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Um cheiro de maresia. Um barulho de um mar revolto tentando em vão afastar as pedras que o impedem de se esparramar na areia, desimpedido.

A noite chega de leve, tomando conta do que antes era luz, cuidando para não se atritar com os vagalumes que chegam mais cedo, pegando carona no vento que ela própria, a noite, desvia do dia. Aqui, uma inusitada transposição.

Ao alcance da mão, duas taças e uma garrafa. Sei bem quem as colocou ali, sem sequer ser vista. E para quê.

No céu, uma confusão de estrelas. As mais brilhantes querem chegar mais tarde, quando o cansaço tomar conta das que brilharam cedo e se desgastaram. No coqueiro em frente à rede, que range no seu vai e vem, um calango com cara de mau tenta amedrontar uma mariposa, que nem se mexe. Apenas olha e prepara as asas; afinal, para que as quer?

Do lado direito, estendendo a visão, um velho farol insiste em avisar aos marujos de todos as latitudes sobre os perigos do mar. E pisca. E acende. Apaga e volta. E eu na rede, que agora balança no tom da provocação, tangida pelas mãos de quem o vinho e as taças ali colocara. Percebo e disfarço. Charminho de quem se imagina amado.

Uma varanda, uma noite enluarada, uma taça de vinho branco, e o som de uma música trazido de longe, com suas estórias marcadas pelo salitre. E eu a ouço. E gosto. Sei que é música brega, que modula ao sabor de não sei quais fatores, mas modula, tentando iludir nossos sentidos agora liberados de seus cuidados, de suas precauções.

Devaneios de uma noite em Upanema.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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Naquela noite, depois da novena, deixei a pracinha às pressas para continuar na incerteza. Hoje, não sei quem de fato era ela.

Naquela festa, na praia de Upanema, quando alguém cantava em homenagem a um amigo – Chico Novo –, ajudei-o a fugir do local, dirigindo uma Vespa, quando tudo conspirava a nosso favor.

Na Rua do Meio, naquela noite que levava a crer que seria inesquecível, quando tudo parecia tudo, fiquei olhando para o chão escuro, em busca de um nada que se mostraria nada.

Entre o temor do futuro e a perplexidade frente a uma partida inesperada, deixei-me ser tomado por esta, e não me abasteci da força e da energia benfazejas dos amigos, mesmo que poucos. Quando, em face da saudade, tentei desfazer essa querela com o passado, senti o peso da dificuldade.

Nesse diapasão, perdi contato com o chão da minha terra, desiludido pela suposição de um caos que nunca veio. Logo, a exigência de uma reviravolta retornaria nos diversos momentos em que a força de cada descoberta exigia o respaldo das comparações com os idos e vividos em minha meninice, e esses momentos foram muitos.

Quase se apagaram da lembrança as expressões do povo, os causos da Rua da Frente, a fauna humana que ali habitava, atiçando minha mente e servindo de mote para as decisões que a vida exigiria de mim, um pós-menino ainda despossuído do choque e da experiência das grandes desilusões. Poucas, reconheço.

Decorridos vinte anos de uma ausência que se desanuviava a cada ano, com a confiança e a fé brotando e se fortalecendo feito plantinhas em um solo há pouco ressequido, eu, asa branca, percebia a necessidade de um retorno, e isto ganhava corpo em meus projetos de vida.

No início da década de 1980, enfim, retornei. Uma decepção. Uma cidade em mau estado de conservação. Em seguida, a volta por cima. Uma cidade que se renova a cada dia.

A fênix ressurgia.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Dona Joana – acho que era esse o seu nome – morava em Upanema. Nunca falou sobre seu marido. Ela tinha um filho adolescente forte e disposto. Em um dia da semana eles chegavam à nossa casa trazendo roupa lavada e passada, tomavam café, conversavam, ajudavam em algum serviço da casa e retornavam para Upanema levando uma trouxa de roupa para lavar e passar. Era assim toda semana. E havia outros clientes.

Mas dona Joana adoecera e tínhamos que apanhar a roupa em sua casa. Mamãe destacou dois dos nove filhos para essa tarefa. E foi junto. Que eu me lembre, pelos idos da década de 1950 só existiam dois carros em Areia Branca. Um era o de Valquírio, foco de curiosidade de toda criança e de inveja de dez entre dez adultos. Logo, fomos a pé. Saímos cedinho, com o sol nascendo, como se fôssemos para a missa de Bagaé. E lá fomos nós.

Chegando a Upanema, e já demonstrando sinais de cansaço, o mais difícil foi encontrar o caminho da casa de dona Joana, perdida por trás de pequenas dunas, cacimbas – de onde era retirada a água utilizada em Areia Branca -, plantas de vários tipos e, no pequeno quintal, coqueiros prenhes de flores e frutos. Uma aventura.

Por fim, chegamos. Era uma casinha simples, com vasos de plantas na frente, e pintada de branco. Provamos o gostoso café da lavadeira e descobrimos o por que do seu nível de exigência neste quesito. Da frente da casa dava para ouvir o ronco distante do mar. Voltamos, agora com a trouxa de roupa limpa e passada.

Hoje fico a imaginar as dificuldades que essas famílias enfrentavam para garantir o sustento de seus filhos.

Uma trouxa de roupa, um caminho ora de pequenas dunas ora poeirento; o retorno na mesma pisada.

As dificuldades de se viver. A honradez de uma família humilde.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Esse texto é uma requentada de outro com mesmo título, escrito em 2004. Não lembro se, e onde o publiquei naquele ano, mas em 2008 ele foi publicado aqui (https://areiabranca.wordpress.com/2008/05/02/nos-de-macatuba-eles-de-amarcord-2/). A presente versão foi publicada na terceira edição de O PIRATA – Jornal Cultural da Ilha da Maritacaca, lançado no dia 11 de agosto de 2012 no Centro de Exposições e Eventos de Mossoró – Expocenter, durante a 8ª Feira do Livro de Mossoró.

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos conexões comportamentais entre sociedades sem qualquer conexão geográfica. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord (http://pt.wikipedia.org/wiki/Amarcord). A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel (irmão de Deífilo), assim como Rimini está para Areia Branca. Sempre que encontro Tarcísio Gurgel esqueço de lhe perguntar se Macatuba é Mossoró ou uma mistura de Mossoró com Areia Branca, e quanto de realidade existe nos seus personagens. Embora satisfaça minha curiosidade, esse tipo de informação tem pouca importância para o que escreverei a seguir. Obra de ficção ou relato real sempre toma as cores que o nosso cérebro determina. Tem a obra do autor e a obra do leitor. As duas podem ser, e usualmente são muito diferentes.

É por isso que Amarcord e Macatuba se me apresentam como Areia Branca, pelo menos no universo de alguns de seus marcantes personagens. Aqui, desse lado de cá do equador não temos as estações climáticas tão demarcadas como na terra de Fellini, de modo que jamais teríamos em Macatuba a cena inicial de Amarcord, onde se festeja o fim do inverno e o início da primavera, mas a passagem do transatlântico naquela parte do mar adriático não poderia ser substituída pela chegada do hidroavião no rio Ivipanim? A propósito, as filmagens marítimas exploradas por Fellini são emocionantes. Um dos ângulos do transatlântico é de uma beleza extasiante. Deixaria Toinho do Foto de queixo caído. Alguns ângulos da água me fizeram retroceder aos banhos na maré. A tonalidade e a leve ondulação da água são idênticas!

Agora, o entorno social tem todos os ingredientes comuns às duas cidades. Em Areia Branca também não tínhamos uma diva do amor, que habitava os sonhos de homens de todas as idades, como a Gradisca de Amarcord? E também não tínhamos uma gostosa como Volpina, que todo possuidor de testosterona desejava? E os bobos, sujeitos às não raras perversas gozações dos malvados?

Não tínhamos a presença do fascismo de Mussolini, como os habitantes de Amarcord, mas, pelo menos a geração dos anos 1940 pode testemunhar eventos dolorosos e mostrar cicatrizes da ditadura militar implantada em 1964. Nossas referências nos bancos escolares não tinham ligação com a nossa história sócio-política, mas tínhamos o famoso e festejado rigor disciplinar da professora Geralda Cruz, para citar apenas um ícone da nossa educação.

Amarcord tem um farol, como na praia de Upanema. Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava Casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão. Consta que certa vez entoava-se na procissão “o meu coração é só de Jesus, a minha alegria . . .”. Nesse exato momento alguém gritou “Casca-de-ovo!”. A resposta irada saiu na hora, na sequência e no embalo da música “. . .é o cu da mãe”. Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mente feito nosso Chico Pavão.

Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, no interior de uma garagem. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério. Ali, nos anos 1960, havia campeonatos de esperma à distância. Depois, todo mundo ia alegremente jogar futebol, ainda com testosterona à flor da pele.

Tem uma cena em Amarcord em que vários rapazes simulam danças com suas desejadas. Isso a gente não fazia em Areia Branca, pelo menos não na presença de outros, mas, devo confessar que na solidão do meu quarto dançava embalado pelos braços imaginários da tão sonhada amada, ao som de um desafinadamente balbuciado besame mucho.

Em Amarcord há uma corrida automobilística noturna, uma epopéia no imaginário Felliniano, tal qual poderíamos fazer com a aventura de Toinho de Eneas pedalando, sem parar, 72 horas na praça do Tirol, apenas ingerindo líquidos. Se bem documentado, só aquilo daria um filme. Não tenho registros na memória para auxiliar um eventual Fellini areia-branquense. Lembro apenas da diversão de todos quando nosso resistente ciclista queria, no dizer de antigamente, verter água. Jogava um balde de água verdadeira sobre si para ninguém ver a urina escorrendo por sua perna.

Ao final da corrida, o ganhador é premiado com a presença de Gradisca, que senta ao seu lado para uma volta triunfal. Isso alimenta a imaginação de um gordinho, sempre rejeitado pela bela ninfeta Alpina. No seu sonho ele se vê ganhador da corrida. Pára o carro e grita por Alpina, sentada numa sacada ao lado de um belo jovem. Quando ela responde ao chamado com um meigo sorriso, o gordinho, herói no seu próprio sonho, dá-lhe uma enérgica banana. Vê se isso não é quase a mais coisa de uma história que me contaram como verdadeira, acontecida no Ivipanim Clube dos anos 60? Um rapaz vinha sistematicamente sendo rejeitado por uma bela menina. Mas, tanto insistiu que finalmente ela cedeu e foi dançar com ele. Bem no meio do salão, ele se afastou e disse, em alto e bom som, você peidou!

Amarcord inicia na primavera de um ano e termina na do ano seguinte. Portanto, antes do final seus habitantes passam pelos rigores do inverno. Para as crianças aquilo é uma festa. Quem antes da puberdade não gostaria de jogar bolas de neve nos outros? Um Fellini areiabranquense provavelmente registrasse nossas brincadeiras depois de uma boa chuva. As ruas de terra batida pela água eram propícias para jogos de futebol, de bandeirinha e sobretudo de fura-chão. Era uma festa!

Para além das minhas conexões afetivas, aprecio Amarcord porque é um filme maravilhoso, um dos melhores de Federico Fellini. Assim como também aprecio “Os de Macatuba”, livro de contos de Tarcísio Gurgel, publicado em primeira edição em 1974, e em segunda edição em 1986, pela Clima, porque é uma obra-prima, no sentido objetivo e temporal e no sentido figurado que se dá a uma obra de valor.

Amarcord é uma corruptela da expressão “io me recordo” (eu me lembro), usada na região onde nasceu Fellini. De fato, Amarcord não é o nome do vilarejo italiano onde o filme se passa, mas todo mundo passou a associar o título ao nome do vilarejo fictício e, por extensão, a Rimini, a cidade natal do cineasta. Então, de vez em quando alguém diz: Amarcord é a Rimini de Fellini. O filme se passa no período exato de um ano, entre a primavera de 1940 e a de 1941, início da Segunda Guerra Mundial. Portanto, no período retratado Fellini já tinha 20 anos, não havendo assim correlação temporal entre o relato e sua vida pessoal. Além do mais, ele nega o caráter autobiográfico da obra, mas reconhece semelhanças com a sua própria infância em Rimini. Pronto, não precisei de mais nada para dizer que nas estripulias infantis, a Rimini de Fellini é a nossa Areia Branca. Sem conexão geográfica, nem temporal, apenas ligados por aquilo que Jung costumava definir como inconsciente coletivo e por pequenas coincidências em equipamentos públicos. Aí está o tempero necessário e suficiente para dar o ponto certo na nossa imaginação.

Texto de Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro)

Era assim que, em tempos idos, a gente chamava aquele beco que dava acesso à praia de Upanema. E, para se chegar até lá, somente em jipe de tração nas quatro rodas, como o de seu Alfredo Rebouças, gerente da Cia. Comércio e Navegação. Salvo engano, o único de então na cidade.

A não ser assim, o negócio era enfrentar aqueles mil e duzentos metros a pé. Além de ter que romper um areal frouxo, o transeunte se deparava com uns carrapichos pretos, ditos cabeças-de-boi, que lhe infernizavam a sola dos pés. Como sofreram os jovens da Cruzada Eucarística quando faziam seus piqueniques ali.

Na época do veraneio, algumas famílias, de certo prestígio, arranjavam o caminhão da prefeitura, que as conduzia até onde iniciava o areal; a pé, os veranistas levavam alguns utensílios e mantimentos, enfrentando certa dificuldade, mas valia pelo lazer que os aguardava. De número reduzido, as casas eram de taipa, chão de barro, cobertas com palhas de coqueiro.

Foi no ano de 1953 que o prefeito Manoel Avelino deu início à construção de uma estrada para beneficiar aquele caminho. Talvez pela falta de recursos financeiros, ou por não existir material próprio, foi utilizado o lixo coletado na cidade que era colocado ao longo do beco. Uma grande peste de mosca tomou conta do local, incomodando alguns moradores nas imediações. Jerônimo Rolim, cuja casa era situada bem à beira da passagem, foi dos que mais sofreram.

Para amenizar o problema o prefeito mandou que, logo após despejar o lixo, fosse jogada areia sobre ele.

Até que, com muito custo, conseguiu terminar a obra. Convém salientar que todo o serviço foi realizado com um caminhão, pás e picaretas, de vez que não se dispunha de trator ou qualquer outro mecanismo, a não ser o braço humano.

Concluída a empreitada, se não de primeira qualidade, mas de muita serventia ao povo areia-branquense. Logo apareceram coletivos, como a “Escandalosa” de Luiz Cirilo, o “Pau de Arara”, de Antonio Bernardo, fazendo a linha até a Casa do Farol, local da chegada. A meninada agora  tinha mais um lazer além do gostoso banho na maré.

Se na ótica do ex-presidente da República Washington Luiz, “governar é construir estradas”, Manoel Avelino, com a construção daquele quilômetro e duzentos metros de estrada, facilitou chegar-se à praia mais perto de Areia Branca. Sem dúvida, um sonhado benefício pelo seu povo.

Hoje, o antigo e penoso percurso de um quinto de légua, transformou-se numa pista asfaltada, graças à ação de sucessivos prefeitos. Muitos dos que se deleitam, trafegando por ela nos seus veículos confortáveis, não sabem como sofreram os jovens da Cruzada Eucarística, tendo que enfrentar os espinhentos “cabeça de boi”, para chegarem ao agradável recanto do Atlântico.

outubro 2017
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