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Caminhando pelas ruas do passado, sabendo que em algumas calçadas pontuam símbolos, marcas de rabiscos antigos, feitos quando o cimento ainda fácil de ser riscado, um passeio pela Rua do Meio provocou em mim um turbilhão de boas lembranças.

Rua emblemática de minha infância, a parte de cima da Rua do Meio perdeu o charme, o requinte, a austeridade de senhora de pequenos destinos. Em cada areiabranquense da década de 1950 e 1960 há uma estória que passa por ali, e que ainda resiste ao tempo. Nos anos 1940 Areia Branca tinha três ruas: a Rua da Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás, cobertas pelas areias que fluíam das praias. O primeiro calçamento das ruas foi feito com carago.

Quando se fala da parte de cima da Rua do Meio, emerge das sombras do tempo a imagem de seus moradores e suas residências, as cadeiras nas calçadas, o papo entre famílias e a meninada que ali residia. De vocação quase que exclusivamente residencial, havia, naquele trecho apenas três ou quatro prédios onde alguns estabelecimentos comerciais se instalaram.

De cima para baixo, tinha o Cine Coronel Fausto. Em sua frente, do outro lado da rua, ficava o armazém de Pedro Leite. Na outra extremidade, próximo à esquina, do lado da prefeitura, entre a casa de Dr. Vicente Dutra e a Coletoria, funcionava o Maracangalha/Cine Miramar. Aí surge uma dúvida. Havia uma loja entre o Maracangalha/Cine Miramar e a Coletoria, que ficava na esquina.

Rua do Meio

Nesta foto, o prédio entre o Maracangalha/Cine Miramar e a Coletoria. Observe que os postes estão no meio da rua.

Imagino que esta foto seja da década de 1960, porque a Rua do Meio está calçada com paralelepípedos. Pena não haver indicação do autor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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São poucas as minhas referências em Areia Branca. Nasci em uma casinha da Rua do Meio, naquela esquina onde atualmente mora Dondinho. Ao lado, o prédio do Círculo Operário, onde estudei a Cartilha do ABC e iniciei os conhecimentos de tabuada e civismo, e ainda resiste ao tempo, embora o belíssimo edifício do início do século passado há muito não exista.

Circ. Oper

Mudei-me para a Rua da Frente ainda pequeno, e ali passei toda a minha infância, quando viajei com minha família para Natal. Outro local importante para mim é o Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. Lá, concluí o ensino fundamental e, em seguida, estudei até o segundo ano do Curso Comercial Básico.

Casa Rua da Frente

O Sesi desponta em minhas lembranças como um local onde um grupo histórico de servidores desenvolvia um trabalho de boa qualidade em prol da população, em especial dos mais carentes. No Sesi, junto com essa meninada, participei das reuniões do Clube do Sesinho.

Foto Sesi

Clube Sesinho

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Aqui, quando falo dos meninos da Rua da Frente, estou me referindo apenas àqueles garotos que moravam naquele trecho entre a igreja, descendo até onde havia uma barbearia, na esquina.

Quantos meninos e meninas moravam naquele trecho, hoje deteriorado e sem um único morador? São apenas trabalhadores do cais e servidores de algumas empresas ligadas ao transporte marítimo.

Havia os filhos de Chico Lino e dona Antônia (Horácio, Pedro, Aparecida e Maria Antônia), as duas filhas de Zé de Quincó (Edna e Margarida), os filhos de Ester e José Silvino (José Maria, Mauro, João, Eraldo, Evaldo, Francisco, Ivo, Isabel e Ana Maria), o filho de dona Hilda e José Leonel (Haroldo, o menino que queria ser paraquedista), os dois filhos de seu Josa (Bezinho e Vavá), as três filhas de Valdemiro e dona Noêmia (Valdeme, Luzia e outra de cujo nome não lembro), os filhos e netos de seu Izídio, os filhos de dona Branca (Tututa, Lázaro e Petinho).

Esses eram os meninos e meninas da Rua da Frente, a que me refiro com frequência. Total de 29, e incluía gerações diversas, muitos dos quais não brincavam com a gente. A idade das crianças que participavam de nossas brincadeiras variava de 10 a 12 anos.

A esse grupo dos meninos da Rua da Frente juntavam-se outros garotos, como Quiquico e Dedé Sodré, filhos de Lauro Duarte. Dedé de Zé Dantas, apesar de ser considerado rico, sempre participava de nossas brincadeiras, como Ivo, filho de Chico Germano. Toinho Quixabeira era outro que vez por outra participava de algumas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator. A amizade de Chico Novo era comigo, não com o grupo.

Traquinagens no rio Ivipanim, futebol na rua, jogos de pião, empinar papagaio, banhos de chuva, pescar no Tirol à noite, raramente.

Essa era a nossa pauta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Quando crianças, apesar de viver em uma cidade muito pequena, as crianças tinham muita dificuldade para se deslocar por áreas mais distantes, mesmo que isso representasse apenas duas ruas. De fato, havia a Rua da Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Daí que, mesmo residindo na mesma cidade, a maioria das crianças não se conhecia, a não ser quando frequentavam a mesma escola. O Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra era o grande centralizador da meninada.

Outro ponto de aglutinação da meninada eram os cinemas. O Cine Coronel Fausto sempre encantou crianças e adultos. Garotos e garotas vestiam suas roupas de festa nas tardes de domingo para a empolgação quase sonho dos seriados, desde aqueles onde pontuavam cowboys e índios, e outros que endeusavam homens e mulheres com seus superpoderes.

Nós, meninos da Rua da Frente, vez por outra colocávamos um paralelepípedo no interior de um chapéu e o deixávamos na calçada. Ficávamos à espreita da vítima que, inexoravelmente, aparecia e chutava o chapéu com força. Era só risos.

Apesar da forte e doentia segregação social que existia, os grupinhos delimitavam locais privativos para suas brincadeiras. Juntavam-se alguns na várzea para soltar papagaio ou, em outros momentos e locais, bater bola ou participar de discussões em grupo. Esses locais eram demarcados pela habitualidade do uso ou, muitas vezes, pela truculência. Tínhamos um grupinho genérico que quase todos os dias subia naquela árvore em frente à casa de Manoel Bento e ficava jogando conversa fora e articulando traquinagens. Lembro de Dedé Sodré.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo(*). Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume(**), com dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. Ali aconteciam as reuniões do grupo, acertadas na escola, bem como os jogos de péla, que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund. obedecendo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha oficial, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas. E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os meninos da Rua Paulo, vencedores, assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Em Areia Branca, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

No Grund, a infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, belo livro de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(**) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 

 

Esse trecho da Rua da Frente é uma área pouco visitada pelas pessoas de outras ruas. Trata-se, na verdade, de uma região diferente, mais calma, com uma igreja no início e o Tirol e a Praça do Pôr do Sol fechando o quadrilátero na outra ponta.

A parte de cima da Rua da Frente sempre perdeu para a parte de baixo quando o quesito é movimento, agitação. Em compensação, sempre levou muita vantagem no item charme e elegância. Essa dualidade me lembra aquele poema fescenino de autoria de Dr. Milton Ribeiro, A Bufa, que também se encerra na tentativa de esclarecer uma dualidade: Ganhando em cheiro o que em som perdeu, quem no cinema ou na igreja uma bufinha já não deu?

Saindo da igreja, confesso desconhecer quem é o morador desta primeira casa. Na segunda casa mora dona Cota, mãe de Manoel Avelino, que já foi prefeito. Na sequência, a bodega de Antônio Calazans, seguida de uma casa bonita, embora pequena. Aqui fica uma agência do Loyd Brasileiro. Nessa esquina funciona uma pensão, na casa onde morava o tenente Durval, que foi delegado da polícia. Era o terror dos foras da lei. No final da Rua da Frente, como que compondo o que em Brasília seria uma ponta de picolé, duas empresas de peso: a Mossoró Comercial e F. Souto.

Essas casas que ficam por trás da Praça do Pôr do Sol são o que há de charmoso e de ar pastoril em Areia Branca. Ficam aqui, protegidas por essas árvores, como que paradas no tempo, com aura de passado. É um dos lugares mais bonitos da nossa cidade.

Praça do Pôr do Sol hoje

Aqui na frente, duas estruturas que realmente tornam este lugar elegante, com ar bucólico e cheiro de saudade: o Tirol e a Praça do Pôr do Sol, aquela defronte a esta, as duas se misturando em um único encantamento. Parece até que uma não existiria sem a outra. Este local exerce um verdadeiro fascínio em mim. Às vezes penso que venho pouco aqui para não gastar minha dose de fascínio.

Fico por aqui. Vou sentar neste banco e assistir ao desembarque dos passageiros que estão chegando em uma lancha que acaba de atracar no Tirol. Esse som que vem dessa casinha branca tem tudo a ver com este momento. É a trilha sonora do filme Assim Caminha a Humanidade, recém lançado. O cais à frente, com o Tirol, é o cais da espera, que acolhe e dá abrigo. Vou ficar mais tempo aqui.

Foi uma das minhas últimas satisfações ao visitar aquele local.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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