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Esse trecho da Rua da Frente é uma área pouco visitada pelas pessoas de outras ruas. Trata-se, na verdade, de uma região diferente, mais calma, com uma igreja no início e o Tirol e a Praça do Pôr do Sol fechando o quadrilátero na outra ponta.

A parte de cima da Rua da Frente sempre perdeu para a parte de baixo quando o quesito é movimento, agitação. Em compensação, sempre levou muita vantagem no item charme e elegância. Essa dualidade me lembra aquele poema fescenino de autoria de Dr. Milton Ribeiro, A Bufa, que também se encerra na tentativa de esclarecer uma dualidade: Ganhando em cheiro o que em som perdeu, quem no cinema ou na igreja uma bufinha já não deu?

Saindo da igreja, confesso desconhecer quem é o morador desta primeira casa. Na segunda casa mora dona Cota, mãe de Manoel Avelino, que já foi prefeito. Na sequência, a bodega de Antônio Calazans, seguida de uma casa bonita, embora pequena. Aqui fica uma agência do Loyd Brasileiro. Nessa esquina funciona uma pensão, na casa onde morava o tenente Durval, que foi delegado da polícia. Era o terror dos foras da lei. No final da Rua da Frente, como que compondo o que em Brasília seria uma ponta de picolé, duas empresas de peso: a Mossoró Comercial e F. Souto.

Essas casas que ficam por trás da Praça do Pôr do Sol são o que há de charmoso e de ar pastoril em Areia Branca. Ficam aqui, protegidas por essas árvores, como que paradas no tempo, com aura de passado. É um dos lugares mais bonitos da nossa cidade.

Praça do Pôr do Sol hoje

Aqui na frente, duas estruturas que realmente tornam este lugar elegante, com ar bucólico e cheiro de saudade: o Tirol e a Praça do Pôr do Sol, aquela defronte a esta, as duas se misturando em um único encantamento. Parece até que uma não existiria sem a outra. Este local exerce um verdadeiro fascínio em mim. Às vezes penso que venho pouco aqui para não gastar minha dose de fascínio.

Fico por aqui. Vou sentar neste banco e assistir ao desembarque dos passageiros que estão chegando em uma lancha que acaba de atracar no Tirol. Esse som que vem dessa casinha branca tem tudo a ver com este momento. É a trilha sonora do filme Assim Caminha a Humanidade, recém lançado. O cais à frente, com o Tirol, é o cais da espera, que acolhe e dá abrigo. Vou ficar mais tempo aqui.

Foi uma das minhas últimas satisfações ao visitar aquele local.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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O ano, 1959. O local, a igreja em frente à Rampa. No contraponto, o manguezal que nos encanta. O que fazer, então? Enquanto penso, vou caminhando por essas calçadas no sentido da prainha de Zé Filgueira.

Na esquina, ao lado da igreja, a loja de Pedrinho Rodrigues chama a atenção pela variedade de produtos em suas prateleiras. Antonio José nos lembra que Maria Odete trabalha aqui.

Em seguida, a sortida bodega de seu Quidoca; na sequência, as bodegas de José Batista e a de Antonio Noronha. Chico Lino, homem sério e de pavio curto, logo aparece no balcão de sua mercearia, também uma das melhores daquele trecho. Ao lado, a casa onde morava com seus filhos Horácio, Araci, Concebida e Pedro. Vou parar um pouco. Está entrando um iate branquinho com listas escuras nas laterais.

A loja de tecidos de seu Quincó fica bem aqui, ao lado de sua casa. Vizinho à loja de seu Quincó fica a padaria de seu Lalá, seguida das Lojas Paulista, onde o irmão de Bobô é gerente. Esta mercearia pouco sortida é a de seu José Silvino e dona Ester, pais de Ivo, Mauro, João Alves, Eraldo, Evaldo, Zé Maria, Francisco, Isabel e Ana Maria. Aqui ao lado, a bodega de José Leonel e dona Hilda. Aqui fica a bodega de seu Josa, sempre com uma piada engraçada na ponta da língua. Ele é o pai de Bezinho e Vavá. A mercearia de Valdemiro fica aqui. A esta hora dona Noêmia, com certeza, deve estar assando algum bolo com cobertura açucarada grossa, geralmente vermelha. Aqui fica a mercearia de seu Isídio, controlada com muita sabedoria por Queca. Esta é a mercearia de dona Branca, mãe de Tututa, Lázaro e Petinho. Eles fabricam vinagre de forma artesanal. Na esquina, seu Eduardo tem como vizinho uma barbearia logo no início da rua que corta à direita.

Conheço pouco o trecho que se segue, mas vou seguir a orientação de Miranda, que é um sujeito que não conheço, mas entende muito de Areia Branca. Da rua Joaquim Nogueira à rua dos Calafates, vejamos, tem seu Eduardo, a mercearia de Vicente Simão, a casa de Quinca Pereira, a de Toinho de Chico Inácio, que é o pai de Alzenir Rolim, a cooperativa dirigida por Quiquinho Lúcio, a casa de Quinca Semeão e esta bela mercearia ao meu lado direito, que me faz lembrar de um episódio contado por Evaldo.

É a bodega de Sebastião Amorim. Evaldo e sua turminha tinham como costume vender garrafas aqui na mercearia de Sebastião Amorim. Um empregado dessa mercearia, sabendo muito bem com quem tratava, tinha o hábito de cheirar a boca de todas as garrafas, para afastar aquelas que tinham sido utilizadas para guardar querosene. Certo dia, os meninos esperaram até que alguém estivesse preparado e soltasse um pum na garrafa, sendo tapada com a mão logo em seguida. Ao chegarem com cara de anjo, o rapaz foi logo cheirando a boca das garrafas. Alguém falou: Não tem querosene em nenhuma. Ele respondeu: De fato, não tem querosene, mas nesta tem bosta, e eu não quero nenhuma delas. E a turma voltou sem o dinheiro das cocadas. Porém comemorando a vingança.

Agora vem a casa de Zé Braz, a casa de João de Pixico, Chico Carvalho, Chaguinha Carvalho, Chico Ludugero (pai de Cleodon), Luiz Mariano, Adauto peixeiro e Liberato. Ainda temos a bodega de Pedrinho Duarte, que fica aqui defronte ao mercado do peixe, a casa de Vicente Besouro, Antonio Pimenta, Zé Cazuza, Manoel Gonçalves, Chico de Neco, Antero Xixico e outras cujos moradores desconheço.

O tempo é cruel, e sei que esqueci algumas. Mas a memória é curta, e o sol está muito forte.

Voltemos ao patamar da igreja, que a parte de cima da Rua da Frente nos espera.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há uma certa calmaria nesta noite sem lua. Mas é uma calmaria com claro prenúncio de desassossego. Apurando a audição, não consigo ouvir o rotineiro canto dos grilos nos pés de fícus benjamina que se enfileiram junto às calçadas da Rua da Frente, onde moro.

Imagino-me forte e seguro neste momento, pois estou garbosamente vestido com a farda cáqui da Escola Técnica de Comércio, com suas listras vinho dos lados de cada perna. Até assumo ares de valentia, tal qual um cadete inexperiente. Talvez venha daí o meu desejo, desde criança, de ser Sargento da Aeronáutica.

Retorno da pracinha pela Rua da Frente. Bobeei; demorei mais do que devia e a usina de luz cumpriu com sua tarefa rotineira, e desligou todas as luzes sob seu comando. São dez e meia, e desço a rua deixando a igreja às minhas costas. Ouço barulho de pessoas conversando na Rampa, em frente, agora invisível. A escuridão é quase total, não fosse pelo distante e tênue lampejo de estrelas pisca-pisca miudinhas brincando de fazer caretas. Mas eu estou muito tenso, pois o meu temor de fantasmas e almas perdidas surge depois das dezenove horas ou em locais escuros. Ali, as duas condições se somavam.

Dou um salto para trás ao ser quase tocado no rosto por algo pavoroso e barulhento. Dou um longo e apertado suspiro de alívio, o coração a mil. Somente depois concluo tratar-se de um besouro cavalo do cão, conhecido por vespão caçador de aranhas. Se hoje, chamaria as Tartarugas Ninjas para me ajudarem, em especial o Leo, sempre assumido por meu netinho. O susto serve para atiçar meu medo com o sopro do assombro, e o fantasmagórico assume o comando de meus sentimentos.

Percebo, nos entrecortes da escuridão, o vulto de alguém vindo em sentido contrário, passos cambaleantes. Antigas lembranças de lobisomens assumem o comando do meu corpo, em detrimento de um bom senso neste momento quase ausente.

Corro em disparada, de volta, no sentido da igreja, as pernas tremelicando e o pavor energizando meus músculos de mosquito, como se pudéssemos exigir excesso de força de um motor de bicicleta.

Retorno no sentido do Palacete Municipal, e na pracinha percebo alguns vultos que desajeitadamente deixam-se relaxar nos bancos de cimento, sob o domínio do nada a fazer.

Tenho que ir para casa, mas estou indeciso. Resolvo descer pela Rua do Meio, um pouco menos escura. É que ela tem casa dos dois lados, e me sinto protegido. Procuro um resto de luz na casa de Antonio Tavernard. Em vão. Todos dormem.

Não lembro como cheguei em casa entrando pelos fundos, onde sabia haver trava no portão, um galinheiro, duas cacimbas, varal de roupa no caminho. Apesar dos atropelos, cheguei inteiro.

Lembro que foi minha mãe quem abriu a porta.

Acho que não dormira até então.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Nos anos finais da década de 1950 e no início dos anos 1960, mesmo sem se conhecer, uma geração de areiabranquenses – alguns já de calça comprida e outros de suspensório sustentando uma calça curta – lutavam para levar uma vida normal de crianças beirando ou já em pleno processo de adolescência.

A cidade era pequena, com poucas oportunidades de trabalho ou aprendizagem. Interessante notar que boa parte dessa molecada estudava com professores particulares, fosse no curso regular ou como forma de reforço escolar. Aqui, a lembrança de inúmeros mestres e mestras que influenciaram no bom desenvolvimento escolar dessas crianças.

Mas há os que, como eu, estudavam em escola pública pela manhã e à tarde desenvolviam trabalho remunerado em alguns setores, como serrarias, movelarias, lojas de tecidos e outras atividades comerciais e de serviços.

Lembrei de Chico Brito, menino de origem humilde como eu, e que trabalhou no mesmo local em que antes eu havia trabalhado.

Somente agora tomei conhecimento de que Chico Brito balançava o turíbulo nas novenas de Nossa Senhora dos Navegantes, ofício que eu sonhei desempenhar durante minha pré-adolescência. Sem chance.

No ano de 1958 ou 1959 trabalhei nas Lojas Paulista, na Rua da Frente, vizinho à mercearia do meu pai. Era auxiliar de empacotador.

Chico Brito trabalhou no mesmo local no ano de 1961 como empacotador, tendo José Dimas, irmão de Bobô, como gerente, como havia acontecido comigo três anos antes.

Chico Brito, empacotador das Lojas Paulista em 1961. O menino que balançava o turíbulo nas novenas da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Em janeiro de 1961 eu iria morar em Natal com minha família.

Eu, auxiliar de empacotador no ano de 1959. O Gerente era aquele rapaz de boa índole que tinha uma namorada em Assu (Açu), e eu o tinha como um ídolo.

E com meu sonho frustrado de balançar o turíbulo nas noites noveneiras das festas de Nossa Senhora dos Navegantes. Com certeza Chico Brito também curtiu a barraca de Zacarias ao lado da praça em frente à prefeitura.

Chico, estivemos ali, na linha do bem. E somente depois dos cinquenta nos conheceríamos. O almoço em Barra como marca no tempo; Ricardo Dimas e Sônia como testemunhas.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No vai e vem do dia a dia, a alegria reinante na Rua da Frente sinalizava o progresso da cidade nas décadas de 1940 até meados de 1970, quando as atividades comerciais se espalharam por ruas mais centrais. Ali ficavam as principais bodegas da cidade, além das lojas de tecido – a de seu Quincó e as Lojas Paulista, esta vizinha da minha casa. Na Rua da Frente ficavam as grandes mercearias da cidade, com destaque para seu Quidoca e Antonio Calazans, esta a que eu conhecia melhor.

Era na Rua da Frente, pelos idos da década de 1950 que, sob o barulho dos martelos e o cheiro do pixe, recheado pelas estopas de calafetagem, que elementos de nomes pouco conhecidos circulavam diuturnamente, desenvolvendo seu trabalho invisível e mal pago. A cachaça era o principal elemento de troca nessa simbiose desigual. Algumas pessoas do baixo clero circulavam naquele espaço entre o Tirol e a usina de luz, e somente ali eram conhecidas.

Fernando. Lembro do primeiro nome, mas sempre foi assim. Fernando, sem sobrenome ou outro adereço. Passava o dia na Rua da Frente, com sua total entrega à demanda das pessoas, como se fosse um ser sem estrutura e vontade, dependendo sempre do humor e do companheirismo dos outros. Nunca o vi participando de um trabalho sério, no esquema trabalho/pagamento. A vida de Fernando se reduzia à realização de pequenas tarefas para as pessoas que moravam, habitavam ou faziam parte dessa fauna humana no território entre o Tirol e a usina de luz.

Mesmo assim, sem pedigree de beira de cais, Fernando fez parte de minhas travessuras de criança. Um grupo de meninos da Rua da Frente, baseando-se em um livro com imagens, resolveu fazer uma funda. Sentados debaixo de um ficus benjamina, conseguimos cordão e um pedaço de sola de sapateiro; faltavam apenas alguns nós. Pronto, uma funda. Eu, para mostrar como funcionava aquele instrumento utilizado por Davi contra o gigante Golias, fui para além do meio da rua, próximo ao cais, com o equipamento na mão. A meninada se afastou, e eu comecei a rodar a funda, com uma pedra de rio – a gente chamava pedra de Upanema – a rodar em torno de minha cabeça. Chegando ao ponto, soltei o cordão e a pedra saiu forte, veloz, zunindo. Quando levantei a vista, Fernando estava no chão, vociferando contra um magote de crianças agora assustadas. Esta é a minha lembrança de Fernando, amigo de Casca de Ovo, outro elemento daquela fauna de inocentes zumbis.

Tal qual sugere o nome, Casca de Ovo era uma pessoa leve, discreta, sem compromisso com a vida, as horas ou os dias. Apenas servia a dona Hilda, nossa vizinha da direita, esposa de seu Zé Leonel. Com esse escasso currículo, aquele homem passou a vida na Rua da Frente, sem emprego, trabalho fixo ou família conhecida. Vivia para servir a dona Hilda, que o tratava por Casquinha. Ajudava, sem qualquer remuneração, os trabalhadores do cais. Ia e vinha pela Rua da Frente o dia inteiro, sem um trabalho ou serviço definido. Apenas servia a dona Hilda, sem salário, mas com pequenas recompensas, sendo as bicadas de cachaça e o almoço as formas de pagamento mais comuns. Pessoa leve, de vida sem ponto futuro. Acho que ninguém sabe seu nome real.

Macaco era outro elemento que circulava pela Rua da Frente com boa desenvoltura. Tinha em comum o exagerado consumo de álcool, porém com um histórico diferente. Conforme nos conta Ricardo Dimas, ele era mergulhador e calafate de profissão. Mas foi como mergulhador que construiu história no anedotário da Rua da Frente. Conta-se que ele ficava até quatro minutos em apneia, quando mergulhava. Na maré baixa, afirmavam que Macaco mergulhava de um lado do rio e saía do outro, sem respirar.

Mundico de seu Isídio jogou fora seu pedigree e se entregou à bebedeira, enquanto Queca, seu irmão, foi um bem sucedido comerciante. Mundico fazia parte do anedotário da Rua da Frente. Contam que um dia ele viu uma fila imensa e acompanhou o seu andamento. Quando menos esperava, encontrava-se na frente de um padre. Reze um Pai Nosso. Não sei. Reze uma Ave Maria. Não sei, respondeu. Meu filho, ao menos você sabe por quem morreu Jesus? Para ser franco, seu padre, eu nem sabia que ele estava doente.

Homens cujas histórias passaram ao sabor da maresia, sem aderências.

Só faziam mal a eles mesmos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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