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Eu, menino pobre, morador da Rua da Frente, sempre gostei de percorrer a Rua do Meio, em especial aquele quadrilátero do famoso Portal Mágico. Foi naquele trecho que assumi meu primeiro emprego; foi justo ali nas proximidades do Cine Miramar onde eu e Chico Novo construímos dois quebra-canelas antológicos.

No início da rua, do lado esquerdo, a casa de Manoel Bento. Do outro lado, a casa onde residia um membro da família Lúcio – José Lúcio (?).

Esses dois prédios, por suas características arquitetônicas e excelente localização estratégica, sempre contaram com a minha admiração, mas, pela pequenez dos meus projetos de futuro, jamais fizeram parte de meus sonhos patrimoniais. Era apenas admiração. Mas ambas já derreteram sob o peso do desleixo dos nossos administradores.

Nas proximidades da outra ponta da rua, duas casas chamaram minha atenção e a de quase todos os areiabranquenses: o sobradinho dos Dantas e a casa de dona Edite Belém, esta de frente para outro ícone arquitetônico de Areia Branca, nosso querido Cine Coronel Fausto. O sobradinho dos Dantas era um palacete que, aos meus olhos de criança, cintilava como se fosse incrustado de lantejoulas.

Visitando Areia Branca em agosto, tive o prazer de contemplar com emoção a casa amarela, agora de pintura nova e ares de balzaquiana em dia de Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Parei por um momento e dediquei toda a minha atenção àquele casarão. Imaginei-me então seu proprietário. Regressei no tempo e vislumbrei do lado direito a casa onde morava Sonia de seu Adauto. E virei-me para contemplar o que resta do cineteatro que um dia tocou nossos corações. No outro lado da rua, um pouco à esquerda, de soslaio, ainda contemplei o imóvel que substitui o sobrado dos Dantas.

Não sei por que, sinto que esse belo casario guarda resquícios de uma monarquia por nós desconhecida.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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Crônica de Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro), publicada no jornal Gazeta do Oeste, em 9/9/2010.

Acredito que toda criança, quer nascida ou não na cidade em que viveu, guarde na memória os seus becos, ruas e esquinas. Por mais importante que se torne quando adulta, suponho que não os esqueça. Fernando Pessoa, por exemplo, não lembraria os de sua Lisboa encantadora? De Salamanca, por Miguel de Unamuno idolatrada, ele os olvidaria? Qualquer um dos dois Alexandre Duma conheceria, certamente, os de sua romântica Paris.

E Castro Alves, o condoreiro abolicionista, de sua memória jamais se apagariam as esquinas da Bahia, onde tanta poesia cantou.  Carlos Lacerda que, em cada esquina procurava um presidente para depor, na sua cachola tinha desenhados todos os becos e esquinas da Cidade Maravilhosa.

Deixemos os que já partiram desta vida. Vamos a São Paulo. Fico imaginando a Mogi das Cruzes, do meu amigo Mario Silveira. Mogiano até a medula, será que ele esqueceu a esquina da Cel. Souza Franco, ou a da Senador Dantas? Garanto que não, como viva na sua cuca está a esquina da Livroeton.

Vamos dar uma voltinha aqui mais perto da gente: Por Osair Vasconcelos boto até a mão no fogo, sem receio de chamuscá-la, como carrega no pensamento a esquina da Rua do “gango”, ou daquela rua que servia de marco para as duas turmas dos meninos guerreiros. Nenhum garoto, de um dos bandos, a atravessaria, sob pena de haver um tremendo quebra-pau. Isso acontecia na inesquecível Macaíba de Osair.

O diabo é quem discute com Paulo Balá. Este, além dos becos ruas e esquinas, tem vivo na lembrança um punhado de curral de Acari de sua meninice! Conhece tudo sobre a terra do ex-Cardeal dom Eugênio Sales.

E o que dizer de Manoel Onofre, “de camisa aberta ao peito, pés descalços e braços nus”, em suas andanças, esqueceu os da sua Martins de clima agradável? Du-vi-d-o-dó.

E Aluízio Alves Filho? A memória lhe traiu a ponto de esquecer o estádio Juvenal Lamartine, na Hermes da Fonseca, ou o Café São Luiz, na Rio Branco? Não! Estas duas avenidas da cidade do Natal, que destoam do título deste texto, estão fixas no quengo de Aluízio; exemplo de pai e avô e um grande saudosista natalense.

Afinal, chego aos becos, ruas e esquinas de Areia Branca. E inicio pelo beco mais famoso, cuja popularidade ultrapassou os limites da cidade: o Beco da Galinha Morta. Também muito falado, foi o “Beco do Panema”, que deixou de existir quando o libertaram das cercas que o ladeavam. Um prêmio para o professor Wilson de Moisés, se souber o nome do beco onde dr. Vicente Gurgel Dutra tinha seu consultório dentário; também já não existe; desapareceu com a demolição daquele quarteirão que ia da esquina da Mossoró Comercial à esquina da oficina do “Ferreiro”, avô de Naldinho.

Outro beco, que nem nome tinha, iniciava na esquina do bar de Clodomiro, na Barão do Rio Branco, terminando na Travessa dos Calafates. [Como indica a placa, hoje o beco tem nome: Rua Padre Afonso Lopes. A foto é uma cortesia de A.F. Miranda. Nota do Editor]

E por falar em esquina, a da loja de Pedro Leite dando a frente para a Rua Cel. Fausto, e o oitão para a antiga Almino Afonso. A esquina do Conselheiro Brito Guerra, na Rua do Progresso com a antiga Getúlio Vargas; a esquina da loja de Pedrinho Rodrigues, na Rua Barão do Rio Branco com a Rua da Frente.

A esquina da casa de Caboclo Lúcio, de frente para esquina da casa de Manoel Bento, ambas na Rua Cel. Fausto.

A esquina do Sindicato dos Estivadores na Rua Almino Afonso com a Rua de Trás, que era Silva Jardim e hoje é Francisco Ferreira Souto. A esquina do antigo clube Democratas na Rua Cel. Liberalino com a Travessa dos Calafates. A esquina do Sindicato dos salineiros na Machado de Assis, com a Rua Joaquim Nogueira.

Muitos becos, ruas e esquinas não foram citados aqui, mas ficam guardados no cofre de minhas saudades para outra convocação.

Essa é a crônica de estréia do nosso mais recente colaborador: Marco Juno Flores. Você vai gostar, é a certeza do editor!

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Havia uma construção na Rua do Meio, se não me engano, ao lado da casa de Manoel Bento, o despachante aduaneiro. Tínhamos decidido – Adário Calazans, Antônio de Chico Lino, Afrânio, eu e mais um outro menino cujo nome já não lembro – roubar uma galinha e, de algum modo, prepará-la para uma pequena farra no Sábado de Aleluia. O mérito e a recompensa dessa façanha viriam quando contássemos à turma, ávida de aventura.

O sábado da semana santa era um dia de lamúrias domésticas. Em algumas casas da vizinhança ouvia-se lengalenga de desgraças por sentirem a falta de uma ou duas galinhas no terreiro: “Vagabundos devassaram o galinheiro na calada da noite!” Era freqüente se ouvir.

Da laje da casa em construção, observávamos os quintais da vizinhança: Sinhá Quinoca, Zé do Rosário, Quidoca, Guiomar Costa – filha de Alfredo Bernardo, meu avô – e outros que a vista conseguisse alcançar. Avaliávamos qual o mais fácil e seguro para a nossa empreitada.

Após algumas considerações decidimos pela casa de Guiomar; a minha casa. Ali havia um farto galinheiro. O terreno era grande, fácil de esconder-se numa emergência, o portão de trás não tinha trava na tramela; enfim, a melhor situação. É certo que havia duas vacas mestiças, enormes, com bezerros novos. Mas, ficavam presas num curral, não havia perigo. Eu sabia de tudo.

Afrânio faria a incursão. Era novato na cidade e ninguém ainda o conhecia muito bem. O pai chegara, fazia pouco tempo, para assumir no município a Coletoria de Rendas do Estado. Sabíamos, os seus amigos, que o Afrânio era astuto. Via-se nele até alguma solércia velada. “Uma raposa”, costumávamos dizer. Talhado, portanto, para a tarefa.

Recolheria o produto do roubo na caixa d’água da construção. No dia seguinte cuidaríamos da culinária. Tudo  planejado cuidadosamente.

Afrânio levantou-se muito cedo, saiu de casa sem ser visto, e encaminhou-se à rua de trás de onde se tinha acesso aos fundos do terreno. Girou com cuidado a maçaneta, abriu o portão sem dificuldade, e foi entrando. De repente, deu de cara com Nelzinho, o marido de Guiomar. Um homenzarrão de quase dois metros de altura: “Fitava o homem na altura da fivela do cinto”, diria depois.

Numa das mãos, um balde com o leite que acabara de tirar.

Nelzinho acordava cedo, tirava o leite das vacas, enchia os depósitos para coalhadas e queijos, e em seguida, dirigia-se ao Mercado Público, onde tinha um negócio. Ali, com veemência, defendia as suas convicções políticas junto aos camaradas comerciantes da pedra do Mercado.

– O que há garoto? O que quer a esta hora da madrugada?

Afrânio, apontando o balde com um gesto:

– Minha mãe mandou comprar um litro de leite.

No café da manhã, o meu tio comentava à mesa:

– Quando eu digo que esse governador é um celerado, vocês me chamam de leviano. Sabem o que fez agora? Nomeou um louco para tomar conta da Coletoria de Rendas. Onde já se viu acordar uma criança de madrugada e mandar comprar um litro de leite, sem a vasilha, sem o dinheiro e sem, ao menos, saber eu quem sou? Longe dessa gente, Marco Juno!

Descobri nesses últimos dias, o blog do Marcelo, filho do Dr. Vicente Dutra, nosso dentista na Areia Branca dos anos sessenta. Dr. Brás Pereira era o outro dentista. Circulando por lá, encontrei uma bela mensagem que fez em homenagem a D. Ritinha, mulher do Dr. Gentil, os pais de Axel, Izolda, Evangelina, Chico Zé, Haroldo, Júnior, e mais dois ou três cujos nomes não lembro. Coloquei um comentário, cujos principais trechos reproduzo aqui.

casamanoelbento02

Esta é uma foto dos anos 60-70. No primeiro plano vê-se a prefeitura. A casa grande na esquina é a casa de Manoel Bento. A casa menor, no canto direito da foto, é a casa onde morava a família de Dr. Gentil. Ficava quase em frente à casa do Dr. Vicente.

Tenho agradabilíssimas recordações da família do saudoso Dr. Gentil. Fui amigo de muitos dos seus filhos, a começar pela Izolda (acho que o Marconi estava se referindo a ela, quando mencionou o envolvimento de Evangelina com o movimento estudantil). Izolda era minha grande rival na escola de D. Chiquita do Carmo. D. Alice Carvalho era nossa professora. Com o perdão pela falta de modéstia, devo dizer que ao final de cada mês era uma ansiedade danada para saber quem tinha tirado as melhores notas. Ora Izolda ficava na frente, ora eu tirava notas melhores. Ninguém nos ultrapassava. Isso deixava Seu Clodomiro e D. Albertina cheios de orgulho e certamente que Dr. Gentil e D. Ritinha também tinham mais do que motivos para se orgulharem da filha inteligente e aplicada.

Nos anos 70 Izolda foi presa em frente à ETFERN. Soube depois que ela tinha conseguido asilo político em algum país da América do Sul, parece que no Chile.

Fui amigo do Axel e do Chico Zé. Haroldo e Júnior eram mais amigos do meu irmão, Clécio.

Quando estive no Rio, fazendo meu curso de física na PUC, visitei o Axel, em companhia de Chico Novo (Chico Avelino, filho de Chico Avelino). Ele morava, huuum, não lembro o nome do bairro, na zona norte do Rio. Lembro que depois do almoço sentamos numa varanda e devoramos uma bacia enorme de laranjas. Por que diabos aquela imagem ficou marcada em minha memória?

Saudades, saudades . . .

Saudade / Palavra triste / Quando se perde / Um grande amor / Na estrada longa da vida / Eu vou chorando / A minha dor . . .

Não, não é desse gênero musical que eu gosto, nem é este sentimento que me domina o espírito. Mencionei o trecho da música, simplesmente porque ecoava de muitas casas nas manhãs areia-branquenses dos anos 60.

dezembro 2017
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