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Criança que há em mim, faze os barulhos que encantaram meus dias de pequeno ser, para que eu não esqueça dos caminhos que aqui me trouxeram! Canta as músicas da minha infância, reinventa os ruídos das ruas da minha meninice. Sabe os xingamentos de Marciana? Vê se os repete. Recria os barulhos do rio Ivipanim, com seus barcos a vela a romper os silêncios das noites sob o sutil domínio da cruviana. Lembra do barulho das talhadeiras dos calafates abarrotando de sons a Rua da Frente? Mesmo que por um momento, faze retornarem as lembranças das noites de serração, com suas troadas aterradoras!

Lembra do ribombar dos trovões ao chicoteio dos relâmpagos, pros lados de Pedrinhas e Casqueira? Aqui no planalto central, ouvi o grito rouco de um tucano no alto de uma palmeira empertigada, sob os olhares cintilantes dos saguis, em uma manhã de domingo, provocando inveja em duas pitangueiras espraiadas, em sua prenhez de  flores, e em cujos troncos passeiam calangos desajeitados, trazendo à lembrança pequeninos dinossauros que se esgueiravam nos coqueiros de Upanema, deixando marcas nas dunas. Lá, como aqui, um jurassic world em miniatura. Ruídos benfazejos, os dois.

Criança que há em mim, lembra da gritaria da meninada empinando pipas nas várzeas, com o vento levantando nuvens de areia nos descampados do mês de julho? Relembro algo que já escrevi neste blog, somente para ti, menino que há em mim: Vento, quando fores brincar com as pipas dos meninos, seja nas várzeas poeirentas, nas ruas sem calçamento ou no Morro do Urubu, me leva contigo. Assim, sentirei o gosto da liberdade plena.

 Por fim, lembra da barulheira que havia na barraca de Zacarias, nossa Las Vegas na dimensão nano? Aqui, todas as formas de ruídos, vozearia, gritaria, alarido, algazarra, barafunda. Lembra da gritaria dos meninos da Rua da Frente, nadando em torno dos barcos dos beijus, pedindo para que eles atirassem mangas no rio?

Mas o ruído também se exaure. O silêncio nos observa de longe, e logo acampará em nós. Hora para reflexões. Que venham a calmaria, a quietude, a tranquilidade, o remanso, o sossego, a tranquilidade.

É assim que a vida pulsa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Chegamos a Areia Branca no final da tarde do dia 18 de maio de 2019. Depois de alguns dias de viagem, o desejo de caminhar pela beira da praia de Upanema. À nossa disposição, uma maré cheia se exibia inteira, parecendo esperar nossa visita.

À noite, por ser uma quinta-feira quase sem hóspedes, obtivemos a liberação de um passaporte para uma seresta improvisada na beira da piscina do Hotel Costa Atlântico, sem qualquer compromisso com os limites.

Seresta 1

Encomendamos uma panela de sopa feita na hora, abrimos nosso vinho trazido de Natal – e ainda no gelo – e a noite foi nada mais que uma criança, inocente e pura como nós.

Na beira da piscina, sob os eflúvios de um vinho tinto do Alentejo, Assis Câmara e Ivo promoveram um desfile de músicas dos bons tempos, acompanhadas pelo som de um plangente violão. Ao fundo, onde mora a escuridão, uma lua prenha de luz observava três setentões meio desafinados tentando replicar coisas do passado.

Seresta 2

Upanema. Encerramento da nossa romaria/2019 em grande estilo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Um cheiro de maresia. Um barulho de um mar revolto tentando em vão afastar as pedras que o impedem de se esparramar na areia, desimpedido.

A noite chega de leve, tomando conta do que antes era luz, cuidando para não se atritar com os vagalumes que chegam mais cedo, pegando carona no vento que ela própria, a noite, desvia do dia. Aqui, uma inusitada transposição.

Ao alcance da mão, duas taças e uma garrafa. Sei bem quem as colocou ali, sem sequer ser vista. E para quê.

No céu, uma confusão de estrelas. As mais brilhantes querem chegar mais tarde, quando o cansaço tomar conta das que brilharam cedo e se desgastaram. No coqueiro em frente à rede, que range no seu vai e vem, um calango com cara de mau tenta amedrontar uma mariposa, que nem se mexe. Apenas olha e prepara as asas; afinal, para que as quer?

Do lado direito, estendendo a visão, um velho farol insiste em avisar aos marujos de todos as latitudes sobre os perigos do mar. E pisca. E acende. Apaga e volta. E eu na rede, que agora balança no tom da provocação, tangida pelas mãos de quem o vinho e as taças ali colocara. Percebo e disfarço. Charminho de quem se imagina amado.

Uma varanda, uma noite enluarada, uma taça de vinho branco, e o som de uma música trazido de longe, com suas estórias marcadas pelo salitre. E eu a ouço. E gosto. Sei que é música brega, que modula ao sabor de não sei quais fatores, mas modula, tentando iludir nossos sentidos agora liberados de seus cuidados, de suas precauções.

Devaneios de uma noite em Upanema.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Naquela noite, depois da novena, deixei a pracinha às pressas para continuar na incerteza. Hoje, não sei quem de fato era ela.

Naquela festa, na praia de Upanema, quando alguém cantava em homenagem a um amigo – Chico Novo –, ajudei-o a fugir do local, dirigindo uma Vespa, quando tudo conspirava a nosso favor.

Na Rua do Meio, naquela noite que levava a crer que seria inesquecível, quando tudo parecia tudo, fiquei olhando para o chão escuro, em busca de um nada que se mostraria nada.

Entre o temor do futuro e a perplexidade frente a uma partida inesperada, deixei-me ser tomado por esta, e não me abasteci da força e da energia benfazejas dos amigos, mesmo que poucos. Quando, em face da saudade, tentei desfazer essa querela com o passado, senti o peso da dificuldade.

Nesse diapasão, perdi contato com o chão da minha terra, desiludido pela suposição de um caos que nunca veio. Logo, a exigência de uma reviravolta retornaria nos diversos momentos em que a força de cada descoberta exigia o respaldo das comparações com os idos e vividos em minha meninice, e esses momentos foram muitos.

Quase se apagaram da lembrança as expressões do povo, os causos da Rua da Frente, a fauna humana que ali habitava, atiçando minha mente e servindo de mote para as decisões que a vida exigiria de mim, um pós-menino ainda despossuído do choque e da experiência das grandes desilusões. Poucas, reconheço.

Decorridos vinte anos de uma ausência que se desanuviava a cada ano, com a confiança e a fé brotando e se fortalecendo feito plantinhas em um solo há pouco ressequido, eu, asa branca, percebia a necessidade de um retorno, e isto ganhava corpo em meus projetos de vida.

No início da década de 1980, enfim, retornei. Uma decepção. Uma cidade em mau estado de conservação. Em seguida, a volta por cima. Uma cidade que se renova a cada dia.

A fênix ressurgia.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Dona Joana – acho que era esse o seu nome – morava em Upanema. Nunca falou sobre seu marido. Ela tinha um filho adolescente forte e disposto. Em um dia da semana eles chegavam à nossa casa trazendo roupa lavada e passada, tomavam café, conversavam, ajudavam em algum serviço da casa e retornavam para Upanema levando uma trouxa de roupa para lavar e passar. Era assim toda semana. E havia outros clientes.

Mas dona Joana adoecera e tínhamos que apanhar a roupa em sua casa. Mamãe destacou dois dos nove filhos para essa tarefa. E foi junto. Que eu me lembre, pelos idos da década de 1950 só existiam dois carros em Areia Branca. Um era o de Valquírio, foco de curiosidade de toda criança e de inveja de dez entre dez adultos. Logo, fomos a pé. Saímos cedinho, com o sol nascendo, como se fôssemos para a missa de Bagaé. E lá fomos nós.

Chegando a Upanema, e já demonstrando sinais de cansaço, o mais difícil foi encontrar o caminho da casa de dona Joana, perdida por trás de pequenas dunas, cacimbas – de onde era retirada a água utilizada em Areia Branca -, plantas de vários tipos e, no pequeno quintal, coqueiros prenhes de flores e frutos. Uma aventura.

Por fim, chegamos. Era uma casinha simples, com vasos de plantas na frente, e pintada de branco. Provamos o gostoso café da lavadeira e descobrimos o por que do seu nível de exigência neste quesito. Da frente da casa dava para ouvir o ronco distante do mar. Voltamos, agora com a trouxa de roupa limpa e passada.

Hoje fico a imaginar as dificuldades que essas famílias enfrentavam para garantir o sustento de seus filhos.

Uma trouxa de roupa, um caminho ora de pequenas dunas ora poeirento; o retorno na mesma pisada.

As dificuldades de se viver. A honradez de uma família humilde.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

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