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Ricardo Dimas nos brinda com mais uma pérola da sua lavra memorialística (nota do editor).

Entre as boas lembranças que tenho de Areia Branca – e são muitas – quero destacar aqui a figura de MACACO. Realmente não sei seu nome de batismo. Acredito que essa alcunha lhe foi aplicada sem maldade, pelos seus conterrâneos e contemporâneos. Que eu saiba, ele nunca contestou essa alusão à sua semelhança com os primatas.

MACACO exercia as funções de mergulhador e calafate (profissional que faz reparos em cascos de embarcações). Ele, seguramente, deve ter batido diversos recordes de mergulho em apnéia e que jamais foram registrados. Tendo um físico privilegiado, era capaz de ficar – conta-se – até cerca de 4 minutos debaixo d’água em suas atividades profissionais. Ele era de fazer inveja ao Jim das Selvas (Johnny Weismuller) que, num filme que vi, ficou quase 5 minutos debaixo d’água. Mas filme é ficção e MACACO era uma realidade, realidade essa que pôde ser testemunhada por uma cidade inteira.
Certa feita, eu, em companhia de Júlio César (um primo), Élder, Edinho e mais uns dois ou três parceiros, fomos aos mangues ‘catar’ caranguejos. Todos de sunga (MACACO usava um bermudão) e Elder levando sua inseparável enxada, para facilitar a ‘grande caçada’. Quem já catou garanguejos sabe quão difícil é a tarefa. Todos vão limpinhos, com seus calções ou sungas coloridos e, logo, estão democraticamente padronizados de um cinza grafite de cor intensa, da cabeça aos pés, cor essa que adquire um matiz mais pálido conforme a lama vai secando no corpo. O catador de caranguejos fica idêntico aos comandos militares, em época de combate nos pântanos.

Aparentemente perigoso, o caranguejo é um crustáceo inofensivo quando dentro de sua toca. O catador tem de enfiar o braço todo – até o sovaco – e, pelo tato, colocar o bicho na palma da mão, fechá-la e retirar o ‘bruto’ que sai feito uma bola (estando ele, digamos, numa posição semelhante à fetal). Essa bola é uma mistura de espessa lama e crustáceo, tornando o bicho inofensivo, pois fica sem movimentos. Entretanto, entretanto… se você ‘passa uma aguinha’ no bicho, logo vai sentir duas afiadas tesouras na sua mão. Nós colocávamos as bolinhas de lama/caranguejo num saco de estopa para só lavar tudo num posto de gasolina existente na entrada de Areia Branca.

A meu juízo, não há muito perigo nessas aventuras, a não ser as ostras (afiadíssimas) sob a lama, quando enfiávamos o braço nos buracos. Era preciso uma certa prática que eu adquiri, mesmo sendo ‘cearoca’ (oriundo do Ceará e criado no Rio de Janeiro) mas com uma série de períodos alternados vividos em Areia Branca. Interessante é que os cortes nos braços não sangravam porque a lama – espessa – vedava o fluxo do sangue, tapando os arranhões. Sou testemunha de que essa lama é totalmente asséptica; afinal a água do mar não causa tétano e, que eu saiba, não tenho notícia de alguém doente por causa da lama do mangue. Eu mesmo voltei diversas vezes para catar caranguejo e voltei todo cortado e, no dia seguinte, estava sarado.

Deixando de lado essas divagações ecológicas, voltemos ao personagem MACACO. Vou ser chamado de mentiroso, mas aí vai: não sei qual o ‘instrumento’ ou ‘8º sentido’ MACACO usava. O fato é que ele embrenhava-se no mangue indo bem à nossa frente, pouco ligando para alguma vegetação mais contundente ou espinhosa, com os galhos quebrando-se na sua ‘delicada pele de rinoceronte’ e estraçalhando ostras afiadíssimas com seus fortes pés. Embora Elder fosse bastante experiente nessas aventuras, em certos locais, não fosse MACACO, estaríamos perdidos e sem saber como voltar de dentro daquela densa vegetação. Acho que esse segredo de seu senso de direção – além de uma receita de puxa-puxa (um doce) das professoras Natinha e Percília (da Escola da Dona Julita, a qual frequentei quando criança (nos anos 50) ) são duas coisas que – para mim – estão definitivamente perdidas.  Em minha opinião, MACACO é um elo perdido entre o homem moderno, com pele delicada e relativa fragilidade física e algum ancestral mais robusto, mais intuitivo e com tração nas duas pernas.
Qualquer um de nós, se fôssemos acompanhar o ritmo de MACACO, ao embrenhar-se nos mangues, teríamos sérias perfurações no corpo e – talvez – a perda de dedos dos pés ou mãos, ceifados pelas ostras. Lembro que todos estávamos descalços porquanto a lama não permite calçado, visto que cada passo é comparável a um movimento de desentupidor de pia. Cada passo vem acompanhado de uma forte sucção.

Ficávamos horas sem beber. Não sei se hoje em dia eu aguentaria uma empreitada dessas. Quero deixar aqui um preito de eterna gratidão a todos os herois catadores de caranguejos (e, por que não, de sururu) que nos proporcionam essas maravilhas da culinária brasileira.

Repito que – praticada com os devidos cuidados – a cata de caranguejo não é assim tão perigosa.

O que quero ressaltar era a velocidade de MACACO nesse local e, com muita dificuldade acompanhávamos o homem (ou será super-homem ou super-macaco?), sempre gritando seu nome a fim de nos localizarmos.

Quando, finalmente, chegávamos à civilização – todos estereotipados num cinza claro e irreconhecíveis – dirigíamo-nos a um posto de gasolina e pedíamos para tomar aquela forte ducha que nos devolvia a nossa feiúra em todo o seu esplendor. O passo seguinte era lavar os sacos cheios de bolas com caranguejos e lama. Quando eles ficavam livres da lama … Vige Maria! Pareciam centenas de tesouras e, se escapavam do saco, por algum descuido, eram capturados por MACACO, que nem se importava ao oferecer seus dedos às presas dos bichos. Ele só dizia, ao colocar os caranguejos de volta ao saco, em geral dois ou três em cada mão (maozão): – Deixe hômi, largue hômi! Como se o bicho tivesse ouvidos. Nenhuma lesão causada pelas pinças dos crustáceos era notada em suas mãos.

Todos nós, ‘grandes caçadores’, tomávamos uma boa ducha para remover a lama do corpo, das ventas, dos ouvidos etc. (no caso do etc, tínhamos de tomar cuidado com a força do jato d’água). Contudo, lembro que MACACO, naquele dia, só se lavou ligeiramente e não quis tirar a lama dos ouvidos. Dali mesmo, do posto de gasolina, deixou-nos com os caranguejos – que foram responsáveis pelo consumo de, pelo menos, duas caixas de cerveja – e partiu rumo à sua rotina de competente mergulhador e calafate. Depois desse dia (nos idos dos anos 70) não mais o vi. Soube que o Criador convocou sua presença a seu lado. Onde você estiver, MACACO, quero ser porta-voz de seus conterrâneos que se lembram de você como um verdadeiro herói, confirmando o que um grande escritor brasileiro – com muita propriedade – um dia afirmou ‘O Nordestino é, antes de tudo, um forte!’

Ricardo Dimas, neto de Seu Dimas Ramos, não nasceu em AB, mas tem uma memória e uma saudável nostalgia dignas de um filho da terra. Tudo isso fruto de suas visitas durante as férias escolares da sua feliz adolescência. O comovente relato a seguir, alinhavado em texto de alta qualidade, tem valor histórico e sentimental merecedores de leitura por quem já passou dos 50 anos, para lembrar e deixar lágrimas correrem, e por quem tem menos de 40 para continuar com o pé na terra natal. Não tenho dúvida, esse texto vai tocar no coração de todos. Fica aqui meu registro pessoal: lamento profundamente não ter podido acompanhá-lo nessa viagem. (Carlos Alberto).

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Mais uma vez meu irmão Marconi pediu-me para postar aqui um texto dele. Estou tentando convencê-lo a participar como colaborador, onde ele mesmo pode fazer as postagens. Aliás podemos fazer isto com qualquer um que se disponha a escrever sobre a cidade. O texto é o seguinte:

“Fui alfabetizado e fiz o curso primário na Escola Santa Terezinha com a D. Julita. Ali também ela morava junto com suas duas auxiliares, sua irmã Natinha, e Percília ( acredito que o nome correto era Priscila) que cuidava mais das tarefas da casa.
Era uma professora diferente das de hoje, calma, dedicada e compreensiva, era respeitada por todos os alunos, e a quem sou muito grato pelos ensinamentos recebidos.
A Escola ficava ali na praça do Tirol e o curioso era que tinha dois nomes. Isso mesmo… Pela manhã se chamava Escola Santa Terezinha, freqüentada salvo engano pelos alunos ate o segundo primário. A tarde era a Escola Pereira Carneiro, dos alunos maiores talvez até a quarta série. Nunca entendi o porque da mudança, mas alguma razão deveria ter…
Lembro de alguns fatos pitorescos acontecidos nesta Escola.
Um deles era que o atraso na aula tinha sempre a mesma explicação. O aluno atrasado chegava na porta e dizia em voz alta já interrompendo a professora : “dá licença D.Julita… cheguei atrasado porque o leite lá de casa chegou tarde… ao que ela respondia de pronto: Entre”.
Como iria barrar a entrada em sala de aula de alguém com justificativa tão plausível !!!.
Para as festas escolares, era solicitado dos alunos para trazerem de casa “1 cruzeiro e um ovo para a festinha da Escola”, pedido devidamente registrado em um bilhete para ser entregue aos pais, o que era a garantia de um gostoso bolo regado a suco de umbu, tirado do quintal da Escola.
Lembro ainda da bronca dada em Giselda ( acho que era o seu nome ), aluna mais velha e digamos, de corpo já formado, que teimava em ir para a aula sem sutiã, no que D. Julita dizia sem qualquer cerimônia: “Giselda…. pra casa botar o sutiã”, que sem reclamar cumpria as ordens da professora e voltava pra Escola devidamente composta.
Que bons aqueles tempos…

Vejam uma foto da Escola Santa Terezinha, gentilmente cedida por Carlos Alberto”

escola_julita_1954

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