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Nas telas de Toinho Tavernard, que vi reproduzidas nos perfis do Facebook de Leila Tavernard  e Rosa Tavares, me transportei para um tempo onde foram criadas minhas conexões com a família de Didiz e Zé Tavernard. As conexões se vão com o distanciamento têmporo-espacial, mas as origens ficam na memória que teima em desobedecer os mandamentos Alzheimianos. Nasci nessa casa da foto, parede e meia com a dos Tavernad. Do outro lado da casa de Zé Tavernard ficava a Casa Paroquial, onde pontificava Padre Ismar, que me batizou e três anos depois se divertia com minhas imitações do coelhinho da páscoa e de algumas personalidades areia-branquenses. Foi ali que vivi até os 5 anos de idade, mas tenho apenas a foto no meu segundo aniversário como registro.

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Foi bem naquela época que quase peguei coqueluche de uma das lindas filhas de Didiz. Não lembro mais quem era. Edna? Cleide? Ah, doutor Alzheimer, roubaste-me esses nomes! Na impetuosidade daqueles 4-5 anos de idade, ficávamos namoricando na cerca do quintal, cada um no seu lado, para desespero da minha mãe. Se o amor ali não levaria a casamento, bem que ela sabia, de uma bela contaminação eu não escaparia.

Foi também naquela época que tive meu primeiro embevecimento com a arte dos outros. Ficava horas aspirando aquela insalubre serragem na marcenaria no fundo da casa de Zé Tavernard, boquiaberto com a agilidade e maestria com que aqueles homens manipulavam formões, plainas, serra circular, serra de fita e tupia. Ainda não era capaz de apreciar a beleza do produto daqueles homens. Só uma década depois é que fui perceber que aqueles móveis estilo Chippendale eram obras de arte saídas da criatividade de Zé Tavernard e sua notável equipe de marceneiros. Não me perdoo pela complacência que me fez indiferente à contínua destruição imposta pelo tempo a alguns móveis da lavra de Zé Tavernard, adquiridos por meu pai nos anos 1950, como uma mesa similar a esta fotografada pelo nosso memorialista Antônio Fernando Miranda

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Os varões da família herdaram a veia artística do pai, mas um deles a fez jorrar em telas e cavaletes e ao som de uma bela voz que embalou serenatas juvenis nos românticos tempos das ruas de carago. Ao contrário do Tavernard pai, Toinho, o Tavernard filho não canalizou sua criatividade apenas para a rentável arte que fez do seu pai o mais bem sucedido marceneiro de Areia Branca. Foi na pintura, misturando estilos realistas e impressionistas, que ele resolveu se expressar com mais vigor, e assim vem, há mais de meio século, se comunicando com tantos quanto sensibilidade tenham para apreciar sua arte.

Assim como fui leniente na preservação das obras de arte do seu pai, adquiridas pelo meu, também deixei que o descuido lá em casa levasse à destruição um quadro pintado pelo jovem Toinho Tavernard, retratando o casal Albertina e Clodomiro em uma época que talvez eu ainda nem fosse nascido.

Didiz e Zé Tavernard também produziram, como poucos em Areia Branca, outro tipo de obra de arte. Guiados pela maquinaria genética trouxeram ao mundo algumas das mais belas areia-branquenses que eu conheci. Uma família tão bela e que também se destacava na arte de fazer amigos. Na virada da década de 1950 para 1960, o grande “point” de Areia Branca era a casa da família Tavernard, não apenas por causa das suas beldades, mas também pelos picolés caseiros que dona Didiz fazia tão bem. Ainda criança eu costumava ficar com os trocos das compras que minha mãe me pedia para fazer durante o dia, para torrar tudo à noite naquele ponto de concentração de beleza e bem-estar social.

 

Recentemente escrevi uma crônica sobre a bicicleta de Toinho Calazans. Num dos seus comentários, Evaldo lembrou que Horácio de Chico Lino havia se submetido ao desafio de circular em volta da praça da Igreja até não poder mais. Conseguiu pedalar, sem parar, durante dois dias. Em resposta, Antônio José se lembrou que Toinho de Eneas havia batido esse recorde, pedalando durante três dias.

Eu não lembro da façanha de Horácio, mas presenciei a de Toinho, e se bem me lembro, falava-se que aquele desafio era para bater o recorde anterior. Lembro que todos se divertiam quando Toinho queria, no dizer de antigamente, verter água. Jogava um balde d´água, verdadeira, sobre si. Ninguém via a urina escorrendo por sua perna.

Antônio José nos enviou a foto abaixo, cheia de significado histórico. Ele pensava que o rapaz da foto era filho de Chico Germano, mas Evaldo afirma, peremptoriamente, que é Horácio de Chico Lino.

Creio que agora a história está bem encaminhada. A foto foi feita para premiar o feito (perdão pelo trocadilho). Pena que foto com Toinho de Eneas realizando sua façanha foi rasgada por sua neta, como nos informou Antônio José.

Só nos resta aguardar comentários daqueles que têm mais de meio século de idade e presenciaram ou têm conhecimento desses fatos.

1:Francisca Frutuoso, 2:José Tavernard, 3:Ivani Rolim, 4:João Rodrigues, 5:D. Chiquinha, 6:Cônego Ismar, 7:João de Souza, 8:Toinho de Pixico, 9:Horácio de Chico Lino, 10:João Marques, 11:Dorinha Cirilo, 12:Didinha, 13:Zé Maduro, 14:Toinho Horácio, 15:Antônio da Usina.

Aproveitando a deixa das últimas crônicas, nas quais mencionamos a família Calazans, e Evaldo chamou a atenção para o fato de haver poucas bicicletas em AB, lá pelos idos anos 1950, lembro de uma novidade daquela época: a bicicleta de corrida adquirida por Toinho Calazans, que já era o verdadeiro administrador do Armazém do seu pai. A gente chamava de bicicleta de corrida porque tinha o guidon virado para baixo e as rodas bem fininhas. Eu, que aprendera a andar de bicicleta “roubada” de salineiros, lá do outro lado do rio, meia légua depois da barra, sofri o diabo com aqueles pneus finos da bicicleta de Toinho. Acho que, além do dono, apenas Chico Novo e eu tínhamos o privilégio de andar naquela bicicleta. De vez em quando ele ficava brabo comigo, porque chegava um pouco depois de tempo combinado para a devolução. Não sei que propósitos Chico Novo tinha quando pedia a bicicleta. Da minha parte, não tenho vergonha em declarar: pedia para me exibir na frente das casas das namoradas ou daquelas com quem estava flertando. Coisa boa uma flertada na praça da igreja, heim? Lembro que uma vez, a ciumenta mãe de uma namoradinha nos surpreendeu de mãos dadas, entre o Correio e o Grupo Escolar, esse que foi motivo da recente crônica de Evaldo. A menina ficou alguns dias de castigo. Para irritação da mãe eu passava várias vezes ao dia, chispando na bicicleta de Toinho Calazans. Santa bicicleta!

Sei que ficou nebulosa a história da “bicicleta roubada”. Era assim. Meus avós moravam num sítio, meia légua depois da Barra, para onde íamos nas férias. Na frente do sítio, meu tio tinha um armazém, que fornecia de tudo para os salineiros da região. Eles encostavam suas bicicletas, burros e cavalos, feito aqueles armazéns dos filmes de faroeste, e ficavam um bom tempo comprando seus mantimentos e tomando umas e outras. Nisso, a meninada que estava em férias no sítio aproveitava e “roubava” a bicicleta, e na falta desta, o animal que não desembestasse. Claro, de vez em quando um desprevenido pegava um burro-mulo mais tinhoso e era um Deus-nos-acuda. Geralmente só tinha duas alternativas: agarrar-se no pescoço do bicho até ele parar, ou pular, correndo o risco de quebrar pernas e braços.

Post-Scriptum (desculpe o aparente esnobismo, mas é que gosto tanto dessa expressão em Latim, que raramente escrevo PS) – Dois comentários, um de Evaldo e outro de Antônio José me motivaram a escrever nova crônica com o registro dos desafios de resistência de Horácio de Chico Lino e Toinho de Eneas.

Reaprendendo a brincar: uma viagem à minha infância é um livro de apenas 74 páginas. Você pode ver as informações editoriais no Cânone areiabranquense. Mas, esse livro que não consegue ficar em pé, de tão fino, me causa uma inveja imensa, uma incurável dor de cotovelo. Quase chego a dizer pra mim mesmo: tá com raiva? Tire as calças e pise em cima! Hei de me vingar, viu Evaldo? Qualquer dia desses vou plagiá-lo e escrever um igualzinho. Como eu queria ter escrito esse livro! Tem nada não, vou fazer minhas as lembranças de Evaldo, pedindo-lhe permissão para dar meus retoques pessoais.

Lá na página 15, depois de mencionar o nome da sua primeira professora, Dorinha, ele escreve: “Outro método usado em classe era a professora atirar uma régua comprida, de madeira, lá de onde estava, no rosto de quem estivesse atrapalhando a aula.”  Fica subentendido que era um método usado pela professora Dorinha. Não conheci Dorinha, mas fui aluno, na 5a série, da professora Geralda Cruz. Um dia, um aluno atrevido fez alguma traquinagem que não lhe agradou. Recebeu nas costas uma reguada. A régua era daquelas triangulares, tipo um serrote de sal, com uns 40 centímetros de comprimento. O gemido do coitado deve ter sido ouvido lá no meio da rua.

Professora Geraldo Cruz, em 1965-1966. O primeiro à esquerda, sentado, é Clodomiro Alves Jr. O terceiro Manoel Souza Neto, o saudoso Souza, filho de Antônio do Vale.

Na página 16 ele menciona muitos conhecidos daquela época. Quero me fixar em Antônio Calazans. Sim, é verdade: Jurineida era lindíssima. Meu pai tinha laços familiares com Antônio Calazans. Não sei bem o grau de parentesco. Parece que Calazans era sobrinho da minha vó. Não importa. O fato é que aos 11 anos ele foi trabalhar no armazém de Calazans, mencionado por Evaldo. Quando criança eu não perdia a oportunidade de dar uma passada “despretenciosa” na casa deles. Nunca vi faltar um bolo e um refresco naquela casa. Parecia que D. Julinha fazia bolo diariamente. Quando conheci Julieta, ela já não morava em AB. Vinha todo final de ano. Pelo menos uma vez lembro que ela chegou num daqueles jeeps de guerra, verde oliva. Ela me adorava e me obrigava a chamá-la “Tia Êta”. Adário era outro dos filhos de D. Julinha que gostava muito das minhas traquinices, sobretudo das imitações que eu fazia de alguns adultos. Anos depois, quando fazia faculdade no Rio, juntamente com Chico Novo, ia vez ou outra no apartamento de Aldemir, na Glória, onde ele tinha um bar. Tomava umas boas biritas ali.

Acho que Evaldo faz uma pequena confusão na página 25. O “calmo” dono da mercearia não é Seu Firmino?

E por falar em José Tavernard e D. Didiz, nunca vi um casal fazer tantas filhas bonitas! E os picolés, ou polis que ela vendia? Quando minha mãe me mandava comprar algo, eu costumava ficar com o troco para gastar tudo à noite na casa de José Tavernard.

O cão buldogue mencionado na página 35, um dia me encurralou no beco da galinha morta. Veja aqui como foi isso.

Mas, Evaldo por que você foi logo esquecer de mencionar o jogo de bandeirinha? Quando parava a chuva todos corriam para a rua. Uns brincavam de fura-chão, magistralmente descrito por Evaldo, outros iam jogar futebol, mas não sei bem porquê, a maioria preferia brincar de bandeirinha. Era um jogo sensacional. Para quem também gostava de jogar futebol, a bandeirinha era como um treinamento para o drible de corpo.

O tamanho do campo dependia da quantidade de jogadores. Os dois times ficavam em lados separados por uma linha traçada no chão. No final de cada campo ficava uma bandeira. Na verdade um pequeno pedaço de pau enfiado na terra. Ganhava o jogo o time que conseguisse tirar a bandeirinha do adversário e trazê-la para o seu lado, sem ser tocado por nenhum adversário. Era aí que se precisava ter jogo de corpo. Se algum defensor tocasse no invasor, este ficava parado (“preso”) no local em que foi tocado. Tinha que ser tocado por um companheiro para se livrar. Ou seja tinha que ser tocado e correr para seu campo sem ser tocado novamente, tanto ele quanto seu salvador. Para ganhar o jogo, o time tinha que trazer a bandeirinha e não ter ninguém “preso” no campo do adversário.

É mentira, Terta?

agosto 2017
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