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Texto de Antônio Fernando Miranda

(Veja também a Parte II)

O grande problema de Areia Branca, o abastecimento de água potável, remontava desde o tempo em que a cidade era um povoado. Segundo o professor Deífilo Gurgel, em seu livro Areia Branca a terra e a gente, depois da grande seca de 1877, conhecida como “a seca grande”, foi construído um pequeno açude no local onde hoje é a Praça Luiz Batista. Como nasci na rua João Felix com Machado de Assis, numa casa onde hoje é a papelaria Brasil, lembro nos anos 40 do século passado, quando burros e carroças, vinham se abastecer, para vender a água aos seus habitantes. Porém, naquela época a água só servia “para o gasto”, ou seja, para lavar roupa, louça e tomar banho. O abastecimento da água potável era feito por burros e carroças, de várias cacimbas existentes no Upanema de Cima. As mesmas eram conhecidas pelos nomes de seus donos. Assim havia a cacimba de Pitico, de Pedro Rodrigues, de João Ramos, Rufino, Antonio de Pautilia, esta e outras ainda existem (foto abaixo). Somente este ano tomei conhecimento dessas que ainda existem, graças às informações prestadas pelo senhor Manoel Gonzaga da Silva, que foi um guia neste assunto.

A única cacimba que frequentei, algumas vezes em companhia de um primo que ia lá colher água, foi a que existia no farol da praia de Upanema, atrás da casa do faroleiro, e que até hoje, apesar de encoberta por uma laje, poderia servir como um marco, caso fosse restaurada. Ela era, e é, de pedra, tendo aproximadamente um metro e pouco de diâmetro, e tinha uma elevação do solo cerca de uns 60 a 80 cm. Foto Miranda

Esta cacimba, bem poderia ser reparada, porque pertence à Marinha do Brasil. Caso semelhante aconteceu em Fortaleza, quando uma cacimba foi aberta no centro da cidade em 1839, e funcionou até 1920.

Esta cacimba, que abastecia os moradores de água potável, foi coberta por uma laje, e durante muito tempo assim ficou, até que na reforma da Praça do Ferreira em 1991, foi restaurada, e hoje serve para o abastecimento da fonte na citada praça, e para mostrar aos seus habitantes, o valor que a mesma tinha na época. Foto Miranda
Foto Miranda Esta é outra cacimba que tomei conhecimento graças ao meu guia, e que também deveria ser restaurada, pois foi obra (ou é ainda?) da prefeitura, e que no momento o terreno onde se encontra, pertence ao senhor Joãozinho ourives. É uma cacimba com aproximadamente 4 metros de diâmetro, que muito contribuiu para o abastecimento da cidade, através dos burros e carroças, e do caminhão pipa da prefeitura.

Duas cacimbas que ficaram famosas pelo zelo dos seus donos, em mantê-las em completo asseio, eram a de Zé Lucena e a de Fransquinha de Pixico. Isto porque nas demais, os que enchiam as pipas ou ancoretas, depois tomavam banho em cima da própria cacimba, voltando a água novamente para ela acrescida do suor. As duas citadas ficavam próxima uma da outra, ambas fechadas a cadeado. Devem ter sido soterradas pela ação dos ventos, no terreno próximo ao reservatório da Petrobrás.

Os burros e carroças eram a adutora móvel, conduzidos pelos tropeiros (na época não se chamavam assim). O mais conhecido de todos foi João de Lelé, que era assim chamado porque, desde a hora que se levantava para ir buscar a água no Upanema, geralmente às 3 horas da manhã, e até encerrar suas atividades do dia, estava sempre assobiando. Ao contrário de dona Lelé, João era um magricela. Havia ainda, Zé de Rosa, Zé da burra e outros. Geralmente os donos dos burros, tinham seus pontos de revenda cujos donos mantinham tambores como coletor de água, que era vendida aos que necessitavam.

Isto porque era difícil fazer o equilíbrio nas ancoretas, pois nem sempre a água era vendida toda em uma mesma rua, e isto causava desequilíbrio. Então, o processo de encher e esvaziar era da seguinte maneira: tirava-se meia lata d’água de uma, e depois da outra, sempre mantendo as mesmas em equilíbrio, e isto tornava o trabalho demorado. Assim, ao retirar uma lata d’água de cada ancoreta, ao iniciar a caminhada dos burros, provocava um balanço, que certa vez causou o rolamento de uma cangalha, indo as ancoretas ao chão. Foto de Abimael Thales

Um dos pontos de revenda da água mais conhecido que eu lembro, era a de Joana do Açu, mãe de Caramuru, Carapoca e Cueca, famosos por suas peripécias. Esta casa ficava na atual rua Deputado Manoel Avelino (antiga rua Dr. Almino) com desembargador Silvério, só que na época, não existia a casa da esquina e a vizinha, não havendo assim o alinhamento de hoje. Certa vez, foi encontrado uma lombriga dentro de um dos tonéis, colocada sem dúvida por um dos três artistas.

Mesmo depois da perfuração do poço, em 15/08/1968, na administração do Prefeito Dr. Chico Costa, para o abastecimento d’água em Areia Branca, o abastecimento d’água continuou sendo feito por burros e carroças, das cacimbas citadas. Isto porque, ao jorrar a água do poço perfurado, a mesma atingia uma temperatura inicial de 70º, que não permitia sua utilização de imediato.

Sanado o problema cruciante da cidade, o abastecimento de água potável, continuou o mesmo nas as comunidades rurais, que será objeto da próxima crônica.Por enquanto apreciem esses tipos de cacimba. À direita, Manoel Gonzaga ao lado de uma cacimba descoberta pela erosão.

Fotos Miranda.

Cacimba de Antônio Pautilia Dono desconhecido

Texto enviado por Antônio Fernando Miranda.

Nos anos 20 do século passado, honorina, uma jovem bonita, casava-se com José de tal, que era conhecido popularmente como Dedeca. Ele se estabeleceu como pequeno comerciante, na então chamada ilha do garrafão, onde hoje está em lado oposto a firma Travassos. Seu pequeno comércio era um ponto de parada obrigatória para quem transitasse entre Areia Branca, Upanema, Pedrinhas e Baixa Grande. A parada, obrigatória para uns, era para tomar água ou um café reforçado, com bolacha, tapioca e outras iguarias, para depois seguir viagem. Isso era especialmente verdadeiro para aqueles que faziam o transporte de água de Upanema para Areia Branca. Como saíam muito cedo, tomavam seu café em honorina. Também era uma boa pedida para aqueles que passavam por lá em seus cavalos. Esses paravam para tomar suas “bicadas” ou “chamadas”, uma cachacinha no linguajar de hoje. Naquela época não existia a famosa “loura suada” e a cachaça era o aperitivo obrigatório. 

Assim era a lida do casal Dedeca x Honorina. Certo dia, um dos cavalheiros lançou seus galanteio para a jovem Honorina, e esta não resistiu, e “deu com os burros n’água,” como se dizia naquela época. Talvez tenha sido influencia da tez de ambos, que era de um branco avermelhado acrescida de sardas, enquanto Dedeca era de tez morena. O marido traído, não querendo lavar a honra com sangue, optou, de modo racional, deixar a esposa infiel entregue à própria sorte, mudando-se para mais próximo da cidade, entre os “cercados” de Zé Lourenço e Antonio Calazans, sendo mais próximo deste. 

Algumas vezes, ainda pequeno, quando ia para a casa do meu padrinho Manoel David, responsável pelo “cercado” de Antonio Calazans, ia fazer pequenas compras para minha madrinha, na bodega de Dedeca. Do lado direito da bodega de Dedeca, porém um pouco mais distante, ficava o cercado de Zé Lourenço. 

1-Areia Branca / 2-Pouso dos tecos-tecos / 3-Cercado de Zé Lourenço / 4-Bodega de Dedeca / 5-Cercado de Antonio Calazans /
6- Casa de Dedeca e Honorina / 7- Casa de Honorina e amante /
8- Praia de Upanema 

Nesses “cercados” foram instalados os dois mais conceituados cabarés de Areia Branca, naquela época, o de Marina e o de Beata. O primeiro cabaré de Marina foi instalado no final da rua Joaquim Nogueira. Nas proximidades ficava o de Beata, Joana André e outras. Depois Marina foi para o “cercado” de Zé Lourenço, e o cabaré de Beata foi para o lugar do primeiro de Marina. Posteriormente Beata se mudou para quase em frente ao cabaré de Marina. Depois Marina foi para o “cercado” de Antonio Calazans e Beata ocupou o seu lugar em Zé Lourenço. De Marina em Zé Lourenço, me lembro de dois fatos. O primeiro foi quando uma prostituta ainda jovem ateou fogo no corpo, com ciúme de Chico de Manoel Bernardo (Chico Saia). Teve apenas alguns dias de vida. O outro foi quando Nilo Gama (primo de Mirabô) passou a ser o amante de Marina, e como todo amante que se preze, recebia da mesma tudo “do bom e do melhor”, expressão muito usada na época. Houve também donos de cabaré, como Antonio Carpina, Manoel Pemota, Arlindo (que cortava dos dois lados), e outros. 

O amante de honorina era um pequeno industrial salineiro, como também pequeno pecuarista, pessoa bem conceituada na cidade, e demonstrando sua responsabilidade com a amante, mandou construir uma casa, no lado oposto ao do lar desfeito, e montou um pequeno comércio que serviu de sustento para ela, durante o resto de sua vida.

Lembro-me dela quando, por mais de uma vez, ali paramos para beber água, em companhia de meu avô e de alguns primos. Uma reconfortante parada na nossa caminhada até a praia de Upanema. Lembro também quando ela vinha à cidade para fazer compras para sua bodega. E assim foi que Honorina criou o seu filho João, que certamente por não gostar de trabalhar, aumentava a responsabilidade dela para com o trabalho. João de Honorina, como era conhecido na época, Zé Barreto, um dos maiores violonista de Areia Branca, Zé Felipe (meu irmão) e Chica Nêga (homem, apesar do apelido) eram verdadeiros devoradores da água que o passarinho não bebe. As suas serenatas eram admiradas pelas moçoilas da época, das quais arrancavam suspiros com suas melodias. Este quarteto durou até o inicio de 1949, quando meu irmão foi servir o exercito em Natal, onde faleceu, vitima de um atropelamento.

Honorina, após terminar o romance com o seu conquistador, teve outros “casos” com outros cavaleiros, mas acredito que sua verdadeira paixão tenha sido mesmo o seu “branco sarará” como se dizia na época. Acredito que o final da paixão arrasadora tenha contribuído para que ela também passasse a fazer uso da água que passarinho não bebe, certamente, afogando suas mágoas, curtindo sua dor de cotovelo. Não recordo até quando a mesma existiu; acredito que tenha sido até o final dos anos 1950, pois no inicio dos anos 1960, no local do seu comércio, estava estabelecido o senhor que era conhecido como “o mouco de honorina”, numa referência ao local em que a mesma ficou conhecida. Sua deficiência auditiva o fazia alvo de gozações; diziam que as pessoas ao chegarem no seu estabelecimento, pediam açúcar e ele trazia café, pedia arroz, ele trazia feijão, e assim por diante. Por mais que procurasse junto aos mais antigos, data aproximada da partida de honorina, não foi possível obter. E assim, este é um pequeno relato, daquela que ficou conhecida como “a flor da estrada”.

O texto abaixo é do meu irmão Marconi, que solicitou sua publicação neste espaço. Atenção para a proposta de um encontro em Areia Branca, no último parágrafo.

Meu nome é Marconi, segundo filho do Dr. Vicente Dutra e D.Nenen. Nasci em 1.951 e sou de Areia Branca, como meus outros quatro irmãos Marta, Marco Aurélio, Marcelo e Márcia. Aos onze anos fui estudar no Colégio Militar em Fortaleza, para onde a família se mudou definitivamente no final de 1.963, em busca de melhores condições de educação.
Nos quatro anos seguintes, as nossas férias eram em Areia Branca viajando na companhia de Duarte e Júlio César, que moravam em Fortaleza.
Muitas coisas aconteceram neste período… as primeiras namoradas, serenatas, passeios, futebol, voley, praias, pescarias, carnaval, conversa fiada e muita diversão.
Daí pra frente a Universidade, os estágios, o trabalho, novas perspectivas de vida, o namoro e os novos amigos, fizeram com que as idas fossem ficando raras.
Em 1.973 me formei Engo.Mecânico na UFC, e desde 1.975 estou casado com e cearense Diva, com quem tive três filhos – Igor e Leo cearenses e casados, e Tiago, baiano e solteiro, um neto e o segundo sendo esperado para maio próximo.
Voltei a Areia Branca em 1.975 para conhecer o porto ilha da Termisa, num passeio maravilhoso e emocionante a bordo da lancha Natal da C.C. Navegação.
Em 1.977 vim transferido para Salvador na Bahia, cidade onde moro e que por opção escolhi para viver.
Retornei a minha cidade em 1.978 já com a família e novamente em 1.984, agora acompanhado dos meus irmãos. Nas duas ocasiões fomos muito bem recebidos por Gracinha e toda a sua família, com sua conhecida hospitalidade de seus pais Sérvulo e Celi .
A cidade tinha crescido, vimos alguns dos nossos velhos amigos e visitamos os lugares conhecidos.
Em dezembro de 2.003, de férias em Fortaleza e sem qualquer programação prévia, resolvi que depois de quase vinte anos deveria rever Areia Branca, e acompanhado por Diva e Tiago, fizemos uma viagem relâmpago mas bastante interessante, onde em apenas um dia visitamos a cidade, passeamos e almoçamos na praia de Upanema, e fomos até a Ponta do Mel que ainda não conhecíamos e ficamos encantados com a beleza do lugar e do hotel que ali se instalou, não tendo a oportunidade de procurar ou rever nenhum dos velhos amigos.
Encontramos uma cidade bem diferente. Mais populosa, ruas pavimentadas, um comércio mais vigoroso, novas praças, um novo mercado municipal, um novo cais, um sistema de travessia do rio para Grossos por “ferry”, mais moderno e eficiente, uma indústria naval ativa e a bela praia de Upanema bem mais estruturada com restaurantes, casas novas e um novo farol.
Mas ainda pude ver a velha Maternidade Sara Kubitscheck, o Ivipanim Clube, a Prefeitura Municipal, a Igreja Matriz e a casa onde moramos na rua Cel. Fausto. A decepção ficou por conta do Cine Miramar, que vimos inaugurar e que estava em ruínas.
Pensando nisso tudo, conversei ontem com Marcelo e propus a ele que visse com os velhos amigos, a possibilidade de organizar um encontro em Areia Branca, aproveitando um dos feriados que teremos este ano numa das terça ou quintas-feiras.
Sei que não é tarefa fácil juntar tantos amigos, mas quem sabe se não teremos sucesso !!!
Um abraço,
Marconi

agosto 2017
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