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Neste fim de ano, sinto-me indisposto e sem inspiração. Não consigo fechar uma crônica bonita, com força e cor de novidade. Desse modo, lanço mão de uma calça velha, digo, de uma crônica do passado,  meio desbotada, com os remendos e as pucumãs que o tempo impôs.

E descobri-me a versejar sobre o voo dos maçaricos pelos baldes das salinas,  a saltitar com suas canelas finas na secura do chão, ou quando passavam céleres pelos ombros das falésias, que bravamente resistem aos sacolejos do vento que vem do mar.

Aqui, a lembrança quase sonho de passear pela Praia do Meio em manhãs sem as amarras do compromisso, a água rasinha levantando ondas pequeninas, tangidas pelo mesmo vento matreiro que arrasta o cheiro gostoso de salitre arrancado de manguezais distantes. Canelas finas e pés descalços imprimem rastros de criança contemplando siris valentes em sua luta contra o vai e vem das ondas.

Veio a lembrança do charme boêmio e da aura de mistério que sempre envolveu o Beco da Galinha Morta, com suas estórias e seus personagens no limite do nano, que os sabemos divulgados na atmosfera quase ilimitada do tera.

Lembrei-me daqueles cabelos loiros que balouçavam sobre um corpinho de boneca, dando voltas na pracinha, nas noites festivas dos agostos de minha meninice, espargindo eflúvios invisíveis, em conluio com o sorriso das deusas.

Sei que não contaria nos dedos as vezes em que comprei traques e estrelinhas nos são-joões da minha infância, acreditando que ela viria, mesmo sem saber de onde. Imaginava que quando agosto chegasse eu estrearia minha calça nova nas novenas da festa da padroeira dos navegantes de todos os mares.

Vi-me na beira do cais, a maré cheia, na tentativa de decifrar vultos distantes de barcaças fugindo no rumo do mar, com as dificuldades de um vento atrapalhado, preso ao dilema do meio sem rumo e sem sentido.

E surgiram vozes e pisadas abafadas que marcaram as madrugadas escuras que dominavam a Rua da Frente, confundindo-se com o barulho quase natural, vindo  do rio, com suas embarcações em uma tensa e agitada acomodação.Aqui, a fonte de boa parte dos temores da minha infância.

Na mente, a lembrança das três batidas secas e insensíveis do sino da velha igreja, a transmitir mensagens com suas pancadas de martelete; uma encriptação sonora primitiva.

De passagem pela mente, a lembrança aterrorizante de um crime no mercado público. Aqui, o entendimento de que uma faca não mata; quem mata é a mão que a segura.

Nesse emaranhado de lembranças, as escassas chuvas de então, assessoradas por trovões raivosos que ribombavam no oitão da igreja. De quebra, aquele sem fim dos banhos de bica, a água desamparada martelando o anteparo da moleira, alavancando minha euforia de verões quase perenes.

Um susto com a tentação de apagar meus rastros no chão do tempo, evitando insensatas tentativas de retorno, hoje sob o domínio do impossível.

Ao final, o vislumbre do bonde da História, que o menino não viu passar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Em Areia Branca, os muros são pichados com o que há de pior na ponta de um pincel. Garatujas se espalham pela cidade, emporcalhando o que bonito não era.

Como uma onda benfazeja, alguns poetas anônimos iniciaram um movimento que, mesmo desordenado, espalhou-se pela cidade, atirando poesias na cara de um povo ainda desacostumado aos bons ventos da cultura.

E surgiram coisas assim, por mim fotografadas há alguns anos:

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Em maio de 2019 caminhei por essas ruas, revisitei esses muros. Uma lástima. Tudo indo por descaso, digo, por água abaixo. Não houve fotos, pois seriam horríveis.

Hoje, tristeza também nos muros. A poesia se esvai. Sem fotos.

No contraponto, o Muro de Lennon, em Praga, continua vibrante. E o de Julieta também, em Verona.

muro-de-lennon-em-praga-rep-tchecaMuro de Lennon

muro-de-julieta-em-verona-itMuro de Julieta

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Quase esquecia da minha preferida

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No olhar do papafigo, o medo que ficou

Na incelença, a esperança que anima

Na serração, o terror na noite escura

Um barulho no escuro, temor, respingos da infância

buzuoco que passava, Bíblia na mão; intolerância religiosa

O vento que vem da várzea, salitre

O barulho do cata-vento, moinho de vento que jamais existiu

O manguezal que protege; a limpeza do Ivipanim

O homem que destrói; cicatrizes urbanas

Procissão dos Navegantes, a fé que anima

Barcaça no mar, velas ao vento

Os barcos no rio; lembrança dos beijus

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Buzuocos: os primeiros protestantes de Areia Branca, nas décadas de 1940/50.

Pelas ruas de Areia Branca sempre nos defrontamos com pichações horrorosas e rabiscos sem justa causa emporcalhando muros e paredes de residências e casas de comércio. São muros e paredes que recepcionam o pior de quem não se fez grafiteiro. São jovens trazendo em suas mãos irresponsáveis o spray e o pincel da estupidez.

De repente, versos começaram a brotar nos mesmos muros mal cuidados, como arautos dos bons tempos que estão por vir. Os poemas trazem consigo a pureza de um anonimato responsável e a aura poética de uma juventude criativa, de olho em um ponto futuro determinado por um planejamento estratégico ainda não formatado.

Em Verona, na Itália, conheci o Muro da Julieta. Visitando Praga, capital da República Tcheca, conheci outro muro também famoso. Ali, alguns jovens poetas da cidade decidiram protestar contra o imobilismo cultural e a falta de liberdade, depois da morte de John Lennon, inserindo poemas em um muro até então inexpressivo, sendo hoje o Muro de Lennon a maior atração turística cultural de Praga.

Muro de Lennon, Praga

 

Em Areia Branca, a sutileza de uma geração de jovens na aridez de um muro.

A cultura na terra do sal.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No hoje que o ontem supora ser, a saudade – em um dia inusitado -, juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita. No mundo Upanema, à esquerda, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduzirá ao ponto estático.

Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. Com uma troca de olhares, sem a necessidade de um piscar, convocam a esperança e, juntos, vislumbram a cidade que se exibe à margem esquerda de um Ivipanim estafado de tantas idas e vindas, em seu trabalho diuturno de purificação das águas que aqui chegam no depois de um poluente Mossoró pleno de descaso.

Um filme retrofitlico lhes assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje lhes chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam ao vento gris. Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje.

Sei que a história, plena de desconsolo, em sua frustração de não encontrar aqui os tatuís de outrora, e por os saberem fugazes habitantes de páginas vernissageadas de poetas loucos como eu, fará constar em seus anais os ditames da realidade do hoje, em que a memória se desfaz no roldão do nada a dizer.

No contraponto de uma visão binocular, percebemos uma vela triangular a nos lembrar que tudo valeu a pena. E como valeu!

 

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EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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