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“[…] Eu sei que você já viu um pé de goiaba, um pé de laranja e um pé de manga. Pode até ter plantado algum no quintal da sua casa […] Mas suponho que você nunca viu um pé de saudade. […]”

O trecho acima está no livro “PORTO FRANCO”, a mais recente obra do escritor areia-branquense Chico de Neco Carteiro, a quem, no meio literário, insistem em chamar de Francisco Rodrigues da Costa. Porto Franco é o retorno de Chico ao seu memorialismo apaixonado e puro, carregado de saudade, após ter ele se enveredado em dois romances: Perdão e Guanabara. Quando muitos pensavam que se haviam esgotados todos os dizeres do memorialismo areia-branquense, mais uma vez com o selo da Editora Sarau das Letras, o escritor reaparece com suas crônicas encantadoras, falando sobre o antigo porto que marcou época na região da Costa Branca. O lançamento ainda não tem data definida. Mas, quando chegar a hora, vale a pena conferir.

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Abaixo, recortes da crônica “A Igrejinha da Barra”, de Porto Franco.

A IGREJINHA DA BARRA

Do patamar da nossa igreja matriz em Areia Branca, avistava-se, no outro lado da maré, uma capelinha branca. Um belo quadro. Mas, para que os areia-branquenses desfrutassem dessa paisagem, foi preciso a iniciativa de Chico Amâncio, morador da Barra. Ele podou uma área do manguezal que encobria a capelinha. […]

[…]

Dia desses eu estava em Areia Branca. Um sábado. Tomei conhecimento que o meu amigo Dom Marcelo iria cantar a Ave-Maria de Schubert num programa musical intitulado: Projeto “Pôr do Sol”. Justamente na hora em que a Estrela-mor nos abandona e vai iluminar a outra parte da Terra.
Fui prestigiar o filho de Manoel de Marina. Cheguei cedo, antecipando-me ao salmista oficial da paróquia, nomeado pelo padre César.
Enquanto isso, do patamar da igreja, eu procurava ver a Igrejinha da Barra. Não conseguia, os mangues me impediam. A Capitania dos Portos, numa preservação ao meio ambiente, não permitiu que outro Chico Amâncio podasse o manguezal.

[…]

Finalmente, a apresentação. Além dos aplausos do público, Dom Marcelo recebeu calorosas palmas de uma turista francesa, acompanhadas do incentivo:

─ Bravo, monsieur.”

(*) Os grifos em negrito são nossos.

Saí da Rampa quase no final da tarde. Sem que nada lhe fosse dito ou perguntado, o canoeiro, companheiro de outras lidas, guinou para a esquerda, no sentido de Grossos. Deixei-me levar. À esquerda, imagens da Rua da Frente, digo, do que resta daquilo que foi o cartão postal da cidade, começando na igreja matriz e terminando no Tirol, estrutura que emoldurava a Praça do Pôr do Sol. Hoje restam apenas as marcas da insensatez. Em todo aquele trecho da rua não há uma loja em atividade, ou qualquer outro sinal de vida inteligente.

canoeiro

Onde outrora imperava a elegância e o bucolismo do Tirol, restam apenas espectros sem vida. São fácies doentias compondo o enredo da devastação. Nos dias de nossa meninice era ali que ficavam as casas mais aconchegantes da Rua da Frente, e com certeza habitadas por famílias felizes, influentes, pertencentes à classe média alta da cidade.

E a canoa foi deslizando nu rumo de Grossos, onde o rio Ivipanim aprende a dar seus primeiros passos em busca da autopreservação, mas ainda confuso, saindo de um tilt teste que revelara uma síndrome vasovagal aquática quase sem solução. O manguezal que o diga, responsável que é por sua depuração.

De repente, sem que uma palavra fosse pronunciada, a canoa deu uma volta com a elegância de uma serpente, retornando de forma serena, quase que sem que o rio percebesse. Imaginei uma êntese em ação, movimentando articulações de madeira que não admitem torções, exceto as do motor.

Fechei os olhos. Não queria um bis visual do final da Rua da Frente. E assim, como se houvera em mim um rebaixamento do nível de consciência, passei novamente por toda a rua tendo os olhos fixos em pequenas poças d’água que se acumulavam no fundo da pequena embarcação. De repente, fui surpreendido pela parada do motor. Levantei o olhar. À minha frente, um pôr de sol indecente, digo, incandescente, com o amarelão pontilhando um céu escuro. Era o brilho do esplendor. O êxtase da pura beleza.

Ali, percebi que tudo valera a pena. De volta à Rampa, uma triste constatação. Ficara tão embevecido com aquela imagem de final de tarde que esqueci de tirar uma foto. Não adiantava retornar. Naquele canto do céu tudo se fragmentara. À direita, imagens do Pontal. Pros lados de Tibau, um furdunço de cores pontuava os estertores de um sol em agonia.

No início, achei que bastava uma canoa como parte de um sonho em movimento, o Ivipanim como provedor. Mas faltava a foto.

Alguém foi lá e fez o que eu não consegui. Uma foto. A foto da minha visão, mesmo que em outro ponto do rio.

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Esta, com assinatura. No canto direito.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Não adianta sonhar. Eu sei que nunca mais verei as coisas da minha infância. Reviver os fatos, revisitar fisionomias, sentir o vai e vem da cidade no seu dia a dia, com as pessoas caminhando sem pressa no rumo do mercado público. Sem chance.

Não verei as pessoas de então, com os modos e os trejeitos inscritos no tempo, como uma consulta com Dr. Gentil no IAPC, uma conversa com Chico Lino, uma tarde no Tirol, contemplando o rio Ivipanim caminhando com seu passo lento para se entregar ao mar, nem o incansável Chico de Boquinha, que sempre se envolvia nas atividades sociais da cidade. Sua participação no mais famoso pastoril, que foi armado em frente à casa dos padres, vizinho à residência de Antonio Tavernard, foi decisiva para o sucesso daquele evento.

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Não verei cidadãos e cidadãs no rumo do mercado público com seus baldes de alumínio. Não há mais espaço para o subir e descer correndo pelas pirâmides de sal, sem avaliação dos riscos, sejam estes nos pés ou de morte, e chegarmos em paz à praia do meio. No sentir-se único nessas empreitadas talvez esteja o cerne da nossa vantagem competitiva

Do patamar da velha igreja, não adianta fechar os olhos na tentativa de identificar qual a barcaça que passava com seu jeito brejeiro, exibindo-se para um manguezal que disputava esse privilégio com a Rua da Frente, do outro lado do rio. Os iates, nem pensar.

Nunca mais verei os cataventos girando, tocados pelo vento solto e matreiro que corria pelas várzeas. Lembro das salinas sem qualquer mecanização, onde o suor do homem era subproduto de um esforço sofrido em sua tentativa de substituir por um tempo a força das máquinas que um dia forçosamente viriam. E chegaram com a prepotência dos decibéis e a desproporcional força de seus motores. Nos restos a lembrar, esqueletos de embarcações pairavam à deriva do carbono 14.

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Sei que não mais verei a Rua do Meio, que parecia estar sempre com roupa e pose de festa. À noite, o Cine Coronel Fausto nos acenava com sua aura de portal iluminado. Sei que hoje as novenas na igreja de Nossa Senhora da Conceição já não têm o amálgama que unia crianças e adultos, servindo de ponto de encontro no depois dos eventos, a pracinha a nos esperar, com as músicas da sonora acariciando nossos ouvidos com as canções de então.

Percebo que as canoas também se foram. Sei que jazem escondidas em um cantinho escuro, na dobra do tempo. E a festa que a chuva trazia, acompanhada de seus ciclopes lançadores de raios e trovões atraídos de um Olimpo ainda não formatado em nós, desentocando a meninada de suas casas para a festa debaixo das bicas. Hoje, sem chance.

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E haja água na moleira!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Porque desde pequeno eu sabia que o sol que me despertava aqui, na esquina do mundo, com seus raios de fogo desadormecendo estrelas brincalhonas escondidas nas areias de Upanema, era aquele que, no dia anterior, iluminara o outro lado do mundo, quando a metade  de cá vivia sob o império da escuridão, em insuspeito conluio com o assobio da cruviana.

Porque o rio Ivipanim – em cujas águas a meninada se reunia para formatar estripulias, materializadas em cangapés, braçadas e mergulhos – protegido pelo mangue à esquerda e pela igreja à direita,  ainda hoje serve de estrada para canoas centenárias, com suas velas triangulares.

Porque o manguezal que sempre escondeu a igrejinha de Barra é o mesmo que emoldura a visão dos trabalhadores do cais, com suas barcaças hoje motorizadas.

Porque lembro que teus cochichos na pracinha exalavam o hálito puro das salinas, que continuam dando vida e vez ao sal que nos alimenta.

Porque o sino que hoje badala no alto da torre da igreja é aquele que, em minha meninice, anunciava momentos bons e dolorosos de então.

Porque tenho consciência de que alguns amigos da minha infância não morreram. Foram convocados para outros embates em dimensões criadas por nossa vontade de ser eternos. José Jaime é um deles, com certeza.

Porque os massaricos que outrora pousavam em solitárias berduelgas escondidas nos descaminhos das salinas continuam beliscando plantinhas rasteiras, em um silvestre primitivo com cheiro e gosto de sal.

Porque muitas vezes perguntei a minha mãe se havia algo a ser comprado no mercado público, como pretexto para passar pela Rua do Meio, mesmo sabendo que o Cine Coronel Fausto não ficava no meu roteiro.

Porque às vezes, nos escaninhos da noite, me pego entoando músicas de antigas procissões – Avé, Avé, Avé Maria -, ou revivendo sonoridades emanadas de uma velha amplificadora – sonora, na intimidade – que, ricocheteando no oitão da igreja, ecoava na pracinha ao lado, encantando multidões em agostos até hoje relembrados.

Porque lembro de um encontro, tramado pelas forças do destino, na exata desprogramação do sem-querer-querendo, em que dois seres fingiam escapar de algo que não existia, imprimindo rastros na areia fria, a lua a espreitá-los. Na pressa, nem perceberam o Farol de Upanema, que os seguia com um olhar de inveja.

Por isso sonhamos.

agosto 2017
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