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“[…] Eu sei que você já viu um pé de goiaba, um pé de laranja e um pé de manga. Pode até ter plantado algum no quintal da sua casa […] Mas suponho que você nunca viu um pé de saudade. […]”

O trecho acima está no livro “PORTO FRANCO”, a mais recente obra do escritor areia-branquense Chico de Neco Carteiro, a quem, no meio literário, insistem em chamar de Francisco Rodrigues da Costa. Porto Franco é o retorno de Chico ao seu memorialismo apaixonado e puro, carregado de saudade, após ter ele se enveredado em dois romances: Perdão e Guanabara. Quando muitos pensavam que se haviam esgotados todos os dizeres do memorialismo areia-branquense, mais uma vez com o selo da Editora Sarau das Letras, o escritor reaparece com suas crônicas encantadoras, falando sobre o antigo porto que marcou época na região da Costa Branca. O lançamento ainda não tem data definida. Mas, quando chegar a hora, vale a pena conferir.

2017.04.19 Porto Franco capa.png

Abaixo, recortes da crônica “A Igrejinha da Barra”, de Porto Franco.

A IGREJINHA DA BARRA

Do patamar da nossa igreja matriz em Areia Branca, avistava-se, no outro lado da maré, uma capelinha branca. Um belo quadro. Mas, para que os areia-branquenses desfrutassem dessa paisagem, foi preciso a iniciativa de Chico Amâncio, morador da Barra. Ele podou uma área do manguezal que encobria a capelinha. […]

[…]

Dia desses eu estava em Areia Branca. Um sábado. Tomei conhecimento que o meu amigo Dom Marcelo iria cantar a Ave-Maria de Schubert num programa musical intitulado: Projeto “Pôr do Sol”. Justamente na hora em que a Estrela-mor nos abandona e vai iluminar a outra parte da Terra.
Fui prestigiar o filho de Manoel de Marina. Cheguei cedo, antecipando-me ao salmista oficial da paróquia, nomeado pelo padre César.
Enquanto isso, do patamar da igreja, eu procurava ver a Igrejinha da Barra. Não conseguia, os mangues me impediam. A Capitania dos Portos, numa preservação ao meio ambiente, não permitiu que outro Chico Amâncio podasse o manguezal.

[…]

Finalmente, a apresentação. Além dos aplausos do público, Dom Marcelo recebeu calorosas palmas de uma turista francesa, acompanhadas do incentivo:

─ Bravo, monsieur.”

(*) Os grifos em negrito são nossos.

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Saí da Rampa quase no final da tarde. Sem que nada lhe fosse dito ou perguntado, o canoeiro, companheiro de outras lidas, guinou para a esquerda, no sentido de Grossos. Deixei-me levar. À esquerda, imagens da Rua da Frente, digo, do que resta daquilo que foi o cartão postal da cidade, começando na igreja matriz e terminando no Tirol, estrutura que emoldurava a Praça do Pôr do Sol. Hoje restam apenas as marcas da insensatez. Em todo aquele trecho da rua não há uma loja em atividade, ou qualquer outro sinal de vida inteligente.

canoeiro

Onde outrora imperava a elegância e o bucolismo do Tirol, restam apenas espectros sem vida. São fácies doentias compondo o enredo da devastação. Nos dias de nossa meninice era ali que ficavam as casas mais aconchegantes da Rua da Frente, e com certeza habitadas por famílias felizes, influentes, pertencentes à classe média alta da cidade.

E a canoa foi deslizando nu rumo de Grossos, onde o rio Ivipanim aprende a dar seus primeiros passos em busca da autopreservação, mas ainda confuso, saindo de um tilt teste que revelara uma síndrome vasovagal aquática quase sem solução. O manguezal que o diga, responsável que é por sua depuração.

De repente, sem que uma palavra fosse pronunciada, a canoa deu uma volta com a elegância de uma serpente, retornando de forma serena, quase que sem que o rio percebesse. Imaginei uma êntese em ação, movimentando articulações de madeira que não admitem torções, exceto as do motor.

Fechei os olhos. Não queria um bis visual do final da Rua da Frente. E assim, como se houvera em mim um rebaixamento do nível de consciência, passei novamente por toda a rua tendo os olhos fixos em pequenas poças d’água que se acumulavam no fundo da pequena embarcação. De repente, fui surpreendido pela parada do motor. Levantei o olhar. À minha frente, um pôr de sol indecente, digo, incandescente, com o amarelão pontilhando um céu escuro. Era o brilho do esplendor. O êxtase da pura beleza.

Ali, percebi que tudo valera a pena. De volta à Rampa, uma triste constatação. Ficara tão embevecido com aquela imagem de final de tarde que esqueci de tirar uma foto. Não adiantava retornar. Naquele canto do céu tudo se fragmentara. À direita, imagens do Pontal. Pros lados de Tibau, um furdunço de cores pontuava os estertores de um sol em agonia.

No início, achei que bastava uma canoa como parte de um sonho em movimento, o Ivipanim como provedor. Mas faltava a foto.

Alguém foi lá e fez o que eu não consegui. Uma foto. A foto da minha visão, mesmo que em outro ponto do rio.

por-do-sol

Esta, com assinatura. No canto direito.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Era final de uma tarde de sexta-feira, a quatro dias da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Estávamos reunidos no hotel de Upanema quando fomos avisados de que em frente ao Marco Zero, voltado para o patamar da igreja, estava ocorrendo a apresentação semanal de um conjunto musical que acontecia ao cair da noite. Um happy hour com direito a um belo pôr de sol. Saímos de forma estabanada no rumo da Rampa.

Uma pequena multidão se aglomerava entre o Marco Zero e a Rampa. Na frente da igreja, as pessoas, em postura viking, saudavam a apresentação do alto do patamar – agora em forma de um barco – e pareciam dispostas a invadir o rio, no resgate dos últimos fragmentos de um sol muito vermelho que agonizava pros lados de Tibau. A música como incentivo.

De fato, ali, em pleno Marco Zero, alguns músicos prestavam uma homenagem ao pôr do sol mais belo do Rio Grande do Norte.

Ao sairmos, assistimos a um sol confuso, cominutivo, tentando espalhar os restos de vermelho em um céu gris. Um convite à reflexão. Puro encantamento.

Somente depois viríamos saber que se tratava de mais uma apresentação do Projeto Pôr do Sol, iniciativa da Prefeitura Municipal para incentivar o deslocamento das pessoas nos finais das tardes das sextas-feiras para, de forma comunitária, curtir o pôr do sol do patamar da igreja, ao tempo em que assiste à apresentação de músicas de boa qualidade, sejam cantadas ou executadas por excepcionais instrumentistas.

Projeto Pôr do Sol. Um oásis de boa música. Uma sobremesa para a Poesia Nos Muros.

Uma seresta, ao final.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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