You are currently browsing the tag archive for the ‘rua das almas’ tag.

Estou reeditando esta crônica em função de observações feitas por Antônio José e Rosa Tavares, a respeito da casa onde nasci, a casa amarela ao lado da casa de primeiro andar, que informei ser a casa de Zé Tavernard. Não é nada disso, e para eu concordar tive um arranca-rabo dos brabos com AJosé. No final ele estava certo e aqui vou dizer por quê eu fiz a confusão.

Em primeiro lugar, a casinha amarela tem a mesma fachada da casa onde nasci e vivi até meus 5 anos de idade. Fiz essa foto em algum dia de 2015. Antônio José me telefonou para dizer que essa casa não mais existia. Começamos o perrengue por causa dessa informação. Em seu comentário, Jerônimo, cuidadoso como sempre, envio o link do Google que mostra a casa. Capturei a tela que mostra a casa. Essa foto mostra que o arquivo do Google está desatualizado.

CasaNasciGoogle12maio2019

Quando falei para AJosé sobre esta foto do Google, ele respondeu irritado:

  • Pois o Google está errado. Vou pedir que Aila Tavernard faça fotos agora para mostrar que estou certo. Também vou pedir a Cid Filho.

Em algumas horas recebi uma dezena de fotos, entre as quais selecionei essa por ser a mais relevante no contexto dessa crônica. Ela claramente que a casinha amarela não existe mais, e não foi nessa casinha que eu nasci. A casa de primeiro andar que eu havia informado ser de Zé Tavernard, é de fato das famílias de João e Vicente de Baleia.

casaNasci2019d

A casa de Zé Tavernard é essa de cor clara, entre o primeiro andar e a biblioteca. O primeiro andar ao lada da casa de Zé Tavernard foi construída na terreno da casa onde nasci. O primeiro andar à esquerda dessa foto, foi construída no terreno da casinha amarela que eu fotografei em 2015.

De onde vem minha confusão ao associar a casinha amarela àquela que eu nasci, e o primeiro andar vizinho, à casa de Zé Tavernard? A confusão vem do fato que eu nasci numa casa ao lado da casa de Zé Tavernard. Nossos quintais eram separados por uma cerca. Lembro-me bem que quando Edna pegou coqueluche, mamãe ficava desesperada por seguidamente nos surpreendia conversando no quintal. Eu de um lado e Edna do outro.

Em conversa com Rosa Tavares, filha do grande pintor Toinho Tavernard, ela me lembrou de algo que eu tinha esquecido. Aquelas casinhas ao lado da casa de Zé Tavernard tinha arquitetura muito semelhante. A casinha amarela era igual à que eu nasci.

Antônio José, o caçador de mitos areia-branquenses estava certo, e a minha memória emocional continua vivíssima.


Segue o texto original da crônica.

Em crônica anterior, manifestei meu entusiasmo com a ideia que Evaldo teve de fazer relatos pessoais sobre os rumos que tomou depois que de Areia Branca saiu. Relatei minha primeira viagem para Natal, onde fui fazer o exame de admissão. Agora ele escreve sobre a casa onde nasceu e os locais de sua infância areia-branquense. É o que farei nesta crônica.
Nasci nessa casa, na rua Cel. Liberalino, ao lado da casa de Zé Tavernard. Sua fachada está inteiramente preservada, ao contrário da casa de Zé Tavernard que ganhou mais um andar.

Vivi nessa casa até 1952, quando a família mudou-se para a rua Silva Jardim, que agora se chama rua Francisco Ferreira Souto.

Nessa casa da Silva Jardim vivemos até 1960, quando nos mudamos para a rua das Almas. Nunca lembro o nome verdadeiro da rua. O nome popular é uma referência ao cemitério, que ficava na mesma rua, ao lado do campo de futebol, que era conhecido como campo da saudade. Também não lembro se esta era uma denominação popular, ou se era o nome verdadeiro.

Em julho de 1960 fui para Natal fazer um curso preparatório de 3 meses para o exame de admissão no Marista, onde fiz o ginasial, de 1961 a 1964.

 

 

Em 2015 estive em Areia Branca para fazer essas fotografias e me deparei com essa cena desoladora. A casa onde vivemos até 1967 foi destruída por uma empresa salineira, não lembro o nome. A casa ficava ali onde se enxerga uma faixa azul. Ficava ao lado das casas de João Rodrigues e Chico Paula. Nesse terreno baldio à direita da foto, ficavam, a partir da esquina, onde existia o prédio da Mossoró Comercial, onde no primeiro andar morava a família Jacinto. Na sequência, ficavam os fundos das casas de Reinério, Zé Cirilo, Zé Barros, entre outras, e terminava, quase em frente à nossa casa, com a oficina de Reinério, um dos mais criativos ferreiros que conheci.

Em meados de 1967 a família mudou-se para Natal, e minhas visitas a Areia Branca passaram a ser esporádicas. Permanente mesmo só a lembrança e a saudade de uma infância e uma adolescência feliz.

 

Wellington de Reinério era um menino pacato como poucos, sem qualquer ambição de liderança. Estava sempre na dele, sem incomodar ninguém. Já Wilton, voluntarioso, briguento como parte da família, estava sempre incomodando seu irmão mais velho. Isso era uma constante nas nossas peladas.

Wellington jogava uma bola redondinha. Era um jogador habilidoso e elegante. Não fazia as habituais trapaças, como puxar o calção do adversário, levantar o pé acima da bola, armando o que se chamava de chapa, não dava uma cotovelada. Era ele e a bola, tentando apenas se esquivar dos adversários. Franzino e com esse espírito angelical, jamais conseguiu despertar interesse dos vários times de futebol em AB. Mas, nas peladas era sempre um dos primeiros a ser escolhido por quem ganhava o par-ou-ímpar.

Wilton tinha muitas dificuldades no trato com a bola. O que a natureza lhe deu de inteligência e habilidade com um maçarico, lhe tirou dos pés. De vez em quando ele obrigava Wellington a participar do par-ou-ímpar para ser um dos selecionadores, algo que violava a natureza do irmão. A estratégia tinha objetivo: ser um dos primeiros escolhidos. E ai de Wellington se não o obedecesse. Ameaçava dizer à mãe que Wellington estava jogando na rua. Sim, algumas mães não gostavam que seus filhos sujassem pés e canelas com a areia salitrosa que tomava conta da rua no embalo daqueles ventos areia-branquenses. Nunca entendi porque Wellington se preocupava tanto em respeitar as ordens da mãe, enquanto Wilton não estava nem aí! Se fosse hoje, ele ficaria cantando: Tô nem aí, tô nem aí . . .

Quem teve oportunidade de jogar bola na rua, naquela época, vai lembrar que a areia misturava-se com o suor e grudava no pé e em parte da canela. Parecia uma meia. Pois bem, para não deixar essa prova de que estivera jogando, Wellington passava o tempo todo limpando os pés. Era muito engraçado ver aquela cena. Ele dava uma corridinha e se encurvava. Passava as duas mãos, da ponta dos pés até o meio da canela. Primeiro no pé esquerdo, depois no direito, ou seria o contrário? Mas o danado jogava bem, e tinha tempo de fazer isso e executar as tarefas que lhe cabiam: dominar a bola, passar para um companheiro e fazer gol.

Já está evidente que Wilton não tinha grande intimidade com a redondinha, qualquer que fosse, de pano, de borracha ou de couro número 1 (a pequena) ou número 5 (a profissional). Mas, tinha um senso de humor discreto, sutil e refinado. Uma vez estávamos na sua pequena oficina, no fundo da casa. Em vão, ele procurava o martelo escondido em algum lugar daquela monumental desordem. De repente, estalando os dedos começou a chamar, como se a ferramenta fosse um animal doméstico:

– martelinho, martelinho, onde você se escondeu? Martelinho, martelinho, venha cá!

Com esse jeito engraçado ele fazia as ameaças a Wellington durante as peladas. Ninguém se animava em passar-lhe a bola. A chance de uma sequência bem sucedida era quase nula. Um dia, irritado com isso, aproveitou o momento em que Wellington estava de posse da bola, correu em sua direção com uma havaiana (chamávamos sandália japonesa) na mão, pronta para ser atirada, e gritou:

– Passe a bola, passe a bola senão jogo a sandália!

Não lembro quem testemunhou as cenas acima. Acho que a última também foi presenciada por Clécio. Para concluir, vou relatar uma história envolvendo Flávio de Pitita.

Era costume naquela época grupos de meninos desafiarem outros para uma partida de futebol no meio da rua. Os locais preferenciais eram a rua do meio (Cel. Fausto),

a dr. Almino (atual Dep. Manoel Avelino)

e a rua das almas, bem na frente do cemitério (olhaí, Evaldo, falei no cemitério!). Claro, isso antes do calçamento dessas ruas. Tenho várias historinhas com relação a isso. Vou relatar uma delas. Wilton, Clécio e não sei quem mais, desafiaram Wellington, Flávio de Pitita e este relator. Cada grupo deveria formar um time de 6 jogadores (um no gol e 5 na linha). Decidimos fazer um treino de 3 contra 3, no campo da saudade, logo depois do almoço! Só a energia de adolescentes para suportar tamanha loucura. O campo da saudade era o campo de futebol de AB, onde jogavam 11 contra 11. Agora, 3 contra 3 às 2 horas da tarde é uma insanidade.

Clécio, Wilton e o terceiro que não lembro, não eram páreo para Wellington, Flávio e eu. Sabíamos que no jogo prá valer era páreo corrido, como se diz no turfe quando um cavalo é claramente superior aos outros. Com essa certeza em mente e o sol na moleira, Wellington e eu decidimos amolecer. Toca a bola prá lá e cá, sem grande esforço, displicentemente, deixando os intrépidos adversários tomá-la, não fazendo qualquer esforço para recuperá-la. Flávio espumava de raiva. Wilton e Clécio se divertiam com os gols que faziam, um atrás do outro. E o pobre do Flávio correndo sozinho atrás dos 3 adversários, nos fulminando com seu olhar raivoso. No finalzinho, faltou-lhe o ar e ele ficou quase em estado de choque, parecia que ia ter uma convulsão, enquanto corria atrás de  Wilton, que se aproximava celeremente do nosso gol. Wellington e eu, assustados com a cena, ficamos parados na zona intermediária do campo. Wilton fez o gol e gritou, todo sorridente e provocativo:

– Se no treino foi assim, imagina no dia do jogo!

Flávio, com a pouca energia que lhe restava, correu em sua direção e agarrou-lhe o pescoço. Foi uma luta para evitar o enforcamento!

junho 2019
S T Q Q S S D
« maio    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Para receber as novidades do blog