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Quem teve o privilégio quase sonho de contemplar os iates que adentravam o rio Ivipanim, com suas velas tremulando ao vento puro que ainda sopra na esquina do mundo;

Quem se maravilhou com o discreto barulho das barcaças a vela, prenhas de sal, cesariando com carinho a barriga do rio que passa na Rua da Frente, guiadas por um corredor – de um lado, o Tirol e a igreja; do outro, o manguezal no limite do sem fim. Ao fundo, os lugarejos de Barra e Pernambuquinho fingindo nada ver;

Quem, nas procissões de Nossa Senhora dos Navegantes, conseguiu uma vaga em um barco a vela para fazer parte daquela seleta comitiva;

Quem, como eu, acompanhou, do outro lado do sonho, a última viagem de uma  canoa a vela que, em seu retorno, ostentava, metamorfoseada, um feio motor de popa, isento de ternura e sem qualquer resquício de poesia.

foto-barcacas Grupo de canoas

Em 2016, minha última viagem em uma canoa tradicional, com vela triangular, tornada alaranjada pelos respingos da água salobra do rio.

img_9869

Somente quem viveu alguma dessas experiências tem a real dimensão daquela  época de especial encantamento.

Hoje, a expressão velas ao vento desvencilhou-se do amparo normativo em que se embasa. Palavras de auditor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Antigamente, quando em noites quentes saíamos em grupo para fazer de conta que pescávamos no Tirol, pois o objetivo era se reunir e conversar, sem qualquer interesse com o resultado. O peixe? Que peixe?

Antigamente, quando brincávamos nas calçadas sem sobressaltos, ou quando o medo ainda não havia se estabelecido em nosso ser; quando jogávamos bola no meio da rua sem corrermos o risco de ser atropelados;

Antigamente, quando circulavam apenas dois carros pelas ruas de Areia Branca,  e a Escandalosa era o único meio de viajar em segurança;

Antigamente, quando as crianças em férias escolares brincavam com barquinhos no açude em frente ao Morro do Urubu, com a terrível preocupação do que fazer à tarde: nadar na maré cheia ou soltar pipa na várzea;

Antigamente, quando no Círculo Operário nos esforçávamos para não errar a pergunta da professora, pois a palmatória estava bem ali, de olhos abertos, no aguardo de um vacilo para entrar em cena;

Antigamente, quando dormíamos cedo nas noites da cruviana, quando tudo era incerteza no breu da noite escura, com seus ruídos de fantasma;

Antigamente, quando nas quermesses que antecediam a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes ficávamos nós, meninos, parados na esquina da pracinha, depois da novena, observando as moçoilas circularem desinibidas no sentido contrário ao dos rapazes;

Antigamente, quando tínhamos poetas preocupados com a história do seu povo, como Deífilo Gurgel, que escreveu o poema Areia Branca, que abaixo se replica;

Naquele tempo vinham os beijus 

e espalhavam na areia vermelha do cais:

carneiros, galinhas, capados,

cajus, tapiocas, cocos verdes,

e a sua fala se arrastava cadenciada

nas calçadas da Rua da Frente.

e não sabia que por trás da Barra

o mundo era tão grande.

Antigamente, dizíamos antigamentépâra para fatos acontecidos há pelo menos dez a vinte anos. Hoje, meu neto de quatro anos falou: Vovô, antigamente eu chamava tomate de bambá. Lembra?

Antigamente; o ontem de hoje. Antiga… mente.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Areia Branca, hoje, é uma bela cidade, a deusa das salinas

IMG_9842          Foto Lucas Fonseca

Em 1981 encontrei Areia Branca debilitada, sem vida, e decidi não mais retornar; eita promessa sem futuro!

Foto AB 1981Rua da Frente com o Botequim em frente à mercearia de seu Isídio, pai de Queca e Mundico

Foto rua da frente c:botequim

Pracinha com coreto no centro, ponto das retretas

Foto Pracinha:prefeituraPracinha sem o coreto

areia Branca antiga 5

Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra novinho em folha

cópia de Arquivo Escaneado 5

Foto G.E. Cons. Brito GuerraGrupo Escolar quando lá estudei

Tirol com cobertura de telha (a data da foto está incorreta – seria 1948?)

cópia de Foto Tirol 1988Tirol com cobertura de concreto, da minha época

Foto Tirol e praçaPorto-ilha em construção

Foto Porto-Ilha:construçãoTudo isso nos cativa e comove.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Os meninos da Rua da Frente, óbvio, moravam de frente para o rio Ivipanim, tendo a visão de Barra e Pernambuquinho como uma grande aquarela pintada na parede do céu à sua frente. Para esses meninos e meninas as opções para suas brincadeiras eram restritas, fosse pelo movimento dos trabalhadores do cais ou das pessoas nas calçadas, no vai e vem das lojas e das bodegas.

Na década de 1950 a Rua da Frente, pela maciça presença de lojas e de armazéns, e do movimento de pessoas e trabalhadores, ocupava lugar de destaque em Areia Branca como uma via de grande movimento. O Tirol e a Rampa serviam de ponto de chegada e partida de pessoas e embarcações, contribuindo para o intenso vai e vem de pessoas e chegada de mercadorias.

Com isso, os meninos da Rua da Frente tinham reduzidas suas opções de lazer e entretenimento, pois sequer uma pelada podia ali ser jogada. Tínhamos, então, que improvisar. E improvisávamos.

Aquela brincadeira antiga de amarrar uma linha em uma carteira de dinheiro, colocar na calçada e puxar quando alguém se abaixava para pegá-la era por nós executada com frequência. Outra brincadeira era colocar um paralelepípedo na calçada, debaixo de um chapéu e ficar de longe aguardando o primeiro que se dispusesse a chutá-lo.

Quando queríamos juntar algum dinheiro para gastar nos brinquedos do parque de diversão, fazíamos suco de fruta (tamarindo ou limão) servido com raspas de gelo para vender nas calçadas da Rua da Frente. Não lembro de onde tirávamos o gelo.

Estendendo a brincadeira para o lado da Rua do Meio, tínhamos as aventuras do Zorro, com espadas e bons safanões. Ali, fizemos muitos quebra-canelas que nos custaram algumas chineladas. Certo dia, percebendo que Popõe vinha, como de costume, empurrando o seu carrinho de doces e balinhas pelo meio da rua, com destino à pracinha, fizemos um grande laço com uma corda, cobrindo-o com terra. Quando Popõe pisou sobre o laço, puxamos a corda e ele foi ao chão. A meninada correu em diversas direções, sob os esconjuros de um indignado e bravo Popõe. Maldade…

Meninos da Rua da Frente. Muitas brincadeiras, apesar das limitações.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

O Tirol era um equipamento comunitário que, desde o início, incorporado à vida dos moradores de Areia Branca, assumiu status de atração. Uma celebridade, se humano fosse. As pessoas chegavam e saíam de barcos e lanchas, tendo o Tirol como ponto refinado para embarque e desembarque. Aqui, com seus trajes de turista – homens vestindo calça de mescla ou brim coringa ou, com um porte garboso, exibindo um terno bem passado. Na cabeça, um elegante chapéu selava uma época em que as pessoas se comportavam com uma elegância e um garbo que hoje nos faltam.

tirol_1950-60

A Praça do Pôr do Sol trazia consigo uma aura de paz que forçava as pessoas a pararem, fosse chegando ou saindo do Tirol. Pequenina, localizava-se em um recanto bucólico, porém com ar de nobreza, e trazia consigo o encantamento que aproximava dois pontos: o ficar e o relaxar.

O manguezal em frente, a visão de Porto Franco à esquerda, o descortino da torre da igrejinha de Barra um pouco à direita e, forçando a visão mais para a direita, a igreja matriz se apresentava inteira à nossa contemplação.

Carl Alb 2013Foto Carlos Alberto

Maquete

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Praça do Pôr do Sol e Tirol. Uma dupla dinâmica riscada do nosso mapa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Para os estudantes: Nesta locução, o pôr é verbo (o sol está se pondo), então devemos escrever Pôr do Sol (com acento).

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