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Há uma certa calmaria nesta noite sem lua. Mas é uma calmaria com claro prenúncio de desassossego. Apurando a audição, não consigo ouvir o rotineiro canto dos grilos nos pés de fícus benjamina que se enfileiram junto às calçadas da Rua da Frente, onde moro.

Imagino-me forte e seguro neste momento, pois estou garbosamente vestido com a farda cáqui da Escola Técnica de Comércio, com suas listras vinho dos lados de cada perna. Até assumo ares de valentia, tal qual um cadete inexperiente. Talvez venha daí o meu desejo, desde criança, de ser Sargento da Aeronáutica.

Retorno da pracinha pela Rua da Frente. Bobeei; demorei mais do que devia e a usina de luz cumpriu com sua tarefa rotineira, e desligou todas as luzes sob seu comando. São dez e meia, e desço a rua deixando a igreja às minhas costas. Ouço barulho de pessoas conversando na Rampa, em frente, agora invisível. A escuridão é quase total, não fosse pelo distante e tênue lampejo de estrelas pisca-pisca miudinhas brincando de fazer caretas. Mas eu estou muito tenso, pois o meu temor de fantasmas e almas perdidas surge depois das dezenove horas ou em locais escuros. Ali, as duas condições se somavam.

Dou um salto para trás ao ser quase tocado no rosto por algo pavoroso e barulhento. Dou um longo e apertado suspiro de alívio, o coração a mil. Somente depois concluo tratar-se de um besouro cavalo do cão, conhecido por vespão caçador de aranhas. Se hoje, chamaria as Tartarugas Ninjas para me ajudarem, em especial o Leo, sempre assumido por meu netinho. O susto serve para atiçar meu medo com o sopro do assombro, e o fantasmagórico assume o comando de meus sentimentos.

Percebo, nos entrecortes da escuridão, o vulto de alguém vindo em sentido contrário, passos cambaleantes. Antigas lembranças de lobisomens assumem o comando do meu corpo, em detrimento de um bom senso neste momento quase ausente.

Corro em disparada, de volta, no sentido da igreja, as pernas tremelicando e o pavor energizando meus músculos de mosquito, como se pudéssemos exigir excesso de força de um motor de bicicleta.

Retorno no sentido do Palacete Municipal, e na pracinha percebo alguns vultos que desajeitadamente deixam-se relaxar nos bancos de cimento, sob o domínio do nada a fazer.

Tenho que ir para casa, mas estou indeciso. Resolvo descer pela Rua do Meio, um pouco menos escura. É que ela tem casa dos dois lados, e me sinto protegido. Procuro um resto de luz na casa de Antonio Tavernard. Em vão. Todos dormem.

Não lembro como cheguei em casa entrando pelos fundos, onde sabia haver trava no portão, um galinheiro, duas cacimbas, varal de roupa no caminho. Apesar dos atropelos, cheguei inteiro.

Lembro que foi minha mãe quem abriu a porta.

Acho que não dormira até então.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Nos anos finais da década de 1950 e no início dos anos 1960, mesmo sem se conhecer, uma geração de areiabranquenses – alguns já de calça comprida e outros de suspensório sustentando uma calça curta – lutavam para levar uma vida normal de crianças beirando ou já em pleno processo de adolescência.

A cidade era pequena, com poucas oportunidades de trabalho ou aprendizagem. Interessante notar que boa parte dessa molecada estudava com professores particulares, fosse no curso regular ou como forma de reforço escolar. Aqui, a lembrança de inúmeros mestres e mestras que influenciaram no bom desenvolvimento escolar dessas crianças.

Mas há os que, como eu, estudavam em escola pública pela manhã e à tarde desenvolviam trabalho remunerado em alguns setores, como serrarias, movelarias, lojas de tecidos e outras atividades comerciais e de serviços.

Lembrei de Chico Brito, menino de origem humilde como eu, e que trabalhou no mesmo local em que antes eu havia trabalhado.

Somente agora tomei conhecimento de que Chico Brito balançava o turíbulo nas novenas de Nossa Senhora dos Navegantes, ofício que eu sonhei desempenhar durante minha pré-adolescência. Sem chance.

No ano de 1958 ou 1959 trabalhei nas Lojas Paulista, na Rua da Frente, vizinho à mercearia do meu pai. Era auxiliar de empacotador.

Chico Brito trabalhou no mesmo local no ano de 1961 como empacotador, tendo José Dimas, irmão de Bobô, como gerente, como havia acontecido comigo três anos antes.

Chico Brito, empacotador das Lojas Paulista em 1961. O menino que balançava o turíbulo nas novenas da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Em janeiro de 1961 eu iria morar em Natal com minha família.

Eu, auxiliar de empacotador no ano de 1959. O Gerente era aquele rapaz de boa índole que tinha uma namorada em Assu (Açu), e eu o tinha como um ídolo.

E com meu sonho frustrado de balançar o turíbulo nas noites noveneiras das festas de Nossa Senhora dos Navegantes. Com certeza Chico Brito também curtiu a barraca de Zacarias ao lado da praça em frente à prefeitura.

Chico, estivemos ali, na linha do bem. E somente depois dos cinquenta nos conheceríamos. O almoço em Barra como marca no tempo; Ricardo Dimas e Sônia como testemunhas.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No vai e vem do dia a dia, a alegria reinante na Rua da Frente sinalizava o progresso da cidade nas décadas de 1940 até meados de 1970, quando as atividades comerciais se espalharam por ruas mais centrais. Ali ficavam as principais bodegas da cidade, além das lojas de tecido – a de seu Quincó e as Lojas Paulista, esta vizinha da minha casa. Na Rua da Frente ficavam as grandes mercearias da cidade, com destaque para seu Quidoca e Antonio Calazans, esta a que eu conhecia melhor.

Era na Rua da Frente, pelos idos da década de 1950 que, sob o barulho dos martelos e o cheiro do pixe, recheado pelas estopas de calafetagem, que elementos de nomes pouco conhecidos circulavam diuturnamente, desenvolvendo seu trabalho invisível e mal pago. A cachaça era o principal elemento de troca nessa simbiose desigual. Algumas pessoas do baixo clero circulavam naquele espaço entre o Tirol e a usina de luz, e somente ali eram conhecidas.

Fernando. Lembro do primeiro nome, mas sempre foi assim. Fernando, sem sobrenome ou outro adereço. Passava o dia na Rua da Frente, com sua total entrega à demanda das pessoas, como se fosse um ser sem estrutura e vontade, dependendo sempre do humor e do companheirismo dos outros. Nunca o vi participando de um trabalho sério, no esquema trabalho/pagamento. A vida de Fernando se reduzia à realização de pequenas tarefas para as pessoas que moravam, habitavam ou faziam parte dessa fauna humana no território entre o Tirol e a usina de luz.

Mesmo assim, sem pedigree de beira de cais, Fernando fez parte de minhas travessuras de criança. Um grupo de meninos da Rua da Frente, baseando-se em um livro com imagens, resolveu fazer uma funda. Sentados debaixo de um ficus benjamina, conseguimos cordão e um pedaço de sola de sapateiro; faltavam apenas alguns nós. Pronto, uma funda. Eu, para mostrar como funcionava aquele instrumento utilizado por Davi contra o gigante Golias, fui para além do meio da rua, próximo ao cais, com o equipamento na mão. A meninada se afastou, e eu comecei a rodar a funda, com uma pedra de rio – a gente chamava pedra de Upanema – a rodar em torno de minha cabeça. Chegando ao ponto, soltei o cordão e a pedra saiu forte, veloz, zunindo. Quando levantei a vista, Fernando estava no chão, vociferando contra um magote de crianças agora assustadas. Esta é a minha lembrança de Fernando, amigo de Casca de Ovo, outro elemento daquela fauna de inocentes zumbis.

Tal qual sugere o nome, Casca de Ovo era uma pessoa leve, discreta, sem compromisso com a vida, as horas ou os dias. Apenas servia a dona Hilda, nossa vizinha da direita, esposa de seu Zé Leonel. Com esse escasso currículo, aquele homem passou a vida na Rua da Frente, sem emprego, trabalho fixo ou família conhecida. Vivia para servir a dona Hilda, que o tratava por Casquinha. Ajudava, sem qualquer remuneração, os trabalhadores do cais. Ia e vinha pela Rua da Frente o dia inteiro, sem um trabalho ou serviço definido. Apenas servia a dona Hilda, sem salário, mas com pequenas recompensas, sendo as bicadas de cachaça e o almoço as formas de pagamento mais comuns. Pessoa leve, de vida sem ponto futuro. Acho que ninguém sabe seu nome real.

Macaco era outro elemento que circulava pela Rua da Frente com boa desenvoltura. Tinha em comum o exagerado consumo de álcool, porém com um histórico diferente. Conforme nos conta Ricardo Dimas, ele era mergulhador e calafate de profissão. Mas foi como mergulhador que construiu história no anedotário da Rua da Frente. Conta-se que ele ficava até quatro minutos em apneia, quando mergulhava. Na maré baixa, afirmavam que Macaco mergulhava de um lado do rio e saía do outro, sem respirar.

Mundico de seu Isídio jogou fora seu pedigree e se entregou à bebedeira, enquanto Queca, seu irmão, foi um bem sucedido comerciante. Mundico fazia parte do anedotário da Rua da Frente. Contam que um dia ele viu uma fila imensa e acompanhou o seu andamento. Quando menos esperava, encontrava-se na frente de um padre. Reze um Pai Nosso. Não sei. Reze uma Ave Maria. Não sei, respondeu. Meu filho, ao menos você sabe por quem morreu Jesus? Para ser franco, seu padre, eu nem sabia que ele estava doente.

Homens cujas histórias passaram ao sabor da maresia, sem aderências.

Só faziam mal a eles mesmos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Chico Lino era um homem forjado de uma têmpera especial, que mantém a rudeza pura dos metais. Conhece o nióbio? Vou esclarecer.

É um metal muito utilizado nas ligas metálicas, em especial na produção de aços especiais utilizados em tubos de gasodutos, onde o nióbio entra com apenas 0,1% e confere uma grande resistência mecânica ao aço. O Brasil é responsável por 75% da produção mundial desse elemento. A nossa principal mina de nióbio fica em Catalão, no estado de Goiás, pertinho de Brasília.

Assim era Chico Lino. Um homem íntegro, responsável, resistente. Comerciante da Rua da Frente, era figura frequente no folclore da beira do cais, junto com seu Josa (pai de Bezinho e Vavá). Em um dia de grande movimento no comércio, o bodegueiro deu uma martelada na moleira de um indivíduo que o havia chamado de ladrão dentro do seu comércio. O pobre elemento saiu cambaleando calçada abaixo, e imagino que tenha curtido uma boa temporada de dor de cabeça.

Contam que certa vez uma senhora comprou um objeto na bodega e seu Chico Lino lhe deu o troco (cem réis). A mulher achou pouco e jogou sobre o balcão, berrando: “Fique com esse dinheiro de esmola, que eu não preciso disso”! Ela queria mais. Alguns anos depois, a mesma senhora entrou na bodega e pediu uma esmola. Seu Chico Lino a reconheceu, abriu o cofre e lhe deu a mesma moeda de cem réis, que havia guardado.

Mas Chico Lino era conhecido pela meninada da Rua da Frente por seu canivete sempre afiado. Quando passava uma criança com um furúnculo (chamado de “tumor”) à mostra, com sinais de que já estava “maduro”, Chico Lino entrava, apanhava o canivete e “sajava” o tumor, retirando todo o pus e fazendo um curativo com algodão. Isso sem pedir licença ao parente que eventualmente o acompanhasse.

O temor do canivete do pai de Horácio – aquele que bateu o recorde de permanência sobre uma bicicleta pedalando em torno da pracinha do Tirol – fez com que os meninos da Rua da Frente, com algum furúnculo, cobrissem a parte afetada ou passassem correndo em frente à sua mercearia.

Hoje a Rua da Frente está deserta de moradores a partir do lado direito da igreja até a antiga pracinha do Tirol. Estes últimos já sepultados.

Para quem, como eu, conheceu os dias de glória da principal rua da cidade, percebe que ali há um triste espectro que ronda os doentes terminais.

No tom dos moribundos.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

2011.08.20 Calçada da Alfândega à tarde

Calçada da Alfândega em foto recente

Toda cidade tem seus pontos de encontro tradicionais, onde pessoas se reúnem para debater diversos temas. Normalmente, esses locais são cafés, bares, praças, mercearias de esquina e clubes. Mas, em Areia Branca, um desses lugares fugia do habitual. Era a Velha Calçada da Alfândega, ao lado do Mercado do Peixe, na Rua da Frente.

À tarde, quando se faziam as primeiras sombras, começavam a chegar os mais ansiosos apreciadores de uma boa conversa. Eram tempos áureos da vida marítima e da pesca artesanal areia-branquenses, quando barcaças de madeira, canoas e botes tinham um enorme peso na sustentação da economia local. E, ali, na velha Calçada, juntavam-se marinheiros, estivadores, comerciantes de pescado, donos de bote, marchantes, carpinteiros, calafates, pescadores, carroceiros e muitos outros. Falava-se de tudo, desde negócios, comércio, trabalho, política e esporte até o tamanho do maior peixe já fisgado. O debate poderia ser sobre coisa séria ou apenas por diversão. Não havia regra. E, na maioria das vezes, o resultado eram momentos agradáveis.

O principal coadjuvante ao bate papo era jogar dominó. E, às sombras do prédio da Alfândega, formaram-se muitos especialistas no assunto. Fazia-se platéia para assistir às partidas, com direito a gritos de guerra, a doses de cachaça ou a uma cerveja. O álcool, aliás, era outro adjunto do entretenimento. Ele foi, naquele local, o combustível de euforias e alegrias, mas, infelizmente, foi, também, a razão da destruição de muitos encéfalos e de muitos lares.

Dos banquinhos improvisados na calçada com paralelepípedo ou tronco de madeira, viu-se passar o tempo em Areia Branca. Assistiu-se ao nascimento e à morte de muitas gerações, ao lançamento ao mar de muitas embarcações recém construídas e ao desaparecimento de outras tantas. Foi um lugar onde se formou e modificou-se opiniões e tendências, onde se viveu a mais pura essência de ser areia-branquense.

2011.08.15 Calçada da Alfândega de manhã2

Calçada da Alfândega em foto recente. (O aspecto de foto antiga foi dado por computação gráfica). 

Entre novos e antigos, mortos e vivos, e suplicando o perdão dos que não forem mencionados, pode-se citar que já estiveram por lá Manoel de Marina, Vicente Besouro, Listinha, Luís Tavernad, Antonio Pedro Cuia, Mainha, Chico Cunha, Samboca, Budão, João das Cruas, Jessé, Zezinho irmão de Jessé, Camaleão, Gilberto de Manoel Cebola, Josias, Mariquita, Hermes Pescador, Orácio, Chico Antonio, Dedé Bocão, Matias Pescador, Dioclécio Pedreiro, Chico Ribeiro, Fernando Zulmira, Emídio Pescador, Chagas Carroceiro, Zé de Marina, Marcílio de Manoel de Marina, Carlim Berrim, Carlim da Secretaria de Finanças, Zé Pirreta, Doloroso, Citonho e outros incontáveis e memoráveis.

Mas, inevitavelmente, os novos tempos transformaram a realidade de Areia Branca. A pesca artesanal se encontra em decadência. As alvarengas de madeira perderam o lugar para as modernas barcaças de ferro. A indústria salineira cresceu e tornou-se mecanizada. Reuniões e debates agora são feitos pela internet. Carpinteiros navais, calafates, estivadores, carroceiros e dono de bote estão em extinção. E hoje, por ali, na Velha Calçada da Alfândega, quase em ruínas, mesmo que ainda se veja um ou outro sentado, conversando, não é nada como antes. Aquela época de ouro, há anos, passou e, provavelmente, nunca voltará. Viverá apenas em nossas lembranças, alimentando nossas saudades.

(*) Crônica publicada no blog areia-branquense Costa Branca News em 28/08/2011.
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