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Areia Branca perdeu, nesse mês de novembro, duas personalidades do seu folclore. A história das traquinagens adolescentes na salinésia não pode ser contada sem amplas referências a Zé Moconha. Da mesma forma, a história do nosso futebol passa obrigatoriamente pelas diabruras nascidas nos pés de Lourinho. As datas me foram informadas por Antônio José. Dedé de Antônio Noronha, se foi dia 10 e ontem, 24, foi a vez de Lourinho de Chico Mariquinha.

Ambos foram objeto de crônicas nesse blogue, cujos links apresento abaixo para um momento de singela homenagem.
https://areiabranca.wordpress.com/2008/12/03/ze-moconha/

https://areiabranca.wordpress.com/2009/02/07/lourinho/

https://areiabranca.wordpress.com/2009/08/08/o-dono-da-bola/

https://areiabranca.wordpress.com/2009/09/14/madureira-cheio-de-gloria/

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Nas mãos de Tostão, para citar um cronista contemporâneo – nas mãos de Nelson Rodrigues ou Eduardo Galeano, dirão os mais cultos – o tema daria uma crônica admirável. Para o leitor deste blog fica o prejuízo de um texto sem as tintas vivas de uma inspiração literária. Para o autor fica o sentimento do dever cumprido na preservação da memória de pessoas tão queridas.

Qualquer um que tenha durante sua infância ou adolescência se envolvido com futebol terá em sua memória um ou outro personagem que se encaixa nessa crônica. Quando se trata de disputa em jogos, as crianças são muito judiciosas. Observe a escolha de jogadores numa pelada, depois do par-ou-ímpar. Não tem grau de parentesco que altere a ordem da escolha. Esta depende tão somente da habilidade dos escolhidos. Um menino vira dono da bola quando percebe que jamais será escolhido para a posição que deseja. Quando tem lugar, é sempre para goleiro. Para vencer esse obstáculo, os menos dotados usam uma arma infalível, o artefato sem o qual não há disputa. Tornam-se os donos da bola.

Eu poderia listar aqui inúmeros “donos da bola”, no colégio e na rua. Mas, como gostava de dizer aquele psicanalista carioca, preferido das estrelas globais, circunscrever-me-ei à minha querida Areia Branca dos anos 60. Conheci três candidatos a dono da bola em Areia Branca. Um ficou famoso e os outros dois apenas mostraram tendência, mas não cumpriram todo o ritual.

Zé de Chumbinho era um menino travesso, virou um jovem problemático aos olhos de alguns, ídolo no imaginário de outros, e hiperativo na conceituação de quem dominava a ciência médica. Fez muitas estripulias nas ruas da nossa salinésia. Nesse tipo de atividade era competidor de peso de Zé Moconha. Não presenciei essa história, ela me foi relatada por Clécio, filho de “Seu” Clodomiro.

Zé de Chumbinho retornara de uma viagem ao sudeste, provavelmente Santos, com um belo conjunto de camisas de futebol. A quadra de futebol de salão, onde hoje funciona o INSS, entre os Correios e o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, estava sem as traves. Existiam apenas os buracos, onde podíamos enfiar dois paus e improvisar uma trave. Zé de Chumbinho construiu duas traves, com rede e tudo, e convidou uma rapaziada para uma pelada. O time dele jogaria com seu belo e lustroso terno, novinho em folha. Os dois líderes da turma tiraram o par-ou-ímpar e começaram a formar os times. No final, verificou-se que Zé de Chumbinho não tinha sido escolhido, nem para goleiro. Com aquele jeito discreto dele, como um elefante numa sala de cristais, pegou as duas traves, colocou no ombro e foi pra casa. Não lembro se a bola também era dele, mas a pelada ficou inviabilizada.

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Um dos mais antigos registros fotográficos da quadra de esportes. Na época da história relatada aqui o sentido da quadra fazia 90 graus com este apresentado na foto. Ou seja, uma das traves ficava ao lado dos Correios, e a outra ao lado do Grupo Escolar (Foto de Antônio do Vale).

Ronald de Dr. Gentil é outro que poderia ter sido dono da bola, mas tanto quanto eu sei não foi. Adorava futebol, mas não tinha o menor domínio da arte que Lourinho exibia com tanta simplicidade e beleza. Se não tinha futebol para exibir, Ronald se esmerava nos adereços. A chuteira mais brilhosa, o meião mais estiloso. Nas peladas no campo da saudade, seu reluzente uniforme se destacava entre as camisas desbotadas. Depois de anos voltei a me encontrar com Ronald, em Natal, onde se firmou como juiz de futebol e era exímio jogador de sinuca. Soube recentemente da sua morte prematura, por intermédio de uma nota publicada aqui por Marconi Dutra (ou teria sido Marcelo?). Enfim, por um dos filhos de Dr. Vicente, esses sustentadores do blog.

Nesse seis de agosto, recebi a mensagem de Antônio José: Faleceu na terça-feira Miguel Ramos. Desportista, Professor, Humanitário, foi Vice-Prefeito de Carlos Antonio Soares, sepultado em Natal.

Foi um dos mais bem-sucedidos donos de bola que conheci. Se não tinha a malemolência de um Didi e o gingado de um Garrinha, tinha nos pés a potência de um Rivelino. Tá pensando que é brincadeira? Pergunte aos goleiros que tiveram a coragem de botar as mãos no caminho dos seus petardos. Lembro do seu São Paulo no campo da saudade e na quadra de futebol de salão. Lembro da sua alegria nas vitórias e da sua serenidade nas derrotas. Uma pessoa querida, que a todos amava e por todos era amado.

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Fotografia cedida por Antônio Fernando Miranda. Identificação feita pelo próprio e por Antônio José. A partir da esquerda. De pé: Pantiquinho, Chaguinha de Maria Brasil, Josimar Monteiro, Maninho Iaiá, Dequinha, Chico de Manoel Maracajá, Zé Bacaia. Agachados: Cachinês, NI, Miguel, Valdemar Lopes. NI=não identificado.

lourinho1Lourival Rocha é seu nome, Chico Mariquinha seu pai. A foto ao lado retirei de uma foto maior, exposta em http://portalcostabranca.blogspot.com/2008/10/reviva-areia-branca-do-passado-no-nosso.html. O portal não informa a autoria da foto. Talvez seja de Antônio do Vale, mas não há sua famosa assinatura, AVale.

Entre 1953 e 1959 morei na rua Silva Jardim, quase ao lado da casa do seu pai. Na adolescência cheguei a jogar futebol de Salão com ele, acho que no Renner (com Chico Carlos, Décio de Pascoal) e no América de Jonas de Josué, com Chico Carlos, de quem falarei em outra oportunidade.

Tenho na memória duas historinhas. Uma eu presenciei, boquiaberto, no Campo da Saudade. A outra me foi relatada pelo meu irmão, Clécio, e teria acontecido na quadra de Futebol de Salão (Praça de Esportes Maria Duarte). 

Não lembro o ano (década de 1960) nem o time pelo qual ele jogava. Muito menos o time adversário. Mas, a jogada, que jogada, está ainda hoje nítida na minha memória. Parece que estou me vendo de pé na lateral do campo, na altura da meia-cancha adversária. Lourinho atacava pela ponta esquerda, a cinco metros de onde eu estava, quando alguém deu um balão em sua direção. Foi um alvoroço naquela zona do campo. Os defensores, uns dois ou três correram para o local, olhando para cima e se encandeando, enquanto a bola descia. Lourinho ali, parado, olhando com calma a trajetória da bola. Quando ela aproximava-se do chão, deu dois ou três passos para trás. A bola quicou em algum buraco do terreno, encobriu os defensores e foi cair mansa no seu peito. Depois do primoroso lançamento para a pequena área, seu centro-avante, que não lembro quem era, cumpriu a tarefa do seu métier com um gol antológico.  

Lourinho não era apenas um jogador genial, era um malandro. Sabia driblar e irritar os adversários, duas armas fatais no futebol. No time de futebol de salão adversário, um marcador implacável, fungando, como se diz na gíria futebolística, sem parar. Bola na direção de Lourinho e lá vinha o zagueirão junto. Conhecedor do pavio curto do adversário, Lourinho postou-se atrás e passou a mão na sua bunda. Coisa que qualquer jogador de futebol suporta olimpicamente, não aquele zagueirão. “Não faça isso, sou homem casado”, disse irritado com o dedo em riste. Lourinho corre de um lado para outro, deixa passar umas duas jogadas e de novo passa-lhe a mão, dessa vez com um pouco mais de vigor. Não deu outra, o zagueirão virou-se, meteu a mão na cara de Lourinho e foi expulso.

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