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A cidade em festa, pros lados de Honorina. Nas ruas mais centrais, um vazio que amedronta. A violência está acabando com o costume antigo da cidade. Não se colocam mais as cadeiras nas calçadas. E as ruas ficam desertas, à noite. A Rua do Meio parece um cemitério. Na pracinha não há uma pessoa sequer. Os bares que circundam a pracinha estão sem clientes. É que há dois dias, ali ao lado da igreja, assassinaram uma pessoa.

Caminhando pelas ruas, defrontamo-nos com carros de som que estremecem as casas, ligados sobre algumas calçadas, com um aglomerado de jovens em torno. No raio de um quilômetro os ouvidos sofrem com tamanha estupidez. É a total ausência do poder público.

Noite de segunda-feira, 14 de agosto de 2017. No patamar da igreja, com o temor no coração, embora cercado de pessoas amigas, contemplo o rio em frente; busco algo que me falta. Procuro no céu e descubro uma lua triste, quase sem brilho, tentando esconder-se por trás de um grupo de nuvens fugidias que brincam no céu quase sem luz. E a visão de Barra e Pernambuquinho fica mais uma vez nas sombras do ofuscamento. Mas logo a lua sai de seu bunker celeste para se expor às críticas deste escriba.

No dia seguinte, de posse do mapa lunar, descobri o motivo daquela brincadeira de esconde-esconde no céu. Na noite anterior, a lua tinha apenas 60% de sua superfície iluminada voltada para Upanema. Estava em sua fase minguante, e trazia em si esse desgosto. Seu desejo era estar plenamente iluminada na noite de 14 de agosto, para escanear nossas dunas, iluminar nossas falésias, desnudar nossas várzeas, ocasião em que tingiria de um gris particular a noite maior dos areiabranquenses.

Vou confessar uma indiscrição: no dia 7 de agosto, escondendo-se entre prédios altos, flagrei a lua meio sem jeito, em Natal, sabendo-se vista em Areia Branca. É que ela se descuidou e cometeu esse engano de datas. Saiu de casa uma semana antes.

Quem sabe no próximo ano… se a violência permitir.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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Quem foi à festa de Nossa Senhora dos Navegantes nesses últimos anos deve ter concluído, como eu, que as coisas mudaram radicalmente em nossa cidade.

Quando crianças, aprendemos que os caminhos que levavam a Honorina eram proibidos para meninos e meninas. Naturalmente, a turminha dos pequenos sabia que lhe era negado o acesso àquela área da cidade, onde o vento solto fingia brincar com a terra ressequida, um conluio orquestrado para a formação da poeira. Honorina sempre foi uma palavra maldita para nossa geração. Somente muito depois uma crônica do Comandante Miranda veio para esclarecer de forma definitiva essa questão. A história é outra, e melhor.

Na véspera da procissão marítima deste ano de 2016, uma noite de segunda-feira, dirigimo-nos para o centro da cidade, no rumo da pracinha. O interesse era rever a movimentação que envolve o maior evento religioso de Areia Branca.

Pracinha vazia. Cinco pessoas, se muito. Olhando do lado direito da igreja, de pé na calçada da prefeitura, descobrimos um conjunto de cadeiras e mesas onde alguns jovens curtiam os livores daquela noite de brisa forte. Apenas isto. O resto era solidão.

Na Rua do Meio, quase ninguém nas calçadas. Rua da Frente vazia. Na Rua 30 de Setembro um carro com três rapazes, estacionado sobre a calçada, emitia sons de decibéis quase imensuráveis, com músicas de gosto bastante duvidoso.

Este era o movimento na área central. A cidade inteira havia se dirigido para a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, epicentro da grande festa, onde pessoas se deslocavam com dificuldade entre caminhões à direita do estacionamento e parques de diversões à esquerda. E a igreja fervilhando de fiéis que, desde nossa meninice, conjugam o verbo encontrar e crer. A felicidade transparecia dos olhares de adultos e crianças.

Tudo isso nos caminhos de Honorina, quase vizinho ao estádio de futebol, que recebeu o nome de Dr. Gentil Fernandes. Justa homenagem.

Nos caminhos de Honorina, a festa máxima do catolicismo areiabranquense.

Quem diria!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Texto enviado por Antônio Fernando Miranda.

Nos anos 20 do século passado, honorina, uma jovem bonita, casava-se com José de tal, que era conhecido popularmente como Dedeca. Ele se estabeleceu como pequeno comerciante, na então chamada ilha do garrafão, onde hoje está em lado oposto a firma Travassos. Seu pequeno comércio era um ponto de parada obrigatória para quem transitasse entre Areia Branca, Upanema, Pedrinhas e Baixa Grande. A parada, obrigatória para uns, era para tomar água ou um café reforçado, com bolacha, tapioca e outras iguarias, para depois seguir viagem. Isso era especialmente verdadeiro para aqueles que faziam o transporte de água de Upanema para Areia Branca. Como saíam muito cedo, tomavam seu café em honorina. Também era uma boa pedida para aqueles que passavam por lá em seus cavalos. Esses paravam para tomar suas “bicadas” ou “chamadas”, uma cachacinha no linguajar de hoje. Naquela época não existia a famosa “loura suada” e a cachaça era o aperitivo obrigatório. 

Assim era a lida do casal Dedeca x Honorina. Certo dia, um dos cavalheiros lançou seus galanteio para a jovem Honorina, e esta não resistiu, e “deu com os burros n’água,” como se dizia naquela época. Talvez tenha sido influencia da tez de ambos, que era de um branco avermelhado acrescida de sardas, enquanto Dedeca era de tez morena. O marido traído, não querendo lavar a honra com sangue, optou, de modo racional, deixar a esposa infiel entregue à própria sorte, mudando-se para mais próximo da cidade, entre os “cercados” de Zé Lourenço e Antonio Calazans, sendo mais próximo deste. 

Algumas vezes, ainda pequeno, quando ia para a casa do meu padrinho Manoel David, responsável pelo “cercado” de Antonio Calazans, ia fazer pequenas compras para minha madrinha, na bodega de Dedeca. Do lado direito da bodega de Dedeca, porém um pouco mais distante, ficava o cercado de Zé Lourenço. 

1-Areia Branca / 2-Pouso dos tecos-tecos / 3-Cercado de Zé Lourenço / 4-Bodega de Dedeca / 5-Cercado de Antonio Calazans /
6- Casa de Dedeca e Honorina / 7- Casa de Honorina e amante /
8- Praia de Upanema 

Nesses “cercados” foram instalados os dois mais conceituados cabarés de Areia Branca, naquela época, o de Marina e o de Beata. O primeiro cabaré de Marina foi instalado no final da rua Joaquim Nogueira. Nas proximidades ficava o de Beata, Joana André e outras. Depois Marina foi para o “cercado” de Zé Lourenço, e o cabaré de Beata foi para o lugar do primeiro de Marina. Posteriormente Beata se mudou para quase em frente ao cabaré de Marina. Depois Marina foi para o “cercado” de Antonio Calazans e Beata ocupou o seu lugar em Zé Lourenço. De Marina em Zé Lourenço, me lembro de dois fatos. O primeiro foi quando uma prostituta ainda jovem ateou fogo no corpo, com ciúme de Chico de Manoel Bernardo (Chico Saia). Teve apenas alguns dias de vida. O outro foi quando Nilo Gama (primo de Mirabô) passou a ser o amante de Marina, e como todo amante que se preze, recebia da mesma tudo “do bom e do melhor”, expressão muito usada na época. Houve também donos de cabaré, como Antonio Carpina, Manoel Pemota, Arlindo (que cortava dos dois lados), e outros. 

O amante de honorina era um pequeno industrial salineiro, como também pequeno pecuarista, pessoa bem conceituada na cidade, e demonstrando sua responsabilidade com a amante, mandou construir uma casa, no lado oposto ao do lar desfeito, e montou um pequeno comércio que serviu de sustento para ela, durante o resto de sua vida.

Lembro-me dela quando, por mais de uma vez, ali paramos para beber água, em companhia de meu avô e de alguns primos. Uma reconfortante parada na nossa caminhada até a praia de Upanema. Lembro também quando ela vinha à cidade para fazer compras para sua bodega. E assim foi que Honorina criou o seu filho João, que certamente por não gostar de trabalhar, aumentava a responsabilidade dela para com o trabalho. João de Honorina, como era conhecido na época, Zé Barreto, um dos maiores violonista de Areia Branca, Zé Felipe (meu irmão) e Chica Nêga (homem, apesar do apelido) eram verdadeiros devoradores da água que o passarinho não bebe. As suas serenatas eram admiradas pelas moçoilas da época, das quais arrancavam suspiros com suas melodias. Este quarteto durou até o inicio de 1949, quando meu irmão foi servir o exercito em Natal, onde faleceu, vitima de um atropelamento.

Honorina, após terminar o romance com o seu conquistador, teve outros “casos” com outros cavaleiros, mas acredito que sua verdadeira paixão tenha sido mesmo o seu “branco sarará” como se dizia na época. Acredito que o final da paixão arrasadora tenha contribuído para que ela também passasse a fazer uso da água que passarinho não bebe, certamente, afogando suas mágoas, curtindo sua dor de cotovelo. Não recordo até quando a mesma existiu; acredito que tenha sido até o final dos anos 1950, pois no inicio dos anos 1960, no local do seu comércio, estava estabelecido o senhor que era conhecido como “o mouco de honorina”, numa referência ao local em que a mesma ficou conhecida. Sua deficiência auditiva o fazia alvo de gozações; diziam que as pessoas ao chegarem no seu estabelecimento, pediam açúcar e ele trazia café, pedia arroz, ele trazia feijão, e assim por diante. Por mais que procurasse junto aos mais antigos, data aproximada da partida de honorina, não foi possível obter. E assim, este é um pequeno relato, daquela que ficou conhecida como “a flor da estrada”.

O ônibus amarelo de fabricação Ciferal, com o motor ao lado direito do motorista, pertencente à Viação Nordeste, percorria a estrada de piçarra que o levaria ao seu destino final. Já havia decorrido 12 h desde a sua partida da capital do Estado. Ele se encontrava completamente lotado, com as 34 poltronas ocupadas e vários passageiros em pé. Não havia banheiro em seu interior e a temperatura no mesmo ultrapassava os 3o° C.
A paisagem vista pelo lado do motorista era como um lago com bastante espuma e logo atrás descortinava-se ao longe como pirâmides, vários morros de sal. O ônibus percorria mais um pouco o seu trajeto e víamos a entrada da salina, que nada mais era que uma estrada argilosa, formada por barro vermelho. Via-se uma placa branca onde se lia em azul o nome Sosal. Mais alguns kilômetros, que alguns teimavam em chamar de léguas, avistávamos casas esparsas muito pobres, construídas de taipa com cobertura de palha. Encontravamo-nos num lugarejo denominado Pedrinhas, com muitas cabras, bodes, ovelhas, jumentos e criação de galinhas. Alguns passageiros desciam lá, outros embarcavam e o ônibus percorria uma estrada em forma de passarela, onde ambos os lados eram cobertos por água. Do lado contrário ao motorista, no horizonte, víamos morros belíssimos, de cor branca. Há muito já estavamos em Areia Branca.
Passávamos bem em frente a uma estrada do lado contrário ao motorista e mais pessoas desciam em direção à mesma. Tratava-se da entrada rumo à praia de Upanema. Outros passageiros embarcavam e deslumbrávamos uma nova paisagem. Terminada a porção de água em ambos os lados e agora se enxergava o chão de areia de cores amarelada, marron e cinza. Víamos pés de algarobas, gado, criação de pequenos animais, deslumbrantes carros de bois e carroças puxadas por bestas.

FNM_1968

Passava por nós um possante caminhão na cor azul marinho e líamos a sigla FNM. Também passavam por nós um jeep Wills e um outro jeep Toyota Bandeirante. Viam-se também casas nas imediações do hoje Estádio Municipal Dr. Gentil Fernandes, com a característica ímpar de cada casa ter em sua parede uma lâmpada de cor vermelha. Estávamos na zona do baixo meretrício.
Alguém apontava para uma casa (do lado do motorista) e dizia:

-Naquela casa, aos sábados, funciona um terreiro de macumba.

O ônibus dobrava à direita numa rua de chão de areia, e víamos de um lado, uma Sra. com uma criança no colo catando piolho na mesma, e do outro, uma mãe amamentando sua cria. Adiante vi uma pick up F-1, belíssima, que me informaram pertencer a Joaquim Rebouças, proprietário de uma padaria numa esquina de cor azul marinho. Algumas pessoas observavam o ônibus e acenei para as mesmas, sendo prontamente correspondido com outro aceno de volta. O ônibus seguia em frente e dobrava na Rua Siva Jardim, parando bem no meio dela, entre um terreno baldio (antiga boate “Corujão”/”Rambol”) e a bodega de Chico Cirilo.
Passavam por nós um carro de boi e uma carroça carregada por um tanque metálico, acoplado por uma grossa mangueira de borracha. Nada mais que uma carroça pipa. A CAERN ainda não tinha chegado e não dispúnhamos de água encanada. Banho só de cuia, retirando água de uma sisterna ou cacimba.
Bem em frente a parada de ônibus existia um galpão, localizado entre a residência/salão de Geraldinha cabeleireira e a casa de Titinha Luna. Lá funcionava como se fosse uma rodoviária. Compravam-se os bilhetes e o motorista entregava alguns malotes. Parece que vinham malotes do Correio. Começei a observar que desde a estrada os postes eram de madeira. Desçi ali, quase em frente a casa de Chico Cirilo, e me encaminhei para a casa de tio Luiz Mariano, tendo um início inesquecível das minhas férias escolares na cidade.

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