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Texto que escrevi no blog Papo de Botequim: Prêmio Hangar 2013 homenageia Mirabeaux Dantas

mirabo_capalivro2É um título como convém a um homem de letras refinadas, com a sonoridade de quem tem o gosto pela boa música e a precisão de quem tem o domínio absoluto do seu metier.

É assim que aprendi a ver Mirabô, derna quando adolescentes, éramos vizinhos em Natal. Eu, na casa dos meus avós, João Avelino e D. Antonia, ao lado das minhas tias, Chiquinha e Nair. Ele, na casa da sua tia Nísia, ao lado do primo Danúbio e das primas Dilma e Dinalva. O tio Sebastião, homem do mar, aparecia de tempos em tempos. Era sempre uma visita agradável, com histórias e mais histórias de outras paragens.

Vi Bobô experimentar seus primeiros dedilhados no violão, e, não ria, também fiz uma tentativa. Não mais do que isso. No primeiro solo, no beabá da mais elementar cartilha musical ficou provado que eu tinha mesmo era que ir fazer cálculos pela vida afora.

Lamento que Mirabô tenha demorado tanto a nos brindar com esta pérola, que aliás veio acompanhada de uma “sobremesa” dos deuses, ou seria o prato principal, esses Mares Potiguares?

mirabo_cd_marespotiguares1

Letra e música, como convém a um artista múltiplo.

Veja mais sobre Mirabô neste blog:

https://areiabranca.wordpress.com/2008/05/02/fatos-e-boatos-dos-anos-sessenta/

https://areiabranca.wordpress.com/2008/05/02/a-memoria-e-curta-e-turva-2/

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 12, 1998
Atualizada em 2 de maio de 2008

Há muito que venho alimentando a idéia de compilar fatos e boatos ocorridos ou ditos na Areia Branca dos anos sessenta. O plano tem sido discutido, aqui e acolá, numa ou noutra mesa de bar (ei, Flávio de Pitita, diga aí, não me deixe mentir sozinho, homem!). Agora, com a leitura dos livros de Zé Jaime e Wilson de Moisés a vontade de realizar o plano tornou-se obsessiva.

Em recente visita que fiz ao Mirabô, ouvi dele a promessa de participar ativamente do projeto, coletando depoimentos (orais e escritos) e escrevendo suas “memórias” daquela época (ei, Bobô, você prometeu escrever sobre as músicas que fizeram nossas cabeças; aquelas para serenatas e aquelas para o “rala-bucho”).

Para a nossa geração, a obra poderá servir como agradável e nostálgica volta aos felizes dias de adolescência e juventude. Mas, mais importante do que isso, o resgate de regras e comportamentos sociais proporcionará a montagem de um texto sociologicamente significativo. Por exemplo, na época em que as ruas de Areia Branca não eram calçadas (nem com paralelepípedo, nem com asfalto), os meninos costumavam praticar jogos hoje desaparecidos, tais como tica-bandeira (ou bandeirinha), fura-chão e pião, além das disputadíssimas partidas de futebol, acirrando as rivalidades entre os times da rua do meio e das ruas de trás. Certamente teremos histórias a contar sobre esses jogos. Como eram mesmo o nome e a regra daquele jogo de pião em que o vitorioso tinha o direito de bicar o pião do adversário? Recentemente, Evaldo Alves de Oliveira, hoje médico em Brasília, fez uma interessante contribuição, com seu livro Reaprendendo a Brincar: uma viagem à minha infância. Em breve deverei me ocupar dessas e outras publicações, mas a idéia aqui é provocar amigos e amigas de antanho.

Com a extraordinária fama da Canoa Quebrada de nossos dias, seria interessante que alguém relatasse como era vista essa praia nos anos sessenta. Ei, Altair o que é que você achava de Majorlândia? Conta pra gente! A propósito de praia, o que dizer das nossas caminhadas dominicais (alguma vezes com namoradas!), indo pela praia de Zé Filgueira, atravessando o Pontal e a Costa, para chegar em Upanema? Alguém tem uma história (fato ou boato) sobre os piqueniques escolares, aquele ingênuo lazer que passou a caracterizar os farofeiros de hoje? Quem lembra de Casca-de-ovo (o meu coração é só de Jesus / a minha alegria é o…)? Alguém lembra o último filme do Cine Coronel Fausto?

E o primeiro filme do Cine Miramar?
Qual o local preferido dos namorados no Cine São Raimundo?

A propósito de lembrança, uma pequena provocação ao Zé Jaime: homem, você esqueceu Dona Alice Carvalho, minha primeira professora, na Escola de Dona Chiquita do Carmo. Depois fui aluno da prof a Maria Felipe na 3a e 4a Série. Na 5a Série fui estudar com a prof a Geralda Cruz, cujo rigor disciplinar nos deixava arrepiados. Lembram daqueles tarugos de madeira, com formato triangular, que eram colocados sobre os papéis nas escrivaninhas? Pois certa vez a prof a Geralda Cruz arremessou o exemplar que estava sobre sua mesa, em direção às costas de um aluno malcriado, cujo gemido deve ter sido ouvido na rua.

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 2, 1998

Quisera fosse o contrário: lembrar muito, e com cristalina nitidez. O sujeito sai do seu rincão e se larga pelo mundo afora, conhece gente, vida nova, vai trocando a casca, abandonando as raízes. Quando pára, descobre, com tristeza, que a memória é curta e turva. Alguns registros permanecem intactos, mas outros parecem uma nuvem mal-definida. Não esqueço os comícios e as passeatas de Manoel Avelino, ao som de(…) enquanto a minha vaquinha / tiver o couro e o osso / e puder com o chocalho / pendurado no pescoço / (…) / só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara (…).

Quando a bossa nova encaminhava-se para o sucesso, um trio (como se chamava?) embalava nossas festas em Areia Branca. Mirabô, Maninho e, se não me falha a memória, Zé Amorim; é isso mesmo? Lembro que o Mirabô gostava muito de cantar “chove chuva / chove sem parar (…)“, de Jorge Ben, mas não lembro das canções prediletas do trio. O que eu lembro é que a bossa nova nos alimentava de músicas para curtir ou para dançar agarradinho, mas o que agitava mesmo a tchurma, era o twist e, logo depois, o iê-iê-iê. Alguns se achavam tão bons dançarinos de twist, que resolveram cobrar por apresentações. A efêmera companhia de dança apresentou um único show, em Grossos. Eram duplas, apenas de rapazes – as meninas não tinham suficiente cara-de-pau! Não lembro nem quantas duplas tínhamos, nem os nomes das mesmas.

E as serenatas com radiola portátil? Como éramos ridículos! Éramos, vírgula, porque quando Mirabô & Cia resolvia fazer serenata, a história era outra! Não esqueço “Hoje é noite / de ficar sozinho / de cantar baixinho / pra ninguém notar / (..) / noite triste assim como esta / não quero passar nunca mais / todo mundo olhando pra gente / pensando que a gente / não se ama mais (…)“. Se não era bem essa a letra, é porque a memória é curta e turva.

Para dançar, rostinho colado, no centro do salão, nada comparava-se a “a taste of honey“, estranhos ao luar” (é esse mesmo o nome?), “tender is the night“, a irresistível “the shadow of your smile“, ao som da qual muitas juras e promessas de amor eterno devem ter sido feitas.

Quem esquece “capri c’est fini“, Mamas and the Papas com “sunday will never be the same” (não havia uma versão dessa música?), o grande sucesso “monday, monday” e a inesquecível “califórnia dreamin“? E Nat King Cole com “Mona Lisa“, Paul Anka com “you are my destiny“, (tocava muito no Cine São Raimundo e no Cine Miramar, antes das sessões). Também eram muito executadas, “Malaguenha” e “Granada“.


Antônio do Vale queria registrar uma enchente na Areia Branca dos anos 60, mas captou ao fundo, o Cine São Raimundo. À direita, o prédio original do Cine Miramar.

Mais tarde, já na década de 70, “Marie jolie” embalou corações e mentes de jovens apaixonados. Na sessão dor-de-cotovelo, biriteiros e mal-amados não podiam deixar de lado “negue“, “a volta do boêmio“, “risque“, “sentimental demais” e “brigas” (as duas últimas com o seresteirão Altemar Dutra).

Não pensem que de um parágrafo para o outro minha memória ficou prodigiosa. É que compro tudo que é gravação de música que fez minha cabeça na adolescência e juventude. Depois eu conto como em Paris eu fiz uma vendedora achar uma gravação de “Marie Jolie“. Agora, eu quero é ver o Mirabô aceitar a provocação e, qual uma batalha de repentistas, tomar o mote e fazer as correções que este arremedo de apontamentos históricos merece.

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