mundo espalhei minhas células ou dejetos. Apenas uma pergunta descompromissada neste sábado pós-jet lag antifuso horário, pois fragmentos de mim ficaram com pessoas com quem convivi e equipamentos com os quais lidei: onde estão os garotos e garotas de minha infância que, comigo, partilharam alegrias e desventuras? No contrafluxo do tempo, tento identificar rostos, semblantes, nomes hoje quase sob o domínio do esquecimento, já invadidos pelos pucumãs que insistem em povoar nossos recantos de lembranças.

Partilhar alegrias. Lembrei-me de Bentinho – Dom Casmurro -, ao falar de suas conversas com Escobar, ocasião em que Capitu lhe respondeu: você não tem o direito de contar um segredo que não é só seu, mas também meu. Nesse contexto,  preocupa-me falar de outras pessoas, que comigo dividiram segredos da minha infância. E aflora uma questão: onde estarão aqueles meninos que nadavam no rio Ivipanim e faziam marcação cerrada aos barcos dos beijus, capturando mangas e bananas atiradas para a molecada que afluía à Rampa? E os garotos que, de forma acrobática, saltavam das barcaças nas marés de sizígia? E aquele menino prodígio que, com seu acordeon, enchia a cidade de música e seus pais de esperança? Lembro que ele morava pros lados do Grupo Escolar.

Por onde andará Esgalamido, um menino forte e brigão que provocava a molecada na Rua da Frente, e com quem tive uma das poucas brigas em Areia Branca? E aquele menino magricela que testemunhou o exato momento em que eu quebrei o vidro de um quadro grande, com uma fotografia, que acabara de chegar, e encontrava-se sobre a mesa de uma professora no Grupo Escolar? Fui delatado. Paguei caro. E nem sei seu nome.

Etinha, menina bonita do Circulo Operário, alugava minha visão todas as manhãs durante as aulas, caneta-tinteiro na carteira e a ansiedade pela hora do recreio. Qual seria o seu nome? Em um baile de carnaval no Palacete Municipal, uma menina me fez, por um momento, acreditar que a vida poderia ser bela, sob os eflúvios dos lança-perfumes espargidos no salão 42 graus. Também não sei seu nome, nem lembro de algum detalhe de seu rosto.

Em que cemitério náutico estarão as barcaças da minha infância, os iates de velas brancas que riscavam a lousa ondulante deste rio Ivipanim, que nasce em uma serra, caminha, sofre terríveis agressões nos lugares que abençoa com suas águas, para se entregar ao mar, resfolegante e turvo? Por acaso, o Comandante Miranda tem notícia?

Alguém me responda: onde andarão os cataventos de então, com seu espectro de monstro da cabeça redonda e cauda de quero-quero gigante, amedrontando passarinhos de canela fina e olhinhos desconfiados? E as cadeiras do Cine Coronel Fausto, por onde andarão?

Em respeito a Capitu, todos nos calaremos sobre segredos compartilhados, em que um dos lados tenta relembrar encontros e cochichos no portão, na calçada ou na pracinha. Ah, e no escurinho do cinema.

Células descamadas, secreções, excreções; perpetuação  do corpo pelas veredas da vida. Conversas no portão, papo na pracinha; a alma partilhada. Com a licença de Capitu.

 

 

Menino, o que você fez na vida, quais suas perspectivas, seus sonhos, seus interesses, suas marcas, seus arranhões, suas cicatrizes? Afinal, quais as suas credenciais? Desse modo, fui inquirido pelo Destino, em janeiro de 1960. É que eu estava de mudança para Natal, e uma avaliação de possibilidades fazia-se necessária. Uma espécie de planejamento estratégico sem metas nem ponto futuro. Um Curriculum Vitae infantil.

Sr. Destino, o que fiz, nesses catorze anos de vida, foi pouco, face aos perigos a que a vida me expôs. É que não tenho grandes posses, e meu círculo de amizades é pequeno. Mas conheço bem os perigos dos caminhos, os riscos das encruzilhadas, a doçura do afeto e o gosto travoso do fel da indiferença. Só tenho catorze anos, mas trago comigo a dureza do puro aço, forjado nas labaredas das dificuldades.

Durante o ano de 1952, Sr. Destino, estudei no Círculo Operário, uma escola pobre, ali na Rua do Meio, que alguns insistem em chamar de Coronel Liberalino. Um pequeno aparte: não conheço uma só pessoa que chame de Coronel Fausto a parte de cima dessa rua. É Rua do Meio. No Círculo Operário, um semestre na Carta de ABC e outro na Cartilha. Lá, conheci as sabatinas, em que o peso da palmatória se sobrepunha ao rigor do bom senso. Conheci também o castigo de joelhos em cima do milho. No contraponto, aprendi a cantar o Hino Nacional e a ser solidário, a repartir o espaço com os colegas e a lavar as mãos para merendar, além de conhecer os princípios da disciplina.

Estudei no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra nos anos de 1953, 1954, 1955, 1956 e 1957, quando fiz o Exame de Admissão, onde boa parte da molecada perdia o rumo, e fui estudar na Escola Técnica de Comércio por dois anos. Lá, conheci um pouco da estupidez humana. Incontável.

Senhor Destino, veja como é curto o meu relatório. Três itens. Aqui, não fiz citações sobre atividades fora da escola, as extracurriculares. Não falei das coisas da vida, da felicidade do encontro e das dores dos dias de lágrima. Eu, criança, tomava conta de uma bodega junto com meu pai. E havia plantão todos os domingos. E feriados também.

Não incluí nesse relato os medos que as noites escuras traziam, amplificando os ruídos vindos do rio que corria em frente, travestindo-os em estrondos de trovão. Os barulhos vestiam roupa de fantasma e ficavam a noite inteira cortando meus sonhos bons, incluindo no roteiro assombrações e devaneios aterrorizantes. Também não consta a dificuldade de entender por que, sendo comerciante da Rua da Frente, meus pais só tinham amigos pobres.

Não incluí a afeição que sentia/sinto pela família Cirilo (José Cirilo, dona Mariinha, Maria Laís, Ceci, Anália, José e Chico, além de Raimundo), os Buendia de minha Macondo. Pessoas verdadeiras, íntegras, trabalhadoras, honestas, e igualmente esquecidas. Hoje, imagino Anália como símbolo de mulher trabalhadora, enfrentando as durezas da vida com seus braços fortes e semblante de mãe.

Do mesmo modo, não entraram minhas visitas ao mercado público, quase todas as manhãs, quando ficava assistindo aos repentistas se digladiarem em lutas argonáuticas. Em outros momentos, assistia aos  encantadores de serpentes e aos vendedores de remédios milagrosos que, com um microfone no pescoço e espuma  no canto da boca, comercializavam  falsas ilusões. Não constam os passeios pelas praias de águas limpas, admirando os siris em sua exibição matinal, expondo suas patinhas cortadeiras que muito me assustavam. Também não constam as estórias do bicho papão que comia o fígado das crianças nas noites sem lua.

Também não listei meus empregos de criança. Sim, empregos de criança. Trabalhei com um dentista, com um médico, trabalhei como auxiliar de envernizador em uma pequena fábrica de móveis e como auxiliar de empacotador nas Lojas Paulista, mas nada disso consta desse relatório.

No meu curriculum vitae não consta o trabalho de agricultor urbano quando, nas manhãs de domingo, ia com meu pai para a ilha trabalhar em sua roça de milho e feijão. Lembro dos pezinhos brotando da terra, rachando o chão fértil, acompanhava seu crescimento, o surgimento dos pendões, o cheiro do verde, as vagens de feijão botando o pescocinho para fora, e a melancia ensaiando sua festa de 15 dias, junto com uns melõezinhos invejosos na ponta da leira, com seu olhar ictérico.

Finalmente, não consta o medo que tinha de passar pela Rua da Saudade, por causa do cemitério. Lembro, mas não está nesse relatório que lhe disponibilizei, de que certa vez, no carnaval, quando passávamos em frente ao cemitério, com o Bloco da Chica Pelada, capitaneado por meu irmão Mauro, ter sentido nas canelas finas um formigamento, tipo repuxão, quando gritaram que as almas estavam saindo para entrar no nosso bloco.

Este é o meu curriculum vitae, Sr. Destino. E vou para Natal pensando em vencer na vida, e meu pai está doente.

Que Deus o ajude, balbuciou o elemento desconhecido.

E dirigiu-me um terno olhar de fautor, antes de sumir. Exatamente seis anos depois, estaria me matriculando no curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Por tudo isso, o meu júbilo pela vida.

Este texto é uma contribuição do meu irmão Marconi, que vasculhou a Internet e descobriu esta nota que transcrevo abaixo, publicada no Jornal “O Mossoroense”.

“Exemplo de vida                             

Aos 91 anos de idade, a educadora aposentada Francisca Amélia do Carmo Nepomuceno, mais conhecida como “Chiquita do Carmo” (foto), é um exemplo de cidadania. No último dia 5 ela compareceu à sua seção eleitoral para votar nos candidatos de sua preferência para prefeito e vereador, em Areia Branca. Natural de Macau, ela morou e trabalhou em diversas localidades antes de fixar residência neste município em 1943. Durante 32 anos prestou serviços à educação no Estado, dos quais 23 anos foram como professora e diretora do então Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. Foi ainda, professora de datilografia e dirigente do Sesi local. Católica fervorosa, participou ativamente dos movimentos religiosos. Da união de 40 anos com o marítimo Raimundo Nonato Nepomuceno nasceram as filhas Maria das Graças e Lúcia Miriam. Hoje, a família cresceu com a chegada dos netos e bisnetos. Dia 29 de dezembro essa mulher cativante e amorosa comemora seus 91 anos de história de lutas e glórias. Um exemplo de vida para todos os areia-branquenses.”

Realmente Dona Chiquita do Carmo é merecedora desta homenagem, pelos bons serviços prestados à Educação em Areia Branca e pelo exemplo de vida e de cidadania dado. Não foi minha professora, pois estudei com Dona Julita, mas desde criança tenho conhecimento de sua autoridade e do seu saber.

agosto 2017
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