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A instigante crônica de Evaldo, publicada há pouco aqui no blog, https://areiabranca.wordpress.com/2020/05/22/escassas-lembrancas/, certamente que poderá ter desdobramentos interessantes. Aliás, aqui mesmo já foram publicadas crônicas que correspondem ao escopo desse texto que hoje Evaldo publica. É uma boa ideia dar prosseguimento ao texto de Evaldo com foco na sua expressão “escassas memórias”.

Como diria aquele psiquiatra de atrizes globais, cujo nome esqueci, circunscrever-me-ei ao rio Ivapanim. Tenho bem nítidas lembranças na rampa, no tirol e em frente à Salmac.

Na rampa, em dia de maré cheia e quando os barcos com frutas do Ceará chegavam, era uma festa. Uma garotada exibida, menores de 12 anos, ficava nadando e mergulhando em volta dos barcos, atravessando-os por baixo d’água. De vez em quando os marujos jogavam mangas espada para nossa alegria.

No tirol lembro também de nosso exibicionismo. O desafio era pular por cima da lancha Santa Isabel, fazendo de trampolim a plataforma de embarque e mergulhando na maré cheia.

Em frente à Salmac foi onde aprendi a nadar, sozinho, e usando um princípio da física que na época eu só pensava que era invenção minha. Aprendi a nadar cachorrinho. Minha ideia era que se eu impulsionasse a água por baixo do meu corpo eu iria para a frente. Funcionou. Depois eu vi que não precisava desses impulsos por baixo do corpo para nadar.

Tenho outras histórias na maré. Prometo contá-las em outra oportunidade.

 

 

 

Corria o ano de 1958. Em Areia Branca, eu iniciava o Curso Comercial na Escola Técnica de Comércio, que funcionava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. Durante o dia, trabalhava nas Lojas Paulista, de modo informal. Quando viajei para Natal, Chico Brito assumiu  o meu lugar, passando a trabalhar como operador de empacotamento. Eu era auxiliar de empacotador.

Chico Brito, garoto pobre como eu, sonhava ser padre, e iniciava sua carreira na religião atuando como coroinha, ajudando missas do padre Raimundo Osvaldo. O padre celebrava missa em Grossos nos domingos à noite. Os dois viajavam para  Grossos no domingo, depois do almoço, na lancha de Luiz Cirilo, rezavam a missa à noite e retornavam na segunda-feira pela manhã no barco a vela do Lulinha.

Chico Brito estudava no Grupo Escolar e, apesar de seus doze anos, sonhava em se ordenar padre no seminário de Natal. Em 1958 passou uns dias no seminário, conhecendo o lugar onde iria estudar.

Durante as missas, em Grossos, uma garota de quinze anos, que fazia parte do grupo da Cruzada, ficava de olho fixo no inexperiente coroinha, e da primeira fila enviava flechadas de amor com seus olhares de menina moça. Isso mexeu com o coração do ajudante do padre, que logo se viu amarrado pela ação de Cupido.

Certa manhã, a garota apareceu na casa de Chico Brito, e a mãe do garoto ficou o tempo todo cuidando para que os dois não ficassem um minuto sozinhos. E assim foi. À tarde, a garota, sem querer-querendo, perdeu a lancha de Luiz Cirilo que a levaria para Grossos. Resultado: a garota teve que dormir em Areia Branca.

Precavida, a mãe de Chico Brito levou a garota para dormir na casa de alguém da família, distante da sua. Quando a garota foi para o quarto, a amiga tirou a chave da fechadura. A mãe de Chico Brito, por pura precaução, fez o mesmo no quarto do jovem mancebo, providenciando um penico só para ele. Colocou até água no quarto.

No dia seguinte, a moçoila retornou a Grossos, feliz por haver conhecido a família do seu amado. De longe, por trás da Praça do Pôr do Sol, Chico Brito observava a movimentação no Tirol, chupando um poly de goiaba.

Dois dias depois, uma tia da garota apareceu na casa de Chico Brito para acertar com sua mãe a logística dos rituais que antecederiam o casamento. Mas que casamento?– perguntou a mãe do mancebo. E a tia da moça respondeu: O de Chico Brito com Marcinha, porque ela dormiu aqui e não pode ficar mal falada. A mãe de Chico Brito tentava explicar que a menina não havia dormido em sua casa, e coisa e tal, mas a senhora estava decidida a promover a união dos dois. A mulher insistia que sua sobrinha estava apaixonada, e era isso que bastava.

Ao final, a garota foi morar com uns parentes em uma cidade distante. Quanto a Chico Brito,  foi proibido de pôr os pés em Grossos, e foi levado para Natal. Mas o coroinha havia perdido o empolgamento pela vida religiosa, e não se adaptou ao seminário. Ao final, foi levado por um padre amigo para estudar o segundo grau no internato do Colégio  Marista.

Um coroinha apaixonado. Uma moçoila pra frentex, garota papo firme. Do outro lado, uma tia decidida.

Foi o fim da carreira religiosa do futuro padre Chico Brito, que hoje curte seus netos no Rio de Janeiro, onde vez por outra se encontra com o Ricardo Dimas.

De quebra, encontra-se com alguns amigos em Areia Branca, como mostra esta foto de 2016. Aqui, Chico Brito ao lado de Evaldo, Dodora, Sônia, Iara e Chico de Neco Carteiro. Ivo fez a foto.

Chico Brito

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Tirol não é somente uma cidade, mas uma região histórica da parte ocidental da Europa Oriental. Inclui o estado do Tirol, na Áustria, e uma Região Autônoma da Itália (Trentino-Alto Ádige). A porção meridional do Tirol se subdivide em duas províncias autônomas (Bolzano e Trento).

Na Áustria, o Tirol é um dos estados federados, localizado no oeste do país, tendo como capital a cidade de Innsbruck, próximo a Salzburgo, na região dos Alpes Suíços. É em Salzburgo que se encontra enterrado o corpo de Paracelso, médico e  alquimista, nascido no ano de 1493 e assassinado em 1541. Seu nome de batismo era Teophrastus Bombastus Von Hohenhein.Tirol

Esta é, imagino, a origem do nome do nosso Tirol, equipamento comunitário que marcou de forma indelével toda a parte de cima da Rua da Frente. Ao seu lado, o apoio da Praça do Por do Sol para  encantar poetas e pessoas do povo, em todas as épocas, em especial os passageiros que, vestidos de forma elegante,  tinham o prazer de utilizar as lanchas de Luiz Cirilo, fosse embarcando ou aqui chegando de sua viagem entre Grossos e Areia Branca.

Uma parada para contemplar, da pracinha, um dos pores de sol mais bonitos do Brasil, logo à direita, no final do risco traçado pelo manguezal. Ao fundo, o brilho ofuscante das areias multicoloridas de Tibau.

Barcacas tirolsalmac

Com a palavra o nosso pesquisador maior, Gibran Araújo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Quem teve o privilégio quase sonho de contemplar os iates que adentravam o rio Ivipanim, com suas velas tremulando ao vento puro que ainda sopra na esquina do mundo;

Quem se maravilhou com o discreto barulho das barcaças a vela, prenhas de sal, cesariando com carinho a barriga do rio que passa na Rua da Frente, guiadas por um corredor – de um lado, o Tirol e a igreja; do outro, o manguezal no limite do sem fim. Ao fundo, os lugarejos de Barra e Pernambuquinho fingindo nada ver;

Quem, nas procissões de Nossa Senhora dos Navegantes, conseguiu uma vaga em um barco a vela para fazer parte daquela seleta comitiva;

Quem, como eu, acompanhou, do outro lado do sonho, a última viagem de uma  canoa a vela que, em seu retorno, ostentava, metamorfoseada, um feio motor de popa, isento de ternura e sem qualquer resquício de poesia.

foto-barcacas Grupo de canoas

Em 2016, minha última viagem em uma canoa tradicional, com vela triangular, tornada alaranjada pelos respingos da água salobra do rio.

img_9869

Somente quem viveu alguma dessas experiências tem a real dimensão daquela  época de especial encantamento.

Hoje, a expressão velas ao vento desvencilhou-se do amparo normativo em que se embasa. Palavras de auditor.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Antigamente, quando em noites quentes saíamos em grupo para fazer de conta que pescávamos no Tirol, pois o objetivo era se reunir e conversar, sem qualquer interesse com o resultado. O peixe? Que peixe?

Antigamente, quando brincávamos nas calçadas sem sobressaltos, ou quando o medo ainda não havia se estabelecido em nosso ser; quando jogávamos bola no meio da rua sem corrermos o risco de ser atropelados;

Antigamente, quando circulavam apenas dois carros pelas ruas de Areia Branca,  e a Escandalosa era o único meio de viajar em segurança;

Antigamente, quando as crianças em férias escolares brincavam com barquinhos no açude em frente ao Morro do Urubu, com a terrível preocupação do que fazer à tarde: nadar na maré cheia ou soltar pipa na várzea;

Antigamente, quando no Círculo Operário nos esforçávamos para não errar a pergunta da professora, pois a palmatória estava bem ali, de olhos abertos, no aguardo de um vacilo para entrar em cena;

Antigamente, quando dormíamos cedo nas noites da cruviana, quando tudo era incerteza no breu da noite escura, com seus ruídos de fantasma;

Antigamente, quando nas quermesses que antecediam a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes ficávamos nós, meninos, parados na esquina da pracinha, depois da novena, observando as moçoilas circularem desinibidas no sentido contrário ao dos rapazes;

Antigamente, quando tínhamos poetas preocupados com a história do seu povo, como Deífilo Gurgel, que escreveu o poema Areia Branca, que abaixo se replica;

Naquele tempo vinham os beijus 

e espalhavam na areia vermelha do cais:

carneiros, galinhas, capados,

cajus, tapiocas, cocos verdes,

e a sua fala se arrastava cadenciada

nas calçadas da Rua da Frente.

e não sabia que por trás da Barra

o mundo era tão grande.

Antigamente, dizíamos antigamentépâra para fatos acontecidos há pelo menos dez a vinte anos. Hoje, meu neto de quatro anos falou: Vovô, antigamente eu chamava tomate de bambá. Lembra?

Antigamente; o ontem de hoje. Antiga… mente.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

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