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                                                                     Primeira crônica de Marco Juno neste blog (2010)

Havia uma construção na Rua do Meio, se não me engano, ao lado da casa de Manoel Bento, o despachante aduaneiro. Tínhamos decidido – Adário Calazans, Antônio de Chico Lino, Afrânio, eu e mais um outro menino cujo nome já não lembro – roubar uma galinha e, de algum modo, prepará-la para uma pequena farra no Sábado de Aleluia. O mérito e a recompensa dessa façanha viriam quando contássemos à turma, ávida de aventura.

O sábado da semana santa era um dia de lamúrias domésticas. Em algumas casas da vizinhança ouvia-se lengalenga de desgraças por sentirem a falta de uma ou duas galinhas no terreiro: “Vagabundos devassaram o galinheiro na calada da noite!” Era frequente se ouvir.

Da laje da casa em construção, observávamos os quintais da vizinhança: Sinhá Quinoca, Zé do Rosário, Quidoca, Guiomar Costa – filha de Alfredo Bernardo, meu avô – e outros que a vista conseguisse alcançar. Avaliávamos qual o mais fácil e seguro para a nossa empreitada.

Após algumas considerações, decidimos pela casa de Guiomar; a minha casa. Ali havia um farto galinheiro. O terreno era grande, fácil de esconder-se numa emergência, o portão de trás não tinha trava na tramela; enfim, a melhor situação. É certo que havia duas vacas mestiças, enormes, com bezerros novos. Mas, ficavam presas num curral, não havia perigo. Eu sabia de tudo.

Afrânio faria a incursão. Era novato na cidade e ninguém ainda o conhecia muito bem. O pai chegara, fazia pouco tempo, para assumir no município a Coletoria de Rendas do Estado. Sabíamos, os seus amigos, que o Afrânio era astuto. Via-se nele até alguma solércia velada. “Uma raposa”, costumávamos dizer. Talhado, portanto, para a tarefa.

Recolheria o produto do roubo na caixa d’água da construção. No dia seguinte cuidaríamos da culinária. Tudo  planejado cuidadosamente.

Afrânio levantou-se muito cedo, saiu de casa sem ser visto, e encaminhou-se à rua de trás de onde se tinha acesso aos fundos do terreno. Girou com cuidado a maçaneta, abriu o portão sem dificuldade, e foi entrando. De repente, deu de cara com Nelzinho, o marido de Guiomar. Um homenzarrão de quase dois metros de altura: “Fitava o homem na altura da fivela do cinto”, diria depois.

Numa das mãos, um balde com o leite que acabara de tirar.

Nelzinho acordava cedo, tirava o leite das vacas, enchia os depósitos para coalhadas e queijos, e em seguida, dirigia-se ao Mercado Público, onde tinha um negócio. Ali, com veemência, defendia as suas convicções políticas junto aos camaradas comerciantes da pedra do Mercado.

– O que há garoto? O que quer a esta hora da madrugada?

Afrânio, apontando o balde com um gesto:

– Minha mãe mandou comprar um litro de leite.

No café da manhã, o meu tio comentava à mesa:

– Quando eu digo que esse governador é um celerado, vocês me chamam de leviano. Sabem o que fez agora? Nomeou um louco para tomar conta da Coletoria de Rendas. Onde já se viu acordar uma criança de madrugada e mandar comprar um litro de leite, sem a vasilha, sem o dinheiro e sem, ao menos, saber eu quem sou? Longe dessa gente, Marco Juno!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Primeira crônica de Marco Juno publicada neste blog, por Carlos Alberto, há exatos 10 anos. Não pedi licença para esta republicação. Para mim, um dos melhores textos aqui publicados.S

Se fosse possível voltar no tempo e fazer minhas escolhas, eu nasceria onde o sol aparece primeiro, em sua caminhada pelo lado de cá do mundo, de frente para o Atlântico, vislumbrando a África por trás daquelas nuvens perto do sem fim, bem depois do horizonte.

Menino, eu sairia pelas várzeas em busca dos últimos maçaricos que brincam nas falésias, em uma tentativa insana de conhecer os seus segredos. Os do encontro rio e mar eu já os tenho, e fica na calmaria desse tênue azul junto ao verde claro, nas proximidades do Pontal. Eu estive ali nesse momento preamar. E ali ficaram todos os miasmas de minha infância.

dsc04357Uma linha verde-azul

Ao lado da pracinha, perto da Coletoria Estadual, percebendo uma aglomeração de pessoas, chegaria em tempo de gritar para um jovem com um objeto na mão, sem ideia do poder daquela peça metálica, e o levaria para comer um cuscuz feito na tampa da chaleira, no mercado público, mesmo que fosse à tarde. Quinhentos réis cada um. E lá se foi minha moeda de mil réis.

Sairia pela Rua do Meio junto com Chico Novo e, nas proximidades do esqueleto do Cine Miramar, armaria outros quebra-canelas, e novamente daria gargalhadas quando algum incauto caísse em um deles, mesmo correndo o risco de sermos  obrigados a lavar o sururu que aquele trabalhador deixara cair. Aqui, a alegria de quem viveu seus momentos criança.

Nadaria no rio Ivipanim, subindo nos barcos ancorados, fazendo hora para ver a triunfal chegada do menino Marco Juno quando retornava da Mutamba de Baixo, pros lados de Icapuí, com os braços abertos em cruz sobre a barriga do barco, à Titanic, saudando a vida e essa cidade com uma igreja em frente ao rio.

Sonhos. Devaneios. Desejos. Lembranças. Nada além disso.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Que bom. Te vejo à noite ao lado da igreja, ali na saída do Beco da Galinha Morta. Estarei lá bem na hora da novena. Depois iremos testar a sorte na barraca do Zacarias. Sei que o pessoal todo vai estar lá. Na sua casa deve estar uma agitação só. Tem gente de fora, pessoal da sua família, vindo de Mossoró. Ontem fui lá e falei tanto do Zorro pra esse pessoal… Queria que ele aparecesse.

Pela manhã fui ao mercado fazer umas compras. Tinha que ser carne de sol, pois lá em casa não tem geladeira, e amanhã é domingo. A cidade está toda enfeitada, tem muitas barracas nas ruas próximas à prefeitura, aonde se instalou o parque de diversões. Vou testar minha pontaria com aquelas espingardas de pressão. No ano passado ganhei até um prêmio, porque acertei várias setas bem no centro do alvo.

Foi uma mulher lá pra casa da minha vizinha pra frisar o cabelo das mulheres. A esta hora a chaleira deve estar fervendo, e o pessoal desengavetando os vestidos novos, feitos pelas costureiras. E haja prova! É um tal de aperta aqui, desce acolá, folga ali, encurta embaixo.

Padre Ismar não para um só momento. O pessoal ajuda no que pode. O problema é que não há um só hotel, e a maioria do pessoal de fora fica na casa dos amigos, ou vai para uma pensão que fica ali perto do mercado.

As embarcações, grandes e pequenas, já estão embandeiradas; percebo olhando do cais. Sempre há o perigo de acidente com o pessoal que participa da procissão marítima, mas todos os cuidados estão sendo tomados para que isso não ocorra. À noite, todo mundo na pracinha, que vai ser a apuração do concurso da Rainha da Festa.

Algumas pessoas correndo para a Rampa. Na dimensão de um infinito de criança, um barco dos beijus adentra o rio Ivipanim, pros lados do Pontal, bordejando no instável de seu casco. Ao se aproximar, percebe-se ser um barco da Mutamba de Baixo, no Ceará. No costado, o menino Marco Juno encerra sua aventura no mar e, de forma garbosa, exibe-se segurado por alguém, com os braços elevados como se fora um viking em seu grito de vitória ecoando no Cais da Rua da Frente.

Nas entrelinhas do sonho, descobri-me perdido no passado.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Os meios de comunicação de massa costumam fazer retrospectivas nas edições de final de ano. Com mais de 77 mil visitas desde que foi criado, em novembro de 2008, este blogue, mesmo dirigido a uma comunidade muito específica, não deixa de ser um meio de comunicação de massa. Então, vamos a uma retrospectiva histórica. Mas, com apenas dois anos já é tempo de fazer uma retrospectiva histórica? É sim! Mas, não é a escala temporal que justifica a retrospectiva, é a densidade de conteúdo e a profunda e intensa atmosfera emocional que tomou conta do blogue. Uma atmosfera cheia de sentimentos de amizade e alegria pelo reencontro de velhos amigos e pela descoberta daqueles que, em tempos idos circularam nos mesmos espaços, e quase simultaneamente, e não se fizeram conhecidos, pelo menos com a intensidade que a memória não desvanecesse.

A frieza da estatística (242 artigos e 1.484 comentários) nem de longe retrata a carga emocional desses encontros e reencontros proporcionados por este espaço virtual, que nasceu de uma troca de mensagens eletrônicas com Marcelo Dutra. Não consigo reproduzir a ordem dos eventos. Sei que visitei o blogue da sua irmã, Márcia, onde li um extraordinário texto sobre seu pai, o doutor Vicente e visitei o blogue de Marcelo, onde li um texto sobre Dona Ritinha e Doutor Gentil, que não consigo mais localizar. Sei que coloquei um comentário perguntando se eles eram filhos do doutor Vicente, de Areia Branca. A troca de mensagens veio depois da resposta de Marcelo, exatamente no dia 6 de novembro de 2008, e no dia 28 resolvemos criar o “Era uma vez em Areia Branca”, noticiado no seu blogue e no meu.

Os dois primeiros textos foram A memória é curta e turva, uma crônica que eu havia publicado no jornal Primeira Mão, editado por Luciano Oliveira em 1998, e Saudades de dona Ritinha, o texto que originou meu contato com Marcelo.

Quando o blogue completou dois meses, Marcelo publicou um texto do seu irmão mais velho, Marconi, sobre a escola de Dona Julita. Foi o primeiro sucesso em termos de comentários. Entre os que ali se manifestaram cabe destacar a entrada triunfal de Dodora, para fazer jus ao título de Menina do Pastoril que recentemente lhe atribuiu Chico de Neco Carteiro, em seu magnífico livro Caminhos de Recordações. Os comentários de Dodora nos sensibilizaram de tal maneira que resolvemos transformá-lo em crônica. Desde então essa menina sapeca de 72 anos tem sido presença constante, agradável e indispensável em todos os cantinhos desse blogue.

Não menos triunfal foi a entrada de Antônio Fernando Miranda, poucos dias depois do início do blogue. Ao comentar um texto de Marcelo, Miranda, um menino da idade de Dodora, mostrou ao que vinha. Juntamente com Antônio José, é a nossa reserva memorial. Quando nossas capacidades se esgotam é aos dois que recorremos.

Othon Souza, nosso profícuo colaborador, manifestou-se pela primeira vez, fevereiro de 2009, com um comentário. No dia 3 de março daquele ano publicou sua primeira crônica.

Depois de entrar em contato para agradecer a referência que fizemos ao seu livro Reaprendendo a Brincar, Evaldo Oliveira, ou Evaldo de Zé Silvino, como era conhecido nos tempos que traquinava ali entre as ruas da frente e do meio, passou a disputar com Othon a posição de mais profícuo e comentado colaborador do blogue. Sua primeira crônica foi publicada em novembro de 2009.

Depois vieram os ilustres e bissextos colaboradores: Chico de Neco Carteiro e Marco Juno. Faço esta provocação deselegante com a esperança de que se encham de brios e nos brindem com seus maravilhosos textos em frequência capaz de mitigar nossa sede cultural. O “bissexto” aqui corresponde àquele traço que riscávamos entre dois meninos para incentivá-los a uma disputa física.

Atribui-se a Tolstói a frase: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. Creio que ninguém aqui neste blogue tem a pretensão da universalidade, mas todos cumprem parte da sentença do grande escritor russo. Todos “pintam” em prosa e verso sua terra natal. Mesmo escrevendo um livro em que mais de 80% do conteúdo retrata outras paragens, Marco Juno deu peso maior aos 10% que margearam sua terra natal por adoção.  A bela capa e o título, igualmente belo e sonoro dignificam Areia Branca.

Sempre me atraíram as possibilidades de encontros inexistentes. Pessoas que circularam nos mesmos locais, nas mesmas épocas, sem se conhecerem, ou impossibilitados de se conhecerem porque circularam em épocas diferentes.

Foi com essa perspectiva que decidi fazer este breve comentário sobre o livro de Marco Juno (detalhes em https://areiabranca.wordpress.com/2009/01/04/canone-areiabranquense). Pontuei trechos nos quais me vi colocado, pela simples razão de que o espaço geográfico ou evento retratado fez parte da minha vivência. Tomo emprestado as memórias de Marco Juno para renovar as minhas.

Nas duas primeiras crônicas do livro o autor faz uma emocionada narração da sua saída de Mutamba de baixo, em Icapuí, e sua chegada em Areia Branca. Sim senhor, é uma narrativa emocionada, mas nada comparável ao que ele apresenta na terceira crônica, Cajuais – Mutamba de baixo.

“Daí, por entre coqueirais, caminhávamos em direção a praia distante. Andávamos dois ou três quilômetros até o mar. Aquelas felizes caminhadas eram aventuras que se tornariam inesquecíveis. Ao subirmos a ultima duna, vislumbrávamos o azul eterno: o céu, o mar, a praia sem fim, branca sem mácula como as nossas consciências infantis.”

Se excluirmos os coqueirais, a narrativa presta-se exatamente às nossas caminhadas em Areia Branca, pela praia de Zé Filgueira até a praia do meio, passando pelo pontal. Caminhadas essas feitas das épocas infantis de consciências imaculadas, às aventuras juvenis de desejos irrefreados.

“Letícia Viterbo. Sobre ela, guardo doces lembranças. Onze anos, morena, os cabelos negros e lisos desciam quase à cintura, olhos verdes, vivos e inquietos, o riso fácil, facilíssimo, as formas definidas.”

Parece que Marco Juno está falando de uma menina que conheci em Grossos, durante umas férias no início dos anos 1960, a minha “Letícia Viterbo”.

Na crônica O limiar do dever, Marco Juno me leva para a casa onde nasci e para a sala de aula da professora Maria Felipe ao escrever: “Naquele ano preparava-me para prestar exames de admissão ao curso ginasial do Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró. O professor Albertino Maciel, emérito educador da cidade, desempenhava um papel fundamental na tarefa de preparação dos jovens areia-branquenses.”

A casa onde nasci, ao lado da casa de Zé Tavernard, era quase em frente à casa do professor Albertino, mas quem me preparou para o exame de admissão no Marista de Natal foi a professora Maria Felipe, de saudosa memória.

“No dia seguinte empreendemos a viagem pelo penúltimo trecho do nosso percurso: Mossoró/Porto Franco. O pequeno ancoradouro está situado à margem esquerda do Rio Mossoró. (…) Minha tia Guiomar, acompanhada de um afilhado seu, Chico Leite, encontravam-se ali, à nossa espera. Esse garoto a ser o primeiro amigo que eu faria naquela nova fase da vida. Do outro lado, à margem direita, já na direção do mar, a cidade de Areia Branca, nosso destino. A travessia se fazia em poucos minutos. As lanchas rápidas de Luiz Cirilo executavam aquela tarefa com eficiência, há muitos anos.”

Tudo aí me toca. Meus avós moravam em um sítio a uns 3 quilômetros (meia légua) de Porto Franco e igual distância da Barra. Com muita frequência ia passar férias ou fins de semana naquele paraíso. Ora ia de canoa, pela Barra, ora ia de lancha por Porto Franco. Viagens inesquecíveis. Não lembro de Chico Leite, pois quando tive contato com ele era muito criança, menos de 5 anos. Foi na época que ele tinha um bar próximo à igreja. Adário Calazans, Zé Moconha e outras figuras desse quilate costumavam me pegar em casa, levar para o bar e me oferecer guloseimas para eu imitar alguns personagens famosos em Areia Branca. Dizem que se divertiam com as minhas macaquices. Eu não lembro de nada!

Mas não foi apenas o relato da sua passagem por Areia Branca que Marco Juno me obrigou a um saudoso mergulho no passado. Em 1957 ele chegou a Natal para morar na Casa do Estudante do Rio Grande do Norte. Três anos depois, exatamente em agosto de 1960, eu cheguei para morar na casa dos meus avós, na Travessa Paula Barros, a um quarteirão da Casa do Estudante. Mas, aí ele já estava de partida para Recife. Se não tivesse ido fazer engenharia em Recife, certamente teria entrado na Escola de Engenharia da UFRN, 9 anos antes da minha entrada no curso de engenharia civil. Finalmente, tivemos nosso pontos de contato nas leituras técnicas. Rosemberg, Príncipe Júnior, Johnson, entre outros livros que lemos por dever de ofício de alunos de engenharia.

Escreva outros livros Marco Juno, você deve isso aos leitores sedentos de boas letras.

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