You are currently browsing the tag archive for the ‘igreja’ tag.

Comentando um texto neste blog, Chico Brito falou de uma igrejinha que tinha tudo a ver com sua história de vida. É a igreja de São Francisco das Porteiras, que fica em Pedrinhas, justo a igrejinha das minhas andanças religiosas.

Iregreja de Pedrinhas

Chico Brito, com a afoiteza de um menino esperto que trilhou os caminhos que o levariam à ordenação sacerdotal, sendo salvo por uma tia transtornada de uma moçoila que ansiava conquistar seu coração, assim se expressou: Tenho uma igrejinha em minha vida. É a igreja de São Francisco das Porteiras, em Pedrinhas. Quando minha mãe ficou grávida, depois de perder sete filhos, alguns com poucos dias de vida, fez uma promessa a São Francisco das Chagas, padroeiro das Porteiras, que, caso eu vingasse, colocaria meu nome em homenagem ao santo e só cortaria meus cabelos com cinco anos, e os deixariam na sala de promessas. Eu sempre falo que sou fruto de uma promessa.

Quando menino, por diversas vezes saí com minha mãe com destino ao povoado de Pedrinhas, para participar de um evento religioso que ali acontecia em dias marcados de cada mês. Saíamos ainda no escuro, carregando uma vela acesa nas mãos, protegida por um anteparo de papel. As pessoas iam se encontrando pelos caminhos, tendo como destino a igreja de Pedrinhas. E ali aconteceria o milagre da gravidez da mãe de Chico Brito.

Na década de 1950, outro evento religioso se destacava em Areia Branca: era a Missa de Bagaé, que acontecia com o dia ainda escuro. As pessoas saíam de casa no final da madrugada, conversando e entoando hinos religiosos.

Eu também tenho uma igrejinha em minha história de vida, Chico Brito. Quando  criança, ficava sentado no patamar da nossa igreja e, por trás do manguezal, via uma pequenina torre do outro lado do rio, e sempre tive curiosidade de conhecer aquele local. E seria justamente com você que eu contemplaria a bela igrejinha deBarra, em 2013, de onde saímos para aquele almoço memorável. Lembra? Fomos para Grossos e de lá para Barra e Pernambuquinho, lugares onde eu nunca havia colocado os pés. Foi a realização de um sonho, pois aquela igrejinha fazia parte dos mistérios da minha infância, como a de Pedrinhas o é para você.

igrejinha-de-barra

Igrejinha de Pedrinhas. O milagre de Chico Brito.

Igrejinha de Barra. Um sonho de criança realizado no depois dos 65.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

No dia 14 de agosto retornei a um dos lugares mais emblemáticos de minhas recentes descobertas. Manhã ensolarada; na Rampa, um canoeiro, um acerto, um destino. A maré em preamar despertou em mim uma lembrança. E saímos no rumo do Pontal, onde descobrimos que o jogo das águas assumia um placar de empate. O mar, calmo, de um lado; o rio desconfiado do outro. Naquele momento fui tomado pela lembrança de Zilef.

DSC04364

Relembrando, Zilef era um sirizinho ingênuo, que gostava de brincar na beira da praia, onde as ondas eram pequeninas, quase da sua altura. Nascido na Praia do Meio, vendo ao longe o farol de Upanema, de um lado, e a entrada da barra, do outro, ele passava os dias surfando pequenas ondas no nível da beira-mar.

Em um certo dia Zilef percebera um movimento que corria sob segredo de siri. Tratava-se de uma viagem que Zoref, seu primo mais velho, estava organizando. Iriam conhecer a cidade de Areia Branca, e partiriam ao raiar do dia seguinte. E Zilef, embora sem querer abandonar o local em que nascera, topou a aventura.

E todos se posicionaram bem ali, em frente ao Pontal, justo no ponto zero, bem na hora em que o mar ajustava seu exército invisível para a invasão do rio. O rio Ivipanim parecia tremer. Zilef estava tenso, mas feliz. Entregou-se ao prazer de ser levado pela correnteza, ao tempo em que manobrava suas patinhas traseiras para não perder o rumo.

Quando o dia amanheceu, vislumbraram a Rua da Frente e, ao longe, a torre da igreja. O sino tocou. Puro encantamento. Era quase meio dia quando finalmente chegaram. A maré estava cheia, e todos exaustos.

No cais, um menino segurava uma pequena vara com um cordão amarrado na ponta e um pedaço de carne na outra. Zilef pensou: como são bondosas as pessoas daqui. Alguém me espera com um naco de carne. Posto em um recipiente junto com outros siris, Zilef sentiu-se prestigiado, e se regozijou ao ser colocado em um caldeirão. Sentiu-se feliz, até que a água foi ficando morninha, quentinha, do jeito que gostava.

Os amigos de Zilef procuraram por ele durante um bom tempo, até que chegou o momento do retorno, quando o mar retornava ao seu descanso, arrastando as águas do rio, que as sabemos salobras.

Acertado comigo mesmo, saímos do ponto zero, para fazer o mesmo percurso daquele sirizinho que um dia encheu de alegria a parte mais rasa da Praia do Meio. O mar, com cara de bonzinho, já pressionava, empurrando o rio. Na canoa, em frente ao Pontal, o motor foi acionado por um tempo e em seguida desligado. E nos entregamos à vontade do rio, à Zilef, que nos levou no rumo da Rampa. Apenas o remo estava autorizado a corrigir nossa rota.

IMG_1517

IMG_1521

Um dia Zilef passou por aqui, pensei quando ficamos de frente à igreja.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

De cara com o Ano Novo. De frente pro Marco Zero. Dois eventos, um fixo, que será brevemente conhecido, o Marco Zero. Outro, no domínio do etéreo, do por vir; o Ano Novo, com sua carga de incertezas.

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes de 2016. Depois de 45 anos, o retorno à cidade em que nascera. Fixou o olhar na igreja e por um segundo vislumbrou a pracinha de sua meninice, que o tempo não conseguira alterar. Tantos anos ausente de Areia Branca e, olhando para a pracinha, uma constatação. Estava diferente. Não no formato, que ainda é quase o mesmo, mas na aura que dela emana. É que, em sua mente, congelara a imagem de uma praça luminosa, viva, com um coreto no centro, onde sabia haver assistido a algumas manifestações culturais, mesmo não lembrando o quê.

Pracinha

E uma pergunta irrompeu em silêncio, formatada pelas notícias que lera sobre Areia Branca: Onde fica o Marco Zero? E por que marco zero? Logo saberia. Fica do outro lado da igreja, em frente à torre de onde saíam as badaladas do sino que, nas domingueiras manhãs de sua infância, atraíam sua mãe para as missas conduzidas por padre Ismar. Ele, pequenino, sempre estava junto.

No patamar da igreja, contemplando o mesmo manguezal de suas peraltices no rio Ivipanim, perguntou-se: Por que o marco zero logo aqui na beira do cais, ao lado da Rampa? É porque Areia Branca nasceu aqui –, respondeu o silêncio, para em seguida arrematar: A primeira igrejinha da Vila de Areia Branca foi erguida pelo povo exatamente aqui, no século XIX.

igreja_sec19_400px

De imediato, lembrou-se da imagem de um grupo de motociclistas de Brasília, a maioria composta por advogados que, justo aqui, agradeciam e comemoravam a conquista dos caminhos ensolarados que os levaram de Fortaleza a Mossoró e da capital do oeste saíram no rumo da esquina do mundo, sem que acontecesse um único acidente. De frente para o marco, sua curiosidade era saber o que ali estava escrito.

dr-delio

67334941

Na placa de concreto, informações básicas sobre a cidade. Em sua mente, muita coisa por ser vista. Afinal, estava de volta à terra de sua meninice, e sua mente fervilhava.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Esse trecho da Rua da Frente é uma área pouco visitada pelas pessoas de outras ruas. Trata-se, na verdade, de uma região diferente, mais calma, com uma igreja no início e o Tirol e a Praça do Pôr do Sol fechando o quadrilátero na outra ponta.

A parte de cima da Rua da Frente sempre perdeu para a parte de baixo quando o quesito é movimento, agitação. Em compensação, sempre levou muita vantagem no item charme e elegância. Essa dualidade me lembra aquele poema fescenino de autoria de Dr. Milton Ribeiro, A Bufa, que também se encerra na tentativa de esclarecer uma dualidade: Ganhando em cheiro o que em som perdeu, quem no cinema ou na igreja uma bufinha já não deu?

Saindo da igreja, confesso desconhecer quem é o morador desta primeira casa. Na segunda casa mora dona Cota, mãe de Manoel Avelino, que já foi prefeito. Na sequência, a bodega de Antônio Calazans, seguida de uma casa bonita, embora pequena. Aqui fica uma agência do Loyd Brasileiro. Nessa esquina funciona uma pensão, na casa onde morava o tenente Durval, que foi delegado da polícia. Era o terror dos foras da lei. No final da Rua da Frente, como que compondo o que em Brasília seria uma ponta de picolé, duas empresas de peso: a Mossoró Comercial e F. Souto.

Essas casas que ficam por trás da Praça do Pôr do Sol são o que há de charmoso e de ar pastoril em Areia Branca. Ficam aqui, protegidas por essas árvores, como que paradas no tempo, com aura de passado. É um dos lugares mais bonitos da nossa cidade.

Praça do Pôr do Sol hoje

Aqui na frente, duas estruturas que realmente tornam este lugar elegante, com ar bucólico e cheiro de saudade: o Tirol e a Praça do Pôr do Sol, aquela defronte a esta, as duas se misturando em um único encantamento. Parece até que uma não existiria sem a outra. Este local exerce um verdadeiro fascínio em mim. Às vezes penso que venho pouco aqui para não gastar minha dose de fascínio.

Fico por aqui. Vou sentar neste banco e assistir ao desembarque dos passageiros que estão chegando em uma lancha que acaba de atracar no Tirol. Esse som que vem dessa casinha branca tem tudo a ver com este momento. É a trilha sonora do filme Assim Caminha a Humanidade, recém lançado. O cais à frente, com o Tirol, é o cais da espera, que acolhe e dá abrigo. Vou ficar mais tempo aqui.

Foi uma das minhas últimas satisfações ao visitar aquele local.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

O ano, 1959. O local, a igreja em frente à Rampa. No contraponto, o manguezal que nos encanta. O que fazer, então? Enquanto penso, vou caminhando por essas calçadas no sentido da prainha de Zé Filgueira.

Na esquina, ao lado da igreja, a loja de Pedrinho Rodrigues chama a atenção pela variedade de produtos em suas prateleiras. Antonio José nos lembra que Maria Odete trabalha aqui.

Em seguida, a sortida bodega de seu Quidoca; na sequência, as bodegas de José Batista e a de Antonio Noronha. Chico Lino, homem sério e de pavio curto, logo aparece no balcão de sua mercearia, também uma das melhores daquele trecho. Ao lado, a casa onde morava com seus filhos Horácio, Araci, Concebida e Pedro. Vou parar um pouco. Está entrando um iate branquinho com listas escuras nas laterais.

A loja de tecidos de seu Quincó fica bem aqui, ao lado de sua casa. Vizinho à loja de seu Quincó fica a padaria de seu Lalá, seguida das Lojas Paulista, onde o irmão de Bobô é gerente. Esta mercearia pouco sortida é a de seu José Silvino e dona Ester, pais de Ivo, Mauro, João Alves, Eraldo, Evaldo, Zé Maria, Francisco, Isabel e Ana Maria. Aqui ao lado, a bodega de José Leonel e dona Hilda. Aqui fica a bodega de seu Josa, sempre com uma piada engraçada na ponta da língua. Ele é o pai de Bezinho e Vavá. A mercearia de Valdemiro fica aqui. A esta hora dona Noêmia, com certeza, deve estar assando algum bolo com cobertura açucarada grossa, geralmente vermelha. Aqui fica a mercearia de seu Isídio, controlada com muita sabedoria por Queca. Esta é a mercearia de dona Branca, mãe de Tututa, Lázaro e Petinho. Eles fabricam vinagre de forma artesanal. Na esquina, seu Eduardo tem como vizinho uma barbearia logo no início da rua que corta à direita.

Conheço pouco o trecho que se segue, mas vou seguir a orientação de Miranda, que é um sujeito que não conheço, mas entende muito de Areia Branca. Da rua Joaquim Nogueira à rua dos Calafates, vejamos, tem seu Eduardo, a mercearia de Vicente Simão, a casa de Quinca Pereira, a de Toinho de Chico Inácio, que é o pai de Alzenir Rolim, a cooperativa dirigida por Quiquinho Lúcio, a casa de Quinca Semeão e esta bela mercearia ao meu lado direito, que me faz lembrar de um episódio contado por Evaldo.

É a bodega de Sebastião Amorim. Evaldo e sua turminha tinham como costume vender garrafas aqui na mercearia de Sebastião Amorim. Um empregado dessa mercearia, sabendo muito bem com quem tratava, tinha o hábito de cheirar a boca de todas as garrafas, para afastar aquelas que tinham sido utilizadas para guardar querosene. Certo dia, os meninos esperaram até que alguém estivesse preparado e soltasse um pum na garrafa, sendo tapada com a mão logo em seguida. Ao chegarem com cara de anjo, o rapaz foi logo cheirando a boca das garrafas. Alguém falou: Não tem querosene em nenhuma. Ele respondeu: De fato, não tem querosene, mas nesta tem bosta, e eu não quero nenhuma delas. E a turma voltou sem o dinheiro das cocadas. Porém comemorando a vingança.

Agora vem a casa de Zé Braz, a casa de João de Pixico, Chico Carvalho, Chaguinha Carvalho, Chico Ludugero (pai de Cleodon), Luiz Mariano, Adauto peixeiro e Liberato. Ainda temos a bodega de Pedrinho Duarte, que fica aqui defronte ao mercado do peixe, a casa de Vicente Besouro, Antonio Pimenta, Zé Cazuza, Manoel Gonçalves, Chico de Neco, Antero Xixico e outras cujos moradores desconheço.

O tempo é cruel, e sei que esqueci algumas. Mas a memória é curta, e o sol está muito forte.

Voltemos ao patamar da igreja, que a parte de cima da Rua da Frente nos espera.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

agosto 2020
S T Q Q S S D
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Para receber as novidades do blog