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A praça do Tirol foi destruída.

PensaoDonaPrimitiva

A bucólica vista acima, será substituída por um projeto arquitetônico de gosto e funcionalidade duvidosos.

PracaTirolOut2014a

Não sei quantas recordações fluem do imaginário de quem hoje tem mais de 50 anos. Da Escola de Dona Julita, das viagens para Grossos, saindo do Tirol nas lanchas de Luiz Cirilo, conduzidas pelo seu genro Zé Cirilo. Tenho registrado no mais recôndito ponto da minha memória os três dias em que Toinho de Eneas pedalou sem parar em torno da praça. A façanha, contada nessa crônica https://areiabranca.wordpress.com/2010/01/14/horacio-de-chico-lino-e-toinho-de-eneas-ciclistas-de-resistencia/, me veio à mente porque hoje tive a tristeza de ter em mãos a foto acima.

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Esse texto é uma requentada de outro com mesmo título, escrito em 2004. Não lembro se, e onde o publiquei naquele ano, mas em 2008 ele foi publicado aqui (https://areiabranca.wordpress.com/2008/05/02/nos-de-macatuba-eles-de-amarcord-2/). A presente versão foi publicada na terceira edição de O PIRATA – Jornal Cultural da Ilha da Maritacaca, lançado no dia 11 de agosto de 2012 no Centro de Exposições e Eventos de Mossoró – Expocenter, durante a 8ª Feira do Livro de Mossoró.

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos conexões comportamentais entre sociedades sem qualquer conexão geográfica. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord (http://pt.wikipedia.org/wiki/Amarcord). A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel (irmão de Deífilo), assim como Rimini está para Areia Branca. Sempre que encontro Tarcísio Gurgel esqueço de lhe perguntar se Macatuba é Mossoró ou uma mistura de Mossoró com Areia Branca, e quanto de realidade existe nos seus personagens. Embora satisfaça minha curiosidade, esse tipo de informação tem pouca importância para o que escreverei a seguir. Obra de ficção ou relato real sempre toma as cores que o nosso cérebro determina. Tem a obra do autor e a obra do leitor. As duas podem ser, e usualmente são muito diferentes.

É por isso que Amarcord e Macatuba se me apresentam como Areia Branca, pelo menos no universo de alguns de seus marcantes personagens. Aqui, desse lado de cá do equador não temos as estações climáticas tão demarcadas como na terra de Fellini, de modo que jamais teríamos em Macatuba a cena inicial de Amarcord, onde se festeja o fim do inverno e o início da primavera, mas a passagem do transatlântico naquela parte do mar adriático não poderia ser substituída pela chegada do hidroavião no rio Ivipanim? A propósito, as filmagens marítimas exploradas por Fellini são emocionantes. Um dos ângulos do transatlântico é de uma beleza extasiante. Deixaria Toinho do Foto de queixo caído. Alguns ângulos da água me fizeram retroceder aos banhos na maré. A tonalidade e a leve ondulação da água são idênticas!

Agora, o entorno social tem todos os ingredientes comuns às duas cidades. Em Areia Branca também não tínhamos uma diva do amor, que habitava os sonhos de homens de todas as idades, como a Gradisca de Amarcord? E também não tínhamos uma gostosa como Volpina, que todo possuidor de testosterona desejava? E os bobos, sujeitos às não raras perversas gozações dos malvados?

Não tínhamos a presença do fascismo de Mussolini, como os habitantes de Amarcord, mas, pelo menos a geração dos anos 1940 pode testemunhar eventos dolorosos e mostrar cicatrizes da ditadura militar implantada em 1964. Nossas referências nos bancos escolares não tinham ligação com a nossa história sócio-política, mas tínhamos o famoso e festejado rigor disciplinar da professora Geralda Cruz, para citar apenas um ícone da nossa educação.

Amarcord tem um farol, como na praia de Upanema. Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava Casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão. Consta que certa vez entoava-se na procissão “o meu coração é só de Jesus, a minha alegria . . .”. Nesse exato momento alguém gritou “Casca-de-ovo!”. A resposta irada saiu na hora, na sequência e no embalo da música “. . .é o cu da mãe”. Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mente feito nosso Chico Pavão.

Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, no interior de uma garagem. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério. Ali, nos anos 1960, havia campeonatos de esperma à distância. Depois, todo mundo ia alegremente jogar futebol, ainda com testosterona à flor da pele.

Tem uma cena em Amarcord em que vários rapazes simulam danças com suas desejadas. Isso a gente não fazia em Areia Branca, pelo menos não na presença de outros, mas, devo confessar que na solidão do meu quarto dançava embalado pelos braços imaginários da tão sonhada amada, ao som de um desafinadamente balbuciado besame mucho.

Em Amarcord há uma corrida automobilística noturna, uma epopéia no imaginário Felliniano, tal qual poderíamos fazer com a aventura de Toinho de Eneas pedalando, sem parar, 72 horas na praça do Tirol, apenas ingerindo líquidos. Se bem documentado, só aquilo daria um filme. Não tenho registros na memória para auxiliar um eventual Fellini areia-branquense. Lembro apenas da diversão de todos quando nosso resistente ciclista queria, no dizer de antigamente, verter água. Jogava um balde de água verdadeira sobre si para ninguém ver a urina escorrendo por sua perna.

Ao final da corrida, o ganhador é premiado com a presença de Gradisca, que senta ao seu lado para uma volta triunfal. Isso alimenta a imaginação de um gordinho, sempre rejeitado pela bela ninfeta Alpina. No seu sonho ele se vê ganhador da corrida. Pára o carro e grita por Alpina, sentada numa sacada ao lado de um belo jovem. Quando ela responde ao chamado com um meigo sorriso, o gordinho, herói no seu próprio sonho, dá-lhe uma enérgica banana. Vê se isso não é quase a mais coisa de uma história que me contaram como verdadeira, acontecida no Ivipanim Clube dos anos 60? Um rapaz vinha sistematicamente sendo rejeitado por uma bela menina. Mas, tanto insistiu que finalmente ela cedeu e foi dançar com ele. Bem no meio do salão, ele se afastou e disse, em alto e bom som, você peidou!

Amarcord inicia na primavera de um ano e termina na do ano seguinte. Portanto, antes do final seus habitantes passam pelos rigores do inverno. Para as crianças aquilo é uma festa. Quem antes da puberdade não gostaria de jogar bolas de neve nos outros? Um Fellini areiabranquense provavelmente registrasse nossas brincadeiras depois de uma boa chuva. As ruas de terra batida pela água eram propícias para jogos de futebol, de bandeirinha e sobretudo de fura-chão. Era uma festa!

Para além das minhas conexões afetivas, aprecio Amarcord porque é um filme maravilhoso, um dos melhores de Federico Fellini. Assim como também aprecio “Os de Macatuba”, livro de contos de Tarcísio Gurgel, publicado em primeira edição em 1974, e em segunda edição em 1986, pela Clima, porque é uma obra-prima, no sentido objetivo e temporal e no sentido figurado que se dá a uma obra de valor.

Amarcord é uma corruptela da expressão “io me recordo” (eu me lembro), usada na região onde nasceu Fellini. De fato, Amarcord não é o nome do vilarejo italiano onde o filme se passa, mas todo mundo passou a associar o título ao nome do vilarejo fictício e, por extensão, a Rimini, a cidade natal do cineasta. Então, de vez em quando alguém diz: Amarcord é a Rimini de Fellini. O filme se passa no período exato de um ano, entre a primavera de 1940 e a de 1941, início da Segunda Guerra Mundial. Portanto, no período retratado Fellini já tinha 20 anos, não havendo assim correlação temporal entre o relato e sua vida pessoal. Além do mais, ele nega o caráter autobiográfico da obra, mas reconhece semelhanças com a sua própria infância em Rimini. Pronto, não precisei de mais nada para dizer que nas estripulias infantis, a Rimini de Fellini é a nossa Areia Branca. Sem conexão geográfica, nem temporal, apenas ligados por aquilo que Jung costumava definir como inconsciente coletivo e por pequenas coincidências em equipamentos públicos. Aí está o tempero necessário e suficiente para dar o ponto certo na nossa imaginação.

Recentemente escrevi uma crônica sobre a bicicleta de Toinho Calazans. Num dos seus comentários, Evaldo lembrou que Horácio de Chico Lino havia se submetido ao desafio de circular em volta da praça da Igreja até não poder mais. Conseguiu pedalar, sem parar, durante dois dias. Em resposta, Antônio José se lembrou que Toinho de Eneas havia batido esse recorde, pedalando durante três dias.

Eu não lembro da façanha de Horácio, mas presenciei a de Toinho, e se bem me lembro, falava-se que aquele desafio era para bater o recorde anterior. Lembro que todos se divertiam quando Toinho queria, no dizer de antigamente, verter água. Jogava um balde d´água, verdadeira, sobre si. Ninguém via a urina escorrendo por sua perna.

Antônio José nos enviou a foto abaixo, cheia de significado histórico. Ele pensava que o rapaz da foto era filho de Chico Germano, mas Evaldo afirma, peremptoriamente, que é Horácio de Chico Lino.

Creio que agora a história está bem encaminhada. A foto foi feita para premiar o feito (perdão pelo trocadilho). Pena que foto com Toinho de Eneas realizando sua façanha foi rasgada por sua neta, como nos informou Antônio José.

Só nos resta aguardar comentários daqueles que têm mais de meio século de idade e presenciaram ou têm conhecimento desses fatos.

1:Francisca Frutuoso, 2:José Tavernard, 3:Ivani Rolim, 4:João Rodrigues, 5:D. Chiquinha, 6:Cônego Ismar, 7:João de Souza, 8:Toinho de Pixico, 9:Horácio de Chico Lino, 10:João Marques, 11:Dorinha Cirilo, 12:Didinha, 13:Zé Maduro, 14:Toinho Horácio, 15:Antônio da Usina.

Aproveitando a deixa das últimas crônicas, nas quais mencionamos a família Calazans, e Evaldo chamou a atenção para o fato de haver poucas bicicletas em AB, lá pelos idos anos 1950, lembro de uma novidade daquela época: a bicicleta de corrida adquirida por Toinho Calazans, que já era o verdadeiro administrador do Armazém do seu pai. A gente chamava de bicicleta de corrida porque tinha o guidon virado para baixo e as rodas bem fininhas. Eu, que aprendera a andar de bicicleta “roubada” de salineiros, lá do outro lado do rio, meia légua depois da barra, sofri o diabo com aqueles pneus finos da bicicleta de Toinho. Acho que, além do dono, apenas Chico Novo e eu tínhamos o privilégio de andar naquela bicicleta. De vez em quando ele ficava brabo comigo, porque chegava um pouco depois de tempo combinado para a devolução. Não sei que propósitos Chico Novo tinha quando pedia a bicicleta. Da minha parte, não tenho vergonha em declarar: pedia para me exibir na frente das casas das namoradas ou daquelas com quem estava flertando. Coisa boa uma flertada na praça da igreja, heim? Lembro que uma vez, a ciumenta mãe de uma namoradinha nos surpreendeu de mãos dadas, entre o Correio e o Grupo Escolar, esse que foi motivo da recente crônica de Evaldo. A menina ficou alguns dias de castigo. Para irritação da mãe eu passava várias vezes ao dia, chispando na bicicleta de Toinho Calazans. Santa bicicleta!

Sei que ficou nebulosa a história da “bicicleta roubada”. Era assim. Meus avós moravam num sítio, meia légua depois da Barra, para onde íamos nas férias. Na frente do sítio, meu tio tinha um armazém, que fornecia de tudo para os salineiros da região. Eles encostavam suas bicicletas, burros e cavalos, feito aqueles armazéns dos filmes de faroeste, e ficavam um bom tempo comprando seus mantimentos e tomando umas e outras. Nisso, a meninada que estava em férias no sítio aproveitava e “roubava” a bicicleta, e na falta desta, o animal que não desembestasse. Claro, de vez em quando um desprevenido pegava um burro-mulo mais tinhoso e era um Deus-nos-acuda. Geralmente só tinha duas alternativas: agarrar-se no pescoço do bicho até ele parar, ou pular, correndo o risco de quebrar pernas e braços.

Post-Scriptum (desculpe o aparente esnobismo, mas é que gosto tanto dessa expressão em Latim, que raramente escrevo PS) – Dois comentários, um de Evaldo e outro de Antônio José me motivaram a escrever nova crônica com o registro dos desafios de resistência de Horácio de Chico Lino e Toinho de Eneas.

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