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Ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos.

Rubem Alves

21 de março, Dia Mundial da Poesia

Um botãozinho que permita àquele menino vislumbrar o hoje de sua meninice em Areia  Branca, levando consigo o condão do enfrentamento de seus fantasmas, tão pequenos, tão simples, com a real dimensão do medo, que surgem no breu das noites, sugerindo um convênio irrestrito com a cruviana. Fantasmas que vêm do rio, trazendo consigo ruídos de cordas, mastros e velas. Em uma enganosa imagem criada pelo temor, surge um desconexo som de vozes de homens sem rumo que vagam na escuridão do cais, em eflúvios que vão e voltam, às expensas da cruviana.

Logo, a chuva no rosto o adverte de que se encontra em disparada no sentido da parte de cima da Rua do Meio, e se descobre aos gritos, de braços abertos, feito um pião-menino girando em torno da pracinha atrás da igreja, em que na noite anterior moçoilas andavam em pequenos grupos, a passos lentos, de braços dados e de forma cadenciada, fazendo o mesmo, no sentido oposto ao dos rapazes. É um sem querer-querendo na medida da provocação, em um compasso sub reptício com a música da sonora, gritada do alto do Palacete Municipal.

Pracinha:prefeitura

Na verdade, toda essa misancene tem como pano de fundo um eventual encontro  com aquela menininha de olhos de esmeralda que mora em uma casinha cinza da Rua do Progresso, que o menino conhecera na saída do grupo escolar, e seguira seu vulto até desaparecer no umbral da casinha cinza, mas não sabe seu nome.

Pelos caminhos do retorno ao real do hoje, como em uma projeção acelerada, o agora evaldonauta assiste a crianças brincando em ruas sem calçamento, em uma noite quente, pessoas nas calçadas. Dessa barreira passado-presente vazam si bemóis desafinados, com fragmentos de antigas cantigas de roda, e o menino identifica algo como lagarta pintada, quem foi que te pintou… E na tela enigmática a projeção vai em um crescendo, como se um triturador do tempo misturasse todos os sons e todas as imagens, e o resultado dessa cremação fosse espargido nas águas salobras do rio Ivipanim.

Silêncio. Uma bancada, um computador, livros espalhados. Ao lado, uma taça com restos de vinho branco português delata o onirismo pretérito,sem que fosse  necessária a oitiva de testemunhas, como diria aquele criminalista amigo meu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

De repente, a sonora anunciava: Assistam hoje, no Cine Coronel Fausto, ao filme Por Quem Os Sinos Dobram, estrelado pelo finado Gary Cooper. De permeio, uma música do momento, sucesso nacional. Em seguida, outro anúncio importante: Amigos de Areia Branca, não deixem de comparecer hoje à noite ao grande leilão beneficente em prol da construção da Maternidade Juscelino Kubitscheck. No leilão quem manda é a sua vontade. Reúna os amigos e venha disputar as prendas que estarão em oferta no leilão. Este evento ocorrerá na Rua do Meio, ao lado do Palacete Municipal, em frente à casa dos padres, vizinho à casa de Antônio Tavernard. Você não pode perder.

 Os frequentadores da pracinha, em meio às conversas à moda pra boi dormirou à miolo de quartinha, porém discutidas com ares de sabedoria, paravam no meio da discussão para escutar o locutor da sonora.

 De onde vinha aquele som que mantinha a cidade informada dos acontecimentos que envolviam o dia a dia e a movimentação do Palacete Municipal? É que no alto do prédio da prefeitura, do lado direito, existia um alto-falante que à noite botava a boca no trombone, anunciando as novidades e agitando o público com notícias da cidade e tocando músicas de sucesso. Era a sonora, amplificando a voz de não sei quem, mas de boa qualidade e de humor afiado.

Nesta foto, a sonora em silêncio, no alto e à esquerda, preparando-se para as apresentações da noite.

Palacete Municipal 1

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Neste início de 2019, tendo publicado quatrocentas e dez crônicas, desejo fazer um resumo de minhas postagens sobre Areia Branca, a cidade em que nasci e vivi durante boa parte da minha vida.

A história de Areia Branca, a cidade localizada na esquina do mundo, foi contada por este e outros cronistas desde que se chamava Ilha de Maritacaca. Quando contada por um cronista, a  história sempre se amalgama com a poesia, o sonho com a realidade.

A evolução de povoado a cidade; a quase Guerra de Grossos, com a participação, sem-querer-querendo, de Rui Barbosa, o jurista do Brasil; o encerramento das querelas jurídicas. Aqui, a importância do nosso folclorista Deífilo Gurgel.

A primeira bicicleta, o primeiro rádio portátil, as brincadeiras na lagoa em plena rua a que chamávamos açude, perto do Morro do Urubu, local onde hoje mora a  Maternidade Juscelino Kubistchek. Os benefícios para as famílias pobres (como o sabão redondo de pia), o Beco da Galinha Morta, com seus mistérios na escuridão das noites. Os primeiros automóveis, os sonhos das criança, as festas de Natal, os pastoris, as missas madrugadeiras, fosse na casa de Bagaé ou em Pedrinhas, o Museu Máximo Rebouças. As festas de Nossa Senhora dos Navegantes, a crítica política, os causoslocais, como aquele do prefeito conduzindo garbosamente a cabra Mimosa para ser entregue a seus donos; sem esquecer, juntamente com os esforços do Prof. Carlos Alberto, a destruição do nosso patrimônio arquitetônico, como o Tirol, o Palacete Municipal e a Praça do Pôr do Sol; também falamos do carago, o nosso asfalto branco.

Nos idos de antigamente, lembramos do cigano Aristeu e sua aura macondeana, a misteriosa galena e a égua que mudou de cor. Falamos da nossa maré de sizígia, onde cabia, sem amassar, toda a beleza do rio Ivipanim, com seus barcos a vela. Falamos de nossas praias, em especial da praia de Upanema e seu Farol, um olho no mar e outro no  porto-ilha. Aqui, a saga dos salineiros de ontem e de hoje.

As noites de serração, quando o augúrio e a provocação davam as mãos para que alguém sofresse o bullying do passado, com seu peso de discriminação, rancor e vingança. Em vários momentos falamos das noites da cruviana, do papafigo, dos primeiros protestantes de Areia Branca – os buzuocos-, Carneirinho como um dos pioneiros.

A política local, os comícios e as passeatas; os carnavais, as canoas, os vilarejos de Barra e Pernambuquinho, serenos guardiões do nosso manguezal. A cidade e seus moradores mais ilustres, como José Jaime, Dr. Vicente , Toinho Tavernard, Valquírio, Dr. Willon Cabral e Chico de Boquinha, o inesquecível ativista social da cidade. A visita de Juscelino, as bodegas, que contribuíam para a movimentação do frenético submundo do cais; a Rua Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Os  meninos no cais, contemplando a maré cheia.

Ao fim, a lembrança dos amores juvenis, do Palacete Municipal e seus carnavais, da pracinha atrás da igreja, onde nas festas de agosto era armada a barraca de Zacarias, que alimentou sonhos e fantasias de crianças e adolescentes. Quase me esquecia da Rampa. Ufa!

Que tenhamos todos um 2019 de renovação.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Um belíssimo prédio para uma cidade ainda incipiente. Foi inaugurado no dia 31 de março de 1918, em comemoração dos 26 anos de emancipação política do município de Areia Branca. Nesta foto de grande valor histórico, pertencente ao acervo de Gibran Araújo, trabalhadores dão os últimos retoques no que seria o mais imponente edifício da cidade, construído por Francisco Fausto de Souza.

No alto do prédio, uma sonora amada por todos na cidade. Ali eram anunciados os acontecimentos importantes, ao tempo em que se anunciavam os filmes em exibição no Cine Coronel Fausto. A sonora também anunciava as músicas em evidência nas principais cidades do Brasil. Em frente, uma pracinha com um coreto no meio, onde uma bandinha sempre se apresentava, tocando músicas de sucesso. Papai tocava nessa bandinha.Por uma questão de justiça com a história, citarei os nomes dos componentes da bandinha de Areia Branca: Mirabeaux, no trombone, Pedro Abílo no saxofone, José Silvino (meu pai) na tuba, Chico ourives no clarinete (algumas vezes); José Barreto e Quinquinho do mouco no violão, Raimundo enfermeiro no violino e Zé Lagartixa, Chico Caenga ou Chicão no pandeiro. Os filhos de Pedro Abílio, Adolfo e Zequinha, tocavam respectivamente tarol e bumbo. Parte desse grupo tocava no intervalo dos filmes do Cine Coronel Fausto.

Lembro do meu último carnaval naquele memorável edifício. O lança-perfume impregnava o salão, produzindo um estado de euforia que beirava uma sensação de semiembriaguez. Eu, criança, apenas sonhava em dançar ali com uma calça preta com uma franja nas laterais das pernas.

Ao que parece, o pessoal que geriu a prefeitura de Areia Branca sentia um certo desconforto em relação a edifícios antigos da cidade. Guardadas as muitas e óbvias diferenças, lembro que o prédio onde funciona a Embaixada do Brasil em Roma – o Palazzo Pamphili foi construído entre 1664 e 1650, e abriga nossa embaixada desde 1920. Em 1964, tornou-se propriedade do governo do Brasil.

Do lado direito do Palacete Municipal, a casa de Manoel Bento. Em frente e à direita, a casa onde morava a família dos Lúcio. Um trio arquitetônico que – junto com a pracinha -, direcionava uma aura benfazeja para a parte de cima da Rua do Meio, com o Cine Coronel Fausto e a casa dos Belém fechando o quadrilátero. De todos esses, somente a casa dos Belém continua de pé, e ainda ostenta seu astral aristocrático.

Palacete Municipal. Um edifício em pleno vigor de sua construção foi posto por terra.

Isto interessava a quem?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Sabemos que os carnavais de Areia Branca são e sempre foram muito animados, com os clubes de frevo e os blocos de índios liderando as apresentações de rua, tendo como ponto do desfecho a pracinha. Ali, muitas vezes fiquei deslumbrado com as cores berrantes e o brilho ofuscante das passistas, no embalo das músicas de carnaval, replicação dos sucessos musicais que embalavam o carnaval de todos os carnavais: o do Rio de Janeiro.

Nas ruas, de domingo a terça-feira, os ursos aterrorizavam as crianças que, apavoradas, escondiam-se nos recônditos mais profundos de suas casas, ou agarravam-se às pernas seguras do vovô ou da vovó.

Nas rádios, desde o raiar do dia até o desligamento da energia, por volta das dez horas da noite, músicas carnavalescas animavam as raras casas que dispunham de rádio. As pessoas eram tomadas pelo espírito carnavalesco, independentemente de sua condição financeira ou social.

Lembro do último carnaval de que participei, já grandinho. Não lembro o ano. Meu sonho de adolescente era ter uma calça azul com uma franja amarela na lateral. Nunca realizei meu sonho.

Não sei como consegui entrar no baile do Palacete Municipal. O que lembro é de minha ansiedade por apertar o gatilho de uma Rodouro, na tentativa de expandir aquele cheirinho mágico pelo salão. O lança-perfume tinha o condão de acalentar amores juvenis mal correspondidos ou em formatação. No meio da festa, o resmungar de umo sonho: se tivesse uma Rodouro, eu ganhava aquela menina. Pura ilusão. À disposição, apenas um pequeno rolo de serpentina já usada. E isso era insuficiente.

Palacete MunicipalFoto histórica da inauguração do Palacete Municipal – Gibran Araújo

No ano de 1961, por decreto, o presidente Jânio Quadros proibiu a comercialização do lança-perfume no Brasil, em face dos prejuízos causados ao organismo quando inalado de forma tresloucada. O uso indevido desse produto podia causar desde euforia e excitação, passando pelo famoso “tuim” – parece o barulho de uma linha telefônica aguardando uma chamada – até o coma profundo e a perda da memória.

Para mim, carnaval e lança-perfume traziam, juntos, a incrível capacidade de produzir sonhos. No caso do lança-perfume – Rodouro -, jamais consegui ter uma em minhas mãos, para uso próprio.

Lembro que pessoas menos esclarecidas utilizavam o metal do lança-perfume para, nas festas populares, fazer uma capa para os dentes, geralmente os dois caninos, para distribuir um falso e azinabrado sorriso. O zinabre é o resultado da oxidação do cobre, deixando escuro, em poucos dias, o que antes brilhava e encantava nos sorrisos que se escancaravam nas cercanias dos brinquedos dos parques de diversões. Daí, a lembrança daquela mensagem em forma de postal sonoro para a jovem de sorriso brilhante ao lado do carrossel de cavalinhos.

Assim foi meu carnaval em um dos últimos anos da década de 1950. Alegria, emoção, encantamento.

E sem Rodouro.

setembro 2019
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