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Sei que ainda faltam alguns dias, mas a alegria agita as ruas e o barulho desperta antigas lembranças. Senti vontade de sair às ruas, à cata de algo, resquício de alegria. Trago comigo uma experiência de decepção, violência, depravação, homofobia, exageros do outro lado. O melhor é sequer sair. Talvez curtir um livro, tomar meu vinho branco. Quem sabe até encontro uma garrafa de Pinot Grigio italiano que não lembro se já tomei.

Porém essa agitação destravou algo em mim. Talvez um som, uma frase, talvez um cheiro, o ruído de um surdo distante. E começaram a fluir sons de carnavais de outrora, com imagens e odores das folias de Momo da minha meninice. Areia Branca em festa.

Um bloco se exibe em frente ao palacete municipal; os tambores soam forte, suor borbulhando na pele morena. Nessa agitação frenética, passistas e ritmistas, com o coração a mil, exibem corpos e fantasias em uma tarde quente. Na pracinha em frente, pessoas felizes gritam e se agitam ao ritmo dos surdos, com a conivência dos chocalhos, tamborins e taróis.

Sei que foi o primeira vez e a última, mas fui para o baile no palacete municipal. Dava para ouvir, ao longe, o som de Bandeira Branca ecoar no salão 42 graus. Não deu para providenciar aquela calça com uma faixa costurada dos lados. É que fiquei sem jeito de pedir a Maria Laís Cirilo mais um favor. Também não rolaram o confete e a serpentina. Os quinhentos réis que eu tinha, gastei pela manhã com o aluguel de uma bike de Chiá, irmão de Popõe. Apenas meia hora de felicidade. Prontos para os combates momescos, o Nem Queira Saber, Salenista, Democratas e Remadores tentavam segurar a emoção. Do outro lado, o bloco dos índios empolgava a multidão.

Ao chegar ao salão, ao som de Máscara Negra, o cheiro de lança-perfume invadia o espaço, elevando o tom da animação. Eu também não tinha um lança-perfume.

Passado aquele brainstorming pessoal (palavreado de carnaval), a realidade. A crônica sobre a mesa do escritório, quase pronta. Ao lado, uma garrafa vazia de um Pinot Grigio desafiava minha memória mais que recente: ela já estava ali, vazia, desde o início, ou foi degustada nesse espaço de tempo de pouco mais  de uma hora?

E a lembrança do meu último carnaval em Areia Branca: Vou beijar-te agora, não me leve a mal; hoje é carnaval.

Nada de importante aconteceu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Hoje amanheci pensando nas figuras importantes de Areia Branca, nas décadas de 1950/60. Nesse passeio pelas ruas da história, encontrei o Sr. Dimas Pimentel Ramos, o primeiro farmacêutico da cidade, Dr. Vicente de Paula Gurgel Dutra, Dr. Gentil Fernandes, para citar os não políticos. Porém nessa caminhada surgiu um nome forte, que todos conhecemos, e que até hoje engrandece o portfólio político da cidade.

Tudo isso começou ao ler o comentário de Junior Di Guerreiro, postado no dia 10 de outubro de 2014, na crônica do Comandante Miranda enfocando O Beco De Zé Filgueira, de 2012. Ali, Di Guerreiro se manifesta: Gostaria de saber se Manoel Avelino é realmente filho de Areia Branca e quem eram seus pais.

Manoel Avelino Sobrinho nasceu em Areia Branca no dia 24.09.1924, filho de seu José Avelino dos Santos (Dedé) e dona Cota (Maria Etelvina dos Santos). Com seu um espírito forte, foi o prefeito mais carismático da Salinésia. Conseguia, com seu modo particular, controlar a massa de seguidores, por entender a psicologia das mutidões. Em tempo: Manoel Avelino era tio de Chico Novo, amável criatura que reencontrei em Brasília como engenheiro terceirizado da Petrobrás. Costumo brincar, afirmando que Chico Novo foi meu único amigo rico em Areia Branca.

M. Avelino Chico Novo

No início dos anos 1950, já com o título de advogado (primeiro advogado nascido na cidade), retornou a Areia Branca, instalando seu escritório na Rua  João Félix, em frente à pracinha. De refinada oratória, no período de 1953 a 1955 viria a ser prefeito de Areia Branca. Os marcos de sua administração foram a melhoria da iluminação pública, com a substituição dos postes de madeira por estruturas de concreto, além da limpeza da cidade.

No ano de 1962, Manoel Avelino se tornaria o primeiro Deputado Estadual do RN nascido em Areia Branca, disputando a eleição com Manoel Lúcio, Antônio do Vale e Celso Dantas Filho. Ainda participaria de mais duas legislaturas na Câmara Federal, como deputado. Ao final do seu mandato, assumiria a representação do RN em Brasília.

Em tempo: Manoel Avelino administrou Areia Branca de seu gabinete, neste belo prédio do Palacete Municipal. Foto Antônio do Vale, de 1960.

jardim_19602

Um homem de boa formação, educado, respeitoso. Inscrito com letras douradas no Livro da História da Salinésia.

avelino_juscelinoManoel Avelino discursando. Nesta foto da campanha de Juscelino para presidente, aparecem da esquerda para a direita: Rudson Góis, Jofre Josino, Manoel Avelino (discursando), Vingt Rosado, Quinquinho Lucio, Juscelino, Jango, seu Dimas. Foto O Manoelito (Mossoró).

EvadOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos.

Rubem Alves

21 de março, Dia Mundial da Poesia

Um botãozinho que permita àquele menino vislumbrar o hoje de sua meninice em Areia  Branca, levando consigo o condão do enfrentamento de seus fantasmas, tão pequenos, tão simples, com a real dimensão do medo, que surgem no breu das noites, sugerindo um convênio irrestrito com a cruviana. Fantasmas que vêm do rio, trazendo consigo ruídos de cordas, mastros e velas. Em uma enganosa imagem criada pelo temor, surge um desconexo som de vozes de homens sem rumo que vagam na escuridão do cais, em eflúvios que vão e voltam, às expensas da cruviana.

Logo, a chuva no rosto o adverte de que se encontra em disparada no sentido da parte de cima da Rua do Meio, e se descobre aos gritos, de braços abertos, feito um pião-menino girando em torno da pracinha atrás da igreja, em que na noite anterior moçoilas andavam em pequenos grupos, a passos lentos, de braços dados e de forma cadenciada, fazendo o mesmo, no sentido oposto ao dos rapazes. É um sem querer-querendo na medida da provocação, em um compasso sub reptício com a música da sonora, gritada do alto do Palacete Municipal.

Pracinha:prefeitura

Na verdade, toda essa misancene tem como pano de fundo um eventual encontro  com aquela menininha de olhos de esmeralda que mora em uma casinha cinza da Rua do Progresso, que o menino conhecera na saída do grupo escolar, e seguira seu vulto até desaparecer no umbral da casinha cinza, mas não sabe seu nome.

Pelos caminhos do retorno ao real do hoje, como em uma projeção acelerada, o agora evaldonauta assiste a crianças brincando em ruas sem calçamento, em uma noite quente, pessoas nas calçadas. Dessa barreira passado-presente vazam si bemóis desafinados, com fragmentos de antigas cantigas de roda, e o menino identifica algo como lagarta pintada, quem foi que te pintou… E na tela enigmática a projeção vai em um crescendo, como se um triturador do tempo misturasse todos os sons e todas as imagens, e o resultado dessa cremação fosse espargido nas águas salobras do rio Ivipanim.

Silêncio. Uma bancada, um computador, livros espalhados. Ao lado, uma taça com restos de vinho branco português delata o onirismo pretérito,sem que fosse  necessária a oitiva de testemunhas, como diria aquele criminalista amigo meu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

De repente, a sonora anunciava: Assistam hoje, no Cine Coronel Fausto, ao filme Por Quem Os Sinos Dobram, estrelado pelo finado Gary Cooper. De permeio, uma música do momento, sucesso nacional. Em seguida, outro anúncio importante: Amigos de Areia Branca, não deixem de comparecer hoje à noite ao grande leilão beneficente em prol da construção da Maternidade Juscelino Kubitscheck. No leilão quem manda é a sua vontade. Reúna os amigos e venha disputar as prendas que estarão em oferta no leilão. Este evento ocorrerá na Rua do Meio, ao lado do Palacete Municipal, em frente à casa dos padres, vizinho à casa de Antônio Tavernard. Você não pode perder.

 Os frequentadores da pracinha, em meio às conversas à moda pra boi dormir ou à miolo de quartinha, porém discutidas com ares de sabedoria, paravam no meio da discussão para escutar o locutor da sonora.

 De onde vinha aquele som que mantinha a cidade informada dos acontecimentos que envolviam o dia a dia e a movimentação do Palacete Municipal? É que no alto do prédio da prefeitura, do lado direito, existia um alto-falante que à noite botava a boca no trombone, anunciando as novidades e agitando o público com notícias da cidade e tocando músicas de sucesso. Era a sonora, amplificando a voz de não sei quem, mas de boa qualidade e de humor afiado.

Nesta foto, a sonora em silêncio, no alto e à esquerda, preparando-se para as apresentações da noite.

Palacete Municipal 1

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Neste início de 2019, tendo publicado quatrocentas e dez crônicas, desejo fazer um resumo de minhas postagens sobre Areia Branca, a cidade em que nasci e vivi durante boa parte da minha vida.

A história de Areia Branca, a cidade localizada na esquina do mundo, foi contada por este e outros cronistas desde que se chamava Ilha de Maritacaca. Quando contada por um cronista, a  história sempre se amalgama com a poesia, o sonho com a realidade.

A evolução de povoado a cidade; a quase Guerra de Grossos, com a participação, sem-querer-querendo, de Rui Barbosa, o jurista do Brasil; o encerramento das querelas jurídicas. Aqui, a importância do nosso folclorista Deífilo Gurgel.

A primeira bicicleta, o primeiro rádio portátil, as brincadeiras na lagoa em plena rua a que chamávamos açude, perto do Morro do Urubu, local onde hoje mora a  Maternidade Juscelino Kubistchek. Os benefícios para as famílias pobres (como o sabão redondo de pia), o Beco da Galinha Morta, com seus mistérios na escuridão das noites. Os primeiros automóveis, os sonhos das criança, as festas de Natal, os pastoris, as missas madrugadeiras, fosse na casa de Bagaé ou em Pedrinhas, o Museu Máximo Rebouças. As festas de Nossa Senhora dos Navegantes, a crítica política, os causoslocais, como aquele do prefeito conduzindo garbosamente a cabra Mimosa para ser entregue a seus donos; sem esquecer, juntamente com os esforços do Prof. Carlos Alberto, a destruição do nosso patrimônio arquitetônico, como o Tirol, o Palacete Municipal e a Praça do Pôr do Sol; também falamos do carago, o nosso asfalto branco.

Nos idos de antigamente, lembramos do cigano Aristeu e sua aura macondeana, a misteriosa galena e a égua que mudou de cor. Falamos da nossa maré de sizígia, onde cabia, sem amassar, toda a beleza do rio Ivipanim, com seus barcos a vela. Falamos de nossas praias, em especial da praia de Upanema e seu Farol, um olho no mar e outro no  porto-ilha. Aqui, a saga dos salineiros de ontem e de hoje.

As noites de serração, quando o augúrio e a provocação davam as mãos para que alguém sofresse o bullying do passado, com seu peso de discriminação, rancor e vingança. Em vários momentos falamos das noites da cruviana, do papafigo, dos primeiros protestantes de Areia Branca – os buzuocos-, Carneirinho como um dos pioneiros.

A política local, os comícios e as passeatas; os carnavais, as canoas, os vilarejos de Barra e Pernambuquinho, serenos guardiões do nosso manguezal. A cidade e seus moradores mais ilustres, como José Jaime, Dr. Vicente , Toinho Tavernard, Valquírio, Dr. Willon Cabral e Chico de Boquinha, o inesquecível ativista social da cidade. A visita de Juscelino, as bodegas, que contribuíam para a movimentação do frenético submundo do cais; a Rua Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Os  meninos no cais, contemplando a maré cheia.

Ao fim, a lembrança dos amores juvenis, do Palacete Municipal e seus carnavais, da pracinha atrás da igreja, onde nas festas de agosto era armada a barraca de Zacarias, que alimentou sonhos e fantasias de crianças e adolescentes. Quase me esquecia da Rampa. Ufa!

Que tenhamos todos um 2019 de renovação.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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